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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Desejos não são direitos

Apenas observe o cenário ao seu redor: há uma lista, em contínua expansão, de coisas a que as pessoas afirmam ter o "direito" de receber "gratuitamente". Vai desde saúde, educação e transporte até estabilidade no emprego, aposentadorias nababescas, lazer, cultura e cirurgias de mudança de sexo.
No entanto, quando se considera o assunto seriamente, simplesmente não há nenhuma base lógica e racional para tais demandas. Há apenas desejos e vontades, em ampla escala, por bens e serviços — algo que supostamente implica a necessidade de que eles se tornem um direito.
A partir daí, é apenas um passo para que grupos de interesse façam pressão e lobby sobre o governo, e recorram a tentativas legislativas ou judiciais para criar tais direitos — os quais serão, em seguida, promovidos como melhorias sociais.
Mas isso apenas leva a novas perguntas.
Pode um desejo automaticamente virar um direito? Um direito é a mesma coisa que um desejo? Por quê? Por que não?
Se eu sofri uma falência renal e preciso de um rim, teria eu o direito de pegar o seu? Se preciso urgentemente de um tratamento médico, posso obrigar outra pessoa a custeá-lo? Posso obrigar um médico a me tratar gratuitamente? Qual a diferença entre estes dois cenários?
Seria um direito algo que pode (ou deve) ser concedido (ou negado) pelo voto da maioria?
Em sua opinião, a Constituição, uma Medida Provisória ou uma lei do Congresso criam direitos, ou será que tais instrumentos simplesmente reconhecem direitos que as pessoas inerentemente possuem pelo fato de serem humanas?
Se você fizer estas mesmas perguntas ao cidadão comum, esteja certo de que irá ouvir uma pletora de respostas diferentes e conflitantes.
Este breve ensaio não irá fornecer respostas detalhadas para todas as perguntas. Tampouco irá fazer todas as perguntas relevantes. Seu propósito é mais limitado que isso. Se ele ao menos levar o leitor a pensar um pouco mais detidamente sobre a questão, o objetivo já terá sido alcançado.
Uma definição prática
Para um direito ser genuinamente válido é necessário que todos nós, como seres humanos, tenhamos a capacidade de usufruir esse mesmo direito, ao mesmo tempo e da mesma maneira.
A obviedade dessa afirmação vem do fato de que, para algo ser realmente um direito, todos os outros seres humanos devem logicamente ter esse mesmo direito. Não pode haver nenhum conflito ou contradição lógica. Um indivíduo não pode, sem cair em contradição, alegar que possui um direito e, ao mesmo tempo, negar esse direito para terceiros. Fazer isso seria o equivalente a admitir que esse direito não é realmente um direito, mas sim um privilégio.
Por isso, tem de ser possível que todos os indivíduos possam usufruir esse suposto direito simultaneamente, sem nenhuma contradição lógica. Se, quando eu exerço um direito que alego possuir, estou fazendo com que seja impossível outra pessoa exercer esse mesmo direito ao mesmo tempo, então minha ação implica que este suposto direito é exclusividade minha. Minha ação implica que tal direito é apenas meu, e não de outra pessoa. O que é um direito para mim é uma obrigação de terceiros. Ou seja, não é direito, mas sim privilégio.
Exemplo básico. Se eu alego ter o direito de receber serviços de saúde gratuitos, então, na prática, estou dizendo que outra pessoa tem o dever de me fornecer estes serviços — ou, de modo mais realista, estou dizendo que outra pessoa tem o dever de pagar para que eu receba estes serviços.
Ou seja, outro indivíduo tem de ter sua renda (propriedade) confiscada para custear meus serviços médicos.
Obviamente, esta outra pessoa, a partir deste momento, não mais tem o mesmo direito que eu tenho. Meu direito é receber serviços gratuitos; o "direito" dela é me financiar estes serviços. Meu direito criou um dever para essa pessoa: ela agora é obrigada a efetuar uma ação que ela não necessariamente queria efetuar. Embora nós dois sejamos igualmente humanos, a liberdade de escolha desta pessoa foi subordinada à minha liberdade de escolha. Aquele direito que concedi a mim (saúde gratuita) está sendo negado a esta outra pessoa, pois ela, ao ficar com o fardo de pagar pela minha saúde, perdeu seu "direito" à saúde gratuita.
Para que eu adquirisse um direito, essa pessoa teve de arcar com uma obrigação. Pior ainda: ela teve sua propriedade espoliada, o que seria uma flagrante agressão ao seu direito de propriedade.
A seguir, apresento duas listas. A primeira relaciona os itens aos quais pessoalmente acredito que você tem o direito. A segunda é uma lista de coisas às quais pessoalmente creio que você não tem o direito (e prontamente concedo a você todo o direito de discordar de mim).
Coisas a que você tem direito:
1. não ter a sua vida retirada de você (a menos que você tente retirar a vida de outro sem justificativa ou motivo de legítima defesa);
2. pensar o que quiser;
3. falar o que quiser (o que nada mais é do que a expressão verbal ou escrita do item #2) desde que faça isso utilizando seus próprios meios.
4. manter a propriedade material daquilo que você construiu por conta própria, daquilo que ganhou de presente, e daquilo que adquiriu via transação pacífica e voluntária.
5. empreender e ganhar a vida fazendo aquilo que quiser, desde que não agrida a vida e a propriedade de terceiros (que é uma consequência do item #4).
6. criar e educar seus filhos como quiser.
7. viver em paz e com liberdade, desde que não ameace a paz e a liberdade de terceiros.
Coisas a que você não tem direito:
1. internet de banda larga e alta velocidade;
2. cheeseburgers, vinhos ou um iPhone;
3. a casa, o carro, o iate, o jatinho, a renda, o salário, a empresa ou a conta bancária de outra pessoa;
4. viver à custa do trabalho de terceiros com os quais você não fez um acordo voluntário (você não tem o direito de escravizar ninguém ou mesmo de confiscar uma parte dos ganhos de outras pessoas);
5. obrigar um curandeiro, um renomado cirurgião, ou qualquer profissional entre esses dois extremos a tratar de você;
6. escolas, faculdades, métodos contraceptivos, colonoscopias ou estádios financiados via impostos (ou seja, com dinheiro coercitivamente confiscado de terceiros);
7. qualquer bem que não seja seu, por mais que você realmente queira e acredite ter o direito de possuir;
8. estipular como outras pessoas devem educar seus filhos (principalmente obrigá-las a colocá-los em escolas);
9. qualquer bem ou serviço gratuito — a menos, é claro, que o proprietário legítimo delas opte por distribuí-las livremente;
10. qualquer coisa que algum político tenha prometido dizendo que você tem o direito a ela (moradia, transporte, lazer, cultura, felicidade, beleza etc.).
Sim, há algumas zonas cinzentas. Por exemplo, embora eu creia que você tem o direito de criar e educar seus filhos como quiser, maus tratos, abusos e negligência não são defensáveis. No entanto, vamos manter o foco no nos princípios essenciais.
Direitos positivos versus direitos negativos
Veja a lista novamente, com cuidado. Qual é a diferença essencial entre a natureza da primeira lista e a natureza da segunda lista?
Acertou. Na primeira lista, nada é exigido de terceiros, exceto que eles deixem você em paz. Nada é confiscado, nada é expropriado e nenhuma ação positiva é imposta. A liberdade, a propriedade e a vida das outras pessoas seguem intactas. Nenhum passivo foi criado.
Já na segunda lista, no entanto, para que você tenha o direito a algo, outras pessoas têm de ser obrigadas a fornecer esse algo para você. A liberdade, a propriedade e até mesmo a vida de terceiros foram negativamente afetadas. Trata-se de uma diferença monumental.
A primeira lista abrange os "direitos naturais", que também são chamados de "direitos negativos". Eles são naturais porque são inerentes à natureza humana; são direitos que todos nós como seres humanos usufruímos pela simples virtude de sermos humanos. Eles derivam de nossa essencial natureza de sermos indivíduos singulares e sensatos. E são negativos porque não impõem obrigações a terceiros, exceto um compromisso de não agredir. De novo: a única imposição que tais direitos impingem a terceiros é a de não efetuar uma determinada ação.
Já os itens na segunda lista são chamados de "direitos positivos" porque outras pessoas devem fornecê-los a você ou serem coagidas a fazê-lo caso se neguem. Ou seja, tais direitos necessariamente impõem a terceiros a obrigação de efetuar ações positivas.
Ao passo que o direito negativo simplesmente impõe a terceiros o dever de não iniciar coerção contra inocentes — seja na forma de violência bruta, seja na forma furtiva obrigá-lo a pagar por bens e serviços que serão ofertados a terceiros —, o direito positivo tem como consequência exatamente a agressão contra terceiros inocentes.
Adicionalmente, os direitos naturais ou negativos são irrefutáveis: eles não podem ser negados, pois, se isso ocorrer, a pessoa que os nega estará caindo em contradição, pois estará negando sua própria condição de ser humano. 
Conclusão
Embora eu acredite que nem você nem eu temos o direito a nenhuma daquelas coisas disparatadas na segunda lista, devo acrescentar que nós certamente temos o direito de criá-las, de buscá-las, de recebê-las como presente de benfeitores voluntários, ou de obtê-las via transações comerciais. Apenas não temos o direito de obrigar terceiros a nos fornecê-las.
Se qualquer um de nós tivesse esse direito de tomar essas coisas de terceiros, então por que outras pessoas também não teriam o mesmo direito de tomá-las de nós?
A existência de "direitos negativos" significa simplesmente que ninguém pode escravizar, coagir ou despojar terceiros de sua propriedade. Acima de tudo, significa que cada um de nós pode oferecer resistência a tais condutas quando outros incorrerem nelas.
No mais, querer ter acesso a bens e serviços sem ter desempenhado nada a ninguém significa simplesmente querer escravizar terceiros. Se não fosse por este corrompido encanto de que é possível ter algo em troca de nada, as pessoas há muito já teriam rejeitado a ideia de que desejos implicam direitos.
Porém, se a atual tendência desta noção de que desejos são direitos não for revertida, nossa cobiça pela propriedade alheia seguirá nos corrompendo de maneira cada vez mais profunda. As consequências podem ser nefastas. Na mais benevolente das hipóteses, estaremos criando uma sociedade mimada que muito exige e pouco produz.
Lawrence W. Reed


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Quem foi Martinho Lutero - Há 473 anos, morria a figura central da reforma religiosa que mudou o mundo para sempre.

Nascido em Eisleben, Alemanha, a 10 de novembro de 1483, Lutero era filho de camponeses católicos alemães. Como era comum na época, foi alvo de uma disciplina rígida. O menino Lutero aprendeu, entre outras coisas, a orar aos santos, realizar boas obras e reverenciar o papa e a igreja.
Cedo, aos 5 anos, Lutero começou a estudar latim em uma escola local. Já aos 12 anos, foi aluno de uma escola de uma irmandade religiosa em Magdeburgo. Em 1505 recebeu grau de Mestre em Artes da Universidade de Erfurt, e em 1505 e começou a estudar Direito.
Pouco tempo após iniciar seus estudos de Direito, Lutero resolveu tornar-se monge e entrou no Mosteiro Agostiniano de Erfurt. A sua ordenação foi em 1507. Em seguida, deixou o Mosteiro para ensinar filosofia moral na Universidade de Wittenberg.
Continuando seus estudos, Lutero obteve o título de Doutor em Teologia. De 1513 a 1518, ensinou Teologia Bíblica na Universidade de Wittenberg. Nessa época, começou a tornar-se bastante conhecido. Após certa idade, Lutero começou a ser afligido por uma angústia que pode ser sintetizada em uma pergunta: se o coração da pessoa é governado pelo pecado, como pode esperar salvação diante de Deus? Por causa do que havia aprendido, procurou resposta – e paz – através de boas obras, incluindo jejuns e autoflagelação. Contudo, seu sentimento de incapacidade para sentir paz diante de Deus continuou, levando-o às portas do desespero.
A aflição de Lutero somente encontrou resposta no dia em que encontrou na Bíblia a certeza de que não há como alguém merecer o favor de Deus por causa de alguma coisa que faz; que a única forma de alguém obter o favor Deus é através da fé em Jesus Cristo; que é através da fé em Jesus que os pecados são perdoados por Deus. Este entendimento, conhecido como a doutrina da justificação pela fé, tornou-se um dos pilares do pensamento religioso de Lutero.
A Igreja Romana da época costumava dizer que algumas pessoas possuíam mais méritos do que tinham necessidade para serem salvas. Por isso, o “mérito extra” dessas pessoas poderia ser transferido – especialmente através de pagamento – para pessoas cuja salvação era duvidosa. Lutero protestou contra esta prática, chamada de indulgência. Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou uma série de críticas – que se tornaram conhecidas como 95 Teses – na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. As Teses eram um protesto contra o abuso da autoridade do Papa, especialmente no sentido de desafiar o Papa a esvaziar de graça o purgatório, já que diz controlá-lo. Lutero também negou o ensino do “mérito extra” que estava por trás das indulgências. Segundo Lutero, o verdadeiro tesouro da Igreja é o Evangelho – a proclamação do amor de Deus. A Igreja Romana ordenou que Lutero se apresentasse em Roma para responder às acusações de heresia. Sabendo do caso, o Príncipe da Saxônia, Frederico o Sábio, interveio e insistiu que a audiência de Lutero fosse realizada em solo alemão. Como resultado, uma Dieta Imperial foi realizada na cidade de Augsburgo, em 1518. Lutero se recusou a mudar de opinião. Temendo ser preso, fugiu de Augsburgo. As ideias de Lutero logo encontraram adeptos em todas as regiões da Alemanha, e mesmo fora dela. A resposta do Papa à situação foi uma bula (ordem papal), ameaçando Lutero de excomunhão, caso não se retratasse. Em protesto, ele queimou publicamente a bula e foi excomungado em janeiro de 1521. Em junho de 1525, Lutero casou-se com Catarina de Bora, uma ex-freira. Os dois tiveram seis filhos e abrigaram onze órfãos. Lutero publicou cerca de 400 obras durante a sua vida, incluindo comentários bíblicos, catecismos, sermões e tratados. Também escreveu hinos para a Igreja. Parte de suas obras estão publicadas em diversas línguas modernas.
Lutero faleceu de derrame cerebral em 1546, aos 63 anos de idade, em sua cidade Natal, Eisleben. Seu corpo foi sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg, onde, cerca de 30 anos antes, havia afixado suas 95 Teses.
Conheça mais sobre a história de Martinho Lutero com o filme “Um Homem Chamado Martinho – Parte 1”! Clique no nome do filme e veja mais sobre o reformador da igreja luterana.
Fonte: site da IELB

O mito da homossexualidade na Grécia Antiga

Nós reescreveremos a história, a história adulterada cheia de mentiras e distorções heterossexuais. ― ("Manifesto Gay")
É ubíquo. É mencionado pelos professores, pela mídia e até pela Wikipedia. Todos papagueiam na Internet. Se tornou incontestável. Mas, afinal, ¿sobre o que estamos falando? Atualmente, a maioria supõe que a homossexualidade era algo comum na Grécia Antiga. Entretanto, esse mito é apenas um gigante com pés de barro. Neste artigo refutaremos o mito grego mais conhecido: o mito de que a homossexualidade formava sistematicamente parte da sociedade grega. Como se verá, a tese não é de que a homossexualidade fosse inexistente entre os gregos, mas que a moralidade tradicional atribuía uma reputação negativa ao comportamento homossexual. Também será mostrado que, na maioria dos casos, havia punições prescritas para a conduta homossexual, como a pena de morte, o exílio ou a marginalização da vida pública. Realmente, houve homossexuais na Grécia, mas, como veremos, isso não significa que a homossexualidade uma "prática usual", muito menos que a pederastia era uma "instituição social", como alguns círculos alegam.

A TEORIA DO PROTESTANTISMO 

O protestantismo pode ser considerado um ramo extremamente negativo do cristianismo, especialmente em sua vertente calvinista-puritana. Tal como vimos em outro artigo, o cristianismo foi extremamente negativo para o povo europeu, apesar disso, é fácil ver no catolicismo a repetição de alguns arquétipos e símbolos pertencentes à Europa pré-cristã. O Renascimento e a maior parte da arte europeia se concentram em áreas católicas, enquanto que as áreas protestantes renovaram o fundamentalismo semítico de atacar imagens ("idolatria") e desproveram o mundo nórdico da herança mais dionisíaca (os protestantes eram mais "apolíneos" na importância que davam à palavra e música, que culminou com Bach), visual e litúrgica, e do legado clássico greco-romano, que era, por definição, pagão.

Não obstante, nem tudo no protestantismo foi negativo, tampouco. Por um lado, as congregações foram disciplinadas, daí, nasceram fortes laços comunitários que, do ponto de vista racial, preservou muito melhor o legado genético de seus fiéis do que o dos católicos ― isso é evidente quando comparamos a colonização das Américas.

Deixando de lado o zelo abraâmico do protestantismo, pode-se reconhecer um mérito inegável: ter incutido em povos inteiros o dever de ler, pois graças a isso, favoreceu-se a alfabetização, o acesso à leitura, à cultura e à informação. O objetivo principal desta política era que todos pudessem interpretar a Bíblia à sua própria maneira, pensar por si mesmos e conhecer a "palavra de Deus" em primeira mão, sem ter que recorrer a "intermediários" como o clero, que tendia a fazer dos paroquianos católicos um rebanho sem opiniões próprias. Na prática, isso favoreceu o livre pensamento, a possibilidade de, em caso de divergência do papel "oficial", fundar sua própria comunidade religiosa, apoiando-se em algum versículo bíblico específico, e, de qualquer forma, recorrer às fontes originais para tentar descobrir a verdade. Não é de surpreender, portanto, que as medidas eugênicas foram implementadas mais nas nações protestantes, e que personagens como Nietzsche ou Darwin vieram de ambientes protestantes, onde o conhecimento da Bíblia estava na ordem do dia e onde a cultura escrita tinha uma difusão muito maior.

O que será defendido neste artigo é precisamente a possibilidade de cada qual conhecer a verdade em primeira mão, sem ter que confiar em intermediários de reputação duvidosa. Portanto, neste artigo, fontes gregas serão usadas para demonstrar que a homossexualidade na Grécia Antiga não era, de forma alguma, um fenômeno social aceito. Evitaremos, então, a tirania do pensamento único e dos círculos desvirtuados que alegam que a Grécia Antiga, uma das civilizações mais belas que existiu, estava baseada na homossexualidade.
A ORIGEM DO MITO  

A primeira "coincidência" que chama mais atenção é que quase todos os autores que reivindicaram que a homossexualidade fosse algo corrente na Grécia Antiga... eram homossexuais. Esta não é uma questão trivial, pois implica necessariamente que as perspectivas de tais autores são inevitavelmente influenciadas por suas tendências pessoais.

Falamos, por exemplo, de autores como Walter Pater, Michel FoucaultJohn J. WinklerJohn Boswell, Kenneth James Dover e David M. Halperin, que, aparentemente, distorceram a história grega à sua conveniência. O instituidor disso foi precisamente Walter Pater (1839-1894), professor em Oxford. Por alguma estranha casualidade, ele e todo seu círculo de seguidores eram homossexuais (por exemplo, Pater foi professor de Oscar Wilde, o famoso poeta inglês) e, portanto, não surpreende que ele extrapolasse as relações professor-aluno. Provavelmente, o argumento mais desonesto de Pater é que "amor platônico" não tinha relação com a Psiquê, sendo algo meramente sexual.

Em seus escritos, esses autores são cautelosos, se utilizando de suposições ambíguas, para criar a margem necessária para manobrar sua própria visão, sempre tendendo a ver fantasmas e sinais homossexuais onde não existem. Mais adiante, veremos seus argumentos espalhafatosos. Mesmo assim, convém dizer que desde que esses autores escreveram suas teorias, principalmente no final do século XIX e durante a onda hippie pós-1968 do século passado, não houve contribuição, quer dizer, toda a informação que assola a Internet são simples repetições de suas teorias.

¿Onde, então, está o problema em tal teoria? O problema é que:

• Os gregos, em particular os de origem jônica (como os atenienses), que foram mais influenciados pelos costumes orientais, tendiam a "reter" suas esposas em casa e desassocia-las da vida pública, suprimindo a imagem feminina ― algo que foi muito bem satirizado pelo historiador Indro Montanelli. Esta situação não foi um fenômeno essencialmente pan-helênico, porque as mulheres de origem dórica (como as espartanas, por exemplo) tinham uma liberdade verdadeiramente notável; em qualquer caso, os laços pessoais mais fortes tendiam a ser estabelecidos entre homens, como será discutido mais adiante.
• Os gregos (e isto inclui todos eles) admiravam a beleza, inimportando onde ela se manifestasse, tanto em homens quanto em mulheres; mas daí concluir que eles sempre traduziam essa admiração em algo sexual, há uma grande diferença, como veremos mais à frente.
• Em um povo que enfatizava tanto a formação desportiva, o combate e a camaradagem, era normal que passando muito tempo longe de casa durante as aventuras e grandes batalhas fossem formados laços extremamente profundos (algo raramente compreendido por uma sociedade desviante como a nossa); mas, em qualquer caso, esses laços não passavam de uma fraternidade. Apesar da enorme importância que a relação entre professor e aluno teve na Grécia, e que, sem dúvida, conforme o tempo alguns se degeneraram em homossexualidade, veremos que não foram poucas as cidades-Estado que tomaram medidas para salvaguardar a sacralidade desta instituição educacional.
• Hoje, o ideal de beleza do imaginário coletivo é a mulher por volta dos trinta anos (o que não faz com que todas as mulheres se tornem "lésbicas"). Na Grécia Antiga, o ideal de beleza era o jovem que estava entre a adolescência e a maturidade, pois era considerado como o único tipo humano que combinava a flor da juventude e a força da masculinidade.

• As palavras gregas para designar o iniciador e o iniciado (que aspirava se tornar um homem) eram, respectivamente, erastes e eromenos, que, literalmente traduzidas, seria algo como "amante" e "amado". No entanto, como veremos, a mentalidade tradicional fazia uma distinção entre amor carnal e amor platônico, e essas relações eram baseadas no segundo tipo, considerado mais elevado, mais altruísta, dissociado do carnal e mais capaz de incutir virtude e sabedoria. Na Grécia Antiga, pensava-se que um rapaz precisava da orientação e tutela de um homem mais velho para prepará-lo para a vida ou excelso no esporte, na caça e no combate. [Realmente se deve procurar por traduções mais adequadas, pois hoje em dia essas palavras estão associadas à homossexualidade (diferente de seu significado original, onde relações carnais eram proscritas). "Professor" e "aluno" seriam equivalentes muito mais fiéis ao contexto moderno. O caráter de "amante" e "amado" deveria ser, então, como um amor puramente platônico em uma relação baseada em admiração, respeito e irmandade, completamente desprovido de conotações eróticas como as entendemos nos tempos modernos].

Este artigo não pretende negar que a homossexualidade existiu na Grécia (se foram promulgadas leis contra ela, é porque houve casos), ou que todos os fatores expostos se permitiram acontecer com a passagem dos séculos nas relações entre homens ― especialmente em condições de decadência e esquecimento da tradição ancestral. O que será negado neste artigo é que essas relações eram endêmicas e socialmente aceitas, ou até mesmo "reguladas estatalmente".

Dito isso, comecemos a refutar o mito.
ALGUNS APELIDOS PARA HOMOSSEXUAIS NA GRÉCIA ― A IMPORTÂNCIA DE AEDOS        

Historicamente, a maioria das sociedades humanas proibiram e estigmatizaram práticas sexuais estéreis ou aquelas que implicavam em risco de infecção. A homossexualidade satisfaz as duas condições, pois, por um lado, é incapaz de gerar uma nova vida e, por outro, o orifício usado não é precisamente a parte mais limpa e higiênica do corpo humano. Na Grécia Antiga, que não era exceção a essa regra geral, não havia palavras modernas como "homossexual" ou "gay", portanto, aos homossexuais havia uma série de palavras geralmente de significado altamente infame e indigno:

Euryproktos: bunda aberta.
Lakkoproktos: bunda de poço. 
Katapygonkataproktos: homossexual passivo.
Arsenokoitai: homossexual ativo.
Marikas: saltitante, escandaloso [aquele que chama atenção].
Androgynus: homem-mulher, "travesti", efeminado, ambíguo.
Kínaidos (κιναίδος): causador de vergonha. Deriva de kineo (mover) e Aidos (Vergonha, deusa do pudor e companheira de Nêmesis e punidora das transgressões morais). "Aquele que traz a ira de Aedos". Como veremos, a Aedos é sempre acompanhada pela cruel Nêmesis (Indignação), uma divindade vingativa que se encaixa bem no conceito de "karma" ou punição pelos pecados, e revela que os gregos pensavam que todos os que praticavam sodomia estavam moralmente comprometidos e tinham uma espada de Dâmocles sobre sua cabeça. Mas o fato mais importante é que, no imaginário grego, a Aedos estava associada precisamente ao ânus:
Quando Zeus criou os humanos e as outras características de suas almas, ele as colocou em todas as partes do ser humano. Porém, ele deixou a VERGONHA [Aedos] de fora. Já que não sabia onde colocá-la, ele ordenou que ela fosse inserida no ânus. A Vergonha, porém, reclamou disso e ficou muito irritada. E, enquanto estava profusamente reclamando, ela disse: "Eu vou concordar em ser inserida dessa forma, mas se qualquer coisa for inserida depois de mim, eu sairei". ― (Esopo, "Fábulas").
Deste mito deduz-se que, de acordo com a mentalidade tradicional grega, o sexo anal implica, por sua vez, na ausência de pudor e modéstia (a modéstia era considerada uma virtude na Grécia) e a vergonha em torno da pessoa.

Outra questão é que, em uma cultura pagã europeia em que cada atividade e cada momento da vida tem seu próprio "patrono" ou deus, seria de se esperar ― particularmente em uma sociedade em que supostamente a homossexualidade era generalizada ― uma divindade relacionada à homossexualidade... mas inexiste. Ou melhor, se for o caso: essas "divindades" são os sátiros, seres degenerados que realizavam todas as perversões imagináveis para a mente humana, e que na Grécia não tinham boa reputação. Mas isso será discutido mais tarde. Por outro lado, em uma civilização que supostamente concede status de normalidade à homossexualidade, e que a favorece sobre a heterossexualidade, seria de se esperar, novamente, que o erotismo fosse personificado em uma divindade representada por um homem, mas a realidade, mais uma vez, não é essa: a deusa do amor, a portadora de Eros e todas as qualidades que fazem os homens perderem a cabeça, é Afrodite, o arquétipo da mulher alfa.

O MITO DE LAIO COMO EXEMPLO DE AEDOS EM AÇÃO

O mito de Laio é um exemplo perfeito do que acontece quando Aedos é insultada, atraindo, por consequente, a Húbris, provocando a vingança de Nêmesis, de acordo com o conceito da Hélade arcaica e clássica. Começaremos a falar sobre o primeiro causador de vergonha e pedófilo da mitologia grega, o Laio, e veremos as consequências de seu "pecado".

Laio (o "canhoto") era de linhagem real da cidade de Tebas, mas quando ele iria ascender ao trono, seus primos usurparam-o e Laio teve que se exilar em Pisa, onde o rei Pélope (daí vem Peloponeso) acolheu-o como um convidado. Pélope queria que Laio ensinasse seu filho Crísipo as artes da equitação, numa relação de professor e aluno. No entanto, Laio profanou o caráter sagrado e platônico dessa relação, abusando sexualmente do pobre garoto. O garoto, por pura vergonha (lembre-se de Aedos), acaba cometendo suicídio. A transgressão sem precedentes de Laio traz sobre ele a vingança divina e, assim como Aedos fez Crísipo cometer suicídio, Nêmesis, sua acompanhante, punirá seu pecado. Os deuses então tramam um plano para canalizar sua raiva punindo a perversão e amaldiçoando toda linhagem de Laio até que ela desaparecesse (uma lição de moral ao resto dos mortais).

A maldição começa quando os deuses enviam a Esfinge para Tebas. Este ser, com corpo de leão, cabeça de mulher e asas de pássaro, se dedica a semear o terror nos campos tebanos, destruindo as plantações e estrangulando todos aqueles que são incapazes de resolver seus enigmas. Laio acaba se casando com Jocasta, mas o oráculo de Delfos o avisa para que não tenha progênie, porque ele seria um menino destinado a matar seu pai e casar com sua mãe. Moira (o destino) não pode ser evitada, então a profecia é cumprida: Édipo, que havia sido mandado pra longe de sua família, matou seu pai sem saber quem ele era e, tendo salvo Tebas da Esfinge, se casou com sua mãe, a rainha Jocasta, tornando-se rei de Tebas até que, quando os fatos são finalmente conhecidos, por vergonha (Aedos e Nêmesis entram em ação), Jocasta se enforca e Édipo arranca os próprios olhos. Quanto aos filhos nascidos deste casamento incestuoso, dois deles, Etéocles e Polinices, matam-se em batalha, enquanto as filhas, Antígona e Ismênia, são condenadas à morte. A Justiça é feita por causa do que Laio, seu avô, havia cometido.

Quanto à questão da homossexualidade nesse mito, várias perguntas devem ser feitas: ¿Por que Crísipo cometeu suicídio se o sexo entre professor e aluno era supostamente tão normal? ¿Por que Zeus enviou a Esfinge para Tebas como punição? ¿Por que a linhagem de Laio foi amaldiçoada? Este mito foi criado como prevenção contra a homossexualidade e contra aqueles que são ingratos para com a hospitalidade de seus anfitriões, profanando a dignidade de criaturas inocentes. O mito de Laio e Édipo possui muitas lições morais. Por um lado, que a aberração é sempre punida pelos deuses, mais cedo ou mais tarde, tendo ciência disso ou não; e que Aedos é sempre acompanhada pela vingança "cármica" de Nêmesis. Por outro lado, que os pecados dos pais são pagos, pelo menos, até a terceira geração. E, finalmente, que os seres malignos e os monstros (como a Esfinge) são os filhos da traição e da aberração, criados pelas transgressões dos homens ― especialmente as sexuais.

Quando pensamos que esse mito era uma tradição transmitida oralmente de geração em geração e representada teatralmente ano após ano em uma civilização que atribuía extrema importância estar em harmonia com os deuses, é difícil pensar que na Grécia esse comportamento fosse socialmente aceito (particularmente em Tebas, onde ocorreu o mito de Laio).

Por essa razão, devemos agora voltar nossa atenção para o Batalhão Sagrado, um corpo de elite do Exército de Tebas formado por Epaminondas e Górgidas em 378 AEC, que acabaria por derrotar e ocupar a Esparta, e que, de acordo com os círculos, consistia em cento e cinquenta pares homossexuais. Acredita-se que há uma alusão ao Batalhão Sagrado no "Banquete" de Platão (178e), quando se discute a conveniência de ter "um exército de amantes e amados". Se examinarmos a fonte original da frase, encontramos os termos gregos "genesthai e stratopedon eraston te kai paidikon", no qual a palavra eromenos (amado) não aparece em qualquer lugar; só encontramos a palavra paidikon (menino). O que os círculos não mencionam é que a inovação de Epaminondas consistiu em modificar as táticas de combate de seu exército. No passado, os novatos (alunos, força, impulso) formavam a linha de frente e os veteranos (professores, sabedoria, experiência) a linha de fundo. O que Epaminondas fez foi misturá-los igualmente em todas as linhas, combinando as qualidades de ambas as linhas. Outrossim, como em tantos outros casos, não há absolutamente nada mostrando qualquer traço de homossexualidade, tal como a instituição anteriormente citada entre professor e aluno de caráter platônico.

Como confirmação, no ano 338 AEC, após a Batalha de Queroneia, na qual a resistência grega perdeu para a invasão macedônica, o rei Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, olhou para os soldados tebanos mortos que lutaram heroicamente até a morte. Depois de um longo tempo olhando-os, exclamou: "Morra miseravelmente aquele que pensar que estes homens fizeram algo vergonhoso!"

Outra citação referente ao caso de Laio está nas "Leis" de Platão, quando o ancião ateniense, representante do ponto de vista platônico, fala "daquela lei que era vigente antes da época de Laio, declarando que é certo nos abster da relação sexual em que substituímos uma mulher por um homem ou um rapaz, aduzindo como evidência a natureza dos animais selvagens e apontando o fato do macho não tocar o macho com esse propósito, visto que é contra a natureza" (836c). Laio seria visto aqui, então, como aquele que transgrediu a lei natural ao contrariar os deuses. O ateniense defende a ideia de que a lei não deve ser benevolente em relação à homossexualidade, uma vez que ela não inculca autocontrole na alma do "ativo" (que é acusado de lascívia) ou valor na alma do "passivo" (que é acusado de imitar o papel feminino de maneira antinatural)
HOMOFOBIA NAS LEIS E A MORALIDADE GREGA 

Neste tópico veremos uma série de citações que testemunham uma clara "homofobia", certificando que havia Estados gregos, incluindo alguns dos mais importantes, que proibiram a homossexualidade com punições severas, e que, em tal caso, dificilmente se pode dizer que a homossexualidade era "socialmente aceita" ou que constituía uma "instituição social".

Em seu "Contra Timarco", o orador Ésquines (389-314 AEC) nos fala sobre as famosas leis de Sólon, entre as quais há uma que convém assinalar:
Se algum ateniense tiver um companheiro do mesmo sexo, a ele não será permitido se tornar um dos nove arcontes; nem trabalhar como sacerdote ou magistrado, ou ocupar qualquer cargo público, nem no país nem no estrangeiro, seja por sorteio ou por eleição; ele não será enviado como arauto; ele não participará de debates, nem estará presente em sacrifícios públicos; e ele não poderá entrar nos limites de um lugar que foi purificado para a congregação do povo. Se qualquer homem for acusado de atividades sexuais ilegais como as descritas, ele deverá ser executado. (21)
O discurso de Ésquines é reforçado quando faz menção de seus antepassados atenienses, "severos em relação a todo comportamento vergonhoso", e que consideravam "preciosa" a "pureza de seus filhos e de seus concidadãos". Ele também elogia as medidas espartanas contra a homossexualidade, citando o ditado de que "é bom imitar a virtude mesmo de um estrangeiro".
Portanto, algumas leis da democracia ateniense seriam taxadas hoje em dia como "homofóbicas", e é realmente hilário quando a atual democracia progressista tenta fincar suas raízes na Grécia: até Atenas, talvez o Estado grego mais "liberal", só permitia o voto aos cidadãos, ou seja, homens maiores de idade descendentes de famílias nobres que haviam superado extenuantes testes físicos (estamos falando de proezas esportivas que são impraticáveis para a grande maioria) e que estavam dispostos a salvaguardar a integridade da pólis ateniense com suas armas e com seu sangue.
Por sua parte, o Demóstenes (384-322 AEC), um político e orador ateniense, lista uma medida semelhante em seu "Contra Androção", quando ele especifica que aqueles que praticam sodomia "não terão direito de falar em público tampouco apresentar um caso perante um tribunal" (30).
A conclusão derivada desses trechos é a de que os homossexuais atenienses eram proibidos de participar de eventos políticos, religiosos ou culturais, sendo considerados cidadãos de segunda classe.
Agora, o mais notável é o caso de Platão (427-347 AEC), por um lado, porque ele sempre elogia as medidas espartanas (que, como veremos, eram severas em relação a homossexualidade) e, por outro lado, porque ele fala o tempo todo sobre a importância da "abstinência", "moderação", "comedimento" e "autocontrole"; ele atribui grande importância ao controle dos instintos e do prazer, a tal ponto que, hoje em dia, a maioria das pessoas o veria como um velho ranzinza ― não à toa que "amor platônico" é considerado um amor idílico, puro e desprovido de caráter sexual; tal como, por exemplo, expressa o poeta renascentista Francisco Petrarca a uma "etérea" amada que não é desse mundo: se refere a um amor ascético e ritual, que catalisava a excelência do espírito e não coincidia necessariamente com o amor físico.
Entrando no assunto, no dialogo "Leis" tem um excerto particularmente interessante:
Quando o macho se une à fêmea para a procriação, o prazer experimentado é considerado devido à natureza, porém contrário à natureza quando o macho se une ao macho ou a fêmea se une à fêmea, sendo que os primeiros responsáveis por tais enormidades foram impelidos pelo domínio que o prazer exercia sobre eles. E todos nós acusamos os cretenses de terem inventado o mito de Ganímedes. (Livro I, 636c)
Mais adiante, o velho ateniense dá duas opções possíveis para a legislação em sentido sexual:
Poderíamos impor uma de duas alternativas no que concerne às relações sexuais: ou ninguém ousará tocar nenhuma pessoa nobre e livre, exceto sua própria esposa, nem lançar sua semente em mulheres adúlteras, gerando filhos ilegítimos e bastardos, nem pervertendo a natureza desperdiçando seu sêmen na sodomia; ou então deveremos abolir inteiramente as relações com o sexo masculino. (Livro VIII, 841ce)

Em "Fedro", o Platão fala sobre como os homossexuais temem ser descobertos (o que seria incomum em uma sociedade onde a homossexualidade fosse uma "instituição social", como alguns alegam):

Suponhamos que, em face das convenções, receiam que a vossa conduta seja divulgada, tornando-lhes alvos de críticas e intrigas. (232)
Enquanto isso, o Plutarco, um autor posterior (46-120 EC), em "Morália" (Volume X, 751ce), contrasta no seu tratado sobre o amor a união "natural entre homem e mulher" com a "união entre homens, contrária à natureza", e algumas linhas depois diz mais uma vez que "aqueles que coabitam com homens o fazem contra à natureza". 

Outro escritor, dos tempos romanos, o Luciano de Samósata (125-181 EC), em sua obra "Erotes" (Amores), possui inúmeras passagens notáveis, entre as quais algumas podem ser destacadas, embora seja aconselhável ler toda a obra pois é um debate entre o amor para com os homens e o amor para com as mulheres, no qual o autor posiciona-se claramente a favor do "divino Platão":
Como uma coisa não pode nascer de uma única fonte, Ela [a "mãe primordial"] dotou cada espécie de dois gêneros: o macho, a quem deu o principio da semente, e a fêmea, à qual foi moldada como um recipiente para a referida semente. Eles são unidos de acordo com a necessidade saudável, de modo que, permanecendo dentro de seus limites naturais, a mulher não pretenda se tornar um homem, nem o homem se tornar indecentemente efeminado. É assim que as uniões entre homens e mulheres perpetuaram a raça humana até hoje. (19)
No início, quando os homens viviam imbuídos de sentimentos dignos de heróis, eles honravam a virtude que nos torna semelhantes aos deuses; obedeciam as leis fixadas pela Natureza e, unidos com uma mulher de idade apropriada, geravam crianças virtuosas. Mas, pouco a pouco, a raça caiu do topo para o abismo da luxúria, buscando prazer em caminhos novos e errantes. Finalmente, a concupiscência, quebrando todas as barreiras, transgrediu as próprias leis da Natureza. Aliás, o primeiro homem que olhou para o seu semelhante como se fosse uma mulher, ¿poderia fê-lo por engano? Dois seres do mesmo sexo acordaram em uma cama; quando olharam um para o outro, nenhum sentiu-se orgulhoso pelo feito. Semeando sua semente (como diz o ditado) em rochas estéreis, eles trocaram um prazer passageiro por uma grande desgraça. (20).

Poderíamos enfatizar que não foram poucas as comédias teatrais que usavam uma linguagem extremamente chula para depreciar os homossexuais, especialmente aqueles que assumiam o papel passivo (chamados de kataproktos). Se a homossexualidade fosse uma prática comum, isso implicaria que o comediante estaria ridicularizando (e, portanto, perdendo) toda a sua audiência masculina.

No entanto, toda a "homofobia" que vimos neste tópico se ofusca diante das leis do que foi, indubitavelmente, a mais "homofóbica" e religiosa de todas as pólis gregas, como veremos no tópico a seguir.

ESPARTA

As regras relativas aos prazeres em Esparta me parecem as melhores do mundo. — (Megilo, nas "Leis" de Platão, trecho 637a)
O caso de Esparta é infame, pois apesar de inúmeras evidências de "homofobia", os círculos as desconsideram. Sendo assim, pegaremos o fragmento do capítulo quatorze do artigo sobre Esparta: 

"


O ritmo de vida que o espartano levava era tão intenso que conseguia matar uma manada de rinocerontes e nem as espartanas teriam podido suportá-lo. Assim, o mundo da milícia espartana era todo um universo — um universo de homens. Por outro lado, a intensa relação afetiva, o culto à virilidade e a camaradagem que se dava entre os componentes do binômio na falange de combate e em toda a sociedade — e que os degenerados de nossos tempos nunca poderiam compreender — foi usado para supor o mito da homossexualidade. E isso apesar de que os componentes do binômio eram considerados irmãos, pois a cada espartano lhe era inculcado que todo homem de sua geração era seu irmão.

Sobre isso, o Xenofonte escreveu: 
Os costumes instituídos por Licurgo estavam em oposição a todos os outros [Estados gregos, principalmente Atenas e Corinto]. Se algum homem admirasse a alma de um rapaz, tutelando-o, se aprovava, pois acreditava na excelência desse tipo de treinamento. Mas se estava claro que a admiração estava na beleza exterior do rapaz, se proibia a relação como uma abominação; e assim a purgava de toda impureza, de modo que tal relação se assemelhava ao amor paterno e fraterno. — ("Constituição dos lacedemônios", II).  

Portanto, a relação espartana entre professor e aluno era fundada em respeito e admiração, pois constituía um treinamento, quer dizer, uma instrução a sua maneira. A sacralidade da relação professor-aluno foi contestada pelos círculos, assim como a camaradagem. E mesmo assim, ambos os tipos de relação são o fundamento da unidade dos exércitos. Hoje em dia, os meninos crescem à sombra da influência feminina das professoras. E é difícil saber até que ponto a falta de influência masculina limita suas vontades e suas ambições, convertendo-os em mansos, plácidos e irreativos.

Outros falam sobre a instituição espartana do amor de professor e aluno, porém sempre deixaram claro que esse amor era "casto". O romano Cláudio Eliano disse que se dois homens espartanos "sucumbissem à tentação e se permitissem relações carnais, deviam redimir a afronta à honra de Esparta, se exilando ou acabando com a própria vida". O que significa que a pena pela homossexualidade em Esparta era a morte ou o exílio (considerado naqueles tempos pior do que a morte).

"

Temos outro exemplo do caráter platônico das relações professor-aluno em Esparta nas dissertações de Máximo de Tiro (por volta de 180 EC), em que ele escreve que "qualquer homem espartano que admira um menino laconiano o admira apenas como eu admiraria uma bela estátua, pois prazeres carnais deste tipo são levados pela Húbris e são proibidos" (20e). Húbris era considerado um estado da alma ou um demônio que precipitava o homem mortal em direção à presunção, arrogância e insolência em relação aos deuses e suas leis, o incitando a cometer atos sacrílegos que atentam contra a ordem natural. O mito de Laio, que vimos mais acima, talvez seja o melhor exemplo de "Húbris absoluta" e a relação cármica desse conceito de "pecado" ou sacrilégio com Aedos e Nêmesis.

Apesar disso, os círculos distorcem com especulações vãs sobre sinais de homossexualidade onde só se vê amizade, camaradagem e, sim, amor, amantes e amados, mas em nenhum caso um amor carnal, tão somente um amor entre irmãos.
SUPOSTOS PARES HOMOSSEXUAIS E EXEMPLOS NA MITOLOGIA E HISTÓRIA GREGA

A mitologia não deve ser entendida a literal, mas valorada, porque nela estão incorporadas as crenças, a mentalidade, os valores de toda uma civilização, portanto, fornece-nos a chave para sua psicologia, seu imaginário coletivo, seus ideais e seus sentimentos.

Se os exemplos a seguir eram homossexuais, então, é preciso de evidências nas obras originais, não somente especulações baratas e malentendidas sobre a mitologia.

AQUILES E PÁTROCLO   
Aquiles e Pátroclo são talvez o par homossexual mais conhecido do mundo grego. De acordo com alguns círculos, eles eram amantes homossexuais.

Bem, novamente, o mais aconselhável é verificar as fontes originais. ¿E qual a melhor fonte senão a Ilíada de Homero? Vamos analisar o Canto IX da obra mencionada:

Deita-se Aquiles no fundo da tenda, com uma moça ao lado, que havia trazido de Lesbos, filha do grande Forbante, a Diomeda de faces rosadas. Pátroclo, no lado oposto, também se deitou tendo ao lado outra moça, a Ífis de bela cintura, que Aquiles lhe trouxe quando saqueara a Esquiro, cidade de Ênio. (657-668).

Se Aquiles e Pátroclo eram amantes, ¿por que eles dormiam em lados opostos da tenda, cada um com uma mulher? ¿Eles não deveriam dormir juntos? ¿Onde está a menção do "amor" de Aquiles e Pátroclo como algo sexual e além de uma intensa amizade ou amor platônico entre irmãos de armas?
Sem mencionar que o comportamento de Aquiles em toda a saga de Troia é de um "macho alfa". Ele se orgulha de ter devastado e saqueado numerosas cidades, matando inúmeros homens e escravizado e possuído suas esposas e filhas. Ele se aira quando Agamenon captura Briseis, sua escrava favorita, e quando os aqueus queriam que Aquiles voltasse à batalha, não o tentavam com efebos (o que seria normal para um homem que "se casa apenas para procriar, mas se envolve com homens", como alguns reivindicam) mas com uma infinidade de belas escravas, virgens e "talentosas na arte do prazer", além de outras séries de recompensas materiais que não vêm ao caso.

Pátroclo, mais velho que ele, é meramente seu professor e iniciador, além de seu amigo, e a atitude que ele tem para com Aquiles é como a de um irmão mais novo. A intensidade das aventuras vividas em torno da guerra havia forjado entre eles um vínculo de camaradagem particularmente intenso, o que é muito claro quando, na morte de Pátroclo pelas mãos do herói troiano Heitor, Aquiles se afunda no mais terrível desespero. Alega-se que a reação de Aquiles é forte demais para que fosse uma relação de mera fraternidade, porém, mais tarde, na Ilíada, o rei Príamo sente uma tremenda dor quando seu filho Heitor cai sob a lança de Aquiles, o que demonstra que, para os gregos, o amor erótico não tinha relação com o desespero pela perda de um ente querido.
ZEUS E GANÍMEDES   

De acordo com alguns círculos, Zeus e Ganímedes são outro exemplo dos pares homossexuais do panorama olímpico. Olharemos esse mito atentamente.
Ganímedes era um príncipe troiano que, recém-saído da adolescência, vivia um estágio transitório de caçador-coletor em um ambiente selvagem, o que era bastante comum na Grécia tradicional (Esparta também tinha esse costume) como um rito de passagem para marcar a chegada da masculinidade. Impressionado com seu porte, Zeus se transforma em uma águia e sequestra-o no Monte Ida, o levando ao Olimpo para ser copeiro dos deuses.
¿O que significa "copeiro"? Copeiro, como o próprio nome indica, é aquele que serve as copas. Realmente, os deuses e deusas procuravam o "garçom" mais bonito, pois, de todos os povos, os gregos eram aqueles que atribuíam maior importância à beleza, inevitavelmente a relacionando com a divindade.

Vejamos o que Homero diz sobre Ganímedes:
De Tros provieram três filhos, de forma e intelecto perfeitos: Ilo, depois deste, Assáraco e, alfim, Ganímedes deiforme, que entre os mortais foi, sem dúvida, o herói de mais bela aparência. Os deuses a este raptaram, por causa de sua beleza, para que a Zeus de copeiro servisse e vivesse no Olimpo. ― ("Ilíada", Canto XX).
O sábio Zeus, certamente, raptou Ganímedes de cabelos doirados pela sua beleza, para que ele estivesse entre os imortais e, no lar de Zeus, o vinho vertesse para os deuses; prodígio aos olhos, é honrado por todos os imortais quando tira o néctar vermelho da cratera dourada. ― ("Hino homérico à Afrodite"). 
¿Onde estão os sinais de homossexualidade nesse mito? Pois bem, nas fontes não há menção de uma relação carnal entre Zeus e Ganímedes.

Certamente os círculos dirá-se-ão que os sinais são "ocultos" ou "simbólicos". Apesar disso, a realidade é que a mitologia grega é totalmente explícita no tocante a esses assuntos, não deixando margem para malinterpretações, e, de qualquer forma, o fato de que muitas relações tenham gerado crianças é mais do que suficiente. Ademais, se os gregos supostamente viviam em um sociedade onde a homossexualidade era algo socialmente aceito, então, ¿por que os autores de tais mitos esconderiam as histórias de pares homossexuais em ambiguidades? 

Além disso, e como veremos mais abaixo, o Zeus é um deus que se envolve com dezenas, talvez até centenas, de deusas e mulheres mortais (na Ilíada há a sensação de que há poucos soldados, reis e heróis que não descendem dele). Em cada caso de Zeus, sua esposa Hera, a patrona da fidelidade, se enciuma, conflitando com seus impulsos poligâmicos.

APOLO E JACINTO 

Na mitologia grega, o Jacinto era um belo e forte príncipe espartano que o deus Apolo tutelava. Segundo Filóstrato, Apolo ensinou Jacinto a atirar com arco e flecha, a tocar lira, a sobreviver em florestas e montanhas, e a se destacar nas diversas disciplinas desportivas e ginásticas; seu papel de professor e iniciador é evidente, não só em relação a Jacinto, mas de toda Esparta, uma vez que Jacinto, por sua vez, transmitia o conhecimento adquirido do deus a seus compatriotas. Durante um treinamento, o deus e o rapaz estavam lançando disco. Em determinado momento, Apolo o lançou com muita força e Jacinto, para impressioná-lo, tentou pegá-lo, mas, ao cair do céu, o disco quicou no chão, acertando-o na cabeça e matando-o. Apolo, afligido, não permitiu que Hades reivindicasse a alma do rapaz, e, com seu sangue, criou a flor de jacinto.
¿Existe alguma homossexualidade no mito? ¿Existe alguma intervenção de Eros ou Cupido? ¿Há qualquer coisa que sugira que entre Jacinto e Apolo exista algo além de um amor entre irmãos ou companheiros de treinamento? Depois de ler os escritos de autores que abordaram o mito de Jacinto, como Heródoto ("Histórias"), Pausânias ("Descrição da Grécia"), Luciano de Samósata ("Diálogos dos deuses"), Filóstrato ("Imagens") e alguns outros, não se pode encontrar qualquer coisa que sugira o amor erótico, somente uma profunda amizade entre professor e aluno.
Bem, para os círculos, o mito de Jacinto não só demonstra a homossexualidade pederasta, como também confirma que a mesma era generalizada entre os espartanos só porque o feriado de Jacinto era importante em Esparta! [Ao sudeste do Estado espartano, na cidade de Amiclas, havia um túmulo (no estilo das estruturas fúnebres erguidas nas antigas culturas da Europa Central) que era a tumba de Jacinto, e onde os espartanos realizavam as chamadas Jacintas, típicas festas de três dias de duração, em que se celebrava a morte e ressurreição de um ídolo religioso]. Como vimos, Esparta reprovava a conduta homossexual e, além disso, como veremos adiante, o comportamento de Apolo na mitologia grega é incontroverso (entre outras coisas, é o deus que amaldiçoa o pedófilo e causador de vergonha Laio a pedido de Pélope).

Uma versão alternativa explica que Zéfiro, o vento do Oeste, desde o Taigeto (a montanha em que os espartanos praticavam sua eugenia) desviou o disco por ciúme de Jacinto. Sem embargo, mais uma vez, não encontramos conotações eróticas em nenhuma fonte, tal como as encontramos na relação entre Zéfiro e Íris. 

O CASO DE ALEXANDRE, O GRANDE
Alexandre Magno é uma figura manipulada a extremos. Não é de estranhar que quando o filme "Alexandre" saiu em 2004, um grupo de vinte e cinco advogados gregos ameaçou processar a Warner e Oliver Stone (diretor do filme), acusando-os de distorcer a história à sua conveniência. Na Grécia, o filme ficou em cartaz por apenas quatro dias e foi um tremendo fracasso; os gregos conhecem bem sua própria história como a palma da mão, pois leem todos os livros (incluindo em grego antigo/clássico), não creditando reinterpretações modernas.
Então, em primeiro lugar, é necessário lembrar que os fatos sobre Alexandre que sobreviveram até os dias de hoje foram escritos séculos após sua morte, e que, portanto, devem ser lidos com cautela. No entanto, como sempre, temos evidências suficientes para independer de teorias infundadas. Assim, todas as fontes concordam em descrever Alexandre como um homem sexualmente contido. De fato, Plutarco nos conta como Alexandre se ofende quando um comerciante lhe oferece dois rapazes:
Filoxeno, comandante das províncias marítimas, escreveu-lhe, um dia, que certo Teodoro de Tarento, seu vizinho, possuía dois rapazes para vender, ambos de uma grande beleza; e Filoxeno perguntava ao rei se queria comprá-los. Alexandre, indignado com a proposta, exclamou várias vezes, perante seus amigos: "¿Que ação vergonhosa me viu praticar, Filoxeno, para me propor semelhantes infâmias?" E dirigiu a Filoxeno, em resposta, as mais vivas censuras, ordenando-lhe que se libertasse da presença desse Teodoro e de sua mercadoria. Com igual severidade, repreendeu Hagnon, que lhe escreveu que queria comprar Crobilo de Corinto, jovem de maravilhosa beleza, para lhe presentear. ― ("Vida de Alexandre", XXII)

Quanto ao seu suposto caso com seu amigo Heféstio, mais uma vez, não há absolutamente nenhuma evidência para supor que os amigos de infância fossem um par homossexual, e, realmente, não há historiador sério que afirme que eles eram amantes, visto que fazer essa afirmação seria insustentável. Além disso, em Susa, capital do Império Persa, quando Alexandre se casou com a princesa Estiraira, filha mais velha do rei Dario III, presenteou Heféstio como esposa a filha mais nova do rei, a princesa Dripetis, de modo que passaram a ser cunhados. Ele também teve relações com Barsina (que lhe deu um filho, Héracles) e com Roxana ("a mulher mais bela da Ásia"), que lhe deu um filho póstumo, Alexandre IV.

Em relação ao famoso beijo no eunuco Bagoas, que é frequentemente citado como prova cabal de sua homossexualidade, vemos o que acontece, tal como nos exemplos acima, quando um costume tradicional é visto com um olhar moderno: um mal entendido.
Plutarco descreve como Bagoas venceu um concurso de cantar e dançar, e como as tropas macedônicas aplaudiram, pedindo a Alexandre que beijasse o eunuco, com o qual o imperador concordou, o beijando na bochecha. Primeiramente, se deve salientar que este incidente ocorreu depois da travessia do deserto de Gedrósia, e que todos os presentes na cerimônia, incluindo Bagoas, eram sobreviventes dessa marcha, por isso é normal os soldados pedirem um sinal de respeito ao rapaz quando este ganhou o concurso. Entretanto, o mais importante é o significado do beijo. Em todo o mundo os beijos tiveram significados diferentes. No Japão, tradicionalmente, o beijo era apenas uma questão de mãe para filho, enquanto que no Ocidente, o beijo tinha conotações cerimoniais e públicas, como cumprimento ou sinal de respeito, por exemplo; Na Pérsia antiga, onde Alexandre se encontrava, homens de posição semelhante se beijavam na bochecha para se cumprimentar. Algo bastante simples, que para o nosso contexto social é "visto com estranheza", mas que não o era na época de Alexandre; Novamente, não podemos juizar um costume antigo com base na mentalidade moderna. Além disso, apenas um beijo na bochecha é algo muito pequeno, tampouco para que se possa perfazer. 

A REALIDADE: A MITOLOGIA GREGA COMO APOLOGIA AO AMOR CRIATIVO (OU O PODER DA PROCRIAÇÃO)  
Depois de refutar a questão dos "amantes masculinos", podemos mencionar os famosos casais da mitologia grega para mostrar o comportamento dos deuses e heróis, o que inevitavelmente nos faz pensar em coisas como a poligamia, uma vez que os deuses e heróis, ao invés de uma parceira, costumavam ter um harém inteiro, com o objetivo de semear no mundo crianças semidivinas.
• Zeus - Hera, Leto, Deméter, Dione, Éris, Maia, Métis, Mnemósine, Selene, Têmis, Europa, Alcmena, Dânae, Antíopa, Calisto, Carme, Egina, Elara, Electra, Eurínome, Himalia, Io, Lâmia, Laodâmia, Leda, Mera, Níobe, Olímpia, Pirra, Taigete, Tália, Iodama e muitas outras mais.
• Ares - Afrodite (que deu à luz a Harmonia), Érope, Agraulos, Altea, Astíoque, Atalanta, Cirene, Crisa, Demonice, Ênio, Eos, Erítia, Estérope, Filómone, Reia Sílvia (chamada de Ilia na Grécia, a mãe de Rômulo e Remo, os fundadores de Roma), Otrera, Pelópia, Protogênia, Tritaia e outras mais.
• Poseidon - Agámede, Álope, Amímone, Anfitrite, Arne, Astipaleia, Caliroe, Calquínia, Cânace, Celeno, Ceróesa, Clito, Cloris, Côrcira, Deméter, Etra, Euríale, Eurínome, Europa, Gaia, Hália, Hipótoe, Ifimédia, Líbia, Melia, Medusa, Melantéia, Mitilene, Peribeia Quione, Salamina, Tiro, Teosa e outras mais.

• Apolo - Acanta, Arsínoe, Cassandra, Calíope, Cirene, Corônis, Dafne, Dríope, Hécuba, Leucótoe, Manto, Psámata, Quíone, Reo, Sinope, Terpsícora, Urânia, dentre outras.

• Hades: Perséfone, Minta e Leuce.

• Hércules - Mégara, Ónfale, Dejanira, Íole, Mélite, Auge. Em um episódio, o Hércules chega ao palácio do rei Téspio, que ficou tão impressionado com o porte do herói que ofereceu suas cinquenta filhas (os reis eram polígamos e tinham um harém de mulheres para gerar dezenas de crianças), as chamadas téspidas, para torná-las mulheres de Hércules (gerando filhos dele ― os heráclidas); Hércules dormiu com todas elas durante sua estadia para a caçada do Leão de Citerão. Segundo a tradição grega, os heráclidas estão associados aos dórios, que conquistaram grandes porções da Grécia destruindo as cidades aqueias, e os reis de Esparta e Macedônia remontam sua linhagem até a algum heráclida.
• Teseu - Perigune (filha do bandoleiro Sínis), Ariadne, Fedra (irmã de Ariadna), Antíopa (a amazona).
• Perseu - Andrômeda.
• Peleu - Tétis.
• Aquiles - Briseis, Diomeda e um grande número de mulheres capturadas em populações devastadas por ele. 
• Ulisses - Penélope, Calipso, Circe, Calídice.
• Agamenon - Clitenestra, Criseida, Cassandra e também Briseis.

E muito mais...

Ser-me-á dito que alguns desses deuses e heróis tinham "amantes do sexo masculino". Então, é preciso de evidências. As mulheres mencionadas foram descritas como sendo fisicamente possuídas pelos deuses ou heróis correspondentes e muitas delas tiveram descendentes deles. É preciso, então, evidências na mitologia grega que os deuses ou heróis tiveram relações com homens que supuseram um passo além de uma excelente amizade, camaradagem ou irmandade. [Isso também se aplica no caso heterossexual: não há prova de que Ártemis, a deusa virginal, tenha tido relações físicas com Órion, tão somente que eles eram bons companheiros de caça unidos por um laço platônico.]
Como vimos, não existem evidências. Os famosos "amantes" são simplesmente bons amigos unidos a laços de admiração muito fortes e experiências profundas em aventura ou combate, ou outras questões que não têm relação para com o amor erótico ― mas, no máximo, com o amor platônico ―, e não há absolutamente nenhuma evidência até mesmo para supor que havia algo sexual em tais relações, mas sim um amor quase comparável àquele entre bons irmãos.

ASSUNTO IRREFUTÁVEL #1: O BANQUETE DE PLATÃO  
O "Banquete" é um diálogo filosófico em que diversos participantes prestam homenagem a Eros, o deus do amor, na forma de discurso e argumentando com a visão que cada um tem do amor. Sendo assim, constitui uma fonte primária para conhecer a mentalidade ateniense da época (estamos falando, em qualquer caso, do século IV AEC, uma época degenerescente). Naturalmente, os círculos sempre citam o Banquete de Platão como um exemplo de que a "civilização grega era homossexual", com base em algumas linhas encontradas nesse livro.

No entanto, os diálogos platônicos frequentemente consistiam em um debate que contrasta os pontos de vista opostos, representados pelos participantes. O motivo é que, para Platão, todas as partes devem estar presentes em um debate e ter a oportunidade de expor e defender seu ponto de vista. Há personagens que representam ideias contrárias a Sócrates, precisamente com o objetivo de contrastar diferentes opiniões, e por isso não podem nem devem ser citadas como se tivessem sido proferidas pelo próprio Platão.  Portanto, em cada citação, é necessário especificar quem a pronunciou e inquirir sobre o personagem, para saber se ele representa um ponto de vista relacionado ao platônico (do qual Sócrates e outros são porta-vozes) ou oposto.

Da parte de Pausânias, pode-se dizer que ele discute várias abordagens sobre o assunto (e nunca menciona o amor carnal homossexual). Podemos destacar um trecho pertinente em que ele diz que "deveria existir uma lei que não permita amar os garotos" (181d).

Em outra citação, ele reflete sobre por que a relação entre professor e aluno é necessária e benéfica e não deve ser abolida, dizendo que "terá a capacidade de contribuir quanto à inteligência ou qualquer outra virtude, enquanto que o outro sentirá desejo de obtê-las com vista à educação e outras habilidades" (184d-e). Neste caso, como no espartano, estamos falando de uma relação pretendendo a melhoria pessoal e "treinamento", em que a sabedoria de um homem maduro auxilia um menino a se tornar um homem e no qual, novamente, exclui relações carnais.
Depois disso, entra em cena Aristófanes, um personagem que não deveria cair bem ao bom platonista, considerando que na peça "As Nuvens" ele zomba abertamente de Sócrates; e no "Banquete" mostra um comportamento excêntrico que talvez foi introduzido por Platão para fazer o leitor entender que o ponto de vista expresso por ele não merece reverência. Assim, podemos ler:
Aristodemo disse que Aristófanes deveria então falar, mas, não se sabe se foi pelo excesso de comida ou por outra coisa, ocorreu-lhe um acesso de soluço que o impediu de fazer o discurso. No divã abaixo dele reclinava-se o médico Erixímaco, e Aristófanes lhe disse: “Erixímaco, tu és a pessoa certa, ou para interromper o meu soluço ou para falar no meu lugar, enquanto tento eu mesmo pará-lo”. E Erixímaco respondeu: “Na verdade, vou fazer as duas coisas. Vou falar na tua vez e tu, quando tiveres acabado o soluço, na minha. Durante minha fala, vejamos se o soluço cessa, enquanto segura tua respiração. Se não der certo, gargareja com água. Mas se ainda assim se mostrar muito forte, pega alguma coisa que permita coçar o nariz e espirra. Se fizeres isso uma ou duas vezes, mesmo o mais severo soluço irá parar”. (185c-d-e).

Tal é a confusão que esta passagem semeia, que não são poucos aqueles que riem do ocorrido, especulando sobre seu significado. Na verdade, a apresentação feita por Aristófanes, que sequer conseguiu falar por causa de seus soluços e teve de recorrer a Erixímaco até seu soluço passar, é questionável e um tanto cômica, sem falar que, em um ato ritualizado como era o de um diálogo filosófico, em que cada intervenção era considerada cercada por sinais dos deuses, o soluço de Aristófanes não é exatamente um bom presságio.

Quando seu soluço finalmente termina, o Aristófanes desenvolve um discurso extravagante sobre os andróginos, um ser esférico com oito membros e duas cabeças e que reunia as condições sexuais tanto masculinas quanto femininas, embora alguns fossem apenas do sexo masculino em ambos os lados ou vice-versa. De acordo com o raciocínio absurdo de Aristófanes, esses seres desafiaram os deuses e Zeus os dividiu ao meio, de modo que Aristófanes faz malabarismos argumentativos para legitimar a homossexualidade. Assim, citando Aristófanes:

Todos os homens que são um corte do gênero combinado – os que então eram chamados ‘andróginos’ – sentem amor por mulheres e muitos dos adultérios são originados dessa espécie, assim como, de seu lado, as mulheres que gostam de homens e as adúlteras surgem desse tipo. Todas as mulheres que são corte de um todo originalmente feminino não prestam muita atenção nos homens, mas estão sobretudo voltadas às mulheres, e é dessa espécie que nascem as amiguinhas [‘lésbicas’]. De seu lado, os machos que são cortados originalmente de um todo masculino perseguem os homens. Uma vez que são uma fatia do masculino, enquanto são novos desenvolvem afeição pelos homens e se regozijam em se deitar e se entrelaçar com eles. E estes, ainda na juventude e na flor da idade do ser macho, são os melhores por serem corajosos por natureza. Alguns, aliás, falam que estes jovens são despudorados, mas isso não é verdade, pois não é por falta de vergonha que agem assim, mas por autoconfiança, coragem e masculinidade, acolhendo em sua conduta o que é semelhante a eles. (191d-e-192a) {*}

{*: Note que não se fala em "relações carnais". Se fosse entrar na categoria de sexo, o "se deitar e se entrelaçar" exclui a penetração por respeito a Aedos e a vingança de Nêmesis (algo que até autores mais sectários reconhecem, como K. J. Dover ou Carola Reinsberg, que deixam claro que a penetração anal não fazia parte das relações supostamente homossexuais da Grécia Antiga pois era desaprovada.}

Por causa da excentricidade de seu próprio discurso, não é de surpreender que Aristófanes fique desconfortável com a reação dos demais, e que em determinado momento tenha que fazer uma solicitação como essa: "Erixímaco, pare de zombar do meu discurso" (193b) e que logo em seguida termine o seu discurso pedindo clemência:

“Esse, Erixímaco, é meu discurso sobre o Amor, diferente do teu”, disse Aristófanes. “Como eu te pedi, não o tomes como piada, de modo que também ouçamos cada um dos restantes, ou melhor, cada um dos dois, pois restam somente Agatão e Sócrates”. (193e).

Embora Aristófanes represente apenas um ponto de vista dentre muitos, sua visão não é apresentada de forma a gerar confiança, tanto que ele mesmo está ciente de que há brechas para que os outros zombem de seu discurso; mesmo assim, os círculos citam suas palavras como se representassem o ponto de vista do próprio Platão.
Da homenagem de Agatão, uma citação poderia ser distinguida, na qual ele diz que "¿E quem vai negar que é pela sabedoria do Amor que nascem e crescem todos os animais?" (197a), em que, ao deixar subentendido que Eros seja responsável pela procriação, ele também deixa claro que a divindade pertence à esfera heterossexual, ou seja, a única capaz de gerar nova vida.

No entanto, a pérola do Banquete platônico é, sem dúvida, e como sempre, a intervenção de Sócrates, que fora professor de Platão. Sócrates cita o discurso que ouvira anos atrás de uma mulher que ele mesmo considera "sábia", dizendo a seus interlocutores: "E agora vou deixar-te ir para que eu possa proceder com o discurso sobre o Amor que certa vez ouvi de uma mulher de Mantineia, chamada Diotima. Ela era sábia neste e em muitos outros assuntos" (201d). As palavras de Diotima, além de serem extremamente interessantes sobre o amor, também contêm uma verdadeira apologia do amor heterossexual como um ato criativo:

‘Em que consiste realmente a função do amor? Tens condições de me dizer?’

‘Posso te assegurar, Diotima, que se o pudesse eu não estaria admirado por tua sabedoria e não te frequentaria, pretendendo aprender estas coisas.’

‘Mas eu te direi’, ela falou. ‘A função do Amor é parir no belo, tanto no corpo como na alma.’

‘Seja lá o que for que tu queres dizer, Diotima’, eu falei, ‘isso requer um poder profético para decifrar, pois não compreendo’.

‘Mas vou te explicar mais claramente’, ela disse. ‘Todos os seres humanos fecundam, Sócrates, no corpo e na alma, e quando chegamos a certa idade nossa natureza deseja dar à luz. Mas não é possível dar à luz na fealdade. Somente na beleza. Sim, o intercurso sexual de um homem e uma mulher é um tipo de nascimento. Esse processo de gravidez e geração é divino: é o imortal fazendo-se presente numa criatura mortal, sendo impossível que ocorra no que está em desarmonia. O que é feio, de seu lado, não se harmoniza com nada que seja divino. (206b-c).

Mais adiante, ela se concentra na natureza para extrair lições comportamentais para os homens civilizados:

‘Quanto aos homens’, ela disse, ‘alguém pode supor que fazem isso por reflexão. Mas o que causa essa disposição amorosa nos animais? Podes dizer-me?’

E eu, de meu lado, dizia que não sabia. Ela então disse: ‘Tu achas que te tornarás algum dia brilhante em questões de amor se não souberes estas coisas?’

‘Mas foi por isso que vim estudar contigo, Diotima, como disse agora há pouco, pois percebi que precisava de professores. Então, me fale sobre essa causa e também acerca dos demais aspectos concernentes ao amor.’

‘Muito bem’, ela disse. ‘Se acreditas que o amor tem como objeto, por natureza, aquilo acerca de que entramos em acordo tantas vezes, não te espantes com o que vou dizer. Aquele mesmo princípio sobre os seres humanos vigora também no reino animal: a natureza mortal procura na medida em que pode existir sempre e ser imortal. Isso só é possível de um modo: pela geração, processo por meio do qual ela deixa um ser novo no lugar do antigo. (207b-c-d). 
Se não foi clara a atitude de Sócrates para com Diotima quando diante de seus discípulos ele se refere a ela como "sábia", quando ele elogia "sua sabedoria", quando ele admite que ela tem mais conhecimento do que ele ou quando ele diz que "precisava de professores", vale o encerramento que ele faz quando reconhece que ficou "muito surpreso" (208b), chamando-a pessoalmente de "sábia Diotima" (idem) e voltando aos seus discípulos novamente dizendo "Pois bem, Fedro e demais convivas, estas são as coisas ditas a mim por Diotima. Fui persuadido por seus argumentos" (212b).

Portanto, em oposição temos Aristófanes, um personagem que estranhamente que não consegue falar devido seu soluço e que faz uma defesa complicada da homossexualidade, do outro lado, temos a Diotima, uma mulher que o próprio Sócrates chama de "sábia" e que faz um grande tributo a Eros exaltando a união do homem e da mulher como um ato gerador de uma nova vida, e deixando claro que o poder de procriação de tal união reside em sua superioridade em relação a qualquer outra forma de amor. Nesse ponto, não há dúvida de que Sócrates concorde com essa visão. De fato, o narrador nos mostra o desconforto de Aristófanes quando Sócrates concluiu seu elogio à heterossexualidade:

Quando terminou de falar essas coisas, alguns se puseram a elogiá-lo, disse Aristodemo, enquanto Aristófanes [o único que tinha defendido a homossexualidade] tentava dizer alguma coisa, porque Sócrates o tinha mencionado quanto a um aspecto de seu discurso. Então, subitamente, a porta do pátio repercutiu um estrondoso barulho, parecendo algazarra de foliões. (212c)
De fato, "Aristófanes tentava dizer alguma coisa", mas como não poderia ser diferente, mais uma vez, a Providência, associada em tempos pagãos com a vontade dos deuses, encerrou o assunto ao interromper suas palavras: "Não demorou muito e ouviu-se a voz de Alcibíades no pátio, muito bêbado e falando alto" (212d). Agora, temos o personagem que conclui o Banquete, apresentado como se segue: "Saudações, senhores! ¿Aceitaríeis como companheiro de bebida um homem absolutamente bêbado? (...) ¿Por acaso ireis zombar de mim porque estou bêbado? Mesmo que caiais na gargalhada, sei bem que o que vou dizer é verdade". (212e-213a)

Alcibíades conta como no passado investiu em Sócrates, sendo, notoriamente, rechaçado por ele. Alcibíades parece estar, de fato, "apaixonado" por Sócrates, embora, como ele mesmo diz que "não é justo comparar os discursos de um homem bêbado com os de um homem sóbrio" (214c):

Assim, sem deixá-lo dizer nada mais, levantei e pus meu manto pesado sobre a roupa leve que ele usava, embora fosse inverno. Deitei-me sob o manto e abracei-o com as duas mãos – este homem extraordinário e verdadeiramente um semideus. Assim permaneci com ele por toda a noite. Não poderás, de teu lado, Sócrates, dizer que estou mentindo. Contudo, mesmo fazendo tudo isso, este Sócrates saiu ileso das minhas investidas, e ainda desprezou, zombou e insultou minha beleza física – justo aquele atributo que eu pensava me conceder alguma substância, senhores juízes. De fato, sois vós que ireis atuar como juízes da arrogância de Sócrates. Pois sabei bem que, por todos os deuses e deusas, juro que ao me levantar não achei mais interessante ter passado a noite com Sócrates do que tê-lo feito com meu pai ou com meu irmão mais velho. (219b-c-d).

Alcibíades foi inserido no diálogo porque se sabe que os bêbados nunca mentem. Sendo assim, fica claro a ação de Sócrates de rejeitar um homem, embora muito bonito e muito prestigioso. Então, o Alcibíades elogia a indiferença de Sócrates, sua coragem em combate, sua dureza, seu caráter espartano, sua resistência ao frio e ao álcool e sua sabedoria. Todos esses elogios (incluindo elogiar o fato de que Sócrates o rejeitou) atestam o "certificado de plausibilidade" concedido por ter sido pronunciado por um homem que, estando bêbado, pressupõe dizer a verdade.

Em suma, o Sócrates tinha Alcibíades na palma da mão e poderia ter se envolvido com ele (o que, em qualquer caso, excluiria, por respeito à Aedos, qualquer tipo de penetração), mas, ao contrário, o rejeitou desdenhosamente.
ASSUNTO IRREFUTÁVEL #2: OS VASOS "HOMOERÓTICOS"  


Decerto, há vasos de cerâmica da antiguidade grega que representam cenas claramente homossexuais. Isso não discutirei. Apenas pontuarei.

Foram encontrados dezenas de milhares de vasos (só na província de Ática temos mais de oitenta mil!), e, de todos eles, os vasos com um teor homoerótico claro são apenas trinta! No máximo. Estamos falando de cerca de 0,03% do total dos vasos encontrados. ¿Eles não deveriam ser mais numerosos (se supostamente estamos falando de uma cultura em que a homossexualidade era socialmente aceita)? Mas, ao contrário, eles eram minoria de forma desproporcional.

Assim, falar da "homossexualidade vigente na vida social ateniense" baseado nessa evidência diminuta seria o mesmo que alegar que nossa cultura é homossexual porque uma minoria das personalidades da mídia são homossexuais. Se esses sinais minúsculos são uma prova de uma "civilização homossexual" (que nunca existiu), então, ¿o que seria a nossa civilização, com "casamento homossexual" (algo que não existia na Grécia), "parada gay" e similares?

Mas há mais: a maioria das cenas homossexuais retratadas são realizadas pelos sátiros, seres degenerados do imaginário coletivo grego, feios e meio cabra, e que, por um impulso sexual descontrolado, realizavam as maiores abominações sexuais concebíveis pela mente humana (em algumas estatuetas eles são vistos copulando com animais, por exemplo). Outro detalhe é que, na maioria das cenas que representam relações homossexuais, o ato parece produzir surpresa e escândalo naqueles que a testemunham.

As teorias de supostos vasos homoeróticos foram especuladas por Kenneth James Dover ("Greek Homosexuality", 1978), onde apresenta como inconteste um total de seiscentos vasos, dos quais, quando muito, apenas uns vinte e tantos têm um conteúdo claramente homossexual. O resto (mais de quinhentos!) são vasos com representações normais, com as quais o autor recorre a meandros e falácias para "provar", de forma totalmente forçada, e até cômica, sinais de homossexualidade onde simplesmente não existem. Assim, na capa onde aparece um rapaz com um aro e um galo, o autor diz que "o aro e o galo têm seu próprio simbolismo" (?) e que o rapaz está em uma "pose de vergonha", possivelmente porque "o homem que ele ama está falando com uma mulher" (?) e "ele gostaria de tomar a iniciativa" (?). Em outra representação (a E378), um pênis pequeno e um escroto grande significam, segundo ele, que há pedofilia no meio (?), e em uma imagem onde Aquiles cura a Pátroclo, "o artista estava sob grande pressão para não pintar os genitais de Pátroclo" (???). [Talvez, outro argumento infame de Dover, quando confrontado com a "homofobia" de Platão (que sempre buscou o natural inspirado pela inocência dos animais), seja afirmar que "Platão não entendia nada sobre animais"].
E, por fim, deve-se constar que a grande maioria das obras de arte da Grécia Antiga que representam o amor erótico, o retratam sempre em relações sexuais entre homens e mulheres. E ainda que houvessem cenas homossexuais, no Pórtico da Glória também há cenas de homens praticando sodomia, e ninguém pensaria que isso torna toda a civilização católica gótica ou barroca em homossexual, posto que essas cenas fazem parte das representações dos vários pecados, com a intenção de estigmatizá-los. Assim, talvez devêssemos nos perguntar se, por acaso, da minoria dos vasos com um teor homoerótico visível ou invisível (subjetivamente), não haveria uma porcentagem importante destinada precisamente a criticar a homossexualidade ou a ridicularizá-la ― como fica evidente no caso dos sátiros, que eram os maiores expoentes da homossexualidade, assim como uma infinidade de depravações sexuais, e que não gozavam de boa reputação.
SOBRE O "LESBIANISMO"  
Provavelmente, de todas as mentiras sobre a homossexualidade na Grécia Antiga, a de Safo de Lesbos é a pior desde que o nome de sua ilha natal tem sido usado para designar mulheres homossexuais, as chamadas "lésbicas". Safo de Lesbos (VII-VI AEC) é provavelmente a melhor poetisa de todos os tempos (Platão a chamou de "a décima musa"). Ela decidiu fundar uma academia onde moças de toda a Grécia vinham aprender poesia, música, dança, costumes, ritualismo religioso e, em geral, o que caracterizava uma mulher completa que aspirava a se casar com um homem nobre para formar uma família. Da mesma forma que Esparta tinha seus treinamentos, onde os meninos aprendiam pouco a pouco a ser homens sob a orientação de um iniciador, Lesbos tinha a academia sáfica para moças de boa família.

A obra de Safo chegou até os dias de hoje muito fragmentada (só temos um poema completo, coletado por Dionísio de Halicarnasso, e o resto de seu trabalho tem muitas lacunas para que se possa inteirar, tampouco tentar vislumbrar homossexualidade), mas consiste principalmente de hinos e louvores às moças que ela instruiu e que completaram sua educação, entrando na idade adulta e deixando o mundo idílico da academia para se casar com um homem. Este gênero poético recebeu o nome de epithalamia ("canções matrimoniais"), que falavam sobre a beleza de uma donzela que estava prestes a se tornar esposa e mãe. Desta forma, por causa dos fortes laços construídos entre ela e suas discípulas ― às quais ela ensinou tudo o que sabia ― Safo ficava tristonha pela perda daquelas que eram praticamente suas filhas; mas não há nada sugerindo um relacionamento além de um afeto intenso, totalmente desprovido de carga sexual. Temos até alguns versos no fragmento 31 de Safo dedicados a uma de suas garotas que deixa a academia porque conseguiu um noivo:
Parece-me ser igual aos deuses 
O homem que à tua frente
Se senta e de perto a tua doce voz
Escuta

Segundo K J. Dover, Safo caracteriza o homem como "divino" não porque admira sua beleza, masculinidade, comportamento ou força física, mas porque é "inimaginavelmente sortudo", porque "capta o interesse sexual da moça" e "não desmaia ante sua beleza" (ibidem). Mas a verdade é que Safo, além de ser mãe (ela teve uma filha chamada Cleis), se suicidou por amar um homem, um barqueiro chamado Faonte que, aparentemente, não a correspondeu com a mesma intensidade. 
Outra questão bastante reveladora é que as discípulas de Lesbos foram aquelas que desenvolveram o culto religioso a Adônis, um herói mitológico que personificava a beleza masculina e que até hoje é usado para designar um homem extremamente belo. Sendo assim, o suposto "núcleo do lesbianismo grego" cultuava uma figura que representava o ápice da beleza masculina.
Além disso, a julgar pelos versos de Safo, sua academia era um reduto de feminilidade idílica e pura, em que a chegada de um homem simbolizava para as moças que a meninice havia terminado, colocando agora toda a feminilidade cultivada a serviço de sua família.

¿De onde vem, então, as "lésbicas", se não há nada que sugira entre essas moças uma relação além de uma grande sonoridade? Vem, novamente, do círculo de Oxford liderado por Walter Pater e, mais recentemente, do francês Yves Battistini (1922-2009). O último encontrou um verso que dizia "προς δ’αλλον τινα χασκει" ("pros d’allon tina haskei"). Isso, traduzido devidamente, significa "ela sorri pra outra pessoa". No entanto, este traduziu como "mas o objeto de sua paixão é outra coisa, uma garota".

LIMPAR NOSSO VOCABULÁRIO  
O vocabulário moderno concernente à homossexualidade é baseado em duas mentiras: a mentira da palavra gay e a mentira da palavra lésbica.

"Gay" significa (ou ao menos significava) em inglês, "alegre".

"Lésbica", como vimos, se refere à ilha grega de Lesbos, onde Safo ensinava e, como mostrado, esta não era "lésbica".

"Pederastia" vem de paiderastia, do qual sequer significava pederastia, mas a relação de ensinar um garoto. Da mesma forma, erastes e eromenos devem ser traduzidos como "amante" e "amado" somente no que diz respeito a um amor platônico e, portanto, casto.

Por estas razões, as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo devem ser chamadas simplesmente de "homossexuais", sejam masculinas ou femininas, e, quando não, usar a variedade de palavras que, nascidas espontaneamente da alma popular, são autênticas, ao contrário das palavras politicamente corretas e orwellianas forçadas pelos militantes.
CONCLUSÃO


Hoje, temos uma teia de círculos que desvirtuam a sua conveniência um modelo de civilização europeia. Mesmo tal civilização não compactuando com fenômenos decadentes da modernidade.

O lóbi dos círculos é tão virulento que não só especulou sobre a mitologia grega, mas também sobre grandes personalidades da história, a tal ponto que qualquer homem que tenha dedicado uma vida a castidade e trabalho é taxado como homossexual.

Por que tanta mentira? A resposta é que o mundo, especialmente o mundo ocidental, passou por um processo de estrogenização de valores, de corpos, de mentes e de ideias, tal como vimos em outro artigo. Existem certos grupos de poder, especialmente grupos de poder econômico, financeiro e midiático, que consideram que identidades (sexuais, étnicas e outras) e suas instituições (especialmente a família) se interpõem em seus caminhos para alcançar um rebanho internacional ― em suma, a Tradição é um obstáculo para os grupos de poder. Assim, os tentáculos do polvo internacional dão seu apoio a todos os círculos que tendem a desestabilizar as identidades humanas, sejam raciais, nacionais, religiosas, sexuais, familiares e mais. Ao promover o mito da homossexualidade grega, matam dois coelhos com uma cajadada só: por um lado, promovem a desintegração sexual e a inevitável dissolução social que se segue a isso mais cedo ou mais tarde e, por outro, também contaminam um dos grandes pontos de referência para a identidade europeia e qualquer renascimento ocidental.

Além disso, os militantes, que naturalmente desejam ver suas inclinações além de normalizadas, criam toda uma narrativa para se desmarginalizar. Não são poucos os que se baseiam na suposta homossexualidade grega para legitimar leis que beneficiam os homossexuais. Entretanto, os círculos devem saber que, nos tempos antigos, a poligamia e as relações sexuais com meninas menores de idade eram infinitamente mais difundidas do que a homossexualidade. ¿Isso significa que devemos legalizá-las?
Eduardo Velasco