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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Carl von Martius, o alemão que explorou as entranhas do Brasil e 'batizou' nossa natureza

  • Croqui de Von Martius 
    Alemão explorou e mapeou natureza brasileira no século 19, incluindo distrito destruído por lama em Mariana (MG)
  • No romance Cem Anos de Solidão, o escritor Gabriel García Márquez descreve Macondo como um lugar tão novo que as coisas careciam até de nome e precisavam ser apontadas com o dedo. Pois no Brasil do começo do século 19, a situação não era muito diferente, pelo menos em relação à exuberante natureza, até então praticamente inexplorada.
    Nesse cenário, dois naturalistas bávaros, o botânico Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) e o zoólogo Johann Baptist von Spix (1781-1826) desembarcaram no porto do Rio de Janeiro, em 1817, justamente com essa missão: estudar e dar nome às coisas. No caso, a natureza brasileira, cujo inventário estava praticamente inteiro por fazer. E conseguiram. Durante três anos, entre 1817 e 1820, eles percorreram mais de 14 mil quilômetros pelo interior do país naquela que é considerada a maior expedição científica de exploração da fauna brasileira até hoje.
    Mais de 22 mil espécies de plantas foram coletadas, estudadas e catalogadas. Segundo especialistas, é quase a metade de todas as espécies da flora brasileira conhecidas até hoje. Os estudos de von Martius e von Spix foram tão completos que devemos a eles a divisão natural do território brasileiro em cinco biomas como conhecemos até hoje: Mata Atlântica, Amazônia, Caatinga, Cerrado e Pampa.
    Tábula geográfica 
     Dupla coletou 22 mil espécies de plantas no século 19, quase metade do que todas as espécies brasileiras conhecidas até hoje. 
    "Von Martius foi decisivo para a botânica brasileira. Além da maior classificação da flora da nossa história, ele foi o responsável pela primeira organização fitogeográfica do país, que hoje chamamos de biomas e são utilizados, por exemplo, nos estudos do IBGE", explica o historiador Pablo Diener, que, junto com a também historiadora e esposa, Maria de Fátima Costa, lançaram recentemente o álbum Martius (Editora Capivara, 376 páginas, R$ 195).
    No livro, os autores contam em detalhes os preparativos para a expedição de von Martius e Spix, em Munique, no então reino da Baviera, em 1815, onde viviam e eram ligados a instituições dedicadas às ciências naturais, como a Real Academia das Ciências da Baviera e o Real Jardim Botânico de Munique. Na época, governantes europeus tinham interesse em enviar expedições ao Brasil, então Reino Unido de Portugal e Algarves, por razões científicas e políticas.
    Óleo sobre tela de von Martius feita por Joseph Anton Rhomberg Direito de imagemDivulgação/Editora Capivara
    Image caption Expedição pelo Brasil percorreu mais de 14 mil km e durou três anos
    "Tratava-se de um projeto com o qual o Estado bávaro buscava mostrar-se ao mundo como uma nação culta e fortalecida, através de um grande feito científico: uma expedição", diz um trecho do livro. "Buscava-se conhecer e explorar um país com famosas riquezas naturais, porém ainda envoltas em auréolas misteriosas, e sobre as quais as informações eram cobiçadas pelas grandes instituições europeias."
    Mas um projeto desses não era fácil de executar e tampouco barato. Apesar de contarem com o apoio do rei da Baviera Maximiliano José I, a viagem só foi concretizada em 1817, ainda assim porque Maximiliano, que mantinha boas relações com a Áustria, conseguiu uma carona para os dois cientistas na comitiva que levaria ao Brasil a arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria, para casar-se com o príncipe Pedro I, futuro imperador do Brasil.
    No Brasil, meteram o pé na estrada, ou melhor, pelos rios, estradas e caminhos abertos no meio da mata densa, em uma expedição que duraria os três anos seguintes, coletando, estudando e registrando tudo o que viam pela frente. Eles partiram do Rio de Janeiro e passaram por Estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas.
    Esses relatos se transformariam depois no livro Viagem pelo Brasil, onde ambos narram a jornada, que na maior parte do trajeto pode ser considerada uma aventura. Se hoje não é fácil percorrer por terra mais de 14 mil quilômetros Brasil adentro, imagina naquela época em que pouco se conhecia do interior, com instrumentos precários de orientação e sobrevivência e sem muita noção do que iriam encontrar pela frente.
    Desenho feito durante expedição no Brasil Direito de imagemDivulgação/Editora Capivara
    Image caption Desenho feito por Eduard Poeppig e gravura de Hellmuth representado no livro
    No sertão nordestino, por exemplo, von Martius descreve sua aflição ao atravessar a caatinga seca que, segundo ele, não passava de uma região pobre de águas e de florestas ralas: "cactáceas de formas esquisitas defendem os seus últimos hálitos de vida com espinhos venenosos, bromélias cujas folhas afuniladas às vezes escondem um mísero gole de água turva." Ele não esconde a aflição ao atravessar "caatingas medonhas" entre os rios Paraguaçu e São Francisco, no começo de 1818, assediado pela falta de água dia e noite.
    "Eles aprenderam a viajar viajando, sem uma rota definida e percorrendo espaços que não tinham a menor ideia da existência", explica Diener. Mas a sensibilidade do naturalista sabia diferenciar, pelo clima e tipo de vegetação, quando adentravam em regiões diferentes, o que ajudou na composição posterior dos "reinos da flora" do país, como von Martius chamou os biomas brasileiros. Enquanto a Mata Atlântica era "exuberante e luxuosa", a floresta amazônica, por sua imponência, tinha uma aspecto "intimidante". Em Minas Novas, em Minas Gerais, adentraram em uma região de "árvores baixas, de galhos retorcidos e folhagem larga", que depois seria conhecida como Cerrado brasileiro.
    A rota era traçada de maneira empírica e de acordo com o que iam encontrando pelo meio do caminho onde, além da flora e da fauna, também travaram contato com viajantes, comerciantes, populações locais e, claro, índios, que também foram estudados.
    Uma passagem curiosa da comitiva é pelo distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), palco da tragédia ambiental ocorrida após o rompimento de uma barragem de dejetos minerais em 2015. "Seguimos para o arraial de Bento Rodrigues e passamos a noite num rancho, onde, mais uma vez, desfrutamos da beleza da paisagem das montanhas do Caraça", descreveu von Martius.
    De volta a Munique, em 1820, uma das grandes preocupações dos naturalistas bávaros era catalogar e publicar o quanto antes os resultados da viagem ao Brasil. A pressa era justificada: caso demorassem, outros naturalistas europeus, que também viajaram ao Brasil na mesma época, como o francês Auguste de Saint-Hilaire, poderiam comprometer o pioneirismo dos bávaros.
    Em 1823, a dupla lançou o primeiro volume de Viagem pelo Brasil. Outros dois volumes seriam lançados em 1828 e 1831, mas sem a colaboração de Spix, já falecido. Pelo trabalho realizado na América do Sul, os dois naturalistas foram agraciados no seu retorno com títulos de nobreza e incorporaram "von" aos seu nomes. Martius, então, tornou-se von Martius.
    O mais importante trabalho publicado de von Martius viria depois com a Flora Brasiliensis (Flora Brasileira), uma monumental obra dividida em 15 volumes e 40 partes publicados a partir de 1840 e dedicados à flora brasileira. Parte da edição só tornou-se viável com ajuda financeira do imperador D. Pedro II, com quem von Martius trocava correspondência e era um conhecido entusiasta das ciências naturais. No total, são 22.767 espécies de plantas reunidas, descritas e analisadas.
    Rio Japurá, Província do Rio Negro 
    Direito de imagemDivulgação/Editora Capivara
    Image caption Gravura de 1847 retrata o Rio Japurá, Província do Rio Negro, na época de águas baixas
    No decorrer dos anos em que estudou o Brasil, Martius contou com o auxílio de 65 cientistas, de vários países, para a elaboração dos volumes do Flora, cuja última parte foi publicada bem depois da sua morte, em 1906. A troca de informações e correspondência com botânicos e estudiosos, inclusive do Brasil, o ajudaram a compor o mapa dos "reinos de flora", os biomas brasileiros.
    "Os cientistas o ajudaram com informações sobre lugares que ele conheceu pouco ou talvez nem conheceu, como os pampas", explica Diener. "Ele tinha uma capacidade imensa de reunir e associar informações sobre flora, fauna, clima, hidrografia e outros elementos da natureza para uma classificação natural dos espaços, que são os biomas", completa o coautor de von Martius.
    "O interesse dele era enciclopédico e estrondoso para a época. Quase metade das plantas brasileiras que conhecemos hoje no Brasil foram classificadas por von Martius", explica Diener. No inventário elaborado pelo naturalista e os cientistas que o ajudaram na elaboração do Flora, Diener destaca os mais diversos tipos de palmeiras. "A palmeira é a planta que define a paisagem do que ele chama de América Tropical", completa o historiador.
    A grandiosidade da obra de von Martius e von Spix não o livraram de polêmicas, principalmente em relação ao que eles consideravam "superioridade" do povo europeu, em especial em comparação com os índios e africanos. Essa pretensa superioridade, na visão deles, era decorrente do atraso em que viviam essas populações em lugares como a América remota e a África. Em diversas cartas enviadas à Europa eles expõem esse eurocentrismo, algo comum entre os viajantes na época, de acordo com os especialistas.
    Pablo Diener e Maria de Fátima Costa 
    Direito de imagemDivulgação/Editora Capivara
    Image caption Historiador Pablo Diener lançou junto com a também historiadora e esposa Maria de Fátima Costa o álbum 'Martius'
    Ao longo das décadas de estudos e relatórios sobre o Brasil, von Martius, segundo os estudiosos da sua obra, foi perdendo aos poucos esse sentimento eurocêntrico, deixando grandes contribuições para o estudo dos índios brasileiros, inclusive classificações de idiomas dos nativos. "A primeira classificação e organização dos grupos de línguas indígenas do Brasil foi feita por Martius", diz Diener.
    "É preciso compreender o contexto da época em que eles viviam para acreditarem nessa suposta superioridade europeia. Era muito comum os cientistas da Europa na época fazerem essa classificação de raças, algo que hoje em dia, claro, não é aceito", explica o doutor em História da Ciência Waldir Stéfano, professor do curso de Ciências Biológicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
    Ele compara o legado de von Martius ao de outro naturalista famoso, o britânico Charles Darwin (1809-1882), pai da teoria da evolução e autor do livro A Origem das Espécies. "A importância de Martius para a botânica é a mesma de Darwin para a origem das espécies", afirma Stefano.

    Falso detento de Campo de Concentração se redime

    Otto Uthgenannt admite: os relatos de sua vivência em Buchenwald não são “tão acurados”. O idoso de 77 anos, natural de Wittmund, salienta sua “boa fantasia” após matéria deste jornal. A comunidade judaica de Oldenburg está “profundamente chocada”.
    Wittmund – O suposto prisioneiro de Campo de Concentração, Otto Uthgenannt, se pronunciou pela primeira vez sobre os relatos que comprovam a fantasia em torno de sua triste estória. Diante do jornal “Anzeiger für Harlingerland” de sua cidade natal Wittmund, ele declarou: “Então me desculpe. Eu tenho 77 anos, eu tive apenas uma boa intenção”.
    Perguntado sobre sua experiência no Campo de Concentração de Buchenwald, ele esclarece: “Ela não aconteceu exatamente assim”. Ele teve uma “boa fantasia”, é um “bom malandro”, disse ele segundo o jornal. Sobre as concretas acusações, ele não quis comentar: “Eu já estou muito velho para isso, custa muita energia”.
    Pesquisas revelaram que a família era evangélica e nunca foi deportada para um Campo de Concentração.
    Uthgenannt proferiu palestras durante anos em escolas e cerimônias sobre o período em que, como uma criança judia, esteve preso no Campo de Concentração de Buchenwald. Ele alegava que, através do holocausto, perdeu 72 parentes, entre eles pai, mãe e irmã. Pesquisas mostraram, entretanto, que a família Uthgenannnt não é judia, mas sim evangélica e nunca foi deportada para um Campo de Concentração. Pai, mãe, irmã e filho sobreviveram a guerra em Göttingen.
    Uthgenannt salienta que nunca pediu para realizar as palestras nas escolas: “Eles sempre me requisitaram”. Ele compareceu também em Jade e Wildeshausen e, com seus relatos, comoveu nestes locais alunos e professores. Ele não recebeu dinheiro por suas visitas às escolas, assim declarou já na sexta-feira, quando foi confrontado por este jornal com os resultados das pesquisas.
    “Profundamente chocado” sobre as revelações se mostrou Jehuda Wältermann, da comunidade judaica de Oldenburg. Uthgenannt é membro da comunidade desde 2002. “Na época não havia razão para nós duvidarmos dos documentos apresentados”, declarou Wältermann. Ele solicitou agora uma verificação minuciosa.
    Oz-online.de, 13/12/2012.
    Pobre sociedade alemã, por quantas décadas ela ainda será exposta a essas invencionices oriundas da propaganda de guerra aliada? Paul Rassinier, comunista francês, ele próprio prisioneiro em campos de concentração alemães durante a guerra, já escrevera em 1964:
    “Toda vez, quando nos últimos 15 anos me foi informado que havia uma testemunha nos territórios não ocupados pelos soviéticos, a qual teria presenciado ela própria a algum gaseamento, eu me dirigi imediatamente até lá para ouvir seu relato. Porém, toda vez a coisa terminava da mesma forma. Com um dossiê nas mãos, eu fazia uma série de perguntas específicas, que somente poderiam ser respondidas com mentiras notórias, até que finalmente, elas tiveram que admitir que nunca haviam presenciado o alegado fato, mas apenas repetiram os relatos de um bom amigo que morreu durante o cárcere e cuja honestidade ela não podia duvidar. Foi assim que percorri milhares e milhares de quilômetros por toda Europa.”

    Programação 2019

    Amanhã(01/02) começa a programação 2019 do BUNKER DA CULTURA WEB RADIO. Durante o dia o melhor playlist da web e a noite programas especiais para a audiência.

    CONFIRA EM: www.bunkerdacultura.caster.fm
                             www.bunkerdacultura.radio12345.com

    quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

    O socialismo requer uma ditadura

    A ideia do socialismo — o compartilhamento comum das propriedades produtivas e de sua produção — é tão antiga quanto os gregos.
    Sua primeira concepção surgiu ainda sob Platão e sua ideia da República ideal: nela, os guardiões vivem e trabalham comunalmente sob a presunção de que uma mudança radical no arranjo das instituições sociais irá transformar os indivíduos, fazendo com que eles deixassem de ser indivíduos motivados pelo interesse próprio e se transformassem em abnegados servidores altruístas, concentrados em satisfazer algumas necessidades prementes da sociedade como um todo.
    Isso ressalta a fundamental diferença de concepção do indivíduo que há no liberalismo clássico e no socialismo. Teria o indivíduo uma natureza humana básica e invariável, a qual pode ser multifacetada e complexa, mas ainda assim invariável em certas qualidades e características? Ou seria a natureza humana uma substância amplamente maleável e que pode ser remodelada como uma argila nas mãos do escultor, perfeitamente adaptável a arranjos sociais radicalmente diferentes?
    Os liberais clássicos sempre argumentaram em prol da primeira, afirmando que os seres humanos basicamente são aquilo que são: seres razoavelmente sensatos, dotados de interesse próprio, e movidos pelo objetivo de melhorar sua situação pessoal e material, sendo que essa melhoria é definida diferentemente por cada um.
    Para os liberais clássicos, o dilema social para uma sociedade humana, justa e amplamente próspera é: como estimular uma ordem institucional política e econômica que faça com que aquela invariável qualidade da natureza humana seja usada para estimular o aperfeiçoamento humano geral em vez de ser transformada em uma ferramenta de esbulho.
    A resposta liberal-clássica para esse dilema é basicamente o sistema proposto por Adam Smith: a liberdade natural com sua ordem baseada em um mercado livre, aberto e concorrencial.
    Sob este arranjo, mesmo o mais egoísta e insensível dos indivíduos terá — para alcançar seus objetivos — inevitavelmente de beneficiar terceiros no mercado, fornecendo-lhes bens e serviços, e esperando que estes, voluntariamente, consumam estes bens e serviços. E para que consumam estes bens e serviços fornecidos pelo egoísta, estes têm de ser de qualidade.
    Desta forma, o egoísmo do indivíduo é domado e direcionado para a cooperação com terceiros, fornecendo-lhes mais opções de consumo e bem-estar, e beneficiando-lhes como resultado desta interação. Assim, uma economia de mercado é capaz de domar as pessoas mais egoístas, ambiciosas e talentosas da sociedade, fazendo com que seja do interesse financeiro delas se preocuparem dia e noite com novas maneiras de agradar terceiros.
    Já os membros daquele movimento que surgiu no fim do século XVIII e início do século XIX, e que viria a ser o movimento socialista, argumentavam exatamente o oposto. Eles insistiam que se os indivíduos fossem egoístas, gananciosos, indiferentes e insensíveis às circunstâncias de seus semelhantes, tudo era causado pela instituição da propriedade privada e pelo sistema de associação humana baseada no mercado, o qual era gerado pela propriedade privada.
    Para eles, mudar a ordem institucional na qual os seres humanos vivem e trabalham criaria um "novo homem".
    Com efeito, eles defendiam, como sendo o supremo ideal da sociedade humana, um mundo no qual o indivíduo viveria e trabalharia apenas em prol do coletivo, da sociedade como um todo, e não visando a melhorar a sua situação e as suas próprias circunstâncias. Para os socialistas, o indivíduo que age visando a melhorar a sua situação está fazendo à custa de todos os outros da sociedade. O socialismo, portanto, dizia proclamar a ética do altruísmo.
    A literatura socialista é variada e os defensores do coletivismo não concordam entre si quanto à sociedade ideal. Alguns ansiavam por um paraíso mais agrário e rural; outros contemplavam um futuro industrial para a humanidade no qual a produtividade teria alcançado um ponto em que as máquinas fariam virtualmente todo o trabalho. Em todas essas versões, porém, a humanidade estaria livre — e aqui recorro a uma versão das imagens de Karl Marx — para caçar pela manhã, pescar à tarde, e sentar-se perante a lareira à noite para discutir filosofia socialista com outros camaradas, os quais também teriam sido libertados do fardo do trabalho e da preocupação.
    E tudo isso seria possível pela abolição da escassez, uma façanha criada pela adoção do paraíso na terra: o socialismo.
    Mudar a natureza humana requer uma "ditadura do proletariado"
    Mas o cerne da concepção desta chegada do paraíso socialista na terra é o de que a natureza do homem pode e deve ser mudada.
    Em alguns escritos de Karl Marx ele de fato chega a discutir sobre as instituições e o funcionamento da sociedade socialista que surgiria após a derrubada do capitalismo. Um destes escritos é a sua obra de 1875, Crítica do Programa de Gotha, referente à agenda política de um grupo socialista rival do qual Marx discordava profundamente.
    O dilema, explicava Marx, é que, mesmo após a abolição do sistema capitalista, ainda haveria alguns resíduos deste sistema, os quais poderiam contaminar a nova sociedade socialista e, assim, atrapalhar todos os esforços. Primeiro, haveria as sobras humanas do agora descartado sistema capitalista. E dentre estas sobras humanas estarão aqueles que irão querer restaurar o sistema de exploração do proletariado visando aos seus próprios lucros imerecidos. Igualmente problemático seria o fato de que a "classe trabalhadora", embora agora libertada da "falsa consciência" de que o sistema capitalista — sob o qual ela foi explorada — era justo, ainda carregaria consigo resquícios daquela psicologia capitalista que visa ao interesse próprio e aos ganhos pessoais.
    Consequentemente, seria necessário criar — e dotar de plenos poderes — uma "vanguarda revolucionária" composta exclusivamente por socialistas dedicados, visionários e ideologicamente inflexíveis, os quais liderariam "as massas" rumo ao belo e brilhante futuro do socialismo. E os meios institucionais de se fazer isso, disse Marx, seria pela "ditadura do proletariado".
    Em outras palavras, para que as massas sejam libertadas daquela mentalidade individualista e capitalista — que dominava o mundo no qual nasceram e que os forçou a agir segundo seus próprios interesses —, elas terão de ser "reeducadas" por uma elite política iluminada, onisciente e, principalmente, auto-nomeada para a função. Essa elite seria composta por indivíduos que já conseguiram libertar suas próprias mentes da falsa consciência de classe criada pelo capitalismo no passado.
    Em nome da nova era da "liberdade socialista", portanto, será necessário haver o reinado de uma ditadura comandada por homens que sabem como a humanidade deve pensar, agir e se associar — tudo isso enquanto se preparam para a chegada do comunismo pleno, o qual inevitavelmente aguarda toda a humanidade.
    Ao mesmo tempo, a ditadura é necessária para suprimir não só toda e qualquer tentativa dos antigos exploradores capitalistas de restaurar seu já findado poder sobre as — agora socializadas — propriedades que a eles pertenciam, como também para suprimir as vozes do passado capitalista, as quais devem ser impedidas de se manifestar, pois elas falariam apenas mentiras interesseiras sobre por que a liberdade individual é moralmente correta, ou por que a propriedade privada traz melhorias para todas em uma sociedade (inclusive para os trabalhadores), ou por que a liberdade significa aquelas virtudes "burguesas" como liberdade de imprensa, de expressão ou de religião.
    As massas, em suma, devem ser doutrinadas e inculcadas com a "verdadeira" consciência, a saber: que a liberdade significa propriedade coletiva dos meios de produção e a abnegada dedicação de cada indivíduo aos interesses do coletivo. E quais são os "interesses do coletivo"? Qualquer coisa que a vanguarda socialista revolucionária que está no comando determinar.
    Isso também explica por que a fase socialista da "ditadura do proletariado" — a qual antecede o comunismo pleno — jamais chegou ao fim em qualquer regime revolucionário de inspiração marxista que foi tentado ao redor do mundo nos últimos cem anos. A natureza humana não é algo que pode ser remodelada como argila, de modo a adquirir uma nova forma e conteúdo. Humanos não são seres autômatos programados para ser eunucos desinteressados, desprendidos e puramente altruístas.
    Consequentemente, o interesse próprio sempre comandará as condutas de cada indivíduo. Logo, se o objetivo é abolir tal comportamento, então é necessário haver uma força política altamente violenta e dotada de um grande poderio militar para continuamente reprimir esta inevitável manifestação do comportamento humano, tentando constantemente extingui-lo.
    Adicionalmente, enquanto houver inimigos capitalistas em qualquer lugar ao redor do mundo, a ditadura do proletariado terá de ser isolada e preservada do contato externo para garantir que as mentes reeducadas das massas que tiveram a sorte de viver sob o socialismo não voltem a ser infectadas pelas idéias capitalistas que estão vindo de fora do paraíso coletivista popular. Logo, uma "cortina de ferro" de censura e controle de pensamento torna-se necessária nas regiões marxistas do mundo, para o bem das pessoas sob o controle da vanguarda revolucionária.
    O planejamento econômico socialista equivale a controlar pessoas
    Tão logo a propriedade privada é abolida por meio da socialização dos meios de produção e colocada sob o controle e a direção do governo socialista, criar um plano econômico centralizado passa a ser essencial. Dado que agora não há empreendedores individualistas no comando de empresas privadas, produzindo para satisfazer os consumidores, sendo movidos pelo lucro e sendo guiados pelo sistema de preços, então alguém terá de determinar o que será produzido, onde, como, em que quantidade, e para quais propósitos.
    A direção dos meios de produção coletivizados "pelo povo" requer um planejamento centralizado, o qual terá de decidir todos os detalhes de absolutamente cada processo de produção. Em seguida, terá de impor essas suas decisões sobre cada indivíduo, e tudo para o bem da sociedade como um todo. Isso significa que não só objetos como madeira e aço terão seu uso estipulado para cada setor específico da sociedade socialista, como também cada pessoa será direcionada pela vanguarda revolucionária para trabalhar em um setor específico. As agências estatais de planejamento centralizado irão determinar quais pessoas serão direcionadas para quais habilidades e especialidades, onde elas serão empregadas e quais trabalhos farão.
    Em suma, é a vanguarda revolucionará quem decidirá o que cada indivíduo deve fazer, e não o próprio. Consequentemente, trabalhadores serão alocados para trabalhar em áreas nas quais não possuem nenhuma vantagem comparativa. Agricultores serão enviados para trabalhar em fábricas, alfaiates serão enviados para trabalhar em minas e advogados trabalharão na produção de tratores. Vários trabalhadores estarão em linhas de produção erradas tendo de lidar com máquinas e ferramentas que desconhecem.
    E dado que o estado lhe educou, lhe atribuiu um trabalho e passou a ser seu único empregador, ele também irá determinar onde você irá morar: não somente a cidade ou vilarejo, mas também em qual apartamento de um conjunto residencial construído pelo estado. Instalações recreativas, locais de descanso e férias, quais bens de consumo serão produzidos e distribuídos onde e para quem: tudo isso será determinado centralizadamente pelas agências de planejamento socialista, e sempre de acordo com as ordens da ditadura do proletariado.
    Absolutamente nenhum aspecto da vida cotidiana — sua forma, conteúdo, qualidade ou características — estará livre do controle e das determinações do abrangente e todo-poderoso estado socialista. Sua forma e implantação serão, inevitavelmente e por definição, totalitárias.
    Atribui-se a Benito Mussolini, o pai do fascismo, a frase que diz que "totalitarismo" significa "tudo dentro do estado, nada contra o estado, nada fora do estado". No entanto, em nenhum regime isso foi mais explícita, coerciva e insistentemente imposto do que nos países socialistas.
    Além de altamente homicida, o socialismo é uma ideia falida, tanto na teoria quanto na prática.
    Richard Ebeling
    leciona economia na Northwood University de Midland, Michigan


    terça-feira, 29 de janeiro de 2019

    O capitalista em um ambiente estatista

    Agora, coloquemos o estado neste cenário para vermos como ele afeta a atividade do capitalista.
    O estado é convencionalmente definido como uma instituição que possui o monopólio da jurisdição de seu território, sendo o tomador supremo de decisões judiciais para todos os casos de conflito, inclusive conflitos envolvendo o estado e seus próprios funcionários. Adicionalmente, e em consequência desta característica, o estado possui também o direito de tributar, isto é, de determinar de maneira unilateral o preço que seus súditos têm de lhe pagar para que ele efetue essa tarefa de tomar decisões supremas.
    Tendo o monopólio da jurisdição e o poder de tributar — sendo que ambos esses poderes lhe conferem um terceiro poder, que é o poder de legislar, regular, controlar e restringir —, o estado adquire a singular condição de poder escolher quem irá e quem não irá prosperar.
    Agir sob estas restrições — ou melhor, sob esta falta de restrições — é o que constitui a política e as ações políticas. Consequentemente, já deveria estar claro desde o início que a política, por sua própria natureza, sempre significará transgressões, fraudes e delitos. 
    Mais especificamente, podemos fazer a priori uma previsão sobre quais as consequências que a imposição de um estado terá sobre a conduta dos empreendedores. 
    Na ausência de um estado, são os consumidores quem determinam o que será produzido, com que qualidade e em qual quantidade, bem como quais empreendedores irão prosperar e quais irão à falência. Com a intervenção do estado, a situação enfrentada pelos empreendedores torna-se inteiramente diferente. 
    Agora passa a ser o estado e seus funcionários, e não os consumidores, quem em última instância irá decidir quem irá prosperar e quem irá falir
    Dado que o estado vive repleto de dinheiro de impostos, de dinheiro adquirido via endividamento (dívida esta que será paga por toda a sociedade via impostos) e de dinheiro criado por seu próprio Banco Central, ele pode gastar em maior volume do que qualquer outra entidade. Consequentemente, o estado pode sustentar qualquer empreendedor concedendo-lhe subsídios, empréstimos a juros baixos ou fornecendo contratos exclusivos para obras públicas. Ele pode também socorrer qualquer empreendedor que esteja passando por dificuldades (porque os consumidores não mais querem seus produtos).
    Por outro lado, o estado também pode arruinar qualquer empreendedor ao simplesmente decidir investigar suas operações e encontrar alguma violação (sempre haverá uma, inevitavelmente) de leis e regulamentações estatais. Ou mesmo qualquer deslize tributário.
    Sendo o monopolista da violência, o estado (seus membros) pode achacar e extorquir aqueles empresários de quem ele não gosta, os quais não poderão simplesmente se negar a pagar o achaque, pois sabem que, se o fizerem, sua empresa poderá ser prejudicada das mais diversas formas. [N. do E.: no Brasil, quem trabalha na construção civil sabe que em algum momento um fiscal do governo surgirá pedindo um "agrado"].
    Ademais, o estado pode ele próprio utilizar o dinheiro que extrai da população para tentar se tornar um empreendedor. E dado que ele não precisa se preocupar em ter lucros e evitar prejuízos — pois ele sempre poderá suplementar suas receitas por meio de impostos, endividamento ou criação própria de dinheiro —, ele sempre poderá sobrepujar qualquer produtor privado que esteja produzindo bens ou serviços similares.
    Finalmente, em decorrência de seu poder de legislar, de criar leis e de alterar regras, o estado pode conceder privilégios exclusivos para algumas empresas específicas, isolando-as ou protegendo-as da concorrência, seja por meio de tarifas protecionistas, de barreiras alfandegárias ou mesmo por uma simples e direta reserva de mercado. Ele também pode expropriar parcialmente — e criar uma série de empecilhos sobre — outras empresas.
    Nesse ambiente, torna-se imperativo que todos os empreendedores prestem total e constante atenção ao mundo político. Para permanecer vivo e possivelmente prosperar, um empreendedor terá agora de dedicar muito tempo e esforço a tarefas que nada têm a ver com a satisfação de seus clientes, mas sim com a satisfação do poder político
    E, desta forma, baseando-se em sua compreensão acerca da natureza do estado e da política, ele terá de fazer uma escolha: uma escolha moral.
    Ele pode escolher se juntar ao estado e se tornar parte desta vasta organização criminosa
    Ele pode subornar políticos, partidos políticos ou funcionários públicos, seja com dinheiro ou com promessas tangíveis (algum emprego futuro no setor "privado" como "membro do conselho administrativo" ou como "conselheiro" ou "consultor"), com o objetivo de obter para si próprio algumas vantagens econômicas em detrimento das outras empresas concorrentes. 
    Ele pode pagar propinas para assegurar contratos (de obras públicas ou de fornecimento de material para empresas estatais) ou garantir subsídios para ele próprio em detrimento dos outros concorrentes. Ou ele também pode pagar propinas para conseguir a aprovação ou a manutenção de legislações que assegurem a ele e à sua empresa privilégios legais e lucros monopolistas — ao mesmo tempo em que parcialmente expropria e oprime seus concorrentes.
    Desnecessário dizer que vários empresários optaram por este caminho. Em específico, grandes bancos, grandes indústrias, mineradoras e empreiteiras se tornaram desta maneira intricadamente envolvidos com o estado, e vários empresários hoje bilionários construíram suas fortunas muito mais em decorrência de suas habilidades políticas do que em decorrência de suas habilidades como empreendedores preocupados em bem servir aos consumidores.
    A escolha
    Mas há a outra escolha: um empreendedor pode optar pelo caminho honroso — e ao mesmo tempo muito mais difícil. 
    Este empreendedor está a par da natureza do estado. Ele sabe que o estado e seus funcionários estão ali apenas para intimidá-lo, chantageá-lo e extorqui-lo, para confiscar sua propriedade e seu dinheiro. Pior: ele sabe que eles são hipócritas arrogantes e presunçosos, que afetam superioridade moral e se acham acima de todo o bem e todo o mal. 
    Sabendo disso, essa espécie bastante rara de empreendedor terá então de se esforçar e tentar fazer o seu melhor para sempre se antecipar e se ajustar a toda e qualquer manobra maléfica do estado. Ele não irá se juntar à gangue. Ele não pagará propinas para assegurar contratos ou privilégios do estado. 
    Ao contrário, ele estará sempre tentando, na medida do possível, defender o que quer que tenha restado de sua propriedade e de seus direitos de propriedade, e tentará ainda obter o máximo de lucro possível operando nesta situação estressante.
    Ou seja, é só para verdadeiros heróis.

    Hans-Hermann Hoppe