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sábado, 30 de março de 2019

A sinfonia olavética da destruição

“Você pega um homem mortal
E o coloca no comando
Veja-o se tornar um Deus
Veja a cabeça das pessoas rolar
Rolar
Rolar” (Megadeth- Symphony of Destruction)
No ano de 1992, o Megadeth lançou o álbum “Countdown to Extinction”, um dos maiores clássicos da história do Heavy Metal. Entre as canções, está aquela que viria a se tornar a sua canção mais famosa: “Symphony of Destruction” ou, na versão traduzida, “Sinfonia da Destruição”. É uma música que fala sobre como o poder pode corromper um homem. Em resumo, a história de um homem que ascende ao poder e, chegando lá, passa a controlar todos à sua volta.
“Symphony of Destruction” é o perfeito retrato do olavismo. E isso não é algo recente: há mais de 10 anos Olavo de Carvalho vem fomentando a criação de uma seita (embora ele frequentemente negue, o olavismo é uma seita) cujos alunos o tratam como se ele fosse a representação de Deus na Terra. Toda e qualquer declaração dele é considerada correta e caso você cometa o “crime” de questioná-lo, você sofre ataques, que podem ser simples xingamentos ou até mesmo sérias tentativas de assassinato de reputação através de informações falsas para desmoralizar opositores. Casos desse tipo aconteceram às pencas em anos anteriores e agora vêm se intensificando com o governo Bolsonaro.
Governo esse que tornou-se o cabide para que Olavo e seus asseclas, entre eles Filipe Garcia Martins, pudessem colocar em prática o seu plano sinfônico de destruição, minando a credibilidade de instituições democráticas, demonizando a imprensa tradicional e incentivando o “povo” (entenda-se militância bolsonarista) a começar uma Revolução, mas não uma revolução como a Gloriosa inglesa: a revolução que o olavismo almeja é uma revolução aos moldes da francesa e da russa, ou seja, uma revolução que mude toda a ordem social vigente no país para a construção de um “Brasil melhor”. E, considerando o fato de que as revoluções francesa e russa foram sanguinárias, com mortes de opositores e até mesmo de aliados pelos membros do “regime”, já se pode imaginar o que virá no futuro caso o plano se concretize.
“Agindo feito um robô
Seu cérebro de metal se corrói
Você tenta tomar o pulso dele
Antes que a cabeça exploda
Exploda”
Uma das facetas do olavismo é o fanatismo religioso de seus alunos. O que costuma acontecer no meio olavista é a perda do pensamento próprio em prol do “interesse coletivo”. Não é incomum ver dissidentes que ousem pensar com o próprio cérebro, questionando determinados atos de Olavo, serem escorraçados pela turba.
Esse fenômeno olavista assemelha-se com o toque de Midas, só que no sentido inverso: quase tudo que o olavismo toca se torna podre, como um metal corroído. Observemos o estado em que o Ministério da Educação se encontra: lotado de olavistas, o MEC encontra-se em situação deplorável, com nenhum plano educacional definido, polêmicas como a “carta do MEC”, além da falta de um ministro que saiba gerir. Ricardo Vélez-Rodrigues é um grande escritor, que já nos brindou com ótimos livros, mas que se mostra claramente perdido no cargo e incapaz de gerir um ministério. Lamentavelmente, Ricardo teve a reputação manchada pela máquina olavista.
“A terra começa a ressoar
As potências mundiais sucumbem
Agradecendo aos céus
Um homem pacífico permanece de pé
De pé”
O movimento olavista busca trazer o caos e o rompimento da ordem social vigente, pois através da “terra arrasada” será possível construir uma nova ordem, alinhada com os ideais olavéticos.
Por isso presenciamos, cada vez mais, pedidos para que o presidente Bolsonaro assuma poderes ditatoriais, como o fechamento do Congresso e do STF, a cassação da concessão de emissoras como a Rede Globo, além dos clamores de que ele tem de ouvir “as vozes do povo” (sempre no sentido mais vago e genérico do termo).
O objetivo é fazer com que Bolsonaro não tenha opção senão dar um autogolpe (aos moldes de Alberto Fujimori no Peru) e comandar o país com mão de ferro. Mas, para que isso ocorra, é crucial o papel das Forças Armadas no processo de autogolpe – o que pode explicar o porquê de Olavo e seus asseclas atacarem constantemente a ala militar do governo, especialmente o General Mourão, visto como uma ameaça aos planos autocráticos da seita.
“Assim como o Flautista de Hamelin
Conduzia os ratos pelas ruas
Nós dançamos como marionetes
Balançando para a Sinfonia
Da Destruição”
O Flautista de Hamelin é uma das histórias que mostram como o fascínio por algo pode nos levar a perdição. No conto, o Flautista utilizou a sua flauta para expulsar os ratos da cidade alemã de Hamelin. Revoltado pelo fato de a cidade não lhe ter pago pelos seus serviços, ele resolve se vingar retornando à cidade, semanas depois, e utilizando a sua flauta para enfeitiçar as crianças da cidade, levando-as para uma caverna, onde foram trancadas. E a cidade nunca mais viu uma criança.
O fascínio de muitas pessoas pelas ideias (ou pela pessoa) de Olavo de Carvalho traz o mesmo efeito do Flautista de Hamelin. Assim como o Flautista, Olavo foi rejeitado e escorraçado pelo establishment midiático, tendo que construir sua reputação através de meios alternativos como a internet. Foi através dela que ele construiu uma legião de seguidores fiéis, dispostos a fazer qualquer tipo de absurdo para satisfazer o “mestre”.
Isso nos leva a uma escalada perigosa para o caos no Brasil: influenciados pelas palavras de Olavo, seguidores buscam o enfraquecimento dos valores que fizeram com que o Brasil conseguisse construir uma democracia. Atacam a imprensa (criticar é uma coisa, demonizar é outra), tentam vender a ideia de que o Congresso é o inimigo do povo brasileiro (“esquecendo-se” do fato de que o mesmo povo brasileiro elegeu os representantes do Congresso) e sonham com o dia em que o STF for fechado.
A imprensa, o Congresso e o STF não são perfeitos, longe disso até. Os três possuem seríssimas falhas, tanto de conduta quanto de conceito. Mas são imprescindíveis em uma democracia. E, sem eles, as consequências serão terríveis. O fenômeno olavista enfeitiçou uma parcela da direita brasileira. Caso o ritmo atual seja mantido, o olavismo nos conduzirá como as crianças de Hamelin foram conduzidas pelo flautista. E nós dançaremos como marionetes, seguindo o rumo para a sinfonia da destruição.
Erick Silva

quarta-feira, 27 de março de 2019

Líder muçulmano revela plano de começar dominação pela França

Em um vídeo publicado em 12 de março, o imã Abu Taqi Al-Din Al-Dari revela, entre outras coisas, que jovens alemães e franceses não valorizam o casamento tanto quanto os muçulmanos, mas que isso é não é a razão pela qual a França se tornará um país islâmico, relata o Middle East Media Research Institute.
Em vez disso, explicou ele, a França se tornará um país islâmico através da Jihad, já que os muçulmanos devem ter um país que traga a orientação e a mensagem do Islã para o Ocidente. Ele deu exemplos de épocas na história em que países do Ocidente e da Ásia eram governados pelo Império Otomano, que ele descreveu como um estado islâmico, e ele disse que a nação islâmica é capaz de "retornar ao seu antigo eu" e espalhar o Islã.


Trechos da fala

A Alemanha e a França começaram a envelhecer, no sentido de que seus jovens não vêem o casamento como algo desejável. As pessoas de lá - especialmente os jovens - começaram a evitar o casamento, ao contrário dos muçulmanos. Por exemplo, diz-se que em 2050, os muçulmanos na França serão em maior número do que os franceses. Mas não são esses números que estamos contando para transformar a França em um país islâmico.

Com o que estamos contando é que os muçulmanos devem ter um país que traga o islamismo - sua orientação, sua luz, sua mensagem e sua misericórdia - para o povo [ocidental] através da Jihad em nome de Allá. Quando as pessoas veem a justiça, a luz, a orientação e a misericórdia do Islã, “elas entrarão na religião de Allah aos montes”, [como diz no Alcorão], nas mãos de um país que lhes trará o Islã através da Jihad. por causa de Allah.

[…]

Não faz muito tempo, apenas quatrocentos anos atrás, na época do Estado otomano, os muçulmanos conquistaram a Polônia e a Áustria. O estado islâmico chegou às muralhas de Viena, a capital da Áustria, e o chamado à oração foi recitado lá. Todos os países da [antiga] URSS estavam sob os auspícios do Estado Islâmico - os países do Cáucaso e o que está além deles. Mongóis muçulmanos governaram a China até 1644 AD. Os muçulmanos conquistaram a Hungria em 1526. Em 1537, conquistaram partes da Itália, como Otranto. Em 1543, sob os auspícios do Estado otomano, os exércitos muçulmanos chegaram a Toulon, na França, e lá construíram uma mesquita, no coração da França. Em 1586, a Índia foi governada pelo Islã. Estes eventos prenunciam que a nação islâmica é capaz de retornar ao seu antigo eu e espalhar o Islã.

[…]

Assim, o domínio do Islã se espalhará para o mundo inteiro, de três maneiras: Conversão para o Islã, pagamento do imposto jizya, uma taxa para viver sob o domínio muçulmano e praticar outra religião, ou pediremos a ajuda de Allah e os combateremos, até que o mundo inteiro esteja sujeito à lei, regra do Islã.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Êxodo bíblico tem mais ligação com a Babilônia do que com o Egito

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Wikimedia Commons
Praticamente todo mundo que já teve contato com o texto bíblico conhece a passagem do Êxodo, em que Moisés guia seu povo da escravidão no Vale do Nilo até a Terra Prometida. Porém, quando os historiadores, partindo das fontes da época, vão analisar esse momento da História do Antigo Oriente Próximo, as informações apontam para outro lado. Vamos entender essa História.
A primeira vez que aparece o nome “Israel”
No século XIII a.C., governou o Egito um faraó chamado Merhenptah, um grande líder militar que conduziu o Egito numa rápida expansão pelo território do Oriente Antigo, incluindo a importante região do Levante, ou “corredor sírio-palestino”. Como é comum na época, perto de sua morte, Merhenptah ordena a inscrição de uma estela de pedra marcada com os grandes feitos militares do faraó. Há um trecho deste monumento que é interessantíssimo:
Trecho do texto / Domínio Público
No texto, aparece “Israel foi destruída e não prospera mais”. Esta é a primeira ocorrência conhecida do nome “Israel” num documento. Porém, isto não é o que mais se destaca entre os especialistas em Egito, principalmente se levarmos em conta o funcionamento do hieróglifo. Neles, existem os determinativos, símbolos que acompanham as palavras na parte escrita, mas não são pronunciadas em fala, e destacam a classe da palavra, expondo uma categoria a qual faz parte o nome.
 No caso específico, o nome Israel é acompanhado por um determinativo (na imagem acima, está marcada com a indicação “det.”) em que aparecem duas pessoas sentadas sobre três linhas verticais e uma quarta linha que toca uma espécie de losango arredondado.
Segundo os especialistas em hieróglifos, este determinativo indica que o nome é relativo a uma pequena comunidade, de caráter mais tribal e sem complexidade econômica e social, nem um Estado ou identidade social. Ou seja, a partir desse documento, concluímos que na época não havia propriamente uma cidade e um culto a um deus estruturadamente, além de ser inconcebível a noção de um “povo israelita” à época. Outros nomes possuem determinativos que indicam esse tipo de cidade, em que os glifos de humanos sentados são acompanhados por uma montanha. Isso, somado à completa falta de vestígios de uma migração em massa do Egito ao Levante, passando pelo Sinai e o Mar dos Juncos (“mar vermelho”), fundamentaria a hipótese de que nunca houve uma fuga do Egito.
Estela de Merhenoptah / Reprodução
Com a crise da Idade do Bronze, há um misterioso processo de desestabilização em massa dos Impérios na região. Muitos acabam e outros, como o Egito, se desestruturam. Com isso, o Egito recua do Levante e possibilita o desenvolvimento da comunidade e da cidade. Por um tempo, Israel consegue se desenvolver autonomamente. Porém, pouco tempo depois, outra carta entra nesse baralho: a Babilônia, ponto chave para entendermos esse evento, segundo historiadores.
 Em disputa com a Assíria, o Império Babilônio inicia empreendimentos de expansão pelo Oriente e conquista o Levante, e assim, Israel. E, neste momento, a Babilônia investe numa ferramenta de dominação que consistia no deslocamento de blocos populacionais de um lugar para outro como uma espécie de escravo. Neste caso, é visível um tom mais próximo da narrativa bíblica.

Mapa da dominação da Mesopotâmia / JW
A crise da Babilônia
Não é à toa que a Babilônia aparece na Bíblia como um grande inimigo. Ao mesmo tempo, a Pérsia aparece como um presente divino, e Ciro, como um libertador. Com o tempo, o poder babilônico começa a se deteriorar e em 539 a.C., a cidade da Babilônia é destruída pelos persas e o império é oficialmente extinto. Para os hebreus, esse é um momento de libertação, o que os faz criar uma narrativa bastante positiva sobre os persas.
A chave desse processo está no fato de que os historiadores concordam que é a partir de 539 que se inicia o esforço de compilação e escrita de textos populares na tradição sírio-palestina num único unificado: ou seja, é nessa época que criam a Bíblia Hebraica. Segundo esse pensamento, o texto bíblico teria sido criado pelos deuteronomistas durante esse momento de transição em que os judeus fogem da Babilônia, destruída, em direção a Canaã. Essas pessoas, portanto, seriam um povo sem terra, sem um rei e sem o templo de culto ao seu deus. Seria necessário criar algo que desse coesão para essa sociedade não se perder no esquecimento. Para isso, cria-se um livro que serve como referência para todos sobre como pensar e agir.
Monumento a Ciro da Pérsia Wikimedia Commons
Tá... Mas e o Egito?
Nesse esforço de se criar uma memória social sobre o passado, que fundamente a coesão entre os diferentes e crie um tecido social unido para a ocupação da Terra Prometida (que lhes foi privada com a invasão babilônica), as elites sacerdotais que se responsabilizaram pela compilação dos textos para a formação da Bíblia remeteram toda a tragédia que os hebreus passavam para um passado longínquo. O Egito aparece como elemento de criação de um “outro” ao mesmo tempo em que serve como história para naturalizar a situação de êxodo pela qual passam e, portanto, naturalizar também a vitória na conquista da Terra Proibida.
Assim, remetendo o êxodo a um tempo rememorável e antigo, os hebreus podem projetar o êxodo da Babilônia no passado e, assim, forjar a ideia de que o povo hebreu é uma grupo antigo e de grande tradição de resistência. Com isso, se cria uma espécie de mito fundacional que não se passaria no tempo presente, mas numa história sobre o passado que pode ser contada e auxiliar a vida. É assim que o Egito se torna o personagem principal de uma fuga que na verdade partiu da Babilônia.

sexta-feira, 22 de março de 2019

O Diabo na água: A história do banho

A obra barroca 'The Bathing Pool'
Wikimedia Commons
A humanidade melhora com o passar dos séculos, certo? Nem sempre. Prova disso é o que ocorreu com um de nossos hábitos mais comuns, o banho. Durante a Idade Média, os ocidentais abandonaram os sofisticados rituais de limpeza da Antiguidade e mergulharam numa profunda sujeira. Chegou-se a achar suficiente tomar um banho por ano. Foi preciso muito tempo – e alguns bons exemplos dos povos orientais e indígenas – para que voltássemos às nossas asseadas origens.
Acredita-se que todos os povos, desde tempos imemoriais, tenham praticado alguma forma de higiene pessoal. Os primeiros registros do ato de se banhar individualmente pertencem ao antigo Egito, por volta de 3000 a.C. Os egípcios realizavam rituais sagrados na água e tomavam ao menos três banhos por dia, dedicados a divindades como Thot, deus do conhecimento, e Bes, deus da fertilidade.
“Mais do que limpar o corpo, eles presumiam que a água purificava a alma”, diz o egiptólogo francês Christian Jacq, fundador do Instituto Ram­sés, em Paris. “A crença valia tanto para a realeza, cortejada com óleos aromáticos e massagens aplicadas pelos escravos, quanto para as populações mais pobres, que recorriam inclusive a profissionais de rua quando não conseguiam tratar da própria beleza.” O apreço pela higiene é o motivo ao qual arqueólogos atribuíram a sobrevivência dos egípcios às pragas e doenças que assolaram a Antiguidade.
A Grécia foi outro local em que os banhos prosperaram. Em Cnossos e Faístos, na ilha de Creta, os palácios de 1700 a.C. a 1200 a.C, surpreenderam por suas avançadas técnicas de distribuição da água. “Todo banquete que precisava ser luxuoso incluía uma sessão de banho para os convidados”, explica Georges Vigarello, professor de Ciências da Educação da Universidade de Paris-5.
Embora os gregos tenham iniciado a prática dos banhos públicos no Ocidente, os pioneiros nos balneários coletivos foram os babilônios. A diferença é que, na Grécia, o banho não era motivado apenas pela higiene e espiritualidade. Entre 800 a.C. e 400 a.C., o esporte, particularmente a natação, era um dos três pilares da educação juvenil – ao lado das letras e da música. Bom cidadão era aquele que sabia ler e nadar, como comprovam imagens presentes em centenas de vasos de cerâmica pintados naquela época.
Os romanos herdaram muito da cultura da Grécia, incluindo a adoração pelo banho. Mas, entre eles, esse hábito tomou proporções inéditas. Enquanto construíam um dos maiores impérios de todos os tempos, os romanos levavam a suntuosidade de suas termas (enormes balneários públicos) aos mais diversos lugares. Por causa disso, algumas cidades europeias ganharam nomes que incluem, literalmente, a palavra “banho” – é o caso de Bath, na Inglaterra, Baden Baden e Wiesbaden, na Alemanha, e Aix-le-Bains, na França. Mas as maiores termas ficavam mesmo na capital do império, Roma: eram as de Caracala, inauguradas em 217, e as de Diocleciano, do ano 305. Esses edifícios, cujos nomes homenageavam imperadores, tinham capacidade para receber, respectivamente, 1.600 e 3.200 pessoas.
Romanas nas termas da Pompéia / Wikimedia Commons
A engenharia romana teve que se desdobrar para acompanhar o frenesi dos banhos. Na onda das termas surgiu o hipocausto, uma espécie de assoalho construído sobre câmaras de gás subterrâneas. Esse sistema ajudava a esquentar os cômodos e mantê-los climatizados. Cada salão das termas era decorado com estatuetas e mosaicos. Ao redor de um pátio central, havia uma espécie de sauna, um vestiário e piscinas de água quente, morna, fria e ao ar livre. Os complexos de banho do Império Romano tinham ainda jardins, bibliotecas e restaurantes (como se fossem antepassados dos spas e resorts de hoje).
As visitas diárias às termas tinham fundo religioso, já que o banho público era um ato de adoração à deusa Minerva. E o costume não era restrito às classes mais abastadas. Boêmios, prostitutas, imperadores, filósofos, políticos, velhos e crianças, todos se banhavam no mesmo espaço, sem constrangimento. Ponto de encontro e de troca de informações, era o lugar onde um aristocrata podia medir sua popularidade de acordo com a quantidade de cumprimentos que recebia. “Em épocas de plebiscito, os plebeus nem precisavam pagar a pequena taxa que geralmente era cobrada. Os custos da entrada eram cobertos pelos ricos e nobres”, escreveu o historiador francês Jérôme Carcopino no livro Aspects Mystiques de la Rome Païenne (“Aspectos místicos da Roma pagã”).
Prazeres perdidos
A liberdade que os romanos tinham de se banhar e ficar nus em público foi entrando em declínio à medida que uma nova religião se tornava popular por todo o império. Era o cristianismo, que pregava a castidade e se tornou a crença oficial de Roma no ano 380. Menos de um século depois, o império viria abaixo, junto com vários de seus costumes. Enquanto isso, a Igreja seguiria cada vez mais forte. Foi a gota d’água para que os prazeres do banho fossem boicotados durante cinco séculos. 
 Começava a Idade Média, época em que a cristandade varreu da Europa as termas, o esporte e outras atividades em que as pessoas se expusessem demais. Gregório I, o Grande, que foi papa entre 590 e 604, chegou a qualificar o corpo de “abominável vestimenta da alma” – ou seja, a carne era o depósito de tudo o que era pecado. Com tantos pudores, o prazer de tomar banho de corpo inteiro passou a ser visto como um ato de luxúria. Lavar as mãos e o rosto (às vezes nem isso) bastava. Quando muito, era aceitável tomar um banho por ano. Um único barril de água servia para toda a família, sem que a água fosse trocada. “O privilégio do primeiro mergulho era do homem da casa, enquanto as crianças ficavam por último, na sopa suja que sobrava”, escrevem Renata Ashcar e Roberta Faria no livro Banho – Histórias e Rituais.
Sem água corrente, as pessoas se viravam como podiam. A limpeza da pele era feita friccionando-a com um pano úmido. Mas, mesmo entre os nobres, o ritual era repetido apenas a cada dois dias. Os cabelos deviam ser escovados com um tipo de pó que supostamente mantinha os fios limpos. E, como não podia deixar de ser, era preciso muita maquiagem e perfume – nas roupas, nos corpos e nos cabelos – para amenizar o mau cheiro.
Escravos do antigo Egito dando banho em seu senhor / Wikimedia Commons
Foi só durante as Cruzadas, as guerras religiosas travadas entre os séculos 11 e 13, que muitos europeus puderam redescobrir as delícias da água, na aproximação – ainda que violenta – entre Oriente e Ocidente. É que, fora dos territórios dominados pela Igreja, onde ocorreram muitos combates, os banhos públicos da Antiguidade haviam sido mantidos, com seus rituais e instalações sofisticados. Nas hamans, casas de banho turco-árabes, os muçulmanos aproveitavam o prazer de alternar águas quentes e frias. Sessões de banhos completos incluíam depilação, massagem, hidratação, branqueamento dos dentes e maquiagem – ritual que, até hoje, é seguido meticulosamente. Os cavaleiros cristãos que partiram para o Oriente com a missão de tomar a Terra Santa dos muçulmanos não se fizeram de rogados. “Não só passaram a se banhar por lá mesmo, como espalharam pela Europa a prática de jogar água pelo corpo quando retornavam dos combates”, contam Renata Ashcar e Roberta Faria. A certa altura, a atitude contagiou o restante da população europeia medieval e alguns banhos públicos chegaram a reabrir as portas.
Nem só aos sábados
A limpeza teve um brutal revés em 1348. Causada por pulgas, a peste butônica matou até um em cada três europeus. Ao notar que muitos judeus não pegavam a doença, a Inquisição chegou a julgá-los e executá-los, acusados de bruxaria. Mas eles, na verdade, não agiam de má-fé – muito pelo contrário. O que fazia os judeus serem menos suscetíveis a doenças era uma recomendação religiosa que seguiam: lavar as mãos antes das refeições e tomar banho ao menos uma vez por semana.
A partir daí, os médicos passaram a afirmar que a água dilatava os poros da pele, por onde a saúde escaparia e o mal penetraria, em formas como a friagem e o miasma - o ar ruim que acreditavam ser a causa da peste. Todo mundo acreditou nisso e essa foi a senha para o retorno da porcalhice. E, enquanto nações como Portugal e Espanha descobriam, na América, populações que amavam tomar banho, os europeus voltavam para o mundo da sujeira.
Existiam algumas medidas de higiene, é verdade. Mas elas não eram lá essas coisas. Antes ou depois de qualquer atividade física e após as refeições enxugava-se a pele com um pano e simplesmente mudava-se de camisa. Supunha-se que a roupa branca agia como “esponja” e absorvia a sujeira. Assim, trocar de roupa passou a ser sinônimo de se lavar – e, para se sentir limpas, as pessoas usavam punhos e colarinhos impecáveis.
A privação de água durou até o século 18, quando se provou definitivamente que as doenças se originavam não do banho, mas da falta dele. O iluminismo, que celebrava a razão e defendia a tese de que o mundo deveria ser esclarecido pela ciência, ajudou a fazer do ato de se lavar o símbolo da saúde. Banhos públicos para higiene, esporte e terapia foram, aos poucos, sendo reabilitados.
Mas, após anos de religiosos dizendo o contrário, não foi todo mundo que voltou a tomar banho, mesmo com insistentes conselhos médicos. Quando a célebre rainha Vitória subiu ao trono, em 1837, ainda não havia local para banho no palácio de Buckingham, sede da coroa inglesa. Até os anos 1870, eram raras as casas ocidentais que tinham um cômodo para seus habitantes se lavarem.
Já cientes do bem que a água podia fazer pela saúde, médicos banhavam doentes à força em hospitais. “Não era difícil encontrar um sujeito que, tendo de enfrentar a experiência do primeiro banho, demonstrasse verdadeiro terror, gritasse, tentasse escapar da sensação de sufocamento e palpitação que a água fria proporcionava”, diz um relato da época, citado pelo historiador americano Law­rence Wright no livro Clean and Decent: The Fascinating History of the Bathroom (“Limpo e Decente: A Fascinante História do Banheiro”).
Os banhos rotineiros reapareceram definitivamente nas grandes cidades ocidentais apenas por volta dos anos 1930. Mas, no começo, eles não eram lá tão frequentes. Eram tomados aos sábados, dia em que também eram trocadas as roupas de baixo das crianças. Nessa época, navios ofereciam cabines de banho e barcos delimitavam áreas em rios que serviam como piscinas naturais. Após o fim da Segunda Guerra, em 1945, quando boa parte das casas europeias teve que ser reconstruída, elas ganharam banheiros, abastecidos com a cada vez mais comum água encanada. A França foi a pioneira nas inovações sanitárias, seguida pela Inglaterra e pela Alemanha.
Hoje, voltamos a expor nossos corpos sem pudor, como fazíamos na Antiguidade. Mas isso não ocorre mais durante o ato de se lavar, e sim depois dele. “Ao mesmo tempo em que os trajes começam a valorizar o corpo e deixar adivinhar suas formas, realçando-as e, por vezes, revelando o bronzeado e a pele lisa e firme, o banho se transforma num hábito estritamente íntimo”, escrevem os historiadores franceses Gerard Vincent e Antoine Prost na obra História da Vida Privada: da Primeira Guerra aos Dias Atuais. Tomar banho virou um método individual de se preparar para a exposição pública. Não é à toa que todo banheiro contemporâneo que se preze tem um espelho – um objeto que, dificilmente seria visto num lugar como esse.

 Difícil higiene
Saiba como os antigos se viravam sem sabão, chuveiro ou xampu
Antigo balneário romano na Inglaterra / Reprodução 
➽ Ferro no couro: Uma espátula de ferro de mais ou menos 30 centímetros, o strigil era usado pelos antigos gregos e romanos para esfregar vigorosamente a pele, untada com um óleo verde-oliva. Entre os ricos, essa limpeza era feita por escravos.
➽ Cascata caseira: Sem rede encanada, os povos antigos tomavam banho com água derramada de bacias e jarros. Às vezes a pessoa ficava dentro de uma banheira rasa de pedra, mas o mais comum era se inclinar num banco de pedra.
➽ Limpeza pesada: Os babilônios ferviam gordura animal com cinzas vegetais para passar sobre a pele e os cabelos. Já no Egito, uma mistura de bicarbonato de sódio, cinzas e argila fazia as vezes do sabão.
➽ Arranca-cascão: No Oriente, materiais ásperos feitos de rocha ou cerâmica eram usados para esfoliar a pele e retirar a sujeira. O ritual se completava com o uso de água de flor de laranjeira, pentes, pastas e perfumes.
➽ Asseio preguiçoso: As banheiras portáteis se popularizaram no fim do século 19, primeiramente entre os ingleses. Quando um fidalgo ia tomar banho, camareiras carregavam a banheira para o quarto e a enchiam à mão, com água aquecida.

Saiba mais
Banho - Histórias e Rituais, Renata Ashcar e Roberta Faria, 2006
Uma História do Corpo na Idade Média, Jacques Le Goff e Nicolas Truong, 2006
Clean and Decent: the Fascinating History of the Bathroom, Lawrence Wright, 2005