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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

AYN RAND E A CARIDADE

Ayn Rand diz que caridade só é caridade de verdade quando a doação ou ajuda observa alguns princípios morais, tanto no que se refere ao doador quanto no suposto beneficiado: racionalidade, honestidade, produtividade, independência e principalmente, justiça.
Racionalidade, no sentido de que é preciso identificar o ser necessitado e as causas de sua necessidade a partir do uso da razão, não por capricho nem por incompreensível emoção; honestidade, no sentido de que é preciso lidarmos com a realidade do beneficiado e da nossa própria como ela é, quais os efeitos da nossa ajuda e de que maneira ela impacta na nossa própria vida; produtividade e independência, no sentido de que é preciso ajudar a quem necessita de forma que ele possa se restabelecer e deixar de ser um ser improdutivo e dependente; justiça, no sentido de que o beneficiado precisa merecer a ajuda que lhe é oferecida ou que por ele é requisitada.
Ayn Rand critica a confusão que se faz entre caridade, benemerência, benevolência e altruísmo, ou seja, aquela doação que resulta em sacrifício e sofrimento do próprio doador que inadvertidamente abre mão de um valor maior para receber um valor menor ou valor algum. Exemplo, tirar comida do prato do próprio filho para dar a qualquer estranho que aparece no caminho.
Ser caridoso não é um vício quando a caridade não gera sacrifícios que possam prejudicar a criação e a manutenção de valor para a existência e a felicidade do doador nem possibilitar a perpetuação de um estado de dependência ou degradação do suposto beneficiado.
Ayn Rand também entendia e eu compartilho dessa ideia de que mais nobre do que a caridade em si é a criação de riqueza e de oportunidades que somente a atividade criativa, inovadora e empreendedora proporciona. Entenda, Bill Gates, por exemplo, que com sua atividade empresarial beneficiou a humanidade de forma extraordinária proporcionando um grau de produtividade gigantesco que melhorou a vida de bilhões de pessoas, deve ser reverenciado mais por isso do que quando ele criou a Fundação Bill & Melinda Gates. Com Steve Jobs, foi a mesma coisa. O que a Apple agregou de valor para a humanidade possibilitou que centenas de milhões ou bilhões de pessoas tivessem incremento na qualidade das sua vidas. Interessante que Bill Gates só passou a ser considerado um santo quando passou a doar a sua fortuna que poderia ser reinvestida no seu negócio para criar ainda mais benefícios para a humanidade, o que só não acontece porque o governo o trata como um criminoso. Steve Jobs tem tido o seu passado vasculhado para que seja possível descobrir se ele doava anonimamente ou não. Há os que pensam que ele só terá lugar no Hall dos Salvadores da Humanidade se surgirem evidências de que ele, em algum momento da sua vida, se sacrificou.
Altruísmo é um termo criado por Auguste Comte, criador do Positivismo, doutrina que pregava que o ser humano nobre era aquele que se sacrificava pelos outros. Nós, seres humanos, somos, como indivíduos, um fim em si mesmo no sentido de que nossa vida nos pertence, que somos racionais e por isso, por esse fato da natureza, devemos ser deixados livres para agir, criando e dispondo dos valores que entendemos serem necessários para atingir os propósitos da nossa própria vida. Caridade pela caridade pode resultar em um valor espiritual ao percebemos que a vida em geral e a felicidade dos outros podem contribuir com o nosso próprio bem estar, mas isso não pode ser colocado acima da nossa própria existência e nem pode subordinar a nossa felicidade às necessidades alheias.
O benefício que todos queremos deve ser proporcionado através da criação de valor e da troca voluntária desses valores para mútuo benefício. Sim, é verdade que ás vezes o sorriso de uma criança pobre ao receber uma doação é enternecedor, cria um estado temporário de satisfação, mas para se dar algo é preciso que este algo seja criado, para se propiciar o bem para os outros o preço disso não pode ser o nosso próprio mal estar. Abnegação não é uma virtude e nunca foi capaz de criar valor e riqueza material, intelectual e espiritual como aquela criada através do auto interesse racional no qual cada um estabelece o seus propósitos, busca florescer como indivíduo e relacionar-se socialmente engajando-se em relações ganha-ganha, ou seja, relações cujo benefício é mútuo, de curto, médio e principalmente de longo prazo. Nesse caso, a felicidade e não o sacrifício será o motor para a prosperidade geral de forma que aqueles que viriam a precisar da caridade sejam realmente os vulneráveis por sua condição psico-motora e não por uma debilitante visão moral que prega que o sacrifício é virtuoso e o desejo de buscar a própria felicidade criando valor para os demais em trocas interessadas é imoral.
Sobre o governo distribuir riqueza coercitivamente, bem, nem é necessário comentar porque como liberal, usar a força contra inocentes é um crime e uma imoralidade, principalmente vindo de uma instituição que deveria evitar que isso pudesse acontecer ou reagir contra aqueles que praticam tal violência. A propósito, eu doo dinheiro e tempo para ajudar aqueles que precisam da minha ajuda, sem sacrifícios.

BRIZOLA, UM COMUNISTA INTERNACIONAL.

Leonel Brizola incomodava tanto os generais do regime militar brasileiro que foi expulso até do Uruguai, onde estava exilado após o golpe de 1964. Ele foi um dos mais notórios políticos da história do Brasil. Nascido e radicado no Rio Grande do Sul, foi governador do estado por uma vez e do Rio de Janeiro por duas. 
De esquerda e ferrenho defensor do trabalhismo, tornou-se um dos maiores opositores do regime militar de 1964, inclusive antes mesmo dele existir. Quando o então presidente Jânio Quadros renunciou e o país passou por uma intensa crise política, Brizola liderou a Campanha da Legalidade, em 1961, que visava garantir que o vice, seu cunhado João Goulart, assumisse a presidência, frustrando os planos de muitos oficiais do exército.
Os esforços para evitar o golpe apenas o adiaram e, quando aconteceu, Brizola foi imediatamente considerado um dos maiores inimigos do novo regime. Assim, exilou-se no Uruguai logo em maio de 1964, de onde tentou comandar uma resistência armada em vez de se unir a outros dissidentes como Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e o próprio Jango na Frente Ampla, mas não obteve sucesso.
Manteve-se no Uruguai sob vigia da inteligência do governo militar brasileiro, que pressionava os vizinhos para que o deportassem. Ao final da década de 1970, quando os uruguaios passaram por um golpe de Estado que também inaugurou uma ditadura militar no país, Brizola recebeu uma carta dizendo que tinha cinco dias para sair. Na época, os órgãos repressores dos países latino-americanos colaboravam entre si para a perseguição de seus opositores na chamada Operação Condor.
Sem saída e assustado depois das mortes quase seguidas de Lacerda, JK e Jango, Brizola resolveu, em suas próprias palavras, testar a política de apoio aos direitos humanos do presidente Jimmy Carter, pedindo asilo político à embaixada dos EUA. Para sua surpresa, os norte-americanos atenderam seu pedido.
Havia um obstáculo, porém. Na época, não se tinha vôos do Uruguai para o país. Brizola teria que ir para o Brasil ou para a Argentina para pegar o avião ou, ao menos, fazer escala. Ele sabia que se colocasse os pés em qualquer um dos dois países, seria preso. Com ajuda da CIA, foi para Buenos Aires, onde passou uma noite num apartamento não marcado de posse da própria organização. De lá, rumou para Nova Iorque em vôo sem escalas.
Brizola passou, ainda, por Portugal antes de poder retornar ao Brasil em 1979, com a Lei de Anistia. TENTOU ROUBAR A LEGENDA DO PTB, mas criou o Partido Democrático Trabalhista, existente até hoje, e concorreu nas eleições presidenciais de 1989, terminando em terceiro lugar. Foi candidato a vice de Luís Inácio Lula da Silva em 1998, mas também saiu derrotado. Morreu em 2004 no Rio de Janeiro, vítima de infarto.

Investidor paga para emprestar ao governo

Hoje, um título público alemão, com vencimento daqui a 10 anos, está pagando juros de -0,51% ao ano. Isso mesmo, juro negativo.
Já um título público suíço, também de 10 anos, está ainda mais negativo: paga -0,75% ao ano.
Ou seja, hoje, um investidor tem de *pagar para emprestar* dinheiro por dez anos para estes governos.
A título de ilustração, quem emprestar hoje 1.000 francos suíços para o governo da Suíça receberá de volta, daqui a 10 anos, 927 francos suíços.
Quem emprestar 1.000 euros para o governo da Alemanha receberá de volta, daqui a 10 anos, 950 euros.
E isso não vale só para estes dois governos. Um investidor também tem de *pagar* para emprestar dinheiro por dez anos para os governos da Dinamarca, da Holanda, da Áustria, da Finlândia, da França e da Bélgica.
Quem emprestar para o governo da Suécia não pagará nada, mas também não receberá nada a mais após 10 anos.
Já quem emprestar para os governos de Espanha e Portugal receberá juros de 0,41% e 0,48% ao ano, respectivamente. Ou seja, se você emprestar 1.000 euros para o governo espanhol, receberá daqui a 10 anos a impressionante soma de 1.041,76 euros. E isso desconsiderando o imposto de renda.
Para prazos menores que 10 anos, o número de países com juros negativos em seus títulos públicos passa a incluir Suécia, Irlanda, Espanha (!), Portugal (!!) e Itália (!!!). Portugal e Espanha pagam juros negativos até os títulos de 5 anos de prazo. A Itália, até os de 1 ano.
Já o governo da Alemanha, por outro lado, paga juros negativos até os títulos de 15 anos de prazo.
Mas ninguém supera o governo da Dinamarca, que está prestes a bater um recorde bizarro: falta 0,01 ponto percentual para ele se tornar o primeiro governo do mundo a usufruir juros negativos em todos os seus títulos públicos.
Sobre isso, eis uma estatística espantosa: o volume de dinheiro aplicado em títulos públicos com juros negativos atingiu um recorde histórico: há simplesmente 17 trilhões de dólares aplicados nestes títulos, segundo o jornal “Financial Times”.
Tal idéia seria completamente inconcebível no mundo anterior à crise financeira de 2008. Mas aquele era outro mundo. Hoje, como consequência de todos os programas de “afrouxamento quantitativo” realizado pelo Banco Central Europeu, a prática de pagar para emprestar dinheiro ao governo já se tornou norma na Europa.
O que leva à pergunta é inevitável: por que, afinal, alguém aceitaria *pagar* para que o governo pegasse seu dinheiro emprestado? Tal prática não vai contra toda a lógica financeira e, até mesmo, da preferência temporal?
A realidade espantosa, no entanto, é que tal prática faz total sentido no mundo atual.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

A Superclasse que domina o Mundo explicada em Dez Pontos


Michel Geoffroy, colaborador regular de Polémia, publicou recentemente La Super-classe contre les peuples. Esta obra, com prefácio de Jean-Yves Le Gallou, trata de desmascarar aqueles que detêm o poder no mundo moderno. Ao desvendar de forma magistral a superclasse mundial, Michel Geoffroy estabelece as bases para cometimento fundamental: a reconquista de nossa liberdade. No texto a seguir, Michel Geoffroy, decisivo apoiador de Polémia, anatomiza em dez partes a superclasse mundial, que é capaz de tudo para a dominação do mundo.
 – 
Polémia.

1

A superclasse mundial (SM) não é um simulacro: ela existe realmente e tomou o poder no Ocidente, principalmente na Europa Ocidental.
Ela é proprietária da mídia, ela financia o microcosmo cultural, as ongues e os grupos de pressão e ela impõe uma política que vai de encontro à vontade do eleitorado em toda parte. Na França, ela conseguiu eleger o seu candidato na eleição presidencial de 2017: Emmanuel Macron.

2

A SM corresponde à dominação sem limites da economia e das finanças, prevalecente contra a sociedade e a soberania política desde o fim do século XX. A SM reúne os super-ricos desejosos de acumular ainda mais riqueza, graças à desregulamentação econômica e financeira, graças também às mudanças das leis fiscais, conforme o interesse deles, e graças, enfim, ao “socialismo dos ricos, consistente em sobrecarregar a sociedade com os custos do livre-cambismo, enquanto a oligarquia reserva os benefícios dele exclusivamente para si.
A SM encarna o vale-tudo sob a lei do dinheiro, daí a redução dos homens à condição de simples recurso ao dispor dos mais ricos.
Por tal razão a SM não poderia tomar um contravapor sem que fossem regulamentadas a economia e as finanças mundiais.

3

A SM representa também o reavivamento de antiga escatologia: a pretensão herética da construção do paraíso na Terra e da unificação da espécie humana, sem esperar a vinda ou o retorno do Messias, pretensão que foi retomada pelo messianismo protestante e sua crença no “destino manifesto” dos anglo-saxões. Essa escatologia é a base do projeto cosmopolítico ou mundialista da SM, que se quer eleita para cumprir tal desideratum. Tal projeto consiste numa cabala contra a liberdade, a soberania e a humanidade do homem. Assim é porque, na verdade, o governo mundial não abriria nenhuma via para a “democracia planetária” mas, ao contrário, seguiria no rumo para a ditadura mundial da oligarquia. Quando acusa os outros de conspiracionismo, o que a SM faz é, na verdade, uma inversão acusatória.

4

A SM é uma classe social: trata-se de uma oligarquia transnacional com grupos mais identificados com outros grupos dela mesma do que com suas populações de origem. Essa classe acredita-se suficientemente esclarecida para promover o bem dos povos, apesar deles mesmos. Ela corresponde ao partido de Davos: aquele que se reúne todos os anos no Fórum Econômico Mundial de Davos. Seus membros compartem uma mesma visão liberal,  libertária e cosmopolítica, a qual impõem aos governos.

5

A SM tomou o poder no Ocidente devido à conjunção de três mudanças históricas da maior importância no século XX, quais sejam a emergência da superpotência anglo-saxã, o fim do socialismo e do comunismo e, por fim, a globalização econômica. Com o fim do socialismo e do comunismo, os super-ricos sentiram-se muito aliviados, pois não mais temeriam a ameaça de uma revolução no Ocidente contra os seus privilégios e interesses:  por meio da imigração, das deslocalizações e, logo mais, da inteligência artificial, eles pensam dispor dos meios para substituir os povos, livrando-se da dependência deles. E a globalização fez das grandes empresas transnacionais organizações com mais poder do que muitos Estados, estes cada vez mais depauperados. Os milionários anglo-saxões sempre sonharam em governar o mundo. No fim do século XX, eles julgaram  possível transformar o sonho em realidade.

6

A SM opera mediante a sinergia de quatro círculos ou engrenagens: o círculo da riqueza financeira e econômica transnacional, o círculo da mídia e da cultura, o círculo das organizações não governamentais e da sociedade civil, além, por último, do círculo das elites públicas. A engrenagem da riqueza financeira e econômica transnacional é aquela com mais concentração de poder e opacidade: ela dirige, influencia e venaliza todas as outras. Essa primeira engrenagem abarca alguns milhares de indivíduos, enquanto as outras engrenagens ocupam muito mais gente, até porque reúnem os inocentes úteis.
Eis por que a superclasse assenta-se sobre poder impessoal, desencarnado, colegial e daí elusivo (por oposição ao tradicional caráter encarnado do poder na Europa).

7

A SM é uma oligarquia, não é uma elite: ela prefere sempre se valer da influência de outros a se engajar ela mesma de forma pessoal e direta. Por isso sua atividade e seu projeto podem ser assimilados a uma conspiração, pois ela não aceita submetê-los ao veredicto democrático: ao contrário, ela busca impô-los, sub-repticiamente, como coisa inevitável. Em vista disso, ela se tornou reitora do poder midiático no Ocidente, o qual serve para manter a população distraída, para difundir a ideologia liberal, libertária e cosmopolita e para demonizar todos que resistem ao projeto da SM.

8

A SM executa o seu projeto e a sua agenda conforme a dialética do caos e do controle. Ela semeia o caos de tudo quanto é lado, a fim de destruir a resistência psicológica e a homogeneidade dos povos: essa, a função principal que atribuiu à farra migratória na Europa. Nesse mesmo sentido opera o caos econômico decorrente da desregulamentação sistemática, a qual lança os povos na insegurança econômica e social crescente. Paralelamente, lança mão do caos moral para desestruturar as personalidades. Finalmente, a SM não tem preconceito contra a guerra como meio de geração do caos.
Instalado o caos, ele serve de pretexto para a imposição do controle: a SM substitui a soberania nacional pelo controle da população, o que corresponde à instauração da pós-democracia no Ocidente. A pós-democracia exemplifica o caráter totalitário do governo mundial que a SM busca estabelecer em seu benefício: um sistema no qual os povos veem-se privados do poder para mudar de política, um sistema no qual os juízes colocam-se acima dos legisladores e do qual a União Europeia é o laboratório.

9

A ideologia liberal-libertária e cosmopolítica foi o principal vetor da instauração do caos para proveito da SM no Ocidente. Assim foi porque ela contribuiu para destruir toda a regulamentação que embaraçava a instituição do reino do dinheiro. E também porque ela concorreu para difundir um individualismo radical, que destrói toda ordem social e que abre caminho para a mercantilização do mundo e, enfim, do próprio homem.
Entretanto, a prática da SM leva a marca permanente da duplicidade: no seu comportamento interno, ela faz tudo ao contrário da doxa liberal-libertária que  preconiza para o resto da população: ela é hierárquica, patriarcal e aspira ao monopólio, ao poder opaco e ao controle, não à liberdade, à transparência e à concorrência.

10

A SM conseguiu fazer da Europa a sua serva e enriqueceu extraordinariamente. Não obstante, ela não conseguirá dominar o mundo no século XXI. A SM não é, pois, onipotente: de fato, o mundo está escapando dos mundialistas, particularmente porque o núcleo duro da SM, ou seja, os países anglo-saxões, está em declínio, e porque o mundo está se tornando multipolar. A ideologia da SM encontra resistência em todo lugar e mesmo na Europa depara-se-lhe oposição cada vez mais forte. A oligarquia sabe disso e  não descarta a guerra mundial para manter o seu poder, custe o que custar. Também por isso os europeus devem se libertar da tutela da SM, que só pode levá-los à sua própria destruição. Então estarão livres para transformar a Europa num polo de poder autônomo.
Publicado originalmente em 30/3/2019.
Tradução: Chauke Stephan Filho.

A Indispensável Política da Ação

São várias as máximas retóricas entranhadas no debate público nacional mediante a aferição inconsciente da disputa democrática pelo poder. Indubitavelmente, uma das mais evidentes e contraditórias, consiste em afirmar que “não devemos combater pessoas, mas sim, ideias”. Tão repetida é esta frase, que pouco paramos para indagar-nos acerca de sua inconsistência estrutural: no âmbito da política real, quem quer de detenha o poder e use dele para promover a agenda que for, não a executa mediante a imposição de ideias, mas na concretude da ação humana. 
Diante da observação sincera da realidade, para além de máximas retóricas e lugares comuns, deriva a invariável conclusão de que ideias não exercem poder social, quem o faz são indivíduos humanos, pautados por valores transcendentes ou não. A disputa pelo poder, portanto, não consiste jamais em reivindicar valor sobre o próprio discurso, mas na troca de cargos, na retirada de indivíduos de determinadas ocupações e posterior substituição. Logo, aferir que a finalidade da atividade política consistem em “combater ideias e não pessoas”, não passa de empulhação.
Reduzir o exercício político ao debate democrático – função a qual, ninguém necessita de cargo eletivo para empreender – sintetiza o anseio de todos aqueles privilegiados pelo ‘status quo’, perfeitamente satisfeitos com as atuais estruturas de poder vigentes e desinteressados na real subversão dos paradigmas. Enquanto ideias abstratas não forem responsáveis pela estrondosa taxa de homicídios do Brasil, pela degeneração dos valores cívicos, pelo desmonte da estrutura do Estado, pelo fomento de valores anti-povo, sugerir a redução do confronto político à mera discussão polida de ideias é um escárnio. Nossa luta não é contra valores abstratos e ideais transcendentes, mas contra agentes reais, que lideram massas, determinam rumos e governam.
Dada a atual conjuntura do Brasil, o ativismo não pode se restringir tão somente à contraposição de ideias. Diante do intolerável, da guerra declarada contra o bem, o ético e o moral, há que se responder com a oposição direta e frontal, se necessário, com a violência. Não mais se trata de divergência de opiniões, o tempo para a argumentação findou-se! Trata-se agora de expor ao mundo os seus crimes; os crimes dos globalistas, em guerra contra os valores fundamentais da civilização; os crimes da esquerda que se apossou do estamento nacional por décadas, usurpando a legitimidade das eleições em prol do financiamento de ditaduras comunistas latino-americanas; os crimes da direita travestida de um nacionalismo fajuto e insustentável diante da finança internacional e dos banqueiros; os crimes éticos dos movimentos ditos “sociais”, que se infiltram na educação pública investindo na promoção de seus valores depravados, degenerados, pútridos! 
Demanda-se a compreensão de que a integração no sistema vigente implica subordinação ao sistema, a antítese consiste exatamente na devida intransigência moral no exercício da atuação pública, sobretudo na política. Ademais: não pode-se tolerar uma disputa dentro das normas frias do estamento contra aqueles que estão dispostos a negá-lo e reescrevê-lo segundo a sua própria arbitrariedade. Não existe a possibilidade de se estabelecer um diálogo na chancela daqueles dispostos a saquear o sistema, a empreender um silenciamento sistemático da oposição, a redigir campanhas de assassinatos de reputação em masa as quais adquirem fé pública não pela qualidade, mas pela pela intensa quantidade. Há que se rechaçar os valores liberais da primazia pelo debate aristotélico e partir para uma política da prática, de ordem normativa e prescritiva, que efetive a validação e a vigência dos valores sociais do povo.
Eduardo Salvati

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

"Por que os jovens ignoram a história e insistem em ser de esquerda"

"Quase trinta anos após a queda da União Soviética, após a abertura da China e, mais recentemente, o agravamento da crise na Venezuela, a esquerda ainda levanta bandeiras como maior controle governamental, prevalência do Estado sobre o mercado e outras medidas que causaram a ruína de países socialistas no último século. E os jovens ainda são atraídos por ideologias de esquerda – não importa o quão falhas elas tenham se mostrado ao longo da história.
Um estudo recente da Pew Research Center indica que a maioria dos adolescentes e jovens da Geração Z têm convicções de esquerda e acreditam em um Estado maior. A Geração Z engloba os jovens nascidos após 1996, que estão se aproximando ou entrando na vida adulta. Em 2020 boa parte deles irá votar, o que significa que suas ideologias políticas poderão contribuir para o cenário político."
Observamos muito os nascidos a partir da década de 80/90, a geração Z, mas esse modelo de formação esquerdista já existia nos anos 60/70 e por nada não temos escolas e universidades repletos de pessoas dessa geração formando jovens como novos esquerdistas, perpetuando a formação e a luta da esquerda dentro da sociedade, se renovando dia a dia.
"No Brasil, os últimos anos mostraram crescimento da parcela que se posiciona com ideologias da esquerda. Pesquisa do Datafolha divulgada em 2017 apontava que 41% da população se identificava com posicionamentos de esquerda. O levantamento avaliou as opiniões dos brasileiros sobre uma série de questões envolvendo valores sociais, políticos, culturais e econômicos e a partir daí os posicionou em escalas de comportamento e pensamento econômico, dentro das quais eles foram segmentados em esquerda, centro-esquerda, centro, direita e centro-direita.
A identificação com a esquerda também pode estar relacionada ao comportamento, e não à economia, indica a mesma pesquisa: entre 2013 e 2017 houve aumento na parcela de pessoas que acreditam que “boa parte da pobreza está ligada à falta de oportunidades iguais para que todos possam subir na vida”, enquanto a avaliação de que a “homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade” passou de 64% para 74% no período, opiniões identificadas com ideologias de esquerda.
Por outro lado, o percentual daqueles que se identificam como “esquerda” é muito maior entre professores de História. Uma dupla de pesquisadores realizou um levantamento com 288 professores de História de países do Mercosul – Brasil, Argentina Uruguai e Paraguai – mais o Chile. Uma das perguntas do questionário foi em qual partido os docentes costumam votar nas eleições. Ao todo, 84,5% dos professores brasileiros disseram preferir siglas de esquerda ou centro-esquerda. Já centro, centro-direita e direita, somados, corresponderam a 15,5% dos entrevistados."
"Para Tom Switzer, diretor executivo do Center for Independent Studies em Sidney (Austrália), uma das causas principais para a atração dos jovens pela esquerda é o desconhecimento.
“Parte do problema é simplesmente ignorância. Apenas 26% dos millennials estão familiarizados com Vladimir Lenin e 34% com Joseph Stalin. Apenas 21% dos entrevistados disseram que sabiam quem era Mao. Não importa que esses homens tenham sido responsáveis pela morte de dezenas de milhões e pelo empobrecimento de centenas de milhões”, diz Switzer.
“Eles deveriam pelo menos saber sobre a Venezuela, onde o regime socialista nas últimas duas décadas levou à repressão, uma economia em queda livre, doença generalizada e fome e emigração em massa”, completa.
Ainda de acordo com a pesquisa do CIS, 58% dos jovens australianos têm uma visão favorável do socialismo, com apenas 18% deles tendo uma visão desfavorável. A pesquisa revela que a exposição limitada dos jovens australianos aos horrores do socialismo pode estar levando-os a romantizar a ideologia: quase dois terços dos jovens entrevistados acredita que o capitalismo falhou e que mais intervenção do governo é necessária.
“Os experimentos fracassados do século XX com o socialismo servem como uma grande lição que, apesar de suas promessas idealistas de igualdade, a ideologia levou a nada além de opressão e pobreza. No entanto, os millennials australianos permaneceram relativamente não afetados pelas deficiências do socialismo”, diz Switzer.
A opinião é compartilhada por Jean-Marie Lambert, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Liège e professor emérito da PUC-Goiás. Para Lambert, o sistema universitário está formando gerações incapazes de compreender o que é socialismo e com ausência de capacidade crítica.
“Em uma universidade você precisa repetir comandos para ser aceito: minorias, feminismo, misoginia... Em geral, não há capacidade de recuo crítico, tampouco de análise filosófica.  Então fica fácil manobrá-los para votarem em candidatos de esquerda”, diz.
“Estamos vivendo, desde então, uma ‘colonização educacional’. Esses quadros ideológicos, os chamados progressistas, nascem basicamente no sistema universitário americano, para propagação periférica. São gerações que são formadas nessa ideologia progressista e hoje estamos colhendo os frutos dessa política educacional”, crítica o professor.
Contradições
Por outro lado, um levantamento da Gallup, empresa de pesquisa de opinião nos Estados Unidos, mostra que os jovens têm visões que na prática contradizem a crença no socialismo. Segundo a pesquisa, 90% dos jovens entre 18 e 29 anos tem uma visão positiva dos empreendedores, e 98% veem positivamente as pequenas empresas.
“Jovens de vinte e poucos anos não querem que o governo administre pizzarias, mas querem mais controle governamental sobre alguns setores da economia”, escreveu recentemente Edward L. Glaeser, professor de economia na Universidade de Harvard.
Segundo ele, para evitar que os jovens caiam no socialismo de fato, é necessário fortalecer o empreendedorismo e melhorar as oportunidades de ascensão social dos jovens: “Por mais imperfeito que seja o livre mercado, o histórico moral e econômico das economias dominadas pelo Estado é muito pior”.

domingo, 15 de setembro de 2019

A Judaização do protestantismo

Coisa que muito chama a atenção atualmente é a progressiva “judaização” do protestantismo pentecostal. Como quase tudo nessa estranha religião, trata-se de um fenômeno importado de sua matriz cultural, o protestantismo pentecostal americano. Mas mesmo aqui — ou talvez até especialmente aqui — o fenômeno é facilmente perceptível. Do apoio incondicional à extrema-direita israelense ao uso e abuso de parafernália judaica (solidéus, xales de oração e mesmo a barba gigante que ora esconde as fauces de Edir Macedo, passando por candelabros de sete braços sobre o “altar”, o sopro de berrantes de chifre de cordeiro e o que mais vier) nos cultos, o protestantismo parece interessado em tornar-se uma versão facilitada do judaísmo rabínico para uso do gentio.
De onde vem este fenômeno? Por que a esta altura do campeonato o protestantismo pentecostal foi-se encontrar na sinagoga? A razão principal, creio eu, está na similar ausência do divino. O judaísmo antigo, o judaísmo do tempo do Cristo, tinha no Templo e em seus sacrifícios o seu centro. Em outras palavras, era-se judeu por levar animais para serem sacrificados no Templo, e levavam-se animais ao Templo por se ser judeu. O judaísmo era inseparável do Templo; tudo o mais da Lei de Moisés era perfeitamente discutível, se não na sua essência (guardar o sétimo dia, por exemplo) mas, pelo menos, no seu modo (o que significava então para cada agrupamento religioso judaico — fariseus, saduceus, essênios, etc. — guardar o sábado? O que se era obrigado a fazer, e o que se era proibido de fazer?).
Depois da Encarnação do Verbo e de Seu sacrifício salvífico, todavia, o Templo tornou-se desnecessário, e Deus permitiu que os romanos o destruíssem. Com isso, o judaísmo perdeu seu centro e foi obrigado a reinventar-se como religião, a dar-se outro centro que não aquele que o havia movido por séculos. Das várias reinvenções, as que tiveram mais sucesso foram a cristã — que trazia e traz em si a mensagem central de o Templo ser desnecessário por o sacrifício não-salvífico de animais ter sido substituído pelo sacrifício incruento de Nosso Senhor Jesus Cristo na liturgia dominical — e a farisaica, que levou à construção, ao longo dos séculos, do judaísmo rabínico. Assim como substituímos o Templo que não salva pela Missa que salva, no lugar do Templo, para os fariseus e seus descendentes espirituais, passou a estar a sinagoga.
É como se a igreja fosse destruída mas a sala de catequese não. O rabinato, que no passar dos séculos acabou também perdendo a sua “sucessão apostólica”, não havendo hoje mais rabinos que possam afirmar-se possuidores de um título (ainda que apenas) de professor objetivamente transmitido através das gerações, tomou o lugar do sacerdócio. O descendente de Aarão, na liturgia sinagogal, vê-se restrito a alguns poucos atos que reafirmem a sua dignidade sacerdotal, mormente a bênção. Não há muito mais que a memória, na verdade; trata-se de uma religião da memória, de uma religião que tem por mandamentos cumpríveis os rituais da igreja domiciliar e a reunião dos homens adultos para uma oração desprovida de valor salvífico; o sacrifício do Templo, por menos valor que tivesse, estava ainda anos-luz além do que hoje se tem na vida religiosa judaica, em termos de transcendentalidade.
Enquanto isso, na Igreja, persiste o sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque, com pleno valor salvífico e uma hierarquia completa, que pode tanto afirmar a veracidade de uma afirmação de Fé ou Moral quanto manter e ordenar toda uma hierarquia territorial que se expandiu na medida em que cresceu o mundo conhecido. Temos Bispos, temos padres, e, principalmente, temos a Real Presença de Deus Nosso Senhor no Seu Santíssimo Sacramento. Qualquer católico em qualquer lugar ou momento nestes quase dois mil anos sabe onde está Deus. Qualquer católico pode e deve colocar-se em oração e adoração diante do próprio Cristo, que não é um símbolo. Simbólico era, no judaísmo antigo, o Santos dos Santos do Templo, sempre completamente vazio. Seu simbolismo era o de um Deus além, de um Deus invisível e impalpável, mas contudo presente ali.
A cortina do Santo dos Santos, contudo, com mais de 30cm de espessura, rasgou-se de alto abaixo quando do sacrifício do Deus feito homem, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. E este mesmo sacrifício continua presente de forma incruenta sobre nossos altares. Na sinagoga, contudo, o sacrifício — qualquer sacrifício — está ausente. Não há mais sequer a lembrança do Santo dos Santos, sobre o qual está hoje provavelmente uma mesquita muçulmana. O mesmo que ocorre na sinagoga, contudo, a mesma ausência, é o que salta aos olhos no protestantismo pentecostal, filho bastardo da neo-sinagoga de Calvino.
Enquanto nós continuamos tendo a Real Presença de Nosso Senhor entre nós, os protestantes não têm nada: nem a Igreja — Seu Corpo Místico, como nos ensina São Paulo — substituída por miríades de agrupamentos a modo sinagogal, e plenamente humanos, nem o Santo Sacrifício da Missa, nem o sacrário em que Deus repousa, oculto mas realmente presente. O resultado é o que Harold Bloom aponta como uma fixação no curto período de tempo em que o Ressuscitado estava na terra, andando entre os discípulos, mas sem que houvesse ainda Sua Igreja ou mesmo Sua Ascensão. Paradoxalmente, o protestantismo pentecostal coloca-se de fato numa simulação da Igreja pré-pentecostal, da Igreja em que a Presença do Senhor operava-se de modo miraculoso, mas não costumeiro. Eles não têm, não aceitam ter, a Igreja em toda a sua glória. Não têm, nem aceitam ter, a unidade doutrinal, sacramental e hierárquica que advém justamente de Pentecostes. Eles choram a Ascensão, que percebem como abandono por parte de Deus. Após a Ascensão, na visão deles, não haveria mais o Cristo entre nós. Eles não O veem, e por não O verem tornam-se incapazes de amá-l’O.
O que eles têm, na prática, são grupos de pessoas que se reúnem para exercitar uma mera oralidade: leitura da bíblia, sermões, cantorias… Tudo ali é a mera fala humana, que toma o papel central que no cristianismo pertence de direito não à fala humana, mas ao Verbo divino. Sem o Verbo realmente presente, sobra um vazio tremendo; fala-se muito d’Ele, mas Ele não está ali. É como uma festa cujo convidado especial, cujo homenageado, está ausente. Não há Jesus, por mais que se olhe em todas as direções.
E é isso que leva, por um lado, ao profundo imanentismo que caracteriza essas denominações religiosas — culto da prosperidade em tal dia da semana, culto da cura em tal outro, etc. — e, por outro, à sacralização do que não é sagrado, numa espécie de imanentização do escatológico que se opera principalmente pelo culto à Israel segundo à carne, ao povo judeu igualmente afastado de seu Templo, igualmente vendo-se dia após dia em reunião, a cantar “no ano que vem em Jerusalém”, mas sem ter absolutamente nada que vá além daquilo, do meramente imanente. É neste horizonte imanentista que a “ressurreição” de um Israel imanente, geopolítico e completamente carnal, torna-se motivo de esperanças escatológicas.
Para o povo judeu — Israel segundo a carne — o ressurgimento de um Estado de Israel é indubitavelmente fonte de esperanças apocalípticas. Esperam eles que do Estado se passe ao principal: a retomada dos sacrifícios de animais num Templo reconstruído. Ora, sabemos hoje que se foi pela vontade de Deus que o Templo fosse destruído, não há motivo para que ele seja reconstruído. Ao contrário, até: seria a abominação da desolação de que nos fala o profeta. Mas o protestantismo pentecostal, de tão afastado e tão perdido em relação ao Mistério sacral do Cristo, mesmo a retomada dos sacrifícios da Antiga Aliança parece boa coisa.
A identificação com Israel que havia entre os antepassados doutrinais do protestantismo pentecostal — os puritanos, que se percebiam como a verdadeira Israel e identificavam suas perseguições nas mãos dos episcopais ingleses com o exílio egípcio do povo judeu, relendo assim sua migração para os futuros Estados Unidos como uma libertação mosaica — foi substituída no pentecostalismo moderno por outra teoria, tão delirante quanto, segundo a qual haveria várias “dispensações” da graça divina, com a religião mosaica coexistindo com a cristã. O papel principal do judaísmo nesta teologia de araque, contudo, seria o de reocupação da terra que foi do povo de Israel antigo, que então entraria numa guerra com os vizinhos islâmicos, guerra essa identificada com a guerra de Gog e Magog, após a qual viria a “dispensação” final, com o retorno glorioso de Nosso Senhor e a conversão dos judeus.
Estes, evidentemente, não acham muito agradável esta parte da suposta profecia que guia os passos do pentecostalismo. Mas enquanto isso não ocorre, pensam, é bom ter como aliados uma força política que, nos EUA, compõe enorme parcela do eleitorado do partido mais à direita, o Republicano. No Brasil, contudo, com a parcela “evangélica” — leia-se protestante pentecostal à moda americana — do eleitorado tendo subido ao poder com Bolsonaro, corremos o sério risco de termos uma política exterior que simplesmente macaqueie a da direita americana. A mudança da embaixada do Brasil junto a Israel para Jerusalém, a sede efetiva do governo, não é por este eleitorado percebida como a simples questão de praticidade e bom senso que é, sim como uma espécie de reconhecimento por parte do governo brasileiro de um papel escatológico que a teologia neopentecostal deseja atribuir a Israel e, claro, a Jerusalém. A negação da Jerusalém celeste, a cegueira à liturgia eterna que nela se desenrola, leva à escatologização da Jerusalém imanente.
É a ausência real do Cristo que conduz a este estado de coisas. Tudo ganha valor escatológico, do emprego que se procura à cura que não se obtém, do iogurte fabricado por outros “crentes” à expansão das franquias desta ou daquela seita; ao mesmo tempo, nega-se o valor religioso do próprio cristianismo, reduzido pela ausência do Cristo nas seitas a uma simples verborragia a modo sinagogal, sem sacrifício, abandonado pelo Messias quando de Sua Ascensão. A Ascensão torna-se momento em tudo semelhante à destruição do Templo judaico que a sucedeu: é o vazio, é a ausência que define o momento em que estamos, para eles, em que há já séculos que o Cristo está distante, tão distante quanto Deus Pai estava no judaísmo do Templo, com seu Santo dos Santos vazio e impoluto.
Daí a identificação profunda entre o protestantismo pentecostal e a sinagoga. O “Espírito Santo” que veneram não é o de Pentecostes, que organiza e une perfeitamente a Igreja. É, ao contrário, um espírito de fração, um espírito de divisão que leva ao surgimento de miríades de portinhas, de seitas sem passado e sem futuro, que se mantém única e exclusivamente por um presente permanente de oralidade e imanentização do escatológico. “Religião” passa a ser o nome do falar-de-deus. “Graça”, ou mesmo “milagre”, a melhora de condições materiais ou de saúde, obtida pelas “orações fortes” do pastor rico. “Culto” é a cantoria, e o Cristo ausente só é percebido na histeria coletiva, nas melhoras de condições imanentes ou mesmo no falatório supostamente inspirado por Seu Espírito. Nada ali apresenta Deus. Nada ali conduz a algo mais alto. Nada ali existe senão como marca da ausência, como lembrança de um momento pré-Ascensão que não se viveu. Na prática, as denominações pentecostais são sinagogas. Não é de se estranhar que tenham se encontrado de maneira tão completa na negação de Cristo por parte de Israel segundo a carne: sem a Sua Real Presença, que diferença, afinal, haveria entre um e outro?
“Não há mais judeu nem grego” em Cristo. E sem o Cristo, o que mais pode haver senão um retorno às condições do judaísmo do Segundo Templo, com sua hierarquia de judeus, prosélitos e gentio que segue a Lei mosaica? É esta a posição em que se colocam os protestantes pentecostais moderno. Eles se identificam não com os apóstolos, mas com os prosélitos e com o gentio que seguia a Lei mosaica sem dar o passo final da conversão. Israel segundo a carne, para eles, está ainda na frente, e elas meramente a seguem. Afinal, percebem-se abandonados pelo Cristo na Ascensão, e mais ainda fraturados por um Pentecostes que, ao invés de unir, espalha.
Daí os nomes vetero-testamentários que dão aos filhos, daí a parafernália judaica de seus cultos, daí o apoio incondicional deles ao Estado de Israel, daí os termos em hebraico com que salpicam sua “teologia”. Na ausência percebida do Cristo, o que lhes parece fazer mais sentido é unir-se a quem tem na Sua negação a base da religião. Seu sonho seria desfazer a Ascensão, amarrar o Cristo na terra e dar-Lhe um trono de ouro para que o escatológico pudesse ser completamente imanentizado. Como isso não ocorre, contentam-se, então, com uma falsa religião sinagogal em que Deus e Mammon se confundem e Israel segundo a carne toma o lugar da Israel do Espírito.
Carlos Ramalhete

sábado, 14 de setembro de 2019

AS PREVISÕES PARA O FUTURO DE AUDOUS HUXLEY, AUTOR DE ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

O início do século passado foi marcado por valiosas descobertas científicas que fizeram o mundo dar um grande salto em poucas décadas. Se em 1899 ainda não  havia anestesia, 11 anos depois os cientistas relacionavam os cromossomos à hereditariedade – fato que reforçou a possibilidade de se produzir uma “raça pura e perfeita”. Essa espantosa evolução serviu de matéria- prima para o inglês Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, de 1932.
O livro traça uma perspectiva futurista sombria de uma sociedade biologicamente programada. Para o escritor, o conceito de família se perderia, e as crianças nasceriam em laboratório, com futuro predestinado. Dependendo da classe genética, definia-se a função que teriam na sociedade.
Nada seria questionado. A programação biológica aboliria o livre-arbítrio. As possíveis inseguranças pessoais seriam resolvidas com uma droga, no livro chamada de Soma, uma espécie de Prozac sem efeito colateral. Mulheres deixariam de procriar da maneira natural, porque isso poderia gerar indivíduos imperfeitos. O mundo teria extrema ordem.
Huxley acertou que no futuro as crianças poderiam ser fabricadas, como acontece desde 1978, com os bebês de proveta. Só não imaginava que seria um recurso para casais com problemas de fertilidade.
Também não apostou que as informações genéticas fossem usadas para a descoberta preventiva de doenças. Apesar de o escritor não ter dado data específica para seu futuro idealizado, as benesses da ciência hoje foram mais positivas do que negativas para o homem. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

O Testamento Político de 1752 e os Judeus: “A Mais Perigosa das Seitas”


Os dois testamentos políticos de Frederico o Grande, documentos significativos – apresentações sistemáticas da doutrina política, que governantes da Brandemburgo–Prússia compuseram desde os dias do Grande Eleitor (aparentemente inspirado por Richelieu). Estes expõem não apenas muitas das doutrinas gerais de Frederico, mas também contém seus maiores e mais explícitos comentários e justificativas sobre os judeus, a respeito de sua política judaica. São, portanto, documentos essenciais para entender o pensamento do monarca.
No Testamento Político de 1752, os judeus são apresentados essencialmente como um problema econômico. Seus números na Prússia cresceram substancialmente seguindo a conquista da Silésia por Frederico nos anos 1740, que também aumentaram a fronteira do país com a Polônia, onde os judeus tiveram um papel econômico importante. Sob o cabeçalho, “Regras de Comércio e Manufatura”, Frederico escreve da necessidade da política industrial, manufatura local e tarifas. Nesse contexto, ele diz sobre os judeus:
“Deve-se vigiar os judeus e preveni-los de se envolver no comércio atacadista, prevenir seus números de crescer e, nas fraudes que eles fazem, privá-los do direito a residência, pois nada é mais contrário ao comércio dos mercadores que o comércio ilegal feito pelos judeus.” [1]
Frederico, um deísta, foi essencialmente desdenhoso de todas as histórias e organizações tradicionais religiosas. Sob o título “Eclesiásticos e Religiões”, ele defende a tolerância religiosa ao invés de fanatismo, assegurando a paz civil e prosperidade para “católicos, luteranos, reformistas, judeus e muitas outras seitas cristãs”. [2]
Frederico era apreciador da música, poesia e filosofia. Para o escritor Tom Goeller uma coisa é certa: Frederico, o Grande foi um rei excepcional. Já o historiador Jürgen Luh afirma que Frederico foi realmente um “grande”, alguém acima da média em todas as áreas. Imagem: DW.
Tudo que foi dito, Frederico observa que os judeus são, não obstante “a mais perigosa das seitas” devido a suas práticas econômicas:
“Os judeus são a mais perigosa das seitas, porque prejudicam o comércio cristão e são inúteis ao Estado. Precisamos dessa nação para algum comércio com a Polônia, mas deve-se prevenir seus números de aumentar e fixá-los, não em um certo número de famílias, mas um certo número de cabeças, e restringir seu comercio e preveni-los da venda por ataco, de modo que sejam apenas varejistas.” [3]
Frederico, contudo, opôs os judeus não apenas em campos religiosos, mas porque pensou que eles eram propensos a fraude, prejudicial a outros negócios e inúteis ao Estado, exceto em permitir o comércio com a Polônia subdesenvolvida. Frederico argumenta que a política judaica seja estritamente motivada em áreas econômicas ao invés de áreas religiosas ou raciais: medidas práticas incluíram ambas política econômica (mantendo os judeus fora do atacado) e uma politica populacional voluntarista destinada a limitar os números judaicos (contagem per capita, não apenas contagem familiar), mas também incluindo deportação forçada daqueles considerados culpados em fraude.

O Testamento Político de 1768 e os Judeus: Contra Usura e Fraude

O Testamento Político de Frederico de 1768 ainda antecede a primeira partição da Polônia, durante o qual a população judaica da Prússia cresceria com as anexações do território polonês. Não obstante, esse Testamento também dedica atenção significante aos judeus, essencialmente apresentados como um problema econômico. Os judeus são novamente denunciados, desta vez não apenas por fraude, mas também por usura. Consequentemente, sob o título “No Banco”, lidando com empréstimos, Frederico elogia “os lombardos estabelecidos nas grandes cidades, que emprestam dinheiro para a manufatura e outros trabalhos a juros baixos, para prevenir os judeus de aniquilar os povos através da usura”. [4]
Divisão administrativa dos territórios poloneses após as partições no final do século XVIII pelo Império Austríaco, o Reino da Prússia e o Império Russo, no período 1772-1918. Mapa: Halibutt/Wikipedia
Sob o título de “Visões pelo Futuro”, Frederico expõe a necessidade de desenvolver o país, sua agricultura, cidades e indústria. Novamente, Frederico observa a utilidade dos judeus para o comércio com a Polônia, mas de outra forma acha-os prejudicais:
“Temos muitos judeus nas cidades. Precisamos de alguns na fronteira com a Polônia, porque naquele país há apenas comerciantes hebreus. Se uma cidade não é tão próxima a Polônia, os judeus tornam-se prejudiciais por sua usura, pelo contrabando entre eles e pela fraude realizado em detrimento da burguesia e comerciantes cristãos. Eu não persegui o povo desta seita; mas acredito que é prudente assegurar que seus números não cresçam muito.” [5]
Frederico menciona o judeu uma última vez sob o título “Na Política Geral”, carregado de aplicar ordem, segurança e boas maneiras. Ele escreve que a polícia deve, entre outros deveres, assegurar que “os judeus não conduzam grosseiramente sua usura.” [6]
A atitude básica de Frederico sobre os judeus, portanto, não mudou fundamentalmente entre 1752 e 1768. Afirmando não ser motivado por prejuízo religioso, razão puramente econômica e política, ele denuncia seu “aniquilamento de povos através da usura” e seus “mil golpes que giram em detrimento dos burgueses e comerciantes cristãos.” [7] Eles foram novamente uteis apenas na Polônia e seus números deveriam ser cuidadosamente limitados.

Conclusão: As Contradições da Política Judaica de Frederico o Grande

As atitudes e políticas de Frederico o Grande com respeito aos judeus foi livre de prejuízo religioso ou racial, animado pelo espírito do Iluminismo de tolerância para minorias religiosas. Em outras palavras, por causa dos valores do Iluminismo, ele estava naturalmente inclinado a um tipo de visão, a priori teórico ao judaísmo como merecedor de tolerância, assim como outras seitas religiosas. Contudo, em termos práticos, ele percebeu que o prejuízo que as práticas comerciais dos judeus causadas a população não judaica cujos interesses, depois de tudo, foi sua preocupação principal. E ele herdou um contraditório conjunto de políticas de seus predecessores que visava simultaneamente limitar a população judaica e os problemas econômicos associados a isso, enquanto economicamente lucrando de atividades lícitas ou ilícitas daquela população. A própria experiência de Frederico no governo e guerra o levou a essencialmente manter, racionalizar e, além disso, desenvolver estas políticas.
O próprio Frederico teve uma reputação liberal como um “déspota esclarecido”. O filósofo francês Jean le Rond d’Alembert escreveu a ele:
“(O imperador austríaco) está aparentemente garantindo liberdade de consciência e status de cidadãos aos judeus, que seus ancestrais os imperadores augustos teriam considerado como o maior crime. É você, majestade, cuja humanidade e filosofia devem agradecer o que todas as soberanias estão fazendo e farão para favorecer a tolerância e suprimir a superstição; porque é você (sua majestade) que lhes deu o primeiro grande exemplo.” [8]
De fato, as políticas de Frederico foram bastante restritivas no todo, mas sua declaração é sintomática do Iluminismo “secularizador” se distanciando da cidadania definida pela religião e em direção ao reconhecimento gradual dos judeus como cidadãos individuais, livres de qualquer lealdade de grupo ou preconceito étnico.
Adolph von Menzel (1815-1905) – Um concerto de flauta de Frederico, o Grande, em Sanssouci, 1852.
De fato, assimilação e perda de identidades e laços de grupo não aconteciam em nenhum nível da sociedade judaica, incluindo o movimento da Reforma do Judaísmo, e isso nunca foi pretendido por algum segmento significante da comunidade judaica. Os judeus calorosamente receberam o Iluminismo e “emancipação”, mas recusaram a aceitar a premissa do Iluminismo que os laços de grupo seriam rejeitados a favor de um individualismo completo. Como o historiador israelita Jacob Katz observou:
“O dilema da judiaria emancipada, e ultimamente a causa de seu trágico fim, foi enraizada não em uma ou outra ideologia, mas no fato que a emancipação judaica foi tacitamente amarrada a uma expectativa ilusória – o desaparecimento da comunidade judaica e de sua própria vontade. Quando isso falhou em acontecer e os judeus, apesar da emancipação e da aculturação, continuaram a ser visivelmente evidentes, uma certa inquietação, para não dizer um senso de sincero escândalo, foi experimentado pelos gentios… Se ganhar direitos civis significasse uma melhoria enorme nas perspectivas judaicas, ao mesmo tempo carregou-se um precário status mal definido que foi obrigado a induzir o antagonismo do mundo gentio.” [9] (Katz, 1983 pg. 43)
Escritores judeus neste período têm corretamente enfatizado a qualidade auto-contraditória e até mesmo derrotista da política de Frederico de aceitar os judeus por razões econômicas, mas procurando de outra forma limitar seus números e influência. Como o número de judeus ricos gradualmente aumentou, estes constantemente aumentaram a pressão sobre o governo para eliminar checagens contra eles, um padrão comum fortificante na história Ocidental. A Enciclopédia Judaica escreve:
“Durante todo o reinado de Frederico, os judeus da Prússia continuamente protestaram contra os éditos severos, mas sem muito sucesso. Em 1763, contudo, sucessão aos direitos dos Schutzjuden foi estendida a segundos filhos na condição de que estes assumissem a manufatura. Por este privilégio os judeus tiveram de pagar 70,000 talers. Para mais privilégios os judeus tiveram de comprar um número definido de pedaços de porcelana da fábrica real de porcelana.” [10]
A Livraria Judaica Virtual confirma essa tendência, também reforçada pela grande população judaica que a Prússia adquiriu conquistando partes da Polônia:
“Em Berlim, Breslau e Koenigsberg, os estratos superiores dos judeus, que eram ricos e influentes, deram os primeiros passos em direção a assimilação, adquirindo o General-Privilegium, que lhes concedeu os direitos de mercadores cristãos (tais como liberdade de movimento e assentamento). Através da Primeira Partição da Polônia(1772), a população judaica da Prússia quase dobrou, e Frederico temia, acima de tudo, um afluxo de judeus da província recentemente anexada da Prússia Ocidental.” [11]
Não é de admirar que a política de Frederico se provou insustentável e foi gradualmente desmontada por seus sucessores. A Livraria Judaica Virtual observa: “O neto de Frederico, Frederico William II (1786-97) inaugurou um período de liberalização e reforma na Prússia. Como príncipe da coroa, emprestou grandes somas de financistas judeus de Berlim.” [12] O círculo vicioso da emancipação judaica, o empoderamento econômico, político e cultural, o antissemitismo com certeza culminariam no conflito apocalíptico entre judeus e alemães na primeira metade do século vinte.
Tradução de Diego Sant’Anna
Edição, palavras em negrito e imagens como legendas: André Marques

Notas

[1] Nota do autor: Gustav Berthold Volz (ed.), Die Politischen Testamente Friedrich’s des Grossen (Berlim: Von Reimar Hobbing, 1920). Disponivel em: <http://www.archive.org/stream/diepolitischente00freduoft/diepolitischente00freduoft_djvu.txt>
[2] Nota do autor: Ibid. Frederico adicionou, duma forma típica para políticos do Iluminismo, que enquanto desprezava as religiões, deveria ser respeitoso em público:
“É indiferente na política se o soberano tem uma religião ou não. Todas as religiões, quando examinadas, baseiam-se em algum sistema fabuloso e mais ou menos absurdo. É impossível para um de bom senso entrar nesses assuntos e não testemunhar o terror; mas esses preconceitos, esses erros, essa maravilha são feitos para os homens, e é preciso saber respeitar o público para não os escandalizar em sua prática religiosa, seja qual for sua religião.”
[3] Nota do autor: Ibid.
[4] Nota do autor: Ibid.
[5] Nota do autor: Ibid.
[6] Nota do autor: Ibid.
[7] Nota do autor: Ibid.
[8] Nota do autor: Frederico, Œuvres, 25/214.
[9] Nota do autor: Misreading of anti-Semitism, de Jacob Katz, comentário 76, nº 1 (1983), páginas 39–44, 43.
[10] Nota do autor: Frederico II, JE. Disponível em: <http://www.jewishencyclopedia.com/articles/6334-frederick-ii>
[11] Nota do autor: Prússia, JVL. Disponível em: <https://www.jewishvirtuallibrary.org/prussia-virtual-jewish-history-tour>
[12] Nota do autor: Ibid.