Bunker da Cultura Web Rádio

>

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A justificativa ética do capitalismo e por que o socialismo é moralmente indefensável

 

Da mesma forma que existem pessoas que acreditam que a riqueza econômica e os padrões de vida são os critérios mais importantes na hora de avaliar uma sociedade — e não pode haver dúvidas de que, para muitos, o padrão de vida é uma questão da mais alta importância –, há também pessoas que não dão muita importância à riqueza econômica e que qualificam outros valores como mais elevados.

Tal postura é perfeita para o socialismo, pois desta forma ele pode silenciosamente esquecer a sua reivindicação original de ser capaz de trazer mais prosperidade à humanidade e, em vez disso, recorrer à afirmação completamente diferente, mas ainda assim mais inspiradora, de que embora o socialismo possa não ser a chave para a prosperidade, ele significaria justiça, equidade e moralidade (todos termos usados aqui como sinônimos).  E ainda pode argumentar que uma compensação entre eficiência e justiça, uma troca de “menos riqueza” por “mais justiça”, é justificada, uma vez que justiça e equidade são fundamentalmente mais valiosas do que riqueza econômica.

Essa alegação será estudada detalhadamente neste artigo.  E ao fazê-lo, serão analisadas duas afirmações separadas, mas correlacionadas: (1) a afirmação feita particularmente por socialistas marxistas e social-democratas, e, em menor grau, pelos conservadores socialistas, de que é possível formular um argumento a favor do socialismo baseado em princípios por causa do valor moral de seus princípios e, mutatis mutandis, que o capitalismo não pode ser moralmente defendido; e (2) a afirmação do socialismo empírico de que as afirmações normativas (“deveria” ou “tem que”) — uma vez que não se relacionam unicamente aos fatos, nem simplesmente declaram uma definição verbal, e, portanto, não são afirmações analíticas nem empíricas — não são realmente afirmações, pelo menos não afirmações que possam ser chamadas de “cognitivas” num sentido mais amplo, mas meras “expressões verbais” usadas para expressar ou despertar sentimentos (tais como “Opa!” ou “Rrrrrr”).

A segunda afirmação, a empírica, ou pretensão “emotivista”, como é chamada a sua posição aplicada ao campo da moral, será tratada em primeiro lugar, dada a sua maior abrangência.  A posição emotivista é derivada da aceitação da afirmação central empírica-positivista de que a distinção dicotômica entre as afirmações empírica e analítica é de natureza totalmente inclusiva; isto é, qualquer afirmação, seja ela qual for, deve ser empírica ou analítica, nunca podendo ser ambas ao mesmo tempo.  Essa posição, como veremos, acaba por ser auto-destrutiva se fizermos uma análise mais minuciosa, assim como o empirismo em geral acaba por ser auto-destrutivo.

Se o emotivismo é uma posição válida, então, a sua proposição básica sobre as afirmações normativas deve, por si só, ser analítica ou empírica, ou então deve ser uma expressão das emoções. Se for tida como analítica, será, então, um mero subterfúgio verbal, sem nada a dizer sobre qualquer coisa real, apenas definindo um som por outro, e o emotivismo seria, dessa forma, uma doutrina vazia. Se, em vez disso, for tida como empírica, a doutrina não teria qualquer peso à medida que sua proposição central poderia muito bem estar errada.  Em todo o caso, certa ou errada, seria apenas uma proposição demonstrando um fato histórico, ou seja, como certas expressões foram usadas no passado, o que por si só não fornece qualquer razão pela qual seria este também o caso no futuro e, portanto, por que se deveria ou não procurar afirmações normativas que são mais do que expressões de emoções que se pretendem justificáveis.

E a doutrina emotivista também perderia todo o seu peso se a terceira alternativa fosse adotada e se uma afirmação do tipo “uau!” fosse declarada como seu princípio central. Pois, se este fosse o caso, não haveria então qualquer razão pela qual se deveria relacionar e interpretar de certa forma determinadas afirmações e, portanto, se os próprios instintos e sentimentos de uma pessoa não coincidissem com o “oba!” de outra, não haveria nada que pudesse impedi-la de seguir os seus próprios sentimentos.  Assim como uma afirmação normativa não seria mais do que o ladrar de um cão, a posição emotivista não seria mais do que comentar latindo sobre o ato de ladrar.

Por outro lado, se a afirmação central do empirismo-emotivismo, ou seja, a de que as afirmações normativas não têm significado cognitivo, mas são simples expressões de sentimentos, for por si só considerada uma afirmação significativa para transmitir que se deveria pensar em todas as afirmações que não são analíticas ou empíricas como meros símbolos de expressão, a posição emotivista então se torna completamente contraditória.  Assim, essa posição deve considerar, pelo menos implicitamente, que determinadas ideias, ou seja, as relativas às afirmações normativas, não podem ser simplesmente compreendidas e dotadas de significados, mas podem ser justificativas dadas enquanto afirmações com significados específicos.

Consequentemente, deve-se concluir que o emotivismo titubeia, porque se fosse verdade, não se poderia, então, nem mesmo dizer e atribuir significado ao que se diz — simplesmente não existiria como uma posição que pudesse ser discutida e avaliada no que tange à sua validade. Mas se for uma posição significativa que possa ser discutida, este fato então desmente a sua própria premissa básica. Além disso, deve-se observar que o fato de que esta é realmente uma posição significativa não pode nem mesmo ser refutado, como não se pode comunicar e argumentar que não se pode comunicar e argumentar.

No entanto, isto deve ser pressuposto de qualquer posição intelectual, que é dotada de significado e que pode ser debatida em relação ao seu valor cognitivo, simplesmente porque é apresentada numa linguagem e comunicada. Argumentar o contrário significaria admitir implicitamente a sua validade. Somos obrigados, então, a aceitar a abordagem racionalista em relação à ética pela mesma razão que se obrigou a adotar uma epistemologia racionalista em vez de uma epistemologia empírica.

No entanto, com o emotivismo sendo assim rejeitado, ainda estou muito longe, ou assim parece, do meu objetivo definido, que eu divido com os socialistas marxistas e conservadores, de demonstrar que pode ser formulado um argumento baseado em princípios a favor ou contra o socialismo ou o capitalismo. O que consegui até agora foi chegar à conclusão de que se as afirmações normativas são ou não cognitivas isto é, por si só, um problema cognitivo. No entanto, isto ainda parece ser muito diferente de provar que as propostas de normas efetivas podem ser realmente expostas como sendo válidas ou inválidas.

Felizmente, essa impressão está errada e já se conseguiu muito mais aqui do que se poderia imaginar. O argumento anterior nos mostra que qualquer afirmação da verdade — afirmação ligada a qualquer proposição que seja verdadeira, objetiva ou válida (todos termos usados aqui como sinônimos) — é e deve ser feita e resolvida no curso de uma argumentação. E uma vez que não se pode refutar que isto é assim (não se pode comunicar e argumentar que não se pode comunicar e argumentar) e se deve considerar que todo mundo sabe o que significa alegar que algo é verdadeiro (não se pode negar esta afirmação sem afirmar sua negação como sendo verdadeira), tal estrutura foi sagazmente chamada de o “a priori da comunicação e da argumentação”.[1]

Agora, argumentar nunca se baseia apenas em proposições flutuando livremente que alegam ser verdadeiras. Antes, também a argumentação é sempre uma atividade. Mas considerando que as alegações de verdade são levantadas e decididas numa argumentação e que a argumentação, além de tudo o que é dito durante o seu desenvolvimento, é um assunto prático, deduz-se que as normas intersubjetivamente significativas que devem existir — especificamente aquelas que realizam alguma ação numa argumentação — tem um status cognitivo especial em que elas são pré-condições práticas de objetividade e verdade.

Portanto, chegamos à conclusão de que as normas devem realmente ser consideradas justificáveis enquanto válidas. É simplesmente impossível argumentar o contrário porque a capacidade para argumentar, de fato, pressupõe a validade daquelas normas que constituem a base de qualquer argumentação.[2]

Portanto, a resposta à questão de quais fins podem ou não ser justificados é deduzida do conceito de argumentação. E, com isso, o papel peculiar da razão em determinar o conteúdo da ética também recebe uma descrição precisa. Em contraste com o papel da razão em estabelecer leis empíricas da natureza, a razão pode alegar produzir resultados na determinação de leis morais, que podem ser mostradas como sendo válidas a priori. Isto só torna explícito o que já está implícito no conceito de argumentação; e ao analisar qualquer proposta de norma efetiva, sua tarefa está confinada a analisar se é ou não logicamente consistente com a própria ética que o proponente deve pressupor como válida na medida em que ele é capaz de fazer, sob qualquer condição, a sua proposta.[3]

Mas o que é a ética implícita na argumentação cuja validade não pode ser refutada, pois refutá-la exigiria implicitamente pressupô-la?

De forma muito frequente tem sido observado que a argumentação significa uma proposição que reivindica uma aceitabilidade universal, ou, se uma norma for proposta, que seja “universalizável”. Aplicada à propositura de normas, esta é a ideia, como formulada na Regra de Ouro da ética ou no Imperativo Categórico Kantiano, de que somente aquelas normas que podem ser justificadas é que podem ser formuladas como princípios gerais que são válidos para todos sem exceção.[4]

De fato, como a argumentação implica que todos que possam entender um argumento devem, em princípio, ser capazes de ser convencidos por ele devido à sua força argumentativa, o princípio de universalização da ética pode agora ser entendido e explicado como fundamentado na mais ampla “comunicação e argumentação a priori“. Porém, o princípio da universalização fornece apenas um critério puramente formal para a moralidade. Na verdade, comparadas com esse critério, pode se mostrar que todas as propostas de normas válidas que especificariam regras diferentes para diferentes classes de pessoas não podem legitimamente reivindicar serem universalmente aceitáveis como normas justas, a menos que a distinção entre as diferentes classes de pessoas fosse de tal forma que não implicasse em discriminação, mas que pudesse ser aceita novamente por todos como fundada na natureza das coisas.

Mas enquanto algumas normas podem não passar pelo teste da universalização, se for dada atenção suficiente à sua formulação, as normas mais ridículas, e o que é logicamente ainda mais relevante, até mesmo as normas abertamente incompatíveis poderiam facilmente e igualmente passar no teste. Por exemplo, “todo mundo tem que ficar bêbado aos domingos ou serão multados” ou “qualquer um que beba álcool será punido” são ambas regras que não permitem discriminação entre grupos de pessoas e, portanto, poderiam ambas alegar que satisfazem a condição de universalização.

Claramente, portanto, o princípio da universalização por si só não forneceria qualquer conjunto positivo de normas que pudesse ser demonstrada como justificada. No entanto, há outras normas positivas contidas na argumentação, além do princípio da universalização. A fim de reconhecê-las, é necessário apenas chamar a atenção para três fatos relacionados. Primeiro que a argumentação não é somente uma questão cognitiva, mas também prática. Segundo, que a argumentação, como uma forma de ação, inclui o uso do recurso escasso do corpo de alguém. E terceiro, que a argumentação é uma forma de interação livre de conflito. Não no sentido de que há sempre concordância sobre o que foi dito, mas no sentido de que uma vez que a argumentação está em desenvolvimento é sempre possível concordar pelo menos com o fato de que há uma discordância sobre a validade do que foi dito. E dizer isto não é nada mais do que um reconhecimento mútuo de que o controle exclusivo de cada pessoa sobre o seu próprio corpo deve estar pressuposto enquanto houver argumentação (observe novamente que é impossível negar este fato e afirmar que sua negação seja verdadeira sem ter que implicitamente admitir a sua verdade).

Consequentemente, teríamos que concluir que a norma contida na argumentação é que todo mundo tem o direito de controle exclusivo sobre o seu próprio corpo como seu instrumento de ação e cognição. Somente se houver pelo menos um reconhecimento implícito do direito de cada indivíduo sobre a propriedade de seu próprio corpo é que pode haver argumentação.[5] Apenas enquanto esse direito for reconhecido é possível para alguém concordar com aquilo que foi dito num argumento e, consequentemente, aquilo que foi dito pode ser validado, ou é possível dizer “não” e concordar apenas com o fato de que há discordância.

Realmente, qualquer um que tentasse justificar qualquer norma já teria que pressupor o direito de propriedade de seu corpo como uma norma válida, simplesmente para dizer “isto é o que eu afirmei como sendo verdadeiro e objetivo”. Qualquer pessoa que tentasse contestar o direito de propriedade sobre o seu próprio corpo ficaria preso numa contradição, à medida que argumentar dessa forma e reivindicar seu próprio argumento como sendo verdadeiro já seria implicitamente aceitar essa norma como sendo válida.

Portanto, pode-se afirmar que toda vez que uma pessoa alega que alguma afirmação pode ser justificada ela considera, pelo menos implicitamente, a norma seguinte para ser justificada: “Ninguém tem o direito de agredir o corpo de outra pessoa sem permissão e dessa forma delimitar ou restringir o controle de outrem sobre o seu próprio corpo”. Esta regra está contida no conceito de justificação enquanto justificação argumentativa. Justificar significa justificar sem ter que depender de coerção. De fato, se é possível formular o contrário dessa regra, ou seja, que “todo mundo tem o direito de agredir outra pessoa sem permissão” (uma regra que, a propósito, passaria no teste formal do princípio da universalização!), então é fácil ver que essa regra não é, e nunca poderia ser, defendida numa argumentação. Fazê-lo exigiria pressupor exatamente a validade do oposto disso, ou seja, o supracitado princípio da não-agressão.

Com essa justificação da norma de propriedade em relação ao corpo de uma pessoa, pode parecer que não se obteve muita coisa, enquanto os conflitos sobre os corpos, para os quais o princípio da não-agressão formula uma solução universalmente justificável de forma a tentar impedi-los, representam apenas uma pequena parte de todos os conflitos possíveis. Porém, essa impressão não é correta. Certamente, as pessoas não vivem apenas de ar e de amor. Elas também precisam de um número maior ou menor de outras coisas, simplesmente para sobreviver — e, obviamente, só aquele que sobrevive pode manter uma argumentação, quiçá levar uma vida confortável. Com relação a todas as outras coisas, as normas também são necessárias, uma vez que poderiam surgir avaliações conflituosas acerca do seu uso.

Mas, de fato, qualquer outra norma deve ser logicamente compatível com o princípio da não-agressão para ser ela própria justificada e, mutatis mutandis, toda norma que se mostrasse incompatível com esse princípio teria que ser considerada inválida. Além do mais, enquanto as coisas com relação às quais as normas têm que ser formuladas são bens escassos — assim como o corpo de alguém é um bem escasso, e assim como só é necessário formular normas porque os bens são escassos e não porque eles sejam tipos específicos de bens escassos –, as especificações do princípio da não-agressão, concebido como norma especial da propriedade que se refere a um tipo específico de bens, já devem conter aquelas de uma teoria geral da propriedade.

Considerarei primeiro essa teoria geral da propriedade como um conjunto de regras aplicáveis a todos os bens com o propósito de ajudar a evitar todos os conflitos possíveis por meio de princípios uniformes, e irei em seguida demonstrar como essa teoria geral está contida no princípio da não-agressão. Uma vez que segundo o princípio da não-agressão uma pessoa pode fazer com o seu corpo tudo aquilo que quiser na medida em que, desse modo, ela não agrida o corpo de outra pessoa, essa pessoa poderia usar outros meios escassos, assim como usar o seu próprio corpo, desde que essas outras coisas já não tenham sido apropriadas por alguém e continuem num estado natural sem dono.

Enquanto os recursos escassos são visivelmente apropriados — tão logo alguém “mistura o seu trabalho”, para usar a frase de John Locke, com esses recursos e há traços objetivos dessa ação — , a propriedade, ou seja, o direito de controle exclusivo, só pode ser adquirida por uma transferência contratual de títulos de propriedade de um proprietário anterior para o atual, e qualquer tentativa de delimitar unilateralmente esse controle exclusivo de proprietários anteriores ou qualquer transformação não solicitada das características físicas dos meios escassos em questão é, numa analogia estrita com as agressões contra os corpos de terceiros, uma ação injustificável.

A compatibilidade desse princípio com o da não-agressão pode ser demonstrada por meio de um argumentum a contrario. Em primeiro lugar, deveria ser observado que se ninguém tiver o direito de adquirir e controlar nada, exceto o seu próprio corpo (uma regra que passaria no teste formal do princípio da universalização), nós deixaríamos então de existir e o problema da justificação das afirmações normativas (ou, para essa questão, qualquer outro problema de interesse desta obra) simplesmente não existiria. A existência desse problema só é possível porque estamos vivos e a nossa existência deve-se ao fato de que não aceitamos, e realmente não podemos aceitar, uma norma que proíba a propriedade de outros bens escassos depois e além do corpo físico de alguém.

Consequentemente, deve ser considerado como existente o direito de adquirir esses bens. Agora, se for assim, e se não se tem o direito de adquirir esses direitos de controle exclusivo sobre as coisas não usadas dadas pela natureza através de seu próprio trabalho, ou seja, ao fazer algo com as coisas com as quais ninguém jamais tinha feito nada antes, e se outras pessoas tivessem o direito de desconsiderar a reivindicação de propriedade de alguém no que se refere a essas coisas com as quais não tinha trabalhado ou que não as havia colocado anteriormente em algum uso específico, isso só seria possível, então, se fosse possível adquirir títulos de propriedade não mediante o trabalho, ou seja, pela definição de uma ligação objetiva intersubjetivamente controlada entre uma determinada pessoa e um recurso escasso específico, mas simplesmente por declaração verbal; por decreto.[6]

No entanto, adquirir títulos de propriedade através de declaração é incompatível com o já justificado princípio da não-agressão em relação aos corpos. Por uma razão, se fosse realmente possível adquirir a propriedade por decreto, isso significaria que também seria possível para alguém simplesmente declarar o corpo de outra pessoa como sendo de sua propriedade. Contudo, isso claramente entraria em conflito com a regra do princípio da não-agressão que estabelece uma nítida distinção entre o corpo de alguém e o corpo de outrem. E essa distinção só pode ser feita de forma clara e sem ambiguidades porque para os corpos, como para nenhum outro, a separação entre “meu” e “seu” não é baseada em declarações verbais, mas na ação. (A propósito, uma decisão entre reivindicações declaratórias rivais não pode ser tomada, a menos que haja algum outro critério objetivo que não uma declaração).

A separação é baseada na observação de que alguns recursos escassos específicos foram, de fato, feitos como uma expressão ou materialização da vontade de alguém ou, como pode ser o caso, da vontade de outrem. Além disso, e ainda mais importante, dizer que a propriedade é adquirida não através da ação, mas mediante uma declaração, envolve uma contradição prática, pois, desse modo, ninguém poderia dizer e declarar, a menos que apesar do que foi realmente dito, seu direito de controle exclusivo sobre o seu próprio corpo enquanto seu próprio instrumento de dizer qualquer coisa já tivesse, de fato, sido pressuposto.

Demonstramos agora que o direito de apropriação original por meio de ações é compatível com, e está incluído no, princípio da não-agressão como pressuposto logicamente necessário da argumentação. Indiretamente, é claro, foi também demonstrado que qualquer regra que especifique direitos diferentes, tal como uma teoria socialista da propriedade, não pode ser justificada. Porém, antes de iniciar uma análise mais detalhada de por que toda ética socialista ser indefensável — uma discussão que deveria lançar algumas luzes adicionais sobre a importância de algumas das condições da teoria capitalista da propriedade “natural” –, devem ser feitas algumas observações sobre o que está ou não implícito na classificação dessas últimas normas como justificáveis.

Ao fazer essa afirmação, não é necessário alegar ter deduzido um “dever” a partir de um “é”. De fato, pode-se prontamente apoiar a visão geralmente aceita de que o abismo entre “dever” e “é” é logicamente intransponível.  No entanto, classificar dessa forma as regras da teoria natural da propriedade é uma questão puramente cognitiva. Não mais resulta da classificação do princípio fundamental do capitalismo como sendo “justo” ou “correto”, de acordo com o qual se deve agir e deduz-se o conceito de validade ou verdade pelo qual se deve sempre lutar. Dizer que esse princípio é correto também não exclui a possibilidade das pessoas proporem ou até mesmo de imporem regras que são incompatíveis com ele. Na verdade, no que tange às normas, a situação é muito semelhante ao de outras disciplinas de investigação científica.

O fato de que, por exemplo, determinadas afirmações empíricas são justificadas ou justificáveis e de que outras não são, não significa que todo mundo só defende afirmações válidas objetivas. Em vez disso, as pessoas podem estar erradas, até mesmo intencionalmente. Mas a distinção entre objetivo e subjetivo, entre verdadeiro e falso, não perde nada de seu significado por causa disso. Mais propriamente, as pessoas que estão erradas teriam que ser classificadas como desinformadas ou intencionalmente mentirosas. O argumento é semelhante no que se refere às normas. Obviamente, há muitas pessoas que não propagam ou impõem normas que podem ser classificadas como válidas de acordo com o significado de justificação que eu apresentei anteriormente. Mas a distinção entre normas justificáveis e não-justificáveis não se desfaz por causa disso, assim como aquela entre afirmações objetivas e subjetivas não se desintegram por causa da existência de pessoas desinformadas ou mentirosas.

Em vez disso, e consequentemente, aquelas pessoas que iriam propagar e impor essas diferentes normas inválidas teriam de novo que ser classificadas como desinformadas ou desonestas na medida em que havia sido explicado a elas e realmente deixado claro que suas propostas de normas alternativas ou sanções não poderiam e nunca seriam justificáveis numa argumentação. E haveria mais justificativa por fazê-lo dessa forma no argumento moral do que no argumento empírico, uma vez que a validade do princípio de não-agressão e o do princípio da apropriação original mediante ação, como seu corolário logicamente necessário, deve ser considerada por ser ainda mais básico do que quaisquer tipos de afirmações válidas ou verdadeiras. Pois o que é válido e verdadeiro tem que ser definido como aquilo em que todos agindo de acordo com esse princípio talvez possam concordar. Na realidade, como já foi mostrado, pelo menos a aceitação implícita dessas regras é o pré-requisito necessário para, de qualquer modo, ser capaz de viver e argumentar.[7]

Por qual razão, então, as teorias socialistas da propriedade de quaisquer tipos falham em serem justificáveis como válidas? Em primeiro lugar, deve-se observar que todas as versões realmente praticadas do socialismo e a maioria de seus modelos propostos teoricamente também não passariam pelo primeiro teste formal do princípio da universalização e, por este fato, fracassariam por si mesmas! Todas essas versões contêm normas dentro de seu enquadramento de regras legais que seguem a fórmula “algumas pessoas podem e algumas pessoas não podem”.

Porém, essas regras que especificam direitos ou obrigações diferentes para classes diferentes de pessoas não têm chance, por razões puramente formais, de serem aceitas como justas por cada participante potencial de uma argumentação. A não ser que a distinção feita entre classes diferentes de pessoas passe a ser aquela que é aceitável por ambos os lados como fundamentada na natureza das coisas, essas regras não seriam aceitáveis porque significariam que um grupo seria recompensado por privilégios legais às custas de discriminações complementares contra outro grupo.

Por esse motivo, algumas pessoas, tanto aquelas que são autorizadas a fazer algo quanto aquelas que não são, poderiam não concordar que essas regras fossem justas.  Uma vez que a maioria dos tipos de socialismo, a exemplo dos praticados e defendidos, dependem da imposição de regras tais como “algumas pessoas têm a obrigação de pagar impostos e outras têm o direito de consumi-los”, ou “algumas pessoas sabem o que é bom para você e estão autorizadas a ajudá-lo a conseguir essas supostas bênçãos, mesmo que você não as queira, mas você não está autorizado a saber o que é bom para elas e, consequentemente, ajudá-las”, ou “algumas pessoas têm o direito de determinar quem tem muito de algo e quem tem pouco, e outros têm a obrigação de obedecer”, ou, de forma ainda mais clara, “a indústria de computadores deve pagar para subsidiar os fazendeiros”, “aqueles que têm filhos devem subsidiar os que não têm” etc., ou vice-versa, todas essas regras podem ser facilmente descartadas quanto a serem sérias candidatas à alegação de integrarem uma teoria de normas válidas na qualidade de normas de propriedade, porque todas elas indicam, pela sua própria formulação, que não são universalizáveis.

Mas o que está errado com as teorias socialistas da propriedade quando se trata de, e realmente existe, uma teoria formulada que contenha normas exclusivamente universalizáveis do tipo “ninguém está autorizado a” ou “todo mundo pode”?  O que foi demonstrado indiretamente nos parágrafos anteriores e que deve ser argumentado diretamente é que o socialismo nunca poderia provar a sua validade, não mais por razões formais, mas por causa de suas especificações materiais. De fato, enquanto as formas de socialismo, que podem ser facilmente refutadas em relação à sua pretensão de validade moral sobre fundamentos formais simples, poderiam, pelo menos, ser praticadas, a aplicação daquelas versões mais sofisticadas que passassem no teste de universalização, por razões materiais, provariam ser fatais: mesmo se tentássemos, elas nunca poderiam ser colocadas em prática.

Das duas especificações relacionadas às normas da teoria natural da propriedade, há pelos menos uma que entraria em conflito com a teoria socialista da propriedade. A primeira especificação é a que, segundo a ética capitalista, define agressão como uma invasão da integridade física da propriedade de outra pessoa.  O socialismo, por sua vez, definiria agressão como uma invasão do valor ou da integridade física da propriedade de outrem. O socialismo conservador, devemos relembrar, visava preservar uma dada distribuição de riqueza e de valores, e tentou conduzir aquelas forças que poderiam modificar o status quo sob controle por meio do controle de preços, regulações e controles de comportamento.

Claramente, a fim de fazê-lo desse modo, os direitos de propriedade em relação ao valor das coisas deve ser considerado como justificável e uma invasão de valores, mutatis mutandis, deve ser classificada como uma agressão injustificável. Mas não só o conservadorismo utiliza essa ideia da propriedade e da agressão. O socialismo social-democrata também o faz. Os direitos de propriedade em relação aos valores devem ser considerados como legítimos quando o socialismo social-democrata me permite, por exemplo, exigir uma compensação das pessoas cujas chances ou oportunidades afetam negativamente as minhas. E o mesmo é verdadeiro quando uma compensação por se cometer “violência estrutural” ou psicológica — um termo particularmente caro à literatura da ciência política esquerdista — é permitida.[8]

Para estar habilitado a solicitar essas compensações, aquilo que foi feito — e que afetou as minhas oportunidades, minha integridade física, meus sentimentos em relação ao que possuo — teria que ser classificado como um ato agressivo.

Por que é injustificável essa ideia de proteger o valor da propriedade?  Em primeiro lugar, enquanto cada pessoa pode, pelo menos em princípio, ter o controle total sobre as mudanças que suas ações provocam ou não nas características físicas de algo e, consequentemente, também pode ter o controle total sobre se aquelas ações são ou não justificáveis, o controle sobre se as ações de terceiros afetam o valor da propriedade de outrem não fica com a pessoa que age, mas com as outras pessoas e suas avaliações subjetivas.  Assim, ninguém poderia determinar ex ante se as suas ações seriam classificadas como justificáveis ou injustificáveis. Teria que, primeiro, interrogar toda a população para ter certeza de que as ações planejadas por alguém não modificariam as avaliações de outrem em relação à sua própria propriedade. E mesmo assim ninguém poderia agir até que fosse obtida uma concordância universal sobre quem supostamente faria o que e com o que, e quando.   Claramente, diante de todos os problemas práticos envolvidos, já se estaria morto há muito tempo e ninguém argumentaria mais nada antes que isso tudo estivesse resolvido.

Mas ainda mais decisivo do que isso, a posição socialista sobre a propriedade e a agressão não poderia nem mesmo ser efetivamente argumentada, pois argumentar a favor de qualquer norma, socialista ou não, significa que há um conflito sobre o uso de alguns meios escassos, caso contrário, simplesmente não haveria necessidade de discussão. Porém, a fim de argumentar que existe uma saída para esses conflitos, deve-se pressupor que as ações, para serem realizadas, devem ser autorizadas antes de qualquer acordo ou desacordo efetivo, pois se elas não forem permitidas, não se pode nem mesmo argumentar a respeito disso.

Contudo, se alguém pode fazê-lo — e o socialismo também deve considerar que se pode fazer, na medida em que existe como uma posição intelectual debatida –, isto só é então possível por causa da existência de fronteiras objetivas da propriedade, ou seja, fronteiras que cada pessoa pode reconhecer por conta própria enquanto tais, sem ter que concordar antes com qualquer um no que se refere ao sistema de valores e de avaliações de terceiros. Portanto, o socialismo também, apesar daquilo que afirma, deve, de fato, pressupor a existência de fronteiras objetivas da propriedade em vez de fronteiras determinadas por avaliações subjetivas, nem que seja para ter um socialista sobrevivente que possa formular suas propostas morais.

A ideia socialista de proteger o valor em vez da integridade física também falha por uma segunda razão relacionada. Evidentemente, o valor de uma pessoa, por exemplo, no mercado de trabalho ou de casamento pode ser, e realmente é, afetado pela integridade física de outra pessoa ou pelo grau de integridade física.  Dessa forma, se quisermos que os valores da propriedade sejam protegidos, teríamos que permitir agressão física contra pessoas. Contudo, se for somente por causa do próprio fato de que as fronteiras de uma pessoa — ou seja, as fronteiras da propriedade de alguém no seu próprio corpo enquanto seu domínio de controle exclusivo no qual outra pessoa não é autorizada a intervir, a não ser que deseje se tornar um agressor — são fronteiras físicas (intersubjetivamente determinadas e não apenas fronteiras subjetivamente imaginadas) nas quais todo mundo pode concordar sobre qualquer coisa de forma independente (e, obviamente, acordo significa um acordo com as unidades independentes de tomada de decisão!).

Portanto, somente porque as fronteiras protegidas da propriedade são objetivas, ou seja, estabelecidas e reconhecidas como previamente fixadas por qualquer acordo convencional, pode haver argumentação e, possivelmente, acordo entre as unidades independentes de tomada de decisão. Simplesmente ninguém poderia argumentar qualquer coisa, a não ser que antes sua existência como unidade física independente fosse reconhecida. Ninguém poderia argumentar a favor de um sistema de propriedade que define fronteiras de propriedade segundo uma avaliação subjetiva — como faz o socialismo — porque, simplesmente, ser capaz de formular esse argumento pressupõe que, ao contrário do que diz a teoria, deve-se, de fato, ser uma unidade fisicamente independente a fazê-lo.

A situação não é menos terrível para o socialismo quando nos voltamos para a segunda especificação essencial das regras da teoria natural da propriedade. As normas fundamentais do capitalismo foram caracterizadas não apenas pelo fato de que a propriedade e a agressão fossem definidas em termos físicos; não era menos importante que, além disso, a propriedade fosse definida como propriedade privada individualizada e que o significado da apropriação original — o que evidentemente significa fazer uma distinção entre o antes e o depois –, fosse especificada. É com essa especificação adicional que o socialismo também entra em conflito.

Em vez de reconhecer a importância vital da distinção do antes-depois para decidir entre as reivindicações de propriedade conflitantes, o socialismo propõe normas que, na verdade, consideram que a prioridade é irrelevante para se tomar uma decisão e que os retardatários têm tanto direito à propriedade quanto os que chegam primeiro. Claramente, essa ideia está presente quando o socialismo social-democrata, por exemplo, faz com que os proprietários naturais da riqueza e/ou seus herdeiros paguem um imposto que os desafortunados retardatários devem ser capazes de consumir. Essa ideia também está presente, por exemplo, quando o proprietário de um recurso natural é obrigado a reduzir (ou aumentar) a sua exploração atual em benefício da posteridade. Em ambos os casos, só faz sentido fazê-lo quando se considera que a pessoa que acumula primeiro a riqueza ou que usa primeiro os recursos naturais, comete, desse modo, uma agressão contra alguns retardatários. Se não fizeram nada de errado, os retardatários não poderiam fazer essa reivindicação contra os proprietários naturais e os seus herdeiros.

O que está errado com essa ideia de suprimir a distinção antes-depois como sendo moralmente irrelevante? Em primeiro lugar, se os retardatários, ou seja, aqueles que, de fato, nada fizeram com os bens escassos, tivessem realmente tanto direito aos bens quanto os que chegaram primeiro, ou seja, aqueles que fizeram algo com os bens escassos, então, literalmente, ninguém seria autorizado a fazer coisa alguma com o que quer que seja, como se fosse preciso ter todo o consentimento prévio dos retardatários para fazer seja lá o que se quisesse fazer. Realmente, como a posteridade incluiria o filho do filho de alguém — isto é, pessoas que chegaram tão tardiamente que, provavelmente, nunca se poderia perguntá-las — defendendo um sistema legal que não utiliza a distinção antes-depois como parte de sua teoria básica da propriedade é simplesmente absurdo pois implica em defender a morte, mas pressupor a vida para defender qualquer coisa.

Nem nós, nem nossos antepassados, nem nossos descendentes poderiam sobreviver ou sobreviveriam, e dizer ou argumentar qualquer coisa se tivessem que seguir essa regra. Para que qualquer pessoa — do presente, do passado ou do futuro — pudesse argumentar qualquer coisa deveria ser possível sobreviver agora. Ninguém pode esperar e interromper a ação até que cada um de uma classe indeterminada de retardatários começassem a aparecer e concordar com aquilo que se quer fazer. Em vez disso, na medida em que uma pessoa encontra-se sozinha, ela deve ser capaz de agir, usar, produzir, consumir imediatamente os bens antes de qualquer acordo com pessoas que simplesmente ainda não estão ao redor (e talvez nunca estejam).

E na medida em que uma pessoa encontra-se na companhia de outras e há um conflito sobre como usar um dado recurso escasso, ela deve ser capaz de resolver o problema em algum momento definido com um número específico de pessoas em vez de ter que esperar por períodos indeterminado de tempo e um número indeterminado de pessoas. Portanto, para sobreviver, que é pré-requisito para argumentar a favor ou contra qualquer coisa, os direitos de propriedade não podem ser concebidos como sendo atemporais e não-específicos considerando o número de pessoas envolvidas. Em vez disso, devem ser necessariamente pensados como sendo criados através da ação em pontos definidos no tempo por indivíduos específicos agindo.[9]

Além disso, a ideia de abandonar a distinção antes-depois, que o socialismo acha tão sedutora, seria simplesmente incompatível com o princípio da não-agressão como o fundamento prático da argumentação. Argumentar e possivelmente concordar com alguém (nem que seja sobre o fato de que há discordância) significa reconhecer um direito prévio mútuo do controle exclusivo sobre o seu próprio corpo. Caso contrário, seria impossível para qualquer um falar primeiro em algum momento definido no tempo e para outra pessoa ser capaz de responder, ou vice-versa, assim como nem o primeiro nem o segundo orador seriam mais, em qualquer momento unidades físicas independentes de tomada de decisão.

Portanto, eliminar a distinção antes-depois, como o socialismo tenta fazer, é equivalente a eliminar a possibilidade de argumentar e obter um entendimento. Porém, como não se pode argumentar que não há possibilidade de discussão sem o controle prévio de cada pessoa sobre o seu próprio corpo como sendo reconhecido e aceitado como justo, uma ética do retardatário que não deseja fazer essa diferença nunca poderia ser acordada por ninguém. Bastaria dizer que isso poderia significar uma contradição, como se ser capaz de dizer isto pressuporia sua existência como uma unidade independente de tomada de decisão num momento definido no tempo.

Consequentemente, somos obrigados a concluir que a ética socialista é um fracasso completo. Em todas as suas versões práticas, não é melhor do que uma regra que defenda coisas como “eu posso bater em você, mas você não pode bater em mim”, que, inclusive, não passa no teste da universalização. E se adotar regras universais — o que basicamente significaria dizer que “todo mundo pode bater em todo mundo” –, essas regras não poderiam ser afirmadas, de forma concebível, como universalmente aceitáveis por conta de suas próprias especificações materiais.

Simplesmente afirmar e argumentar dessa forma deve pressupor os direitos de propriedade de alguém sobre o seu próprio corpo. Portanto, só a ética do capitalismo do primeiro-que-chega é o primeiro-que-possui pode ser efetivamente defendida como estando implícita na argumentação. E nenhuma outra ética poderia ser justificada dessa forma, enquanto que justificar algo no curso da argumentação significa pressupor a validade dessa ética da teoria natural da propriedade.

Este artigo é o capítulo 7 do livro Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo - 

Hans-Hermann Hoppe


A guerra que teve muitos pais

 

Em Londres, tratava-se da eliminação da Alemanha como superpotência na Europa e isso ainda não tinha sido atingido na Primeira Guerra Mundial. A mera existência da Alemanha como país, com sua própria orientação política, já significava um perigo verdadeiro para o governo de Londres e deveria ser combatida. Vansittart: “O inimigo é o Reich alemão e não somente o nazismo”.

Resenha da obra de Gerd Schultze-Rhonhof

Partindo-se do silenciar das armas em 1918 e do Tratado de Versailles, o autor mostra que somente o Reich alemão respeitou as condições estipuladas naquela época para o desarmamento recíproco, enquanto os vencedores não estavam inclinados de forma alguma a seguir estes parágrafos. Ao contrário, motivados por desconfianças mútuas e também convencidos que a nova estrutura da Europa não poderia prevalecer a médio prazo, eles levaram a cabo seu rearmamento, mesmo quando o Reich alemão tinha trazido totalmente seu desarmamento na segunda metade dos anos 20 ao nível combinado, e com isso não representava qualquer perigo imediato. Esta situação instável, porém não ameaçadora, durou quase ainda uma década, avançando pela Era Hitler. Todavia, a produção armamentista andava a todo o vapor nos EUA daquela época e se fabricava até bombardeiros quadrimotores, que com certeza não eram para proteger o país do ataque de bandoleiros mexicanos.

Nota da Redação:

– A 12 de novembro de 1930, o companheiro Leon Blum (líder socialista francês – NR) explicava na Câmara Francesa:

“Nós desejamos a nação armada!”

Na Alemanha, os companheiros demonstravam contra o rearmamento sob a palavra de ordem:

“Quebrem as armas!”

– A 13 de novembro de 1930, o Ministro-Presidente francês Tardieu pronunciava na Câmara:

“No que concerne à questão do desarmamento, existe na Liga das Nações uma diferença de opiniões entre França e Alemanha. A França se mantém no Tratado de Paz que obriga a Alemanha a se desarmar, enquanto o desarmamento dos aliados é somente uma possibilidade…”

O quarto dos 14 pontos de Wilson dizia:

“Troca de garantias razoáveis para que o armamento dos povos seja reduzido ao nível mais baixo compatível com a segurança interna.”

Fonte: Alfred Ingemar Berndt, Gebt mir Vier Jahre Zeit, Editora Central do NSDAP, 1938

Diante do rearmamento de praticamente todos os países vizinhos da Alemanha – política totalmente contrária ao suposto desejo de paz mundial após a Primeira Guerra – o governo Nacional-Socialista proclamou somente a 16 de março de 1935 o rearmamento das Forças de Defesa, a Wehrmacht, quando todas as soluções políticas tinham se esgotado. É claro que o leitor não encontra tal versão dos fatos, pois os derrotados têm sua voz abafada pela propaganda de guerra que continua até os dias de hoje. Em livros atuais sobre a Segunda Guerra Mundial como, por exemplo, “Europa em Guerra” do autor britânico Norman Davies, as estatísticas sobre capacidade e produção militar sempre englobam o período imediatamente anterior ao início do conflito em setembro de 1939, o que distorce a realidade até 1935 – NR.

Percebe-se a intenção de países como França, Polônia ou Tchecoslováquia, os quais, como mostra o autor, estavam decididos nos anos 20 e 30 a se armarem. Estes países – se estavam certos ou não, não deve ser discutido aqui – cresceram ou até mesmo surgiram às custas do Reich alemão e deviam temer uma nova e forte Alemanha. O leitor deve se perguntar agora o motivo pelo qual o governo inglês também prescreveu tal política.

Naturalmente existe a explicação tradicional, onde a Grã-Bretanha, por princípio, ajudava a potência mais fraca do continente contra a mais forte, porém, os motivos são mais profundos; encontra-se uma indicação sobre isso em outro lugar. O autor britânico Martin Allen publicou em seu livro “A Missão Secreta de Rudolf Hess” [1] um documento que pode ajudar esclarecer a questão. Trata-se de uma nota do habitual conselheiro do Ministério do Exterior, Sir Robert Vansittart, do início de setembro de 1940 a seu Ministro do Exterior, Lord Halifax. Nesta nota lê-se a surpreendente frase:

“The enemy is the German Reich and not merely Nazism and [certain people]… would let us in for a sixth war even if we survive the fifth”.

“O inimigo é o Reich alemão e não somente o nazismo. Aqueles (…) nos levariam a uma sexta guerra mesmo se sobrevivêssemos a uma quinta”.

Num primeiro olhar esta frase não é totalmente clara, pois excetuado a Primeira Guerra nunca houve uma guerra entre o Reich alemão e a Grã-Bretanha. Quando se coloca esta frase junto a outras linhas da nota de Vansittart, pode-se reconhecer “…o Reich alemão e a idéia do Reich tem sido a praga do mundo por 75 anos…”. Lê-se ainda o panfleto de Vansittart “Black Record – Germans Past and Present”, então a coisa torna-se clara: Em Londres, tratava-se da eliminação da Alemanha como superpotência na Europa e isso ainda não tinha sido atingido na Primeira Guerra Mundial. A mera existência da Alemanha como país, com sua própria orientação política, já significava um perigo verdadeiro para o governo de Londres e deveria ser combatida.

Diante deste pano de fundo, o comportamento de Londres entre os anos 1918 e 1939 apresenta-se totalmente racional. Com Schultze-Rhonhof, reconhece-se que os governos tratavam de impelir o Reich alemão para uma situação política onde ele deveria fazer uso das armas, e mais uma vez, e agora de uma vez por todas, ser derrotado e desarmado. Vansittart também disse isto nas poucas linhas de sua nota: “…the German Reich … has got to go under, and not only under, but right under”. Quando veio então a crise de Danzig no verão de 1939, a qual Schultze-Rhonhof detalha muito bem e Hitler teria cometido um erro na política externa com a ocupação do resto da Tchecoslováquia, o objetivo britânico poderia também ser assimilado pelo mundo, ganhando os necessários aliados e tornando-se ativo. A figura de Hitler não era importante e o Nacional-Socialismo uma coisa secundária. A única surpresa foi o inesperado e total colapso da Polônia em setembro de 1939.

Esta política britânica foi dirigida fundamentalmente com o objetivo de assegurar a posse do Império diante da suposta ambição alemã de domínio mundial. Como de costume numa guerra, após 1945, o mundo era outro completamente diferente do que aquele que os participantes imaginavam no seu início. A Alemanha estava sim destruída, arrasada e dividida, o arqui-inimigo Prússia foi simplesmente eliminado, mas o Império estava do mesmo modo perdido e a leste, a União soviética se erguia ameaçadoramente, sendo que toda Europa tinha que se refugiar sob a guarda dos EUA. A França tentou salvar o que se podia salvar de suas conquistas, mas dentro de uma dúzia de anos aqui também se esvaeceu o sonho de um império mundial do Vietnã até a Argélia. Londres possui hoje peso político somente devido à sua inclinação para Washington e desta forma a Grã-Bretanha poderia terminar como o 51º Estado dos EUA – mesmo de outra forma – como Shaw imaginou certa vez em seu “Kaiser da América”.

Roosevelt tinha objetivos de guerra bem específicos e praticamente desconhecidos do grande público – NR

Polônia e Tchecoslováquia, por causa dos quais entrou-se numa guerra em 1939, não tinham mais qualquer poder após o conflito e foram deixados à União Soviética, juntamente com os países do Báltico. Esta última foi a única potência na Europa que contabilizou uma vitória política, eles ganharam com a Prússia Oriental uma importante base para submarinos no Ostsee, empurraram suas fronteiras ao custo da Alemanha e Polônia em várias centenas de quilômetros para o leste, e ameaçaram até os EUA a partir de Cuba.

Do atual ponto de vista, pode-se caracterizar a política dos aliados nos anos anteriores a 1939 apenas como infantil e o resultado como um desastre. Construiu-se um espantalho em relação ao Reich alemão que distorceu a situação real daquele mundo. Como eles acreditavam somente em sua própria propaganda, os aliados se sentiam no direito de destruir a substância da Europa central e deixar por lá um deserto cultural e espiritual, que ainda representará por muito tempo um ponto fraco do Ocidente, e a qual talvez nunca mais possa ser restaurada. Gerd Schultze-Rhonhof, este antigo oficial, preencheu aqui uma importante lacuna em nossa historiografia.

Fonte: polkaweb.eu

[1] Martin Allen, A missão secreta de Rudolf Hess, Ed. Record 2007, pág. 109

A face oculta dos criminosos de guerra

 

Pelo menos desde há sessenta anos, vivemos em plena falsificação histórica, falsificação que começa por atiçar e arrastar as imaginações populares, para logo a seguir se apoiar na conspiração dessas imaginações.

E ninguém sabe por que o mundo está assim…

Em artigos publicados anteriormente neste jornal, comentamos alguns dos principais crimes de guerra cometidos no último conflito mundial pelos seus vencedores militares, capatazes e comparsas do sistema político que diz defender a liberdade e os direitos dos homens e dos povos…

Churchill dizia: “Lutamos pela liberdade”…

Roosevelt dizia: “Lutamos pela civilização ocidental”…

Stalin dizia: “Lutamos contra o imperialismo e contra a opressão dos povos”…

Todos mentiam. Mentiam com quantos dentes tinham na boca, não inocentemente ou porque acreditassem no que diziam e proclamavam, mas deliberadamente e com frieza, sabendo perfeitamente — ou adivinhando, o que não era difícil — que preparavam a mais hedionda catástrofe da Europa.

Para ocultar, dissimular ou apagar os seus próprios crimes, violências e atrocidades, os vencedores recorreram ao magnífico processo de classificar os vencidos na categoria de criminosos de guerra e de outorgarem a si mesmos o estatuto de libertadores e juízes sem pecado e sem mancha. Enquanto a propaganda dava força ao enunciado, o “tribunal” de Nuremberg elevava-o à categoria de dogma. Criado o modelo e o estereótipo, ficou estabelecido o que podia e o que não podia ser dito, o que devia e o que não devia ser dito. Pelo menos desde há sessenta anos, vivemos em plena falsificação histórica, falsificação que começa por atiçar e arrastar as imaginações populares, para logo a seguir se apoiar na conspiração dessas imaginações. Começou por dizer-se: eis como eram bárbaros os vencidos da última guerra mundial que, além disso, foi desencadeada por sua culpa exclusiva. A seguir acrescentou-se: recordai os sofrimentos dos que padeceram sob a sua ocupação e o que podiam ter sofrido todos os outros se os nobres aliados não tivessem defendido e preservado a sua neutralidade…

Algumas pessoas acham que o que passou, passou; e não veem a relação entre a situação mundial da atualidade e a herança hipócrita que recebemos desde o final da Segunda Guerra – NR.

Inventou-se também uma filosofia dessa falsificação e explicaram-nos que o que eram uns e outros não tem importância, que só conta a imagem criada e que essa é a única realidade. Ao mesmo tempo, duas ou três centenas de usufrutuários da imprensa, da rádio e da televisão, fabricantes da chamada opinião pública mundial, foram promovidos à existência metafísica.

Aos bombardeamentos terroristas contra as populações civis de Hiroshima e Nagasaki, Dresden, Hamburgo, Stuttgart, Freiburg, Colônia ou Berlim, ações que só podem ser consideradas na categoria dos mais execráveis crimes de guerra, somaram-se centenas de outros igualmente infames levados a cabo pelos aliados, americanos, ingleses e russos, juntamente ou à vez. Que dizer das mulheres alemãs violadas trinta, quarenta, cinquenta vezes e abandonadas depois para morrerem de hemorragias e de frio? Que dizer das crianças e bebês crucificados em portas ou enforcados em árvores? Que culpa podiam ter esses pobres inocentes? Que dizer, enfim, das torturas, assassinatos e atrocidades de todo o gênero perpetrados contra centenas de milhares de homens, mulheres e crianças?

As convenções de Genebra e de Haya elevaram a lei de direito internacional o velho costume das nações civilizadas de limitarem as ações bélicas a exércitos regulares. Com exceção da URSS, as potências aliadas que unilateralmente se proclamavam defensoras do direito, foram signatárias dessas convenções. Não obstante, não hesitaram em utilizar desde o início da guerra partisanos, guerrilheiros e sabotadores.

Apesar da iconografia posta à solta pelos pseudo-historiadores democráticos e popularizada pelos fabricantes de filmes de Hollywood, os efeitos militares da ação subversiva foram negligenciáveis. O próprio comandante supremo das tropas aliadas na Europa, general Eisenhower, afirmava que as atividades da tão celebrada “Resistência” francesa, por exemplo, nem encurtaram a guerra nem deram uma ajuda digna de menção às tropas anglo-saxônicas que desembarcaram na Normandia. Em resposta ao detestável chauvinismo francês, definiu a “Resistência” como a wet kitchen cloth (pano de cozinha molhado)…

No plano político, porém, as ações da guerra subversiva tiveram forte relevo. O historiador inglês Russell Grenfell diz o seguinte: “…na França e na Bélgica, os alemães comportaram-se irrepreensivelmente. Os jornais ingleses de 1940 informaram a respeito da excelência desse comportamento na França, onde os soldados alemães que viajavam em comboios ou autocarros se levantavam para dar o lugar às mulheres, etc.”

Churchill, porém, sabotou com êxito essa conduta, encorajando e animando os movimentos de resistência na França e na Bélgica, primeiro, e no resto da Europa ocupada, depois. “Esses movimentos eram constituídos em grande parte por elementos comunistas disfarçados”.

A partir de Maio de 1940, quando a França é derrotada, e até 21 de Junho de 1941, data do ataque alemão à URSS, não há, praticamente, atividade guerrilheira francesa. As ações praticadas pela “Resistência” só começaram quando a Alemanha atacou a União Soviética e depois de Stalin dar ordem aos cipaios franceses do partido comunista para hostilizarem os alemães e os franceses que colaboravam com a Alemanha ou que, no mínimo, respeitavam os termos do Armistício subscrito pelo governo legal do país. Com o seu núcleo de comunistas especialmente treinados nesses misteres, a “Resistência” dedicou-se a assassinar a elite nacional francesa (os sobreviventes foram “julgados” depois da “Libertação”), a pôr bombas em cafés e bares frequentados por oficiais e soldados alemães, ações de que só podiam resultar represálias do ocupante alemão. Uma vez que não há represália que não cause vítimas inocentes, foi-se cavando um abismo cada vez maior entre ocupantes e ocupados. Por outro lado, dada a finalidade do terrorismo em provocar represálias, a paz autêntica tornou-se impossível.

Se é certo que o soldado uniformizado de um exército regular — de qualquer exército regular — tem direito a alojamento, comida e cuidados médicos ao ser feito prisioneiro no campo de batalha, o sabotador, espião ou guerrilheiro vestido de civil priva-se automaticamente desse direito e torna-se credor de execução sumária.

A execução de guerrilheiros e sabotadores faz parte dos códigos de justiça militar de todos os países do mundo. Ainda hoje, no Ocidente, onde em quase toda a parte foi suprimida a pena de morte para assassinos, violadores, infanticidas e outros delinquentes, continua vigente o princípio de que os guerrilheiros capturados em combate devem ser fuzilados imediatamente (e não falemos da URSS, onde esse princípio foi aplicado com especial “generosidade”). A execução de guerrilheiros é tão velho como o mundo e, como tal, foi sancionado em Haya e Genebra como lei de direito internacional.

Onde a ação dos partisanos teve efeitos reais, foi na Iugoslávia. Favorecidos pela geografia acidentada do país, surgiram dois movimentos a praticar a guerrilha. Um, à frente do qual se encontrava o general Draza Mihailovitch, de tendência monárquica, foi apoiado inicialmente pelos ingleses e americanos. O outro, dirigido pelo comunista Iosif Broz, aliás Tito, era apoiado pela URSS. Em meados de 1943, as democracias ocidentais decidiram abandonar Mihailovitch e passaram a apoiar Tito.

Alguns autores sustentam que Tito era judeu e que o seu nome verdadeiro era Iosif Walter Weiss. Durante a guerra civil de Espanha foi membro de uma brigada internacional e, ao morrer Iosif Broz Tito, um amigo seu de origem croata, Weiss decidiu tomar o seu nome “…a fim de aperfeiçoar a sua aparência de iugoslavo”.

Se há dúvidas em relação a Tito, não as há em relação ao talmúdico conselheiro Moises Pijade. Foi ele que captou para Tito as boas graças de Bernard M. Baruch, “pró-cônsul de Judá na América”, o conhecido mentor dos presidentes americanos, incluindo Roosevelt, no sentido do Ocidente apoiar Tito e abandonar Mihailovitch. O escritor norte-americano Hanson Baldwin, afirma ainda: “…Mihailovitch sublevou-se por iniciativa do governo iugoslavo exilado em Londres, mas, em 26 de Novembro de 1943, na conferência de Teerã, Churchill, Roosevelt e Stalin combinaram o seu abandono”…

O extermínio dos alemães residentes na Iugoslávia começou com uma série de matanças sem ordem nem método, mas logo a seguir foi levado a cabo com o apoio jurídico de uma infame legislação decretada pelo chamado Comitê Antifascista de Libertação da Iugoslávia, tornada pública em Novembro de 1944. O comitê era presidido pelo próprio marechal Tito e os seus secretários eram Moises Pijade e Jakob Rankowitz.

As liquidações maciças foram quase todas levadas a cabo no período de anarquia que antecedeu as leis de Novembro de 1944 e os autores foram os partisanos, que chegaram a liquidar aldeias e povoações inteiras. Depois de 21 de Novembro, foram substituídas por liquidações individuais permitidas pela lei, liquidações que “…exprimiam tendências de sadismo, a que a nova legislação dava livre curso”. Em 1948, terminaram as liquidações individuais; uma das últimas vítimas foi o padre beneditino Adalberto Schmidt, que passou doze anos a opor-se ao nacional-socialismo por razões alegadamente teológicas. O padre Adalbert acreditava cegamente na igualdade dos homens… Pois bem, morreu às mãos dos seus “iguais” iugoslavos, que o espancaram durante horas seguidas.

Em 1948, poucos alemães havia vivos na Iugoslávia: apenas 42.000 que, finalmente, foram enviados para a União Soviética como mão de obra, isto é, como escravos. E foram enviados no inverno, a pé, o que faz supor que muitos morreram pelo caminho. Seja como for, nunca mais se soube do seu destino final. Do total da colônia alemã da Iugoslávia no começo da guerra, cerca de 250.000 pessoas, só cerca de dez mil conseguiram escapar, precisamente as que fugiram para a Áustria ou se entregaram às tropas norte-americanas e inglesas. Mas só escaparam momentaneamente…

Nos últimos dias da guerra, em Maio de 1945, 80.000 soldados alemães renderam-se aos ingleses na Áustria e foram internados num campo de concentração de Karntern. Quase ao mesmo tempo, chegavam ao mesmo campo os restos do exército croata (290.000 oficiais e soldados que se tinham rendido aos ingleses e americanos). Em 17 de Maio, foram todos entregues a Tito.

Prisioneiros de guerra e membros de exércitos regulares, esses soldados estavam amparados pelas convenções de Genebra e de Haya e, por conseguinte, tinham direito a serem tratados corretamente, mas não foi o que sucedeu: nos três meses que se seguiram ao final da guerra, foram liquidados sem acusação e sem julgamento por meio de matanças sistemáticas nos arredores de Bleiburg e nas marchas da morte de Maribor a Ursac. Com efeito, observou-se durante a guerra que os comunistas praticavam uma técnica especial de extermínio que consistia em fazer marchar em estradas ou através dos campos as grandes massas de população que queriam abater.

O massacre horrendo dos prisioneiros croatas e alemães em Bleiburg ficou conhecido como a “tragédia de Bleiburg”. Os cadáveres dos 370.000 soldados entregues a Tito pelos ingleses e americanos vieram a ser encontrados em enormes valas comuns abertas em Maribor, Kcevje, Bleiburg, Kranj, Bezigrad, Reichelburg, Zagreb, Sosice, etc.

Eis-nos perante um super-Katyn que, pela sua crueldade e aterradora extensão, é absolutamente único. As fossas coletivas estendem-se sem interrupção da fronteira austro-iugoslava à fronteira iugoslavo-romena. O governo iugoslavo não conseguiu negar a veracidade dos fatos. Quando o Comitê de investigações sobre a tragédia de Bleiburg, presidido pelos professores universitários norte-americanos John Porcela e Joseph Hesimovic, denunciou o caso à ONU, o delegado iugoslavo respondeu cinicamente que havia que enterrar os mortos e que, por isso, se tinham encontrado em território iugoslavo tantas fossas com cadáveres…

Resta acrescentar que os principais acusados pelo Comitê de investigações sobre a tragédia de Bleiburg foram Koca Popovic e Dusan Kvedr, a parte, naturalmente, o marechal Tito. Pois bem: Popovic foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros da Iugoslávia e Kvedr, embaixador da Iugoslávia em Bona. O “general” Holjevac, especialista no extermínio de soldados e civis italianos na zona de Trieste, foi nomeado governador civil de Zagreb!…

Não há dúvida: para gente desta, o crime compensa!…

Maio de 1945. A guerra tinha acabado e a Tchecoslováquia estava libertada. O país dos Sudetos, onde há séculos vivia uma imensa maioria alemã (em 1945, contava com três milhões e meio de alemães), foi submetido à lei marcial e a administração civil assumida por comitês tchecos…

O presidente da república, Edouard Benes, proclamou num decreto: “Os alemães e magiares não são seguros. É necessário retirar-lhes a administração do país e os bens pessoais”. Assim, as propriedades e alfaias agrícolas dos alemães foram confiscadas e, ao mesmo tempo, tomaram-se medidas de ordem policial: emblema-distintivo obrigatório para os alemães, limitação nas horas de saída de casa, proibição de assistirem a cultos religiosos, de andarem nos passeios das ruas e de receberem cuidados médicos nos hospitais. Benes declarava num discurso: “Aos alemães, deixa-se o lenço para enxugarem as lágrimas”. Rádio Praga, por sua vez, difundia incitações iníquas como “Morte aos alemães!”

Em todas as cidades foi criado um campo de concentração, nas cidades maiores criaram-se vários e instauram-se oficialmente as penas corporais. Faltar ao respeito a um polícia ou a um partisano checo custava dez chicotadas se a falta fosse “leve”. Sendo considerada grave, era o fuzilamento.

Eis o que conta Manfred Lutgenhort, testemunha ocular dos fatos: “Tenho aqui o caso de Helena Burger. O prof. Zelenka entregou à turba vinte mulheres, algumas com 60 e 70 anos: ‘Trago-vos estas porcas alemãs!’. Foram selvagemente agredidas. Helena Burger ouviu uma ordem: ‘De joelhos, putas alemãs!’ As mulheres ajoelharam-se. Começaram a cortar-lhes o cabelo com baionetas. Helena Burger desmaiou, mas reanimaram-na com um balde de água gelada e aplicaram-lhe um pontapé que lhe partiu as costelas. A seguir, cortaram-lhe do pé um pedaço de carne com quatro centímetros de profundidade. Quando regressou a casa, os filhos nem a reconheceram. Várias das suas companheiras de infortúnio morreram em conseqüência dos golpes. Duas suicidaram-se, outra, enlouqueceu. Três semanas depois, Helena Burger foi transferida para o campo de concentração de Hagibor, onde havia mil e duzentos detidos acomodados em quatro barracões. Uma irmã da Cruz Vermelha checa tomava nota das mulheres jovens e bonitas e, pela noite, conduzia os soldados russos aos barracões. Algumas mulheres foram violadas quarenta e cinco vezes numa só noite”.

Agora, o testemunho do engenheiro Franz Resch: “Vi milhares de alemães, homens e mulheres, civis e soldados, e até crianças de dez anos, serem selvagemente assassinados em Bokowitz. A turba espancava aqueles seres indefesos e regava os corpos dilacerados com ácido clorídrico para lhes aumentar o sofrimento. Alguns ainda estavam vivos quando lhes cortaram os dedos para roubar anéis e alianças. Também vi verterem alcatrão a ferver nas costas nuas de internados do campo de Kladnow e, a seguir, espancarem-nos com bastões. Em consequência de golpes recebidos, perdi o rim direito. Em 10 de Maio, no dia seguinte ao fim oficial da guerra — apesar da Tchecoslováquia ter sido libertada há mais de um mês — chegou ao campo de Kladnow um comboio de mercadorias cheio de soldados alemães feridos. Depois de os concentrarem num descampado, lançaram-lhes em cima granadas de mão. A maioria morreu”.

As cenas de horror iriam repetir-se em toda a parte. Foram registradas no Livro Branco dos Alemães dos Sudetos.

Eis alguns exemplos…

Em Iglau, o governador civil, alemão, foi julgado e, sem sequer lhe permitirem falar, foi condenado a ser escalpelado no próprio tribunal. Os gritos foram tão terríveis, que o infeliz rebentou as cordas vocais; trezentos e cinquenta habitantes de Iglau foram obrigados a marchar de noite completamente nus em passo de corrida; o que parasse ou caísse, era abatido à coronhada. Ao fim de trinta e três quilômetros dessa marcha da morte, não havia sobreviventes. Ao verem o que sucedia, mil e duzentos alemães de Iglau preferiram suicidar-se. No campo de concentração de Freudenthal, os detidos eram espancados até os guardas não agüentarem mais. Alguns detidos foram enterrados vivos. No campo de Moravska-Ostrava, a mulher de um camponês, grávida de oito meses, foi espancada no ventre até abortar. Já agonizante e às portas da morte, cortaram-lhe os seios. Em 15 de Maio, seis dias depois do fim da guerra, os habitantes da cidade de Saaz (cerca de três mil alemães) foram alvejados pelo exército checo com rajadas de metralhadora.

A apoteose, porém, teve lugar em Praga, onde vivia mais de meio milhão de alemães. Em 13 de Maio de 1945, vindo de Londres, entrava em Praga Edouard Benes, grão-mestre da franco-maçonaria tcheca. Benes era o bel esprit, o menino mimado do progressismo europeu liberalóide e bem-pensante. Com Benes chegava também Masarik, outro apóstolo do liberalismo ortodoxo. A recepção que lhe prepararam os sequazes, à frente dos quais estava o judeu Slansky, foi espetacular. Muitos alemães foram pendurados pelos pés nos grandes painéis de anúncios da praça de S. Wenceslau e regados com gasolina. À chegada dos grandes humanitários, os corpos foram incendiados.

Livro de mais de mil páginas, o Livro Branco dos Sudetos Alemães descreve horrores sem precedentes na história da humanidade. Mulheres checas e judias armadas de paus e bastões golpeavam os ventres das mulheres grávidas até as fazerem abortar. Num dos campos de concentração, morriam diariamente dez mulheres em consequência de torturas. Noutro campo, os prisioneiros foram obrigados a lamber os cérebros esmagados dos companheiros espancados até à morte, outros, obrigados a comer excrementos de detidos atacados de desinteria.

Os médicos tchecos e judeus recusavam ajuda às mulheres alemãs violadas pelos soldados russos. Milhares morreram ou suicidaram-se. Em Brno, por exemplo, suicidaram-se num só dia 275 mulheres. Em 18 de Maio, nove dias depois de terminada a guerra, cinco mil prisioneiros SS foram alvejados com rajadas de metralhadora e crivados de balas no estádio municipal de Praga.

Segundo o mesmo Livro Branco dos Alemães dos Sudetos, o número total de mortos nos Sudetos e na Tchecoslováquia, não incluindo os que morreram nas deportações que se seguiram a esses horrores e os que agonizaram lentamente nos campos de trabalhos forçados, ascende a 250.000. É difícil avaliar o número de mortos nas deportações e, mais ainda, os que pereceram em campos de trabalhos forçados, em todo o caso, aos 250.000 massacrados constantes no Livro Branco dos Sudetos Alemães, há que somar mais 175.000, que, segundo fontes oficiais alemãs, morreram nos meses seguintes em campos de trabalho em consequência de maus tratos e de fome.

E dizia Churchill: “Lutamos pela liberdade”…

E dizia Roosevelt: “Lutamos pela civilização ocidental”…

E dizia Stalin: “Lutamos contra o imperialismo e contra a opressão dos povos”…

Odioso e grotesco!…

António Carlos Rangel – Causa nacional