Free Shoutcast HostingRadio Stream Hosting

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Vida e Morte de Meu Pai, Rudolf Hess

Quando meu pai voou para a Escócia em 10 de maio, 1941, eu tinha três anos e meio. Como resultado, eu tive apenas muito poucas memórias pessoais dele em liberdade. Uma delas é uma memória dele me puxando da lagoa no jardim. Em outra ocasião. Quando eu estava gritando porque um morcego entrou de alguma forma na casa, eu ainda posso relembrar sua voz reconfortante enquanto ele carregava-o para a janela e o libertava na noite.
Nos anos que se seguiram, eu aprendi quem meu pai foi, e sobre seu papel na história, apenas pouco a pouco. Lentamente, eu vim a entender o martírio que ele suportou como um prisioneiro na Prisão Militar Aliada em Berlim-Spandau, por 40 longos anos – metade de uma vida.
Crescendo no Egito e Alemanha
Meu pai nasceu em Alexandria, Egito, em 26 de abril, 1894, o primeiro filho de Fritz Hess, um respeitado e próspero comerciante. A família Hess personificava a prosperidade, posição e segurança no Reich Alemão do período. Eles também personificavam todas aquelas coisas que despertavam inveja, medo e um espírito combativo sobre a parte da Grã-Bretanha e outros grandes poderes.
Fritz Hess possuía uma imponente casa com um lindo jardim na costa mediterrânea. Sua família, que veio de Wunsiedel, na região da Alemanha de Fichtelgebirge, possuía outra casa em Reicholdsgrün, na Bavária, onde eles regularmente passavam seus feriados de verão. A origem dessa riqueza era uma firma de comércio, Hess & Co., que Fritz Hess tinha herdado de seu pai, e que ele gerenciou com considerável sucesso.
Seu filho mais velho, Rudolf, era um pupilo na Escola Protestante Alemã em Alexandria. Seu futuro parecia estar determinado por ambos, a tradição da família e a mão forte de seu pai: ele herdaria a propriedade e a firma, e seria, conseqüentemente, um mercador. O jovem Rudolf, entretanto, não estava muito inclinado sobre este tipo de vida.
Em vez disso, ele sentiu-se atraído pelas ciências, sobre tudo física e matemática. Suas habilidades nessas áreas se tornaram óbvias como um estudante no Instituto Educacional Bad Godesberg, um internato para meninos na Alemanha que ele cursou entre 15 de setembro, 1908 e a Páscoa em 1911. Apesar disto, seu pai insistiu que ele completasse sua educação na escola secundária, passando em um exame que permitira a ele entrar na École Supérieur de Commerce at Neuchâtel, na Suíça, após o que ele se tornaria um aprendiz em uma companhia exportadora em Hamburgo.
Serviço em Combate na Linha de Frente
Esses planos bem elaborados estavam para mudar logo. O começo da Primeira Guerra Mundial em 1914 pegou a família em sua casa de férias na Bavária. Rudolf Hess, então com 20 anos de idade, não hesitou por um momento antes de se apresentar como um voluntário no Campo de Artilharia Bávaro. Pouco tempo depois, ele foi transferido para a infantaria, e em 4 de novembro, 1914, ele estava servindo como recruta mal treinado na frente, onde ele tomou parte na guerra de trincheira na primeira batalha do Somme.
Junto com a maioria dos jovens alemães daquele tempo, Rudolf Hess foi para a frente como um patriota fervoroso, agudamente consciente da causa da Alemanha, que ele considerava como inteiramente justa, e determinado a derrotar o arqui-inimigo franco-inglês. Após seis meses de serviço na linha de frente, meu pai foi promovido a Lance Corporal [N.T.: Equivalente a Taifeiro de 1ª Classe no Brasil]. Para seus homens, ele era um camarada exemplar, sempre o primeiro a se voluntariar para patrulhas de reconhecimento e assalto. Em batalhas sangrentas entre arame farpado, trincheiras e crateras de bombas, ele se distinguia por sua bravura, coragem e compostura alegre.
Em 1917, ele tinha sido promovido ao posto de tenente. Mas ele também pagou o preço deste avanço na “carreira”: Ele foi ferido gravemente em 1916, e de novo em 1917, quando uma bala de rifle perfurou seu pulmão esquerdo.
Uma Paz Vingativa e Humilhante
Marcado pelas dificuldades e feridas do dever na linha de frente, em 12 de dezembro, 1918 – isto é, após o humilhante armistício de Compiègne – Rudolf Hess foi “dispensado do serviço militar ativo para Reicholdsgrün sem subsídio,” como o registro oficial do exército muito mal o coloca. Ou seja, sem pagamento, pensão ou pensão por invalidez.
Já durante a guerra, a família tinha perdido suas consideráveis propriedades no Egito, como um resultado da expropriação britânica. Agora, a derrota do Império Alemão na Primeira Guerra Mundial trouxe mudanças dolorosas, mesmo catastróficas, na vida da família Hess.
Para Rudolf Hess, porém, o cruel destino sofrido por sua terra natal na derrota e revolução pesavam ainda mais do que este infortúnio pessoal. Apesar do armistício militar, os poderes vitoriosos mantinham um bloqueio de fome contra a Alemanha, até a imposição do Tratado de Versalhes em junho de 1919. O Tratado, ele próprio, era pouco mais do que uma vingativa “paz de aniquilação”, ditada pelos poderes vitoriosos e aceita pela Assembléia Nacional Alemã somente sob ameaça de força e protesto.
Em 12 de maio, 1919, em um discurso comovente, que desde então se tornou famoso, o Chanceler do Reich, Philipp Scheidemann, um social-democrata, declarou:
… Permitam-me falar inteiramente sem considerações táticas. Com o que nossas discussões estão preocupadas, este livro grosso em que uma centena de parágrafos começa com “Alemanha renuncia, renuncia”, este martelo do mal mais atroz e assassino pelo qual um grande povo é extorquido e chantageado em reconhecer sua própria indignidade, aceitar seu desmembramento impiedoso, consentir a escravidão e submissão, este livro não deve se tornar o livro estatuto do futuro… Eu peço a vocês: Quem, como um homem honesto – eu nem mesmo direi como um alemão, somente como um homem honesto e leal aos termos do tratado – pode se submeter a tais condições? Que mão, que submete a si própria e a nós, a tais grilhões, não murcharia? Mais ainda, nós devemos no esforçar, nós devemos trabalhar duro, trabalhar como escravos para o capitalismo internacional, trabalho não-remunerado para o mundo inteiro!
… Se este tratado for realmente assinado, não será apenas o cadáver da Alemanha que permanecerá sobre o campo de batalha de Versalhes. Ao lado dele estarão, igualmente, cadáveres nobres: o direito de auto-determinação dos povos, a independência de nações livres, crença em todos os bons ideais sob os quais as bandeiras aliadas clamavam lutar, e, acima de tudo, crença na lealdade dos termos de um tratado.
As palavras de Scheidemann deixam poucas dúvidas de que como resultado do “vae victis” dos governos dos poderes Aliados e Associados, a própria existência da Alemanha como uma nação unificada e próspera era trazida em questão. Como homens de visão ampla da época corretamente observaram, a Constituição da “República de Weimar” (1919-1933) foi, em um senso real, não aquela que o parlamento alemão formalmente adotou em 11 de agosto de 1919. Ao contrário, ela foi imposta pelo ditado do Tratado de Versalhes, em 28 de junho de 1919. Como um resultado do Tratado, cada um dos numerosos governos da “República de Weimar” era inevitavelmente defrontado com o mesmo insuperável problema. Cada administração era obrigada a cumprir as inúmeras condições opressivas e devastadoras do Tratado, e assim, atuar como um “agente” dos poderes vitoriosos. Cada novo governo então, inevitavelmente, desacreditava a si próprio nos olhos do povo que ele representava, e portanto, cometiam uma espécie de suicídio político.
Encontro Com Hitler
Um líder político, porém, desafiadoramente prometeu, desde o início, a nunca permitir a si próprio ou seu partido ser chantageado. Este homem era Adolf Hitler, e seu partido era o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Como muitos de seus concidadãos, meu pai ficou estarrecido e profundamente chocado pelas condições que tinham se desenvolvido na Alemanha, e ele resolveu lutar contra o “Diktat” de Versalhes. O catastrófico estado de coisas que ele encontrou em Munique após seu retorno da frente desafiou sua habilidade de descrevê-los. Como a maioria de seus camaradas, Hess foi arrastado para a guerra em 1914 para lutar por uma Alemanha livre, forte e orgulhosa. Agora, em 1919, o homem de 26 anos tinha que testemunhar o estabelecimento de uma “República Soviética” na Bavária, encabeçada por comunistas e judeus. Em seus olhos, a derrota militar abriu o caminho para a catástrofe nacional.
Em uma carta escrita para uma prima, algum tempo depois, ele descreveu graficamente seus sentimentos na época:
Você sabe como eu sofro sob a situação a qual nossa, uma vez orgulhosa, nação foi trazida. Eu lutei pela honra de nossa bandeira onde um homem de minha idade, é claro, tinha de lutar, onde condições estavam em seu pior, na sujeira e lama, no inferno de Verdun, Artois e em outros lugares. Eu testemunhei o horror da morte em todas as suas formas, sendo esmagado por dias sob bombardeamento pesado, dormia em uma canoa na qual jazia metade do corpo de um francês morto. Eu passei fome e sofri, como, de certo, todos os soldados da linha de frente. E tudo isso em vão, o sofrimento do bom povo em casa, tudo por nada? Eu aprendi com você, pelo que as mulheres tiveram que passar! Não, se tudo isso foi em vão, eu lamentaria ainda hoje que eu não coloquei uma bala através de meu cérebro no dia que as monstruosas condições do armistício e sua aceitação foram publicadas. Eu só não fiz isso na época, apenas na esperança que, de uma forma ou de outra eu ainda pudesse ser capaz de fazer alguma coisa para reverter o destino.
Dali em diante, ele foi consumido pela convicção de que ele poderia “reverter o destino”, e pela determinação de atuar nesta convicção. Durante o inverno de 1918-19, em uma humilhada Alemanha, sacudida pelos distúrbios comunistas, atormentada ad hoc por governos de “trabalhadores e soldados soviéticos”, ele ainda reconhecia – apesar de seu desânimo – a possibilidade de renovação para o povo por quem ele já esteve pronto para dar sua vida.
Agora, determinado a lutar contra os esforços óbvios para subjugar a Alemanha, seus sentimentos de desespero se tornaram em raiva motivadora e indignação inflamada.
Como resultado, ele foi quase que inevitavelmente arrastado para a única força política que, como ele tinha corretamente sentido desde o início, estava em uma posição de quebrar os grilhões impostos sobre o povo alemão em Versalhes. Como milhões de outros alemães, ele seguiu o líder deste movimento – mas ele o fez mais cedo e com maior dedicação do que muitos outros. Junto com seus concidadãos, ele estava convencido da justiça da causa pela qual ele lutou – restauração dos direitos nacionais da Alemanha e pela quebra das correntes de Versalhes.
O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães foi fundado em Munique em janeiro de 1919. Hitler ingressou alguns poucos meses mais tarde e rapidamente se tornou seu mais proeminente orador. Foi em algum dia em maio de 1920, em uma reunião à noite deste pequeno grupo em uma sala adjacente na cervejaria Sternecker em Munique, quando Hess ouviu Hitler falar pela primeira vez. Quando ele retornou para casa naquela noite, para a pequena casa de hóspede onde ele estava vivendo, ele entusiasticamente contou à garota que morava no quarto ao lado, Ilse Pröh – com quem ele se casaria mais tarde:
Depois de amanhã você deve ir comigo a uma reunião do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Alguém desconhecido estará falando; Eu não consigo lembrar seu nome. Mas se alguém pode nos livrar de Versalhes, ele é o homem. Este homem desconhecido restaurará nossa honra.
Meu pai se tornou o membro número dezesseis do grupo em 1 de julho de 1920. Daquele tempo em diante, ele foi lenta, mas firmemente atraído para seu líder. Havia muitas razões para seu entusiasmo por Hitler. Primeiro, havia razões de ordem prática, que Hess formulou nessas palavras em uma carta escrita em 1921:
O núcleo da questão é que Hitler está convencido de que a ressurreição [nacional] é possível somente se nós pudermos suceder em liderar a grande massa do povo, em particular os trabalhadores, de volta à consciência nacional. Mas isto é possível somente no contexto de um socialismo honesto, razoável.
Segundo, Hess tinha uma razão pessoal, que era a eloqüência de Hitler. Em uma carta escrita para um amigo em 1924, meu pai descreveu o efeito deste dom:
Você não encontrará mais do que uma vez um homem que em uma reunião de massa, possa arrebatar tanto o torneiro-mecânico mais esquerdista, quanto o executivo sênior direitista. Este homem, dentro de duas horas, fez a centena de comunistas que tinham vindo para dispersar [a reunião], parar e se juntar no hino nacional [como em Munique em 1921], e este homem, dentro de três horas, em um discurso especial para algumas centenas de industriais e o Ministro Presidente [ou governador provincial], que tinham vindo mais ou menos para se opor à ele, garantiram seu apoio total ou espanto atônito.
Rudolf Hess estava convencido que Hitler não falharia em quebrar as correntes de Versalhes e então levar adiante uma mudança de direção política que prometia um futuro melhor.
Nos anos antes dele ganhar apoio em larga escala dos eleitores, o partido Nacional-Socialista era um pequeno fenômeno bávaro, e o lugar de Hitler na política nacional era insignificante. Nem mesmo a habilidade reconhecida de Hitler como um orador foi primeiramente capaz de mudar isso. Durante o período de 1924 até 1929, quando condições normais pareciam retornar na Alemanha, apesar de Versalhes, Hitler não era bem conhecido. A única exceção foi em 1923, quando ele ganhou breve notoriedade por seu papel na “Marcha sobre a Feldherrnhalle”, em 9 de novembro em Munique, e a malfadada tentativa de derrubar o governo lá. No curso deste fracassado putsch, meu pai prendeu três ministros do estado do governo bávaro. Por seu papel na tentativa de golpe, Hitler foi punido com aprisionamento na fortaleza de Landsberg, onde meu pai se juntou a ele mais tarde.
Vitória na Luta Política
Foi durante o tempo de encarceramento que Hitler e meu pai estabeleceram a relação especial de fé e confiança mútua que estamparia a imagem da liderança do partido em anos vindouros. Foi também em Landsberg que Hitler escreveu seu bem conhecido, trabalho seminal, Mein Kampf. Meu pai editou as páginas do manuscrito e verificou-as por erros. Hitler foi libertado logo em 20 de dezembro de 1924. Quatro meses mais tarde, em abril de 1925 meu pai se tornou o secretário particular de Adolf Hitler, a um salário mensal de 500 marcos.
Nos primeiros anos de 1930, o impacto da Grande Depressão e a desintegração política da República de Weimar definiram o cenário para a tomada de poder de Hitler em janeiro de 1933. Como resultado de suas campanhas de propaganda bem organizadas, que foram, por sua vez, devido à sua coesão e disciplina quase militar, o partido Nacional-Socialista ganhou maior e maior apoio eleitoral de segmentos cada vez mais amplos da população. E como o desemprego aumentou, mais e mais trabalhadores desempregados também se voltaram aos nacional-socialistas, muitos deles desertando diretamente do grande Partido Comunista da Alemanha.
Durante os agitados dias de janeiro de 1933, meu pai nunca deixou o lado de Hitler. Em uma carta escrita à mão para sua esposa, datada de 31 de janeiro de 1933 – isto é, o dia após Hitler se tornar Chanceler – o Rudolf Hess de 38 anos registrou seus sentimentos durante este momento de triunfo:
Eu estou sonhando ou eu estou acordado – esta é a questão do momento! Eu estou sentado no escritório do Chanceler na Wilhelmsplatz. Funcionários civis se aproximam silenciosamente sobre tapetes macios para submeter documentos “para o Chanceler do Reich”, que no momento está presidindo uma reunião de Gabinete e preparando as medidas iniciais de governo. Do lado de fora, o público permanece pacientemente, agrupados e esperando por “ele” para dispersar – eles começam a cantar o hino nacional e a gritar “Heil” para o “Führer” ou para o “Chanceler do Reich”. E então eu começo a tremer e eu tenho de firmar meus dentes – tal como eu fiz ontem quando o “Führer” retornou do [sua reunião com] Presidente do Reich como “Chanceler do Reich”, e me convocou dentre a massa de líderes esperando na sala de recepção ao seu quarto no hotel Kaiserhof – quando o que eu tinha considerado impossível até o último momento se tornou realidade.
Eu estava convencido firmemente que tudo, é claro, daria errado no último momento. E o Chefe também admitiu para mim que poucas vezes as coisas estiveram no fio da navalha por causa da intransigência da velha doninha no Gabinete [uma referência a Alfred Hugenberg, presidente do Partido Nacional do Povo Alemão e parceiro de coalizão].
A procissão de tochas à noite marchou de ante do encantado velho cavalheiro [Presidente von Hindenburg], que agüentou até que o último homem da SA [tropa de assalto] tivesse passado, por cerca da meia noite… Então veio o júbilo dirigido ao Führer, mesclando com aquele dirigido ao Presidente do Reich. As horas ultrapassando de homens e mulheres, segurando seus filhos que encaravam o Führer, jovens garotas e rapazes, suas faces radiantes quando eles “o” reconheciam na janela da Chancelaria do Reich – quão triste eu estava que você não estava lá!
O Chefe se comporta com incrível segurança. E a pontualidade!!!! Sempre alguns minutos à frente do tempo!!! Eu mesmo tive que pôr em minha mente para comprar um relógio. Uma nova era e um novo calendário alvoreceram!
Tudo isso foi escrito em uma folha de papel com um timbre escrito “O Chanceler do Reich”. Hess, entretanto, cruzou as letras góticas com sua caneta. O próximo dia, em uma carta dando prosseguimento datada de 1 de fevereiro, ele concluiu com as palavras: “Um estágio para a vitória está agora, eu espero, finalmente atrás de nós. O segundo difícil período da luta começou!”
Em 21 de abril, 1933, Hitler apontou Hess como Vice-Führer do partido Nacional-Socialista. Seu trabalho era liderar o partido do governo como representante de Hitler, e apoiar seus princípios nacionais e sociais. Oito meses mais tarde, em 1 de dezembro de 1933, o Presidente do Reich Hindenburg – atuando sobre proposta de Hitler – apontou Hess como Ministro do Reich sem Pasta. Na eclosão da guerra, em setembro de 1939, Hitler nomeou o Marechal do Reich Hermann Göring como vice-chefe de Estado. Mas isto não alterou o fato de que Hess permaneceu confidente próximo de Hitler, e um homem que ele podia confiar sem reservas.
Nuvens de Guerra se Aglomeram
O resultado mais importante dos desenvolvimentos políticos europeus de 1937 e 1938, que chegaram a um clímax na “crise dos Sudetos” de 1938, foi que a Grã-Bretanha continuou a fortalecer seus laços com os Estados Unidos. Como uma condição de assistência do EUA no caso de guerra, o presidente Roosevelt exigiu do premier britânico Chamberlain certos comprometimentos no campo da estabilidade política. Foi sob esta pressão que Inglaterra e França então concluíram um acordo militar em fevereiro de 1939. Em adição, as duas democracias ocidentais européias, curvando-se ao clamor de Roosevelt para liderar a política mundial, deu garantias à Holanda, Suíça, Polônia, Romênia, Grécia e Turquia – em outras palavras, para todos os vizinhos da Alemanha no oeste e leste – o que Hitler considerava legítimo domínio da Alemanha.
Deste ponto em diante, Inglaterra, França e Polônia – com a América atrás deles – decidiram quais das revisões de Hitler das condições impostas por Versalhes eles considerariam como razão para, ou meramente um pretexto para, a guerra contra o Reich Alemão. Mesmo se Hitler se abstivesse de novas políticas revisionistas, a partir de agora, a questão de guerra ou paz não estava mais somente em suas próprias mãos.
Na época do “cheque em branco” de garantia da Inglaterra à Polônia, em março de 1939, Hitler ainda não tinha resolvido finalmente atacar a Polônia. Mas todo líder político ocidental estava ciente de que esta fatídica garantia era um significante passo mais próximo para a guerra. De fato, figuras importantes em círculos ocidentais e entre a oposição anti-Hitler na Alemanha calcularam que Hitler reagiria a esta nova dependência polonesa com ação militar da Inglaterra, França e EUA. Era esperado que isto significasse não somente guerra, mas a própria queda de Hitler. Isto foi confirmado por Chamberlain em seu registro de diário de 10 de setembro, 1939: “Minha esperança não é uma vitória militar – eu duvido muito se isto é possível – mas um colapso da frente interna alemã”.
Em 1 de setembro, 1939, as forças armadas alemãs começaram o ataque contra a Polônia. Dois dias depois, Inglaterra e França declararam guerra contra o Reich Alemão. O fato que esses governos também não declararam guerra contra a Rússia Soviética, que invadiu a Polônia em 17 de setembro, 1939 (em acordo com as disposições do pacto Germano-Soviético de 23 de agosto de 1939), mostra claramente que a garantia inglesa à Polônia – como a declaração de guerra franco-inglesa contra a Alemanha – foi motivada não por preocupação pela Polônia, mas pelo contrário, era dirigida contra a Alemanha.
Quatro semanas depois, Polônia foi repartida e o país foi dividido entre Alemanha e Rússia – sem que um único tiro fosse disparado no Ocidente. Inglaterra e França fizeram nada por seu aliado polonês, e agora Hitler começou a planejar um ataque contra a França. Ao mesmo tempo, ele esperava que a Inglaterra fizesse as pazes com ele, enquanto que aceitando a hegemonia de uma, agora poderosa, Alemanha no leste europeu. Ele acreditava que a Inglaterra concordaria com isto, agora que a Polônia estava prostrada, ou mais tardar após a vitória alemã sobre a França.
Após a vitória relâmpago da Alemanha sobre a Polônia, e antes do ataque sobre a França em maio de 1940, Hitler fez sua primeira de numerosas tentativas de terminar a guerra no Ocidente. Sua oferta de paz de 12 de setembro de 1939, acompanhada pela garantia de que sob sua liderança a Alemanha nunca capitularia, foi uma sugestão. Ela foi apoiada por Stalin, mas rejeitada por Chamberlain e pelo premier francês Daladier.
Somente depois que todas as esperanças de paz com a França e a Inglaterra foram frustradas, Hitler ordenou um ataque contra a França. Ele começou em 10 de maio de 1940, e a França colapsou em 21 de junho de 1940. O armistício Franco-Germano foi assinado em 22 de junho, no mesmo vagão de jantar ferroviário em Compiègne no qual os alemães assinaram o humilhante armistício de novembro de 1918.
Ninguém tinha previsto tal rápida vitória alemã sobre a França. Como resultado deste assombroso feito, Hitler tinha feito a si próprio governante do continente europeu, do Atlântico até o rio Bug [na Polônia], e do Cabo Norte até a Sicília. Mas a Grã-Bretanha ainda permanecia no caminho de seu objetivo de uma mão livre no continente. Portanto, durante sua visita em junho de 1940 aos locais de campanhas militares bem-sucedidas da Alemanha, Hitler uma vez mais expressou seu desejo de chegar a um acordo de paz compreensivo com a Inglaterra. Foi nessa época que seu Deputado, Rudolf Hess, decidiu que – que se isso se tornasse necessário – ele faria um esforço pessoal para alcançar uma paz vital com a Grã-Bretanha.
Vôo pela Paz
O que realmente aconteceu entre junho de 1940 e 10 de maio de 1941, o dia em que meu pai decolou em um Messerschmitt 110 para a Escócia, é conhecido apenas em rascunho porque os documentos britânicos relevantes ainda permanecem confidenciais. Os papéis sobre Hess que foram liberados na Inglaterra com grande fanfarra em junho de 1992 provaram ser decepcionantes. Entre estes, aproximadamente duas mil páginas eram de absolutamente nada de substância real sobre os contatos secretos que existiam entre a Inglaterra e a Alemanha, sobre o grupo pela paz britânico (que incluía membros da família real) e seus esforços de paz com a Alemanha, ou sobre o papel desempenhado pelo serviço secreto antes do vôo. Em suma, esses papéis não continham nada que mostraria porquê meu pai seriamente esperava que sua missão pudesse a ser bem-sucedida.
De qualquer forma, pode ser dito com certeza que os documentos britânicos ainda confidenciais não contêm nada que refletirá mal sobre Rudolf Hess ou às políticas do governo alemão da época. Ainda mais, pode-se afirmar com certeza que os documentos que o governo inglês continua a manter secretos refletirão mal sobre o governo britânico de Winston Churchill do tempo de guerra. Eu irei ainda mais longe ao dizer que estes documentos suprimidos confirmam que Churchill procurou prolongar a guerra, com todo o sofrimento, destruição e morte que isto implica.
Alguns podem repudiar esta declaração como injustificada e auto-serviente. A este respeito, eu, portanto, gostaria de citar as palavras de um historiador britânico que realizou extensiva pesquisa sobre precisamente este aspecto daquele terrível conflito. Em Ten Days To Destiny: The Secret Story of the Hess Peace Initiative and British Efforts to Strike a Deal with Hitler (New York: W. Morrow, 1991), John Costello concluiu que teria sido bem possível trazer a guerra européia a um fim antes dela se tornar em uma guerra mundial, apenas se o governo britânico tivesse feito o menor movimento para isto.
Em Ten Days To Destiny [nas páginas 17 a 19], Costello escreve as seguintes frases reveladoras:
Até o governo britânico reverter a política atual e liberar a seção relevante do arquivo histórico de seu serviço de inteligência, pode ser impossível determinar se os contatos clandestinos com a Alemanha, que evidentemente desempenhou uma parte em trazer Hess à Escócia na noite de 10 de maio, foram um triunfo do serviço secreto ou parte de um sinistro complô pela paz que saiu fora de controle. O que é agora indiscutível é que a missão de Hess estava muito longe de ser o “brainstorm” do iludido deputado de Hitler que é como isso ainda é retratado por distintos historiadores britânicos. A evidência documental que veio à luz agora [que, eu poderia adicionar incidentalmente, é somente a ponta do iceberg] mostra que ela é apenas o resultado de uma seqüência interligada de manobras pela paz secretas de ingleses e alemães que podem ser rastreadas até o verão de 1940. As peças desse quebra-cabeças estão se encaixando agora para mostrar que:[…]
• A ordem de Hitler de parar o avanço Panzer em Dunquerque foi um estratagema cuidadosamente cronometrado para persuadir os governos inglês e francês a procurarem um compromisso de paz.
• Uma maioria do Gabinete de Guerra [de Churchill] decidiu trocar Gibraltar e Malta em troca de manter o controle do império.
• Um Presidente Roosevelt alarmado secretamente procurou ajuda canadense para impedir a aceitação britânica de um acordo “de paz suave” com Hitler.
• Líderes franceses acreditaram em 24 de maio de 1940, que a Inglaterra não lutaria, mas aceitaria uma junta de paz de negociação intermediada por Mussolini em maio de 1940.
• Churchill – e a Grã-Bretanha – sobreviveu somente porque o Primeiro Ministro recorreu a uma cruel intriga maquiavélica e a blefes de alta aposta para parar um vacilante Secretário dos Negócios Estrangeiros falando ao Gabinete de Guerra sobre um acordo de paz projetado por R. A. Butler. Quando a França caiu, o Sub-Secretário de Lord Halifax realmente passou uma mensagem para Berlim dizendo que “senso-comum e não bravata” ditava que a Inglaterra deveria negociar, não lutar contra Hitler. […]
• Dois dias após Churchill ter prometido que “nós nunca nos renderemos”, Lord Halifax e R.A. Butler sinalizaram para Berlim via Suécia que uma proposta de paz inglesa seria feita após o armistício francês em 18 de junho de 1940.
• Embaixador Kennedy esteve em contato clandestino com emissários de Hitler tentando parar a guerra enquanto o governo inglês suspeitava dele lucrar ilegalmente de informação do Tesouro para fazer uma grande venda em negociações internacionais de ações e títulos. […]
• O Duque de Windsor e outros membros da Família Real encorajaram as expectativas alemãs de que a paz eventualmente seria negociável.
• O plano de Hess de voar para a Escócia tomou forma nos dias finais da batalha pela França e foi encorajado em setembro de 1940 por sua descoberta de que a Inglaterra continuava com contatos pela paz via Suíça e Espanha.
• O MI5 [o serviço secreto inglês] interceptou a primeira iniciativa de paz de Hess e então tornou isso em uma operação “dupla” para armar uma cilada para Hess, fazendo-o cair em uma armadilha, atraído pelo Duke de Hamilton e os Embaixadores Britânicos na Suíça e Madrid.
• A chegada dramática de Hess deixou Churchill sem escolha a não ser enterrar o caso de distorção e silêncio oficial a fim de proteger não somente o Duque de Hamilton, mas antigos colegas conservadores que ainda em 1941 permaneciam convictos de que uma paz honrável poderia ser atingida com Hitler.
Por mais de cinqüenta anos o manto do segredo inglês nublou e distorceu o registro. Os historiadores oficiais cuidadosamente mascaram os papéis desempenhados pelos personagens chave no ano de esforço para se chegar a um acordo com Hitler por trás das costas de Churchill. O quão próximo este complô pela paz chegou de suceder têm sido ocultado para proteger a reputação dos políticos e diplomatas britânicos que acreditavam que Hitler era menos uma ameaça ao Império do que Stalin…
Churchill também teve suas próprias razões para enterrar suas querelas do tempo da guerra com outros membros líderes do Partido Conservador. Ele não queria nenhum escândalo para manchar a glória de sua liderança durante a Batalha da Grã-Bretanha e o “brilho branco, avassalador e sublime, que percorreu através de nossa ilha de ponta a ponta”.
“Finest Hour” da Inglaterra e o próprio papel de Churchill em falsificá-lo foram consagrados como um de muitos ilustres capítulos da história da Inglaterra. Sua coragem visionária criou, por palavras ao invés de substância militar, a crença do povo inglês de que, contra adversidades esmagadoras, eles poderiam desafiar Hitler em 1940.
Ninguém sabe ao certo se meu pai realizou seu vôo com o conhecimento e bênção de Adolf Hitler. Ambos os homens estão mortos agora. Toda a evidência disponível, porém, sugere que Hitler sabia de antemão do vôo:
Primeiro: Apenas alguns dias antes de seu vôo, meu pai teve um encontro privado com Hitler que durou por quatro horas. É conhecido que os dois homens levantaram suas vozes durante partes de sua conversa, e que quando eles terminaram, Hitler acompanhou seu Deputado à ante-sala, pôs seu braço calmamente ao redor de seu ombro e disse: “Hess, você realmente é teimoso”.
Segundo: O relacionamento entre Hitler e Hess era tão próximo e íntimo que se pode assumir logicamente que Hess não teria dado um passo tão importante no meio de uma guerra sem primeiro informar à Hitler.
Terceiro: Apesar dos ajudantes e secretários de Hess terem sido aprisionados após o vôo, Hitler interveio para proteger a família de Hess. Ele olhou para que uma pensão posse paga à esposa de Hess, e ele enviou um telegrama pessoal de condolência à mãe de Hess quando o seu marido morreu em outubro de 1941.
Quarto: Entre os papéis liberados em junho de 1992 pelas autoridades britânicas estão duas cartas de despedida que meu pai escreveu em 14 de junho de 1941, o dia antes dele tentar cometer suicídio em Mytchett Place, na Inglaterra. As cartas foram escritas após ele perceber que sua missão de paz tinha definitivamente falhado. Uma era endereçada à Hitler e a outra à sua família. Ambas claramente confirmam que sua relação próxima com Hitler ainda existia. Se ele tinha levado sua, agora obviamente, fracassada missão sem o conhecimento anterior de Hitler, seu relacionamento com Hitler claramente já não seria mais o de alguém de confiança.
E, quinto: Gauleiter Ernst Bohle, o confidente de Hess e oficial de alta patente que ajudou meu pai a traduzir alguns papéis para inglês, permaneceu convencido até sua morte que tudo isso foi feito com o conhecimento e aprovação de Hitler.
Suprimindo Evidência Histórica
Um comentário geral sobre a informação disponível sobre as propostas de paz de meu pai está em ordem: Durante o inteiro período de quarenta anos de seu aprisionamento em Spandau, ele foi proibido de falar abertamente sobre sua missão. Esta “ordem da mordaça” foi obviamente imposta porque ele sabia coisas que, se publicamente conhecidas, seriam altamente embaraçosas para o governo britânico, e possivelmente para os governos americano e soviético também.
Como resultado, pesquisa histórica contemporânea permanece inteiramente dependente dos documentos britânicos. Autoridades britânicas anunciaram que muitos documentos importantes dos arquivos Hess permanecerão fechados a sete chaves até o ano de 2017. A questão inteira foi manuseada tão secretamente que não mais do que um punhado de indivíduos em volta de Churchill a conheciam. As propostas, planos ou ofertas trazidas por Hess permaneceram secretas em arquivos até o presente. Enquanto esses documentos permanecerem secretos, o mundo não saberá a natureza precisa das propostas de paz que meu pai trouxe com ele para apresentar ao governo inglês em maio de 1941. Tudo isso deve, é claro, ser levado em consideração com qualquer avaliação séria do histórico vôo de meu pai.
Uma indicação de que Hess falou mais do que é conhecido está contida em uma nota preparada de 3 de junho de 1941, por Ralph Murray do “Political Warfare Executive” – uma agência secreta do governo britânico – para Sir Reginald Leeper, chefe da seção do serviço secreto do Ministério das Relações Exteriores. Este documento sugere que o Secretário de Estado Cadogan também manteve conversas com Rudolf Hess.
O propósito e contexto destas conversas ainda não podem ser determinados: A informação disponível ainda não está completa. Ainda assim, parece que durante o curso desta conversa, o Vice-Führer foi ainda mais específico e detalhista sobre suas propostas do que ele foi em algumas conversas posteriores.
Estas foram as propostas de Hess:
Um: Alemanha e Inglaterra chegariam a um compromisso sobre uma política mundial baseada no status quo. Isto é, Alemanha não atacaria a Rússia para assegurar o Lebensraum alemão [“espaço vital”].
Dois: Alemanha desistiria de suas reivindicações sobre suas antigas colônias, e reconheceria a hegemonia britânica no mar. Em troca, Inglaterra reconheceria a Europa continental como uma esfera de interesse alemão.
Três: O então atual relacionamento de força militar entre Alemanha e Inglaterra no ar e no mar seria mantido. Isto é, Inglaterra não receberia nenhum reforço dos Estados Unidos. Embora não haja menção de forças terrestres, pode-se assumir que esta balança de forças seria mantida a este respeito também.
Quatro: Alemanha se retiraria da “França Metropolitana” [França européia] após o total desarmamento do exército e da marinha francês. Comissionários alemães permaneceriam na África do Norte francesa, e tropas alemãs permaneceriam na Líbia por cinco anos após a conclusão da paz.
Cinco: Dentro de dois anos após a conclusão da paz, Alemanha estabeleceria estados satélites na Polônia, Dinamarca, Holanda, Bélgica e Sérvia. Entretanto, Alemanha se retiraria da Noruega, Romênia, Bulgária e Grécia (exceto de Creta, que pára-quedistas alemães tomaram em maio de 1941). Após algumas conclusões no leste, norte, oeste e sul (Áustria e Bohemia-Morávia aparentemente permaneceriam dentro do Reich), Alemanha concederia assim posição à Inglaterra no Mediterrâneo oriental e no Oriente Médio.
Seis: Alemanha reconheceria Etiópia e o Mar Vermelho como uma esfera de influência britânica.
Sete: A pessoa com quem o Vice-Führer estava conversando ficou um tanto confusa sobre se a Itália tinha aprovado as propostas de paz de Hess. Hess, ele próprio, não tinha nada a ver com isso, embora os pontos quatro e seis teriam afetado consideravelmente os interesses italianos.
Oito: Rudolf Hess admitiu que Hitler tinha concordado antecipadamente com a “estória de cobertura” oficial divulgada na Alemanha de que ele estava com a “mente instável”.
Esta proposta de paz teria de fato trazido a paz ao mundo em 1941. Se a Inglaterra tivesse negociado com a Alemanha nestas bases, o ataque alemão contra a Rússia – que começou menos do que três semanas depois, em 22 de junho de 1941 – não teria ocorrido, porque Hitler teria obtido o que ele necessitava para sobreviver: controle do continente. A Guerra teria retraído em todas as frentes.
Ao contrário, como nós sabemos, a guerra continuou – trazendo destruição, sofrimento e morte em uma escala quase inimaginável – porque a mão da paz estendida foi rejeitada por Churchill e Roosevelt. A paz que eles procuravam era uma cartaginesa. Seu único objetivo de guerra era a destruição da Alemanha.
Após entrevistas iniciais com Rudolf Hess, conduzidas pelo Duque de Hamilton e Sir Ivone Kirkpatrick em Glasgow, meu pai foi entrevistado em 9 de junho de 1941, pelo Lorde Simon, o Lorde Chanceler, e a 9 de setembro de 1941 pelo Lorde Beaverbrook, Ministro para a Produção de Aeronaves. Poucos dias mais tarde, Beaverbrook voou para Moscou para organizar ajuda militar para a União Soviética. Essas duas entrevistas foram motivadas por nenhum desejo de paz, mas ao contrário, meramente para retirar qualquer segredo militar possível de Hess.
Nuremberg
Após setembro de 1941, meu pai foi completamente isolado. Em 25 de junho de 1942, ele foi transferido para Abergavenny, a sul de Gales, onde ele foi mantido prisioneiro até que ele foi levado para Nuremberg em 8 de outubro de 1945, para enfrentar julgamento como um “grande criminoso de guerra” e como réu de segundo-escalão no chamado “Tribunal Militar Internacional”.
Eu não entrarei em detalhes aqui sobre este vergonhoso “julgamento dos vitoriosos sobre os vencidos”, exceto para anotar que mesmo que os juízes dos Tribunais Aliados tivessem que exonerar meu pai das acusações de “crimes de guerra” e “crimes contra a humanidade”, mas determinaram que ele – o único homem que tinha arriscado sua vida para assegurar a paz – era culpado de “crimes contra a paz”, e, nessa base, sentenciá-lo a prisão perpétua! O tratamento da corte de Hess é, sozinho, mais do que suficiente para desmentir o Tribunal de Nuremberg como uma vingativa corte dos vitoriosos que meramente fingiam ser um fórum de justiça genuíno.
Prisão de Spandau
Junto com seis co-réus de Nuremberg, meu pai foi transferido em 18 de julho de 1947 para a sombria fortaleza em Spandau, no distrito de Berlim que era designado Prisão Militar Aliada.
Os regulamentos sob os quais os sete prisioneiros foram mantidos eram tão severos que mesmo o capelão francês da prisão, Casalis, protestou (em 1948) contra seu tratamento ultrajante. Ele prosseguiu a descrever Spandau como um lugar de tortura mental. Em outubro de 1952, após dois anos de prolongada discussão entre os poderes da custódia, os soviéticos concordaram em conceder os chamados “privilégios especiais”: Uma visita de trinta minutos ao mês. Uma carta por semana de não mais do que 1.300 palavras. Atenção médica na prisão. E, no caso de morte, sepultamento das cinzas na prisão ao invés de espalhá-las ao vento.
Após a libertação de Albert Speer e Baldur von Schirach em 1 de outubro de 1966, Rudolf Hess era o único permanecendo interno. Por mais de vinte anos, meu pai foi o único prisioneiro em uma prisão designada para cerca de seiscentos.
Após uma futura revisão dos regulamentos no início da década de 1970, era permitido a um membro da família visitar o prisioneiro por uma hora, uma vez ao mês. Ao prisioneiro era também agora permitido receber quatro livros a cada mês. Como antes, visitas, cartas e livros eram estritamente censurados. Nenhuma referência aos eventos do período de 1933 a 1945 era permitida. Nenhuma menção da sentença do Tribunal, ou matérias relacionadas a ele, era permitida. Visitas da família eram monitoradas por autoridades de cada um dos quatro poderes, como também por ao menos dois guardas. Nenhum contato físico – nem mesmo um aperto de mãos – era permitido. As visitas ocorriam em uma “Sala de Visitante” especial, que tinha uma parte com uma “janela” aberta.
Foi permitido ao meu pai receber quatro jornais diários, e após a metade da década 70, foi permitido a ele assistir televisão. Entretanto, jornais e televisão eram censurados sob as linhas mencionadas acima. Meu pai não podia assistir nenhum telejornal de notícias.
Por muitos anos meu pai recusou visitas de membros de sua família sobre o motivo das condições em que as tais visitas eram permitidas, elas eram uma ofensa à sua honra e dignidade, e eram mais insuportáveis do que agradáveis. Ele mudou de idéia em novembro de 1969, quando ele ficou severamente doente e teve que lutar para permanecer vivo. Sob estas circunstâncias, e por causa de novas condições para visitas, ele concordou com uma visita de minha mãe, Ilse Hess, e minha no Hospital Militar Britânico em Berlim. Assim, em 24 de dezembro de 1969, minha mãe e eu visitamo-lo pela primeira vez desde minha infância. Esta foi a única ocasião quando foi permitido a duas pessoas visitá-lo ao mesmo tempo.
Após retornar à Prisão Militar Aliada em Spandau, ele concordou com visitas futuras. Nos anos que se seguiram, membros da família visitaram Rudolf Hess 232 vezes ao todo. Somente aos membros mais próximos de sua família era permitido encontrá-lo: isto é, sua esposa, sua irmã, sua sobrinha, seu sobrinho, minha esposa e eu. Era proibido apertas as mãos ou abraçar. Presentes também eram proibidos, mesmo em aniversário ou Natal.
Ao advogado de meu pai, ministro do estado bávaro aposentando Dr. Alfred Seidl, foi permitido se reunir com seu cliente apenas seis vezes em todo o período de quarenta anos de julho de 1947 a agosto de 1987. Dr. Seidl também era submetido a regulamentos de estrita censura: Isto é, ele era avisado antes de cada visita de que ele não podia discutir com seu cliente o julgamento, as razões para seu aprisionamento ou os esforços que estavam sendo feitos para garantir sua libertação. Os Governos Aliados de custódia sempre se negaram a arcar com os custos para a prisão. Após 1 de outubro de 1966, quando meu pai se tornou o único prisioneiro da prisão, o governo federal alemão gastou cerca de 40 milhões de marcos para manter a prisão. Isto incluía salários para a equipe de mais de uma centena de pessoas empregadas para guardar e manter esta prisão para um único homem idoso.

Rudolf Hess em sua cela na prisão de Spandau.
Na parede, presos mapas da lua, refletindo seu forte interesse em astronomia.
Suspeitas Soviéticas
Em 1986, a política soviética para com o Ocidente mostrou óbvios sinais de aproximação e calma. Apesar de muitas falhas iniciais, eu decidi atuar sobre uma sugestão recebida em dezembro de 1986 do Leste para abordar diretamente os soviéticos para discutir com eles a libertação de meu pai.
Em janeiro de 1987, eu escrevi uma carta ao embaixador soviético em Bonn. Pela primeira vez em 20 anos, eu recebi uma resposta. Funcionários lá sugeriram que eu visitasse o embaixador soviético em Berlim Oriental para uma discussão detalhada com representantes soviéticos sobre a situação de meu pai. Nós finalmente concordamos com uma reunião no consulado soviético na Berlim Oriental em 31 de março de 1987, as 14h00min. Como os funcionários da embaixada certamente estavam cientes, isto seria no mesmo dia da minha próxima visita ao meu pai.
Aquela manhã, eu visitei meu pai na prisão de Spandau pela última vez. Eu achei que ele estava mentalmente alerta, bem acima da média, mas fisicamente muito fraco. Ele podia andar somente quando se apoiando com uma bengala de um lado e com a ajuda de um guarda do outro. Sentar-se com os pés apoiados sobre uma cadeira se tornou um procedimento tedioso que ele não podia administrar sem ajuda. Mesmo eu achando a temperatura na sala de visita estar bem normal, ele sentia frio e pedia por seu manto e um cobertor adicional.
Meu pai começou nossa conversa com um interessante pedaço de notícia, os detalhes de que ele me pediu para escrever: Ele havia enviado um novo pedido aos chefes de estado dos quatro poderes de ocupação, requisitando liberação de seus 46 anos de aprisionamento. Eu fiquei particularmente impressionado com um ponto. Ele me contou que ele tinha apelado especialmente ao chefe de estado soviético para apoiar seu pedido com os outros três poderes da custódia. “Será que eu ouvi direito?”, eu perguntei. Meu pai confirmou. Então ele sabia – obviamente dos próprios russos – que eles estavam considerando aprovar sua libertação.
Após nosso encontro, eu dirigi da prisão de Spandau diretamente até o consulado soviético. Embaixador Conselheiro Grinin, o funcionário com quem eu falei lá, começou por explicar que não era a embaixada soviética em Bonn, mas a embaixada em Berlim Oriental que era responsável por todos os direitos e responsabilidades soviéticos em Berlim Ocidental. Uma dessas responsabilidades, ele disse – e suas palavras merecem ser repetidas literalmente – era “o desagradável legado de Spandau”. Qualquer um que tenha herdado um legado como a “Prisão Militar Aliada” em solo alemão, como a União Soviética tinha ao fim da guerra, Grinin disse, certamente deve querer livrar-se dele.
Eu não tinha esperado nenhum resultado sensacional desse encontro. Tinha sido uma análise mútua, e eu acredito que saiu positivamente para cada lado. Também se tornou claro para mim durante o curso do encontro que havia visões conflitantes em Moscou sobre como lidar com o “caso Hess”. Aqueles que eram simpáticos a nós, liderados pelo Secretário Geral Gorbachev, estavam claramente ganhando o controle.
Esta avaliação foi confirmada pouco tempo depois em um relatório publicado na revista alemã Der Spiegel (13 abril de 1987). O artigo, que aparecia sob a manchete “Gorbachev libertará Hess?”, informou sobre uma mudança fundamental na atitude do líder do partido soviético para com o “caso Hess”. Gorbachev, prosseguia, assumiu a visão de que a libertação do ultimo prisioneiro de Spandau seria uma ação “que seria aceita mundialmente como um gesto de humanidade”, e que “também poderia ser justificada para o povo soviético”. A este respeito, os jornais também mencionavam a futura visita a Moscou do Presidente Federal alemão Weizsäcker, que planejava acontecer em meados de maio.
Também em 13 de abril de 1987, um cidadão alemão escreveu uma carta sobre o caso Hess para o serviço de língua alemã da Rádio Moscou. A carta de resposta, datada de 21 de junho de 1987, declarava: “Como pode ser esperado das declarações mais recentes de nosso chefe de governo, M. Gorbachev, seus longos anos de esforço para a libertação do criminoso de guerra R. Hess logo serão coroados com sucesso”. Pode-se assumir com certeza que tal carta da Rádio Moscou não foi escrita sem aprovação superior.
Estes três eventos – minha recepção no consulado soviético em Berlim Oriental em 31 de março de 1987, o relatório da revista Spiegel de 13 de abril de 1987, e a réplica da Rádio Moscou de 21 de junho de 1987 – mostram inequivocamente que a União Soviética, sob a liderança do Secretário Geral Gorbachev, pretendia liberar Rudolf Hess. Esta libertação não seria somente inteiramente consistente com a política de reconciliação de Gorbachev, ela também seria uma característica essencial da liquidação de conseqüências não resolvidas que restaram da Segunda Guerra Mundial, sem a qual a reunificação da Alemanha e Berlim não seria possível.
Morte ou Suicídio?
Se os poderes ocidentais de custódia já não estavam cientes da intenção de Gorbachev, eles certamente estavam após a publicação do artigo do Spiegel em abril. Isto, sem dúvida, soou os sinos do alarme na Inglaterra e Estados Unidos, uma vez que este novo movimento soviético removeria o último obstáculo legal que permanecia para a libertação de meu pai. Por muitos anos os governos inglês, americano e francês tinham dito que eles estavam prontos para concordar com a libertação de Hess, mas que era somente o veto soviético que o prevenia. A nova iniciativa de Gorbachev ameaçava mostrar o blefe britânico e americano.
As autoridades em Londres e Washington teriam de encontrar um meio novo e mais permanente de negar a Hess sua liberdade e preveni-lo de falar livremente.
Na segunda-feira, 17 de agosto de 1987, um jornalista me informou em meu escritório que meu pai estava morrendo. Mais tarde, em casa, eu recebi uma chamada telefônica as 18:35min., do Sr. Darold W. Keane, o diretor americano da Prisão de Spandau, que me informou oficialmente que meu pai tinha morrido. A notificação oficial, que estava em inglês, descreve como segue: “Eu estou autorizado a informá-lo que seu pai expirou hoje as 16:10min. Eu não estou autorizado a dar a você nenhum detalhe adicional.”
Na próxima manhã eu estava em um avião para Berlim, acompanhado pelo Dr. Seidl. Quando eu cheguei na prisão, uma grande multidão tinha se reunido em frente. A polícia de Berlim estava bloqueando a entrada, e nós fomos obrigados a mostrar papéis de identificação antes de nos fosse permitido se aproximar do portão de ferro verde. Após tocar a campainha, eu pedi para falar com o diretor americano da prisão, Mr. Keane. Depois de um bom tempo, Mr. Keane finalmente apareceu, parecendo extraordinariamente nervoso e inseguro de si mesmo. Ele nos contou que não nos seria permitido no interior do complexo prisional, e que não me seria permitido ver meu pai morto. Ele também nos contou que ele não podia dar nenhuma informação adicional sobre os detalhes da morte. Um novo relatório com detalhes da morte de meu pai estava sendo alegadamente preparado, e seria disponibilizado acerca de 16:00min. Então, depois nós demos a ele o endereço e número de telefone de um hotel em Berlim onde nós estaríamos esperando por informações adicionais, ele nos deixou em frente ao portão.
A longamente esperada chamada telefônica para o hotel finalmente chegou acerca das 17:30min. Keane disse:
Eu lerei para você agora o relatório que nós vamos liberar imediatamente depois para a mídia. Ele diz:
“Exame inicial indicou que Rudolf Hess tentou tirar sua própria vida. Na tarde de 17 de agosto de 1987, sob a costumeira supervisão de um guarda da prisão, Hess foi para uma casa de verão no jardim da prisão, onde ele sempre costumava sentar. Quando o guarda olhou para a casa de verão alguns minutos depois, ele descobriu Hess com um fio elétrico em volta de seu pescoço. Tentativas foram feitas para ressuscitação e Hess foi levado ao Hospital Militar Britânico. Após novas tentativas de reanimar Hess, ele foi declarado morto as 16:10min. A questão se este suicídio foi a causa de sua morte é o objeto de uma investigação, incluindo uma profunda autópsia, que ainda está em progresso.”
Hess era um frágil homem de 93 anos sem força em suas mãos, que podia muito mal apenas se arrastar de sua cela para o jardim. Como ele supostamente se matou desta forma? Ele se enforcou com a corda de um gancho ou da trava de uma janela? Ou ele se estrangulou? Os responsáveis não forneceriam uma explicação detalhada sobre este ponto imediatamente. Nós tivemos que esperar um mês inteiro pela declaração oficial final sobre as circunstâncias da morte. Foi publicado pelos Aliados em 17 de setembro de 1987, e lê-se como segue:
1. Os Quatro Poderes estão agora em uma posição de fazer uma declaração final sobre a morte de Rudolf Hess.
2. Investigações confirmaram que em 17 de agosto, Rudolf Hess enforcou-se da trava de uma janela em uma pequena casa de verão no jardim da prisão, usando um fio de extensão elétrica que por algum tempo foi mantido na casa de verão para uso em conexão com uma lâmpada de leitura. Tentativas foram feitas para reavivá-lo e ele foi levado às pressas para o Hospital Militar Britânico onde, após novas tentativas sem sucesso de reavivá-lo, ele foi declarado morto as 16:10min.
3. Uma nota endereçada à família Hess foi encontrada em seu bolso. Esta nota foi escrita no verso de uma carta de sua nora, datada de 20 de julho de 1987. Começou com as palavras “Por favor, os governadores enviariam esta para casa. Escrita poucos minutos antes de minha morte”. O examinador sênior do documento do laboratório químico do governo britânico, Mr. Beard, examinou esta nota, e concluiu que ele não pode ver razão para duvidar que ela foi escrita por Rudolf Hess.
4. Uma autópsia completa foi realizada no corpo de Hess a 19 de agosto no Hospital Militar Britânico pelo Dr. Malcolm Cameron. A autópsia foi conduzida na presença de médicos representantes dos quatro poderes. O relatório notou uma marca linear no lado esquerdo do pescoço, consistente com uma ligadura. Dr. Cameron declarou que, em sua opinião, a morte resultou de asfixia, causada pela compressão do pescoço devido a suspensão.
5. As investigações confirmaram que a rotina seguida pelos funcionários no dia do suicídio de Hess era consistente com a prática normal. Hess tentou cortar seus pulsos com uma faca de mesa em 1977. Imediatamente após este incidente, carcereiros foram postos em sua sala e ele era vigiado 24 horas por dia. Isto foi descontinuado após vários meses como impraticável, desnecessário e uma imprópria invasão da privacidade de Hess.
O relatório da autópsia realizada pelo patologista britânico Dr. Cameron em 19 de agosto foi mais tarde disponibilizado à família. Concluindo que a morte de meu pai não foi devido a causas naturais, ele era consistente com o ponto cinco da declaração oficial final aliada.
Autópsia e Enterro
Com base em um acordo de 1982 entre a família e os Aliados, o corpo de Rudolf Hess não seria cremado, mas em vez disso seria devolvido à família para enterro “na Bavária, silenciosamente na presença de sua família próxima”.
Os Aliados mantiveram este acordo – algo que eles devem ter se lamentado muito enfaticamente. Conseqüentemente, o corpo de meu pai retornou para a família na manhã de 20 de agosto de 1987, nos campos de treinamento americano de Grafenwöhr, onde ele havia chegado mais cedo naquela mesma manhã de Berlim em um avião militar britânico.
O caixão era acompanhado pelos três governadores Ocidentais e dois russos, a quem eu não conhecia, tão bem quanto um certo Major Gallagher, chefe da chamada “Divisão de Investigação Especial, Polícia Militar Real”. A tratativa foi breve e direta ao ponto. Nós então trouxemos o corpo imediatamente para o Instituto de Medicina Forense em Munique, onde o Prof. Dr. Wolfgang Spann estava aguardando a pedido de nossa família para conduzir uma segunda autópsia. Ao longo de toda a jornada do campo de treinamento militar em Grafenwöhr até o Instituto de Medicina Forense em Munique, o transporte foi guardado por um contingente da polícia bávara.
Na conclusão de seu relatório de 21 de dezembro de 1988, na segunda autópsia, o renomado patologista de Munique, Professor Spann, apontou as dificuldade que ele encontrou porque ele não teve nenhuma informação sobre os detalhes do alegado enforcamento. Em particular, ele não teve nenhuma informação sobre os detalhes da condição de meu pai após a suposta descoberta de seu corpo. Apesar dessas limitações, Dr. Spann, ainda assim, foi capaz de chegar às seguintes conclusões excepcionais:
A conclusão adianta de Dr. Cameron de que esta compressão foi causada pela suspensão não é necessariamente compatível com nossas descobertas…
Em medicina forense, o curso que a marca da ligadura toma no pescoço é considerado um clássico indicador para diferenciar entre formas de enforcamento e estrangulamento… Se o Prof. Cameron, em sua avaliação da causa da morte, chega a conclusão de que a causa da morte foi asfixia causada por compressão do pescoço devido a enforcamento, ele negligencia a considerar o outro método de sufocação, que é, estrangulamento… Fazer esta distinção exigiria um exame da trajetória da marca de ligadura. O curso preciso da marca não é dado no relatório de autópsia do Prof. Cameron.
Aqui, nem o curso da marca do estrangulamento no pescoço, como nós o descrevemos, nem seu curso na garganta, nem sua posição relativa à proeminência da laringe foi descrito ou avaliado… Uma vez que sobre a pele não lesada do pescoço, onde a possibilidade de distorção através de sutura da incisão de dissecação está descartada, um trajeto quase horizontal da marca de estrangulamento poderia ser identificado, este achado, tão bem quanto o fato da marca sobre a garganta obviamente não estar localizada acima da laringe, é mais indicativo de um caso do estrangulamento do que de enforcamento. Sob nenhuma circunstância as descobertas podem ser prontamente explicadas por um, assim chamado, típico enforcamento. O estouro dos vasos sangüíneos que foram observados na face, causados pela congestão de sangue, também não são compatíveis com enforcamento típico.
Um ordenança médico tunisiano, Abdallah Melaouhi, era um empregado civil da administração da prisão de Spandau no tempo da morte de meu pai. Ele não é um cidadão de um dos quatro poderes Aliados de ocupação, nem, ainda mais direto ao ponto, um membro de suas forças armadas. Como resultado, ele não poderia ser silenciado ou transferido para algum canto remoto do mundo como os outros que estavam presentes na cena do crime.
Após a morte de meu pai, Melaouhi entrou em contato com nossa família. De uma nota que meu pai escreveu para ele, está claro que havia um relacionamento de confiança pessoal entre os dois homens. O núcleo do relato de Melaouhi, que ele registrou em um depoimento, é como segue:
“Quando eu cheguei na casa de verão no jardim, eu encontrei a cena parecendo como se uma luta tivesse ocorrido. O chão estava remexido e a cadeira na qual Hess geralmente senta estava no chão a uma distancia considerável de sua localização usual. Hess mesmo caído sem vida no chão: Ele não reagia a nada, sua respiração, pulso e batidas cardíacas não eram mais mensuráveis. Jordan [um guarda americano] estava próximo dos pés de Hess e estava obviamente fora de si”.
Melaouhi notou, para sua surpresa, que além de Anthony Jordan, o guarda americano negro, dois estranhos em uniforme militar do EUA estavam presentes. Isto era incomum, uma vez que normalmente a nenhum soldado era permitido acesso a esta parte da prisão, e acima de tudo, porque qualquer contato com Rudolf Hess era o mais estritamente proibido. Na opinião de Melaouhi, os dois estranhos pareciam reservados e calmos, em pleno contraste com Jordan.
Testemunho da África do Sul
Em adição ao relato do ordenança tunisiano, há uma declaração adicional a respeito dos eventos em Spandau em 17 de agosto de 1987. Minha mulher trouxe-o da África do Sul, onde ela conheceu um advogado sul-africano com contatos com serviços secretos Ocidentais. Eu fui capaz de persuadir este homem a frasear seu testemunho na forma de uma declaração juramentada preparada para um juiz. Datada de 22 de fevereiro de 1988, esta declaração lê como segue:
Eu tenho sido questionado sobre os detalhes da morte do antigo Ministro do Reich Alemão Rudolf Hess.
O Ministro do Reich Rudolf Hess foi morto sob as ordens do Home Office britânico. O assassinato foi cometido por dois membros do SAS britânico (22º Regimento do SAS, Depot Bradbury Lines, Hereford, Inglaterra). A unidade militar do SAS [Serviço Aéreo Especial] está subordinada ao Home Office britânico – não ao Ministério da Defesa. O plano do assassinato, tanto quanto sua direção, foi realizado pelo MI-5. A ação do serviço secreto cujo objetivo era o homicídio do Ministro do Reich Rudolf Hess foi planejada tão apressadamente que não foi dado à ela um codinome, o que é absolutamente não habitual.
Outros serviços secretos que tinham sido co-responsáveis pelo plano eram os americanos, francês e o israelense. Nem a KGB [soviética] nem o GRU, nem os serviços secretos alemães foram informados.
O assassinato do Ministro do Reich Rudolf Hess se tornou necessário por causa do intento do governo da URSS de libertar o prisioneiro em julho de 1987 [em conexão com a futura visita do Presidente alemão von Weizsäcker a Moscou], mas o Presidente von Weizsäcker foi capaz de negociar uma prorrogação com o chefe do governo soviético, Gorbachev, até novembro de 1987, o próximo período soviético no ciclo da guarda.
Os dois homens do SAS estavam na prisão de Spandau desde a noite de sábado-domingo (15-16 de agosto de 1987). A CIA americana deu seu consenso ao assassinato na segunda-feira (17 de agosto de 1987).
Durante a caminhada da tarde do Ministro do Reich Rudolf Hess, os dois homens do SAS permaneceram pelo prisioneiro na casa de verão do jardim da prisão e tentaram estrangulá-lo com um cabo de 1,37 m de comprimento. Mais tarde, um “suicídio por enforcamento” tinha de ser forjado. Mas como o Ministro do Reich Rudolf Hess começou uma luta e gritou por socorro, o que alertou para o ataque ao menos um soldado americano da guarda, a tentativa sobre a vida do prisioneiro foi interrompida, e uma ambulância do Hospital Militar Britânico foi chamada. O inconsciente Ministro do Reich Rudolf Hess foi levado para o Hospital Britânico na ambulância.
A informação acima me foi dada pessoalmente e verbalmente por um oficial do serviço israelense na terça-feira, 18 de agosto de 1987, acerca de 08:00min, horário da África do Sul. Eu conheço este membro do serviço israelense tanto oficialmente como pessoalmente por quatro anos. Eu estou completamente satisfeito que ele foi sincero e honesto e não tenho nenhuma dúvida, qualquer que seja, da verdade de sua informação. A natureza absolutamente confidencial de sua conversa comigo está também além de dúvida.
Depois do relatório da autópsia enganador de Cameron, os próprios britânicos forneceram a pista mais decisiva para solucionar a misteriosa morte na casa de verão do jardim da prisão de Spandau.
Nota de Suicídio?
Como já mencionado, me contaram em 17 de agosto de 1987, apenas que meu pai havia morrido. Não foi senão no próximo dia que soube que ele tinha supostamente cometido suicídio. Em resposta às dúvidas, eu rapidamente me expressei publicamente sobre este suposto suicídio, os Aliados foram levados a descobrir, em 19 de agosto de 1987, uma “prova” do suicídio, supostamente incontestável. Esta é a, assim chamada, “nota de suicídio”. Ela é uma carta não datada, escrita a mão no verso de uma (próxima do fim) carta de família para Rudolf Hess, datada de 20 de julho de 1987. O texto desta suposta “nota de suicídio” é como segue:
Por favor, os governadores enviariam esta para casa. Escrita poucos minutos antes de minha morte.
Eu agradeço a todos vocês, meus amados, por todas as coisas queridas que você têm feito por mim. Diga a Freiburg que eu lamento extremamente que, desde o julgamento de Nuremberg, eu tenho que agir como se eu não a conhecesse. Eu não tive escolha, porque de outra forma, todas as tentativas de ganhar liberdade teriam sido em vão. Eu então esperava para vê-la novamente. Eu peguei as fotos dela, como de todos vocês. Seu Velho.
Esta carta foi escrita a mão para a família mais de um mês após a morte. Disseram-nos que ela tinha de ser examinada primeiro em um laboratório inglês.
Enquanto que parece ser a letra de meu pai (embora consideravelmente distorcida, como era sempre quando ele estava sofrendo como resultado de uma perturbação emocional, problemas de saúde ou mesmo medicação), esta “nota” não reflete o pensamento de Rudolf Hess em 1987. Ao contrário, ela refletia pensamentos de seus vinte anos atrás. O conteúdo concerne principalmente a “Freiburg”, sua ex-secretária particular, com quem ele estava preocupado em 1969, quando ele teve uma úlcera perfurada no duodeno e estava próximo da morte. Ainda mais, ela foi assinada com a expressão “Seu Velho”, que ele não usava por mais de 20 anos.
Há outra pista no texto da carta que indica sua data. A frase, “Eu peguei as fotos dela, como de todos vocês”, faria sentido somente durante o período antes do Natal de 1969, porque até aquele Natal, ele não recebeu nada a não ser fotografias de “Freiburg”, a quem não era permitido visitá-lo. Considerando a forma precisa com que meu pai se expressou, esta sentença só pode ter sido escrita antes de 24 de dezembro de 1969. Escrita em agosto de 1987, esta sentença não faz sentido algum.
Finalmente, as breves palavras de abertura da carta, “Escrita poucos minutos antes de minha morte.”, não podem ser reconciliadas com sua maneira precisa de se expressar. Se ele tivesse realmente escrito esta carta antes de um suicídio planejado, ele muito certamente teria escolhido uma frase especificando suicídio, tal como “pouco antes da minha retirada voluntária de vida” ou algo similar, mas não a ambígua palavra “morte”, que deixa aberto qualquer possibilidade de método de morte.
Nós, membros de sua família que conhecemos não somente a letra de meu pai, mas o próprio escritor, e que era intimamente familiar com suas preocupações durante seus anos finais, sabemos que esta suposta “nota de suicídio” é uma farsa tão rude quanto é maliciosa.
Pode-se concluir agora que a “carta de despedida” escrita pelo meu pai quase vinte anos antes, na expectativa de sua morte, e que não foi entregue à família na época, foi usada para produzir esta falsificação em 1987. Para este propósito, o texto foi transferido, por algum meio moderno, para o verso de uma carta que meu pai recebeu recentemente de nós. O selo de censura “Prisão Aliada de Spandau”, que normalmente aparecia, sem exceção, em cada pedaço de papel que ele recebia por mais de 40 anos, estava, notavelmente, ausente de nossa carta para ele de 20 de julho de 1987. Finalmente, a suposta nota de suicídio não leva data, o que era contrário à prática rotineira de meu pai de sempre prefaciar, o que quer que ele escrevia, com a data. A data original tinha sido obviamente, omitida.
Assassinato, não Suicídio
Com base no relatório da autópsia do Prof. Spann, os depoimentos do ordenança médico tunisiano e do advogado da África do Sul, tanto quanto a suposta “carta de suicídio”, eu posso apenas concluir que a morte de Rudolf Hess na tarde de 17 de agosto de 1987, não foi suicídio. Foi assassinato.
Embora as autoridades dos EUA estivessem oficialmente encarregadas da Prisão Militar Aliada em Berlim-Spandau em agosto de 1987, é digno de nota que cidadãos britânicos desempenhassem um papel tão importante no ato final do drama de Hess. O diretor americano, Mr. Keane, foi autorizado pelos britânicos apenas para me chamar e me informar da morte de meu pai. Após isto, seu único dever era manter sua boca fechada.
Para resumir aqui:
• Os dois homens que o ordenança tunisiano viu em uniforme americano, que foram os prováveis assassinos de Rudolf Hess, eram de um regimento do SAS britânico.
• A morte foi estabelecida no Hospital Militar Britânico, para onde meu pai foi levado em uma ambulância britânica.
• O atestado de óbito está assinado apenas pelo pessoal militar britânico.
• A autópsia foi realizada por um patologista britânico.
• O direto britânico da prisão, Mr. Antony Le Tissier, supervisionou a tentativa de destruição de toda evidência reveladora, tal como o cabo elétrico, a cada do jardim, e assim em diante.
• Os funcionários da Divisão de Investigação Especial (SIB) que investigaram a morte eram todos cidadãos britânicos, e eram chefiados por um major britânico.
• A alegada “nota de suicídio” foi supostamente encontrada dois dias depois no bolso do casaco de Hess por um oficial britânico, e foi examinada por um laboratório britânico.
• Sr. Allan Green, o Diretor do Ministério Público Britânico, suspendeu uma investigação da morte de meu pai iniciada pela Scotland Yard, que tinha recomendado uma “investigação de assassinato em larga escala” após funcionários terem encontrado muitas inconsistências.
Rudolf Hess não cometeu suicídio em 17 de agosto de 1987, como o governo britânico afirma. O peso da evidência mostra ao invés que funcionários britânicos, agindo sob ordens de alto nível, assassinaram meu pai.
Um Crime Contra a Verdade
O mesmo governo, que tentou fazê-lo um bode expiatório por seus crimes, e que por quase meio século procurou resolutamente suprimir a verdade do caso Hess, finalmente não esquivou de assassinato para silenciá-lo. O assassinato de meu pai não foi somente um crime contra um homem frágil e idoso, mas um crime contra a verdade histórica. Era um ato final lógico de uma conspiração britânica oficial que começou em 1941, no início do caso Hess.
Mas eu posso assegurá-los, e vocês, que esta conspiração não será bem-sucedida. O assassinato de meu pai não fechará para sempre, como eles esperam, o livro sobre a vida de Hess.
Eu estou convencido de que a história e a justiça absolverão meu pai. Sua coragem em arriscar sua vida pela paz, a longa injustiça que ele suportou, e seu martírio, não serão esquecidos. Ele será vingado, e suas palavras finais no julgamento de Nuremberg, “Eu não me arrependo por nada!”, permanecerão para sempre.
Wolf Rüdiger Hess