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    quarta-feira, 28 de outubro de 2026

    O que o estado teme?

     


    O artigo a seguir é um trecho do livro Anatomia do Estado de Murray Rothbard. 


    O que o estado teme acima de tudo, claro, é qualquer ameaça fundamental ao seu próprio poder e à sua existência. A morte do estado pode ocorrer de duas formas: (a) por meio da sua conquista por outro estado, ou (b) por meio de um golpe revolucionário feito pelos seus próprios súditos — ou seja, por meio da guerra ou da revolução. Não há outra maneira de de trocar derrubar um Estado socialista ditatorial através da democracia, pelo voto, já que foi a democracia que levou o socialismo a se instalar e enraizar seu poder no terreno do Estado. Guerra e revolução, sendo as duas ameaças essenciais, invariavelmente suscitam nos governantes estatais esforços máximos e a máxima propaganda possível direcionada à população. Como dito anteriormente, qualquer meio deve sempre ser utilizado para mobilizar as pessoas a defender o estado na crença de que estão defendendo a si mesmas. A fraude subjacente a esta ideia torna-se evidente quando o recrutamento compulsório é utilizado contra aqueles que se recusam a “defender-se” e que são, como tal, forçados a juntar-se ao aparato militar do estado: desnecessário dizer que não lhes é permitida qualquer “defesa” contra este ato cometido pelo “seu próprio” estado.

    Em uma guerra, o poder do estado é levado ao extremo, e sob os slogans da “defesa” e da “emergência”, ele pode impor uma tirania ao público que, em tempos de paz, enfrentaria franca e aberta resistência. Desta forma, a guerra provê muitos benefícios a um estado e, de fato, todas as guerras modernas trouxeram aos povos envolvidos um permanente legado de maiores encargos estatais sobre a sociedade. A guerra, além disso, provê ao estado oportunidades tentadoras de conquistar territórios sobre os quais pode exercer o seu monopólio da força. Definitivamente, Randolph Bourne estava correto quando disse que “a guerra é a saúde do estado”; porém, para qualquer estado em particular, uma guerra pode significar tanto sua saúde quanto estragos irreparáveis[1].

    Podemos colocar à prova a hipótese de que o estado está majoritariamente interessado em proteger a si mesmo, e não os seus súditos, levantando a seguinte questão: qual a categoria de crimes que o estado persegue e pune mais intensamente — aqueles cometidos contra os cidadãos ou aqueles cometidos contra ele próprio? No vocabulário do estado, os crimes mais graves são quase invariavelmente não-agressões contra indivíduos ou contra a propriedade privada, mas sim ataques contra o próprio bem-estar do estado: por exemplo, traição, deserção de um soldado para o lado inimigo, fugir do alistamento militar compulsório, subversão e conspiração subversiva, assassinato de governantes, e crimes econômicos contra o estado, como falsificação da sua moeda ou evasão fiscal.

    Ou compare a intensidade dedicada à perseguição de um homem que tenha atacado um policial com a atenção que o estado concede ao ataque a um cidadão comum. Curiosamente, no entanto, esta explícita prioridade do estado à sua própria contra o público não parece suscitar nas pessoas nenhum sentimento de incoerência e inconsistência em relação à sua pretensa raison d’etre.[2]


    [1] Vimos que o apoio por parte dos intelectuais é fundamental ao estado, e isto inclui o apoio contra as suas duas ameaças essenciais. Assim, acerca do papel dos intelectuais americanos no envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, ver Randolph Bourne, “The War and the Intellectuals,” em The History of a Literary Radical and Other Papers (New York: S.A. Russell, 1956), p. 205-22. Tal como Bourne evidencia, um dos métodos comuns dos intelectuais para ganhar o apoio do público para as ações do estado é o de desviar qualquer discussão para os limites da política do estado e de desencorajar qualquer crítica total ou fundamental deste enquadramento básico.

    [2] Tal como Mencken o descreve, à sua maneira inconfundível: Esta gangue (“os exploradores que formam o governo”) é praticamente imune ao castigo. As suas extorsões mais graves, mesmo quando são claramente para proveito privado, não acarretam qualquer pena certa sob as nossas leis. Desde os primeiros dias da República que não mais que algumas dúzias dos seus membros foram impugnados dos seus mandatos, e apenas alguns subordinados obscuros foram encarcerados. A quantidade de homens postos na prisão por se revoltarem contra as extorsões do governo é sempre dez vezes maior do que a quantidade de representantes do governo que são condenados por oprimir os pagadores de impostos para seu ganho próprio. (Mencken, A Mencken Chrestomathy, p. 147-48) Para uma vívida e divertida descrição da falta de proteção ao indivíduo contra as incursões à sua liberdade feitas pelos seus “protetores”, ver H.L. Mencken, “The Nature of Liberty,” in Prejudices: A Selection (New York: Vintage Books, 1958), p. 138-43.

    A escolha é sua.

     

    O que os plutocratas apátridas fariam se a massa do povo desligasse suas TVs, deixassem suas novelas e BBBs reservados para a lixeira e começassem a gritar que a democracia é um lixo fabricado. Se o povo se negasse a aceitar a anti-cultura de funk, carnaval, pornografia, alcoolismo e malandragem imposta por esses ditadores da imbecilidade e desejassem ter como um líder um Hitler, um Mussolini, um Franco ou um Salazar?

    Neste momento eu me pus a pensar…

    Dia após dia vive-se em um mundo cada vez mais orwelliano. Vivemos na democracia do politicamente correto e cada atitude, gesto e até mesmo pensamento é vigiado pelos xerifes do patrulhamento ideológico de plantão. E eles são muitos… Estão em toda parte e todo lugar. Vivemos diariamente na correria cotidiana de trabalho e pressões diversas e inclui-se aí nesse “diversas” também a posição por uma postura politicamente correta. Basta desviar-se um milímetro do caminho da verdade previamente estabelecido pelos senhores gurus do comportamento perfeito da mídia (e incluem-se aí todas as suas vertentes, seja internet, TV, rádio ou papel impresso) e como por mágica surgirão dedos lhe apontando suas faltas.

    O politicamente correto diz que não se pode julgar ninguém, pois em nosso mundo evoluído e completamente relativizado cada um possui um modo de ver este mundo e sendo assim cada qual possui a sua verdade. Porém, mesmo neste mundo liberal, relativizado e sem tabus há algo que deve ser segregado e estigmatizado com força máxima ao menor sinal de aparição. Neste maravilhoso mundo novo de tecnologia e liberdade onde qualquer um deve ter o direito de demonstrar e falar abertamente, por exemplo, sobre sua “opção” sexual (que belo dia será quando começarem as passeatas pelo orgulho dos zoófilos e necrófilos!!) palavras como Hitler, Nazismo e Fascismo causam arrepios e repulsa repugnante. E ai daqueles que esboçarem, ainda que timidamente um grão de simpatia por tais substantivos. O poderoso martelo do politicamente correto descerá sobre suas cabeças com força divina; e isto é apenas o começo, pois dependendo de onde o pobre diabo que exteriorizou um pouco de seus pensamentos estiver localizado haverá uma avalanche de processos jurídicos, protestos de cidadãos indignados e toda sorte de palhaçada que a mídia se deleitará em mostrar em seus jornais. Este será o inicio de um longo martírio.

    É intrigante como neste mundo pós-moderno, onde teoricamente não há certos e errados, o simples uso da liberdade de expressão, algo tão prezado e louvado nas democracias ocidentais, pode instigar sentimentos tão nefastos e atitudes ainda mais violentas. Agora, analisando-se friamente os fatos, de onde pode vir tal aversão? Com certeza décadas de ação depreciadora por parte da propaganda dos vitoriosos aliados tem um papel fundamental nisto, pois se observarmos com atenção é praticamente impossível passar um dia sequer onde não há um programa de TV sobre os diabólicos nazistas, uma semana que não haja uma nova revista na banca de jornal sobre a terrível SS ou o satânico mecanismo do holocausto… As editoras e TVs são quase sempre as mesmas, os autores, geralmente figurinhas carimbadas, as alegações, mesmo sendo as mais absurdas possíveis e que já há anos foram desmentidas até por historiadores do mainstream, continuam sendo as mesmas; e nesta lista entram os já desgastados abajures de pele humana, câmaras de gás, sabão de gordura de prisioneiros judeus e etc. A lista é grande, quase infindável… E mais interessante ainda é presenciar a reação das pessoas com este tipo de material. Lembro de uma vez, há alguns anos, quando no intervalo de almoço, estava reunido com um grupo de colegas de trabalho próximo a uma banca de jornal. Dentre as diversas revistas disposta para exibição havia uma dessas publicações infames sobre Hitler. Um dos colegas olhou, leu brevemente o título de chamada da revista e como que sendo uma grande autoridade no assunto lá tratado exclamou “Este aí está lá embaixo (apontando para o chão), queimando no inferno…”. Neste momento eu me pus a pensar… Até onde eu sabia este rapaz não era nenhum grande entendido do assunto Segunda Guerra Mundial, nacional-socialismo e muito menos devia ter sequer lido uma biografia sobre Hitler, nem mesmo uma como o tão aclamado Hitler – de Joachim Fest, e mesmo assim esse rapaz se sentia quase que investido de autoridade papal para efetuar um julgamento dogmático de que o tão mal falado líder alemão se encontrava nas profundezas do inferno queimando… De onde será que veio esse julgamento? A influência não é tão difícil de imaginar e a imbecilidade de aceitar tudo passivamente, sem mover um neurônio sequer em julgamento completa o serviço.

    E para aqueles que conseguirem escapar dos grilhões politicamente corretos da mídia, um mundo sombrio lhes aguarda. O que fazer, quando se chega a conclusão de que 70 anos de propaganda e toneladas de revistas, livros, filmes e programas de TV não passam de lixo tóxico não reciclável? O que fazer quando se pode realmente se libertar da cortina enfumaçada de mentiras e em um complexo processo de raciocínio lógico chegar à conclusão de que a tal atrocidade nazista e (sua maior representante) as câmaras de gás simplesmente nunca existiram e você chegar a ter simpatia com a figura de Hitler? Neste caso só existem dois caminhos a se escolher: esqueça tudo e volte à sua vida anterior, no mundo das tenebrosas fábulas holocáusticas ou conhecendo a verdade, e a verdade lhe libertando, prepare-se para trilhar um caminho sombrio, sim sombrio, pois as mentiras são muitas e seus asseclas infernais mais ainda.

    A confrontação com a verdade e a possibilidade da escolha remete às imagens bíblicas e até mesmo a certas produções hollywoodianas (Matrix que o diga), mas é a mais pura verdade. Como Cristo disse, o caminho da verdade é estreito e espinhoso; os inimigos são muitos e igualmente é a honra em se manter com a cabeça erguida e confiante na vitória final. Havendo esta iluminação mental e elevando os olhos acima do mar de mentiras é que se notarão muitas coisas que antes passavam despercebidas. Verá que aquela notícia que antes parecia tão inocente no jornal, na verdade oculta algo de tendencioso e manipulado; que aquela superprodução do cinema não passa da repetição mecânica da mesma mentira de sempre… Enfim, sua mente estará apta a ser crítica e daí é que surge o grande temor dos poderes plutocratas estabelecidos. A verdade. Sim, eles a temem como o demônio à cruz. Imagine o que aconteceria se uma grande parte da população viesse a despertar de seu sono enganatório e chegasse à conclusão de que os grandes regimes fascistas não eram nenhum monstro, e que muito pelo contrário, o povo vivia melhor e mais feliz nestes países nessas épocas… O que os plutocratas apátridas fariam se a massa do povo desligasse suas TVs, deixassem suas novelas e BBBs reservados para a lixeira e começassem a gritar que a democracia é um lixo fabricado. Se o povo se negasse a aceitar a anti-cultura de funk, carnaval, pornografia, alcoolismo e malandragem imposta por esses ditadores da imbecilidade e desejassem ter como um líder um Hitler, um Mussolini, um Franco ou um Salazar? E se o povo estivesse a ponto de pedir que a tal “liberdade” anárquica e decadente fosse suprimida em troca de segurança, trabalho honesto e uma elevação cultural/social?

    O brilho da autoridade séria, disciplina e disposição para o sacrifício em prol de algo maior e a negação ao poder do ouro que o fascismo carrega intrinsecamente é o que faz os plutocratas exploradores do povo o temer tanto. E você, o que escolherá? A honra ao trabalho e à honestidade ou toda a glória ao dinheiro… Eis aí a bifurcação na estrada, a escolha cabe a você…

    Viktor Weiß

    Publicado originalmente em 25/03/2010

    segunda-feira, 26 de outubro de 2026

    Por que os piores chegam ao poder

     

    Texto extraído do capítulo 10 de O Caminho da Servidão

     

    Todo poder corrompe, e o poder absoluto corrompe de maneira absoluta. – Lord Acton

    Analisaremos agora uma ideia que, se de um lado serve de consolo para muitos que consideram inevitável o advento do totalitarismo, de outro enfraquece sobremodo a resistência dos que a ele se oporiam com todas as forças se lhe compreendessem a natureza. Trata-se da ideia de que os aspectos mais repelentes dos regimes totalitários se devem à casualidade histórica de esses regimes terem sido estabelecidos por canalhas e bandidos. Se, na Alemanha, a criação de um regime totalitário levou ao poder os Streichers e Killingers, os Leys e Heines, os Himmlers e Heydrichs — argumenta-se –, isso sem dúvida poderá provar a perversidade do caráter alemão, mas não que a ascensão de tais homens seja consequência inevitável de um regime totalitário. Por que não seria possível que o mesmo sistema, se necessário à consecução de objetivos importantes, fosse dirigido por indivíduos honestos para o bem da comunidade?

    Não devemos iludir-nos supondo que todas as pessoas de bem são forçosamente democratas ou desejam fazer parte do governo. Muitos prefeririam confiá-lo a alguém que reputam mais competente. Embora isso possa ser importante, não há erro ou desonra em aprovar uma ditadura dos bons. O totalitarismo, ouve-se dizer, é um sistema poderoso tanto para o bem como para o mal, e o fim para o qual é usado depende inteiramente dos ditadores. Aqueles que julgam não ser o sistema que cumpre recear, e sim o perigo de que ele venha a ser dirigido por maus indivíduos, poderiam até ser tentados a prevenir esse perigo fazendo com que ele fosse estabelecido antes por homens de bem.

    Não há dúvida de que um sistema “fascista” inglês ou americano diferiria muito dos modelos italiano ou alemão; por certo, se a transição fosse efetuada sem violência, poderíamos ter esperanças de que surgisse entre nós um líder melhor. E, se eu tivesse de viver sob um regime fascista, preferiria indubitavelmente um que fosse dirigido por ingleses ou americanos a qualquer outro. Entretanto, isso não quer dizer que, julgado pelos padrões atuais, um sistema fascista inglês viesse no fim a revelar-se muito diferente ou muito menos intolerável do que seus protótipos. Há razões de sobra para se crer que os aspectos que consideramos mais detestáveis nos sistemas totalitários existentes não são subprodutos acidentais mas fenômenos que, cedo ou tarde, o totalitarismo produzirá inevitavelmente. Assim como o estadista democrata que se propõe a planejar a vida econômica não tardará a defrontar-se com o dilema de assumir poderes ditatoriais ou abandonar seu plano, também o ditador totalitário logo teria de escolher entre o fracasso e o desprezo à moral comum. É por essa razão que os homens inescrupulosos têm mais probabilidades de êxito numa sociedade que tende ao totalitarismo. Quem não percebe essa verdade ainda não mediu toda a vastidão do abismo que separa o totalitarismo dos regimes liberais, a profunda diferença entre a atmosfera moral do coletivismo e a civilização ocidental, essencialmente individualista.

    O “embasamento moral do coletivismo” foi, é claro, muito debatido no passado; mas o que nos interessa em nosso estudo não é sua base moral e sim seus resultados morais. Nos debates habituais sobre os aspectos éticos do coletivismo pergunta-se se este é exigido pelas convicções morais existentes, ou se devem existir certas convicções morais para que o coletivismo produza os resultados esperados. A questão que estudaremos, entretanto, é: que atitudes morais serão geradas por uma organização coletivista da sociedade, e por que ideias morais tal sociedade tenderá a ser dirigida? A interação da moral e das instituições poderá fazer com que a ética resultante do coletivismo seja totalmente diversa dos ideais morais que levam a exigir a implantação desse mesmo coletivismo. Embora nos inclinemos a pensar que, como o desejo de um sistema coletivista nasce de elevados motivos morais, em tal sistema se desenvolverão as mais altas virtudes, não existe, na realidade, nenhuma razão para que qualquer sistema estimule necessariamente aquelas atitudes que concorrem para o fim a que ele se destina. As ideias morais dominantes dependerão em parte das qualidades que conduzem os indivíduos ao sucesso num sistema coletivista ou totalitário e, em parte, das exigências do mecanismo totalitário.

    Devemos agora voltar por um momento ao estágio que precede a supressão das instituições democráticas e a criação de um regime totalitário. Nesse estágio, a exigência geral de uma ação governamental rápida e decidida torna-se o elemento dominante da situação, enquanto a insatisfação com o curso lento e trabalhoso dos processos democráticos faz com que o objetivo seja a ação em si. É então que o homem ou o partido que parecem bastante fortes ou resolutos para “fazerem as coisas funcionar” exercem maior sedução. “Forte”, neste sentido, não indica apenas uma maioria numérica, pois o povo está insatisfeito justamente com a ineficácia das maiorias parlamentares. O que as pessoas procuram é um homem que goze de sólido apoio, de modo a inspirar confiança quanto à sua capacidade de realizar o que pretende. E aqui entra em cena o novo tipo de partido, organizado em moldes militares.

    Nos países da Europa Central, os partidos socialistas já haviam familiarizado as massas com organizações políticas de caráter semimilitar, que tinham por objetivo absorver tanto quanto possível a vida privada dos seus membros. Para conferir um poder esmagador a um grupo, bastava estender um pouco mais o mesmo princípio, buscando a força não no imenso número de votos garantido em eleições ocasionais, mas no apoio absoluto e irrestrito de um grupo menor, porém perfeitamente organizado. Para conseguir impor um regime totalitário a toda uma nação, o líder deve em primeiro lugar reunir à sua volta um grupo disposto a submeter-se voluntariamente à disciplina totalitária que ele pretende aplicar aos outros pela força.

    Embora os partidos socialistas tivessem poder político suficiente para obter o que desejassem, desde que resolvessem empregar a força, relutaram em fazê-lo. Sem o saber, tinham assumido uma tarefa que só poderia ser executada por homens implacáveis, prontos a desprezar as barreiras da moral reinante. Muitos reformadores sociais aprenderam, no passado, que o socialismo só pode ser posto em prática por métodos que seriam condenados pela maioria dos socialistas.

    Os velhos partidos socialistas sentiam-se inibidos por seus ideais democráticos; não possuíam a insensibilidade necessária à execução da tarefa por eles escolhida. É importante notar que, tanto na Alemanha como na Itália, o êxito do fascismo foi precedido pela recusa dos partidos socialistas a assumir as responsabilidades do governo. Repugnou-lhes empregar os métodos que eles próprios haviam apontado. Ainda esperavam pelo milagre de um acordo da maioria em torno de um plano especial para a organização de toda a sociedade. Outros já haviam aprendido que, numa sociedade planificada, não se trata mais de saber sobre o que concorda a maioria do povo, mas qual é o maior grupo cujos membros encontraram um grau de acordo suficiente para tornar possível a direção unificada de todos os assuntos públicos; ou, caso não exista nenhum grupo bastante numeroso para impor suas ideias, de que forma e por quem ele pode ser criado.

    Há três razões principais para que um grupo numeroso, forte e de ideias bastante homogêneas não tenda a ser constituído pelos melhores e sim pelos piores elementos de qualquer sociedade. De acordo com os padrões hoje aceitos, os princípios que presidiriam à seleção de tal grupo seriam quase inteiramente negativos.

    Em primeiro lugar, é provavelmente certo que, de modo geral, quanto mais elevada a educação e a inteligência dos indivíduos, tanto mais se diferenciam os seus gostos e opiniões e menor é a possibilidade de concordarem sobre determinada hierarquia de valores. Disso resulta que, se quisermos encontrar um alto grau de uniformidade e semelhança de pontos de vista, teremos de descer às camadas em que os padrões morais e intelectuais são inferiores e prevalecem os instintos mais primitivos e “comuns”. Isso não significa que a maioria do povo tenha padrões morais baixos; significa apenas que o grupo mais amplo cujos valores são semelhantes é constituído por indivíduos que possuem padrões inferiores. É, por assim dizer, o mínimo denominador comum que une o maior número de homens. Quando se deseja um grupo numeroso e bastante forte para impor aos demais suas ideias sobre os valores da vida, jamais serão aqueles que possuem gostos altamente diferenciados e desenvolvidos que sustentarão pela força do número os seus próprios ideais, mas os que formam a “massa” no sentido pejorativo do termo, os menos originais e menos independentes.

    Se, contudo, um ditador em potencial tivesse de contar apenas com aqueles cujos instintos simples e primitivos são muito semelhantes, o número destes não daria peso suficiente às suas pretensões. Seria preciso aumentar-lhes o número, convertendo outros ao mesmo credo simples.

    A esta altura entra em jogo o segundo princípio negativo da seleção: tal indivíduo conseguirá o apoio dos dóceis e dos simplórios, que não têm fortes convicções próprias, mas estão prontos a aceitar um sistema de valores previamente elaborado, contando que este lhes seja apregoado com bastante estrépito e insistência.

    Serão, assim, aqueles cujas ideias vagas e imperfeitas se deixam influenciar com facilidade, cujas paixões e emoções não é difícil despertar, que engrossarão as fileiras do partido totalitário.

    O terceiro e talvez mais importante elemento negativo da seleção está relacionado com o esforço do demagogo hábil por criar um grupo coeso e homogêneo de prosélitos. Quase por uma lei da natureza humana, parece ser mais fácil aos homens concordarem sobre um programa negativo — o ódio a um inimigo ou a inveja aos que estão em melhor situação — do que sobre qualquer plano positivo. A antítese “nós” e “eles”, a luta comum contra os que se acham fora do grupo, parece um ingrediente essencial a qualquer ideologia capaz de unir solidamente um grupo visando à ação comum. Por essa razão, é sempre utilizada por aqueles que procuram não só o apoio a um programa político, mas também a fidelidade irrestrita de grandes massas. Do seu ponto de vista, isso tem a vantagem de lhes conferir mais liberdade de ação do que qualquer programa positivo. O inimigo, seja ele interno, como o “judeu” ou o “kulak”, seja externo, parece constituir uma peça indispensável no arsenal do líder totalitário.

    Se na Alemanha o judeu se tornou o inimigo, cedendo em seguida o lugar às “plutocracias”, isso foi decorrência do sentimento anticapitalista em que se baseava todo o movimento, o mesmo acontecendo em relação à escolha do kulak na Rússia. Na Alemanha e na Áustria, o judeu chegara a ser encarado como o representante do capitalismo porque a antipatia tradicional votada por vastas classes da população às atividades comerciais tornara tais atividades mais acessíveis a um grupo praticamente excluído das ocupações mais respeitadas. É a velha história: a raça alienígena, admitida apenas nas profissões menos nobilitantes, torna-se objeto de ódio ainda mais acirrado precisamente por exercê-las. O fato de, na Alemanha, o antissemitismo e o anticapitalismo terem a mesma origem é de grande importância para a compreensão do que tem acontecido naquele país, embora os observadores estrangeiros poucas vezes se deem conta disso.

    Considerar a tendência universal da política coletivista ao nacionalismo como decorrência exclusiva da necessidade de um apoio sólido seria negligenciar outro fator não menos significativo. Com efeito, é questionável que se possa conceber com realismo um programa coletivista que não atenda aos interesses de um grupo limitado, ou que o coletivismo possa existir sob outra forma que não a de um particularismo qualquer, nacionalista, racista ou classista. A ideia de uma comunhão de propósitos e interesses com os próprios semelhantes parece pressupor maior similaridade de ideias e pontos de vista do que aquela que existe entre os homens na qualidade de simples seres humanos. Se não podemos conhecer pessoalmente todos os outros componentes do nosso grupo, eles terão de ser pelo menos do mesmo tipo dos que nos cercam, terão de pensar e falar do mesmo modo e sobre os mesmos assuntos, para que nos possamos identificar com eles.

    O coletivismo em proporções mundiais parece inconcebível, a não ser para atender aos interesses de uma pequena elite dirigente. Ele por certo suscitaria problemas, não só de natureza técnica, mas sobretudo moral, que nenhum dos nossos socialistas estaria disposto a enfrentar. Se o proletário inglês tem direito a uma parcela igual da renda atualmente proporcionada pelos recursos financeiros do país, assim como ao controle do emprego desses recursos, porque eles resultam da exploração, então pelo mesmo princípio todos os hindus teriam direito não só à renda mas também ao uso de uma parcela proporcional do capital britânico.

    Que socialistas, porém, pensam de fato em repartir de maneira equitativa, entre toda a população da terra, os atuais recursos de capital? Para todos eles, o capital pertence não à humanidade, mas à nação — embora, mesmo no âmbito da nação, poucos ousem sustentar que as regiões mais ricas devem ser privadas de “seus” bens de capital para auxiliar as regiões mais pobres. Os socialistas não estão dispostos a conceder ao estrangeiro aquilo que proclamam como um dever para com os seus concidadãos. De um ponto de vista coletivista coerente, os direitos dos países pobres a uma nova divisão do mundo são de todo justificados — embora, se fossem aplicados com lógica, aqueles que os reivindicam com maior insistência acabassem quase tão prejudicados quanto as nações mais ricas. Têm, por conseguinte, o cuidado de não fundamentar suas exigências em princípios igualitários, mas numa pretensa capacidade superior de organizar outros povos.

    Uma das contradições inerentes à filosofia coletivista é que, embora baseada na moral humanista aperfeiçoada pelo individualismo, só se mostra praticável no interior de um grupo relativamente pequeno. Enquanto permanece teórico, o socialismo é internacionalista; mas ao ser posto em prática, na Alemanha ou na Rússia, torna-se violentamente nacionalista. Esta é uma das razões por que o “socialismo liberal”, tal como o imagina a maioria das pessoas no mundo ocidental, é apenas teórico, ao passo que a prática do socialismo é em toda parte totalitária. No coletivismo não há lugar para o amplo humanitarismo do liberal, mas apenas para o estreito particularismo do totalitário.

    Se a “comunidade” ou o estado têm prioridade sobre os indivíduos, se possuem objetivos próprios superiores aos destes e deles independentes, só os indivíduos que trabalham para tais objetivos podem ser considerados membros da comunidade. Como consequência necessária dessa perspectiva, uma pessoa só é respeitada na qualidade de membro do grupo, isto é, apenas se coopera para os objetivos comuns reconhecidos, e toda a sua dignidade deriva dessa cooperação, e não da sua condição de ser humano. Os próprios conceitos de humanidade e, por conseguinte, de qualquer forma de internacionalismo são produtos exclusivos da atitude individualista e não podem existir num sistema filosófico coletivista.[1]

    Além do fato fundamental de que a comunidade coletivista só pode chegar até onde exista ou possa ser estabelecida uma unidade de propósitos individuais, vários elementos contribuem para fortalecer a tendência do coletivismo a tornar-se particularista e exclusivista. Destes, um dos mais importantes é que o desejo de identificação do indivíduo com um grupo resulta com frequência de um sentimento de inferioridade, e por isso tal desejo só será satisfeito se a qualidade de membro do grupo lhe conferir alguma superioridade sobre os que a este não pertencem. Às vezes, ao que tudo indica, o próprio fato de esses instintos violentos que o indivíduo é obrigado a refrear no seio do grupo poderem ser liberados numa ação coletiva contra os estranhos constitui mais um incentivo para fusão de sua personalidade com a do grupo.

    Uma profunda verdade está expressa no título do livro de Reinhold Niebuhr, Moral Man and Immoral Society (O Homem Moral e a Sociedade Imoral) — embora seja difícil aceitar conclusões a que chega a sua tese. Na verdade, como diz ele em outra obra, “o homem moderno tende a se considerar uma pessoa de moral elevada por ter delegado seus vícios a grupos cada vez mais numerosos”.[2] Agir no interesse de um grupo parece libertar os homens de muitas restrições morais que regem seu comportamento como indivíduos dentro do grupo.

    A atitude de muitos planejadores de nítida oposição ao internacionalismo explica-se também pelo fato de que, no mundo atual, todos os contatos exteriores de um grupo constituem obstáculos ao planejamento efetivo da esfera em que este pode ser empreendido. Não é, pois, mera coincidência se conforme descobriu com pesar o organizador de um dos mais abrangentes estudos coletivos sobre o planejamento, “os ‘planejadores’ são, em sua maioria, nacionalistas militantes”.[3]

    As propensões nacionalistas e imperialistas dos planejadores socialistas — muito mais comuns do que em geral se admite — nem sempre são tão flagrantes como no caso dos Webb e de alguns outros fabianos primitivos, nos quais o entusiasmo pela planificação se somava, de modo característico, à veneração para com as grandes e poderosas unidades políticas e ao desprezo pelos pequenos estados. Referindo-se aos Webb na ocasião em que os conheceu, há quarenta anos, afirmava o historiador Elie Halévy que

    seu socialismo era profundamente antiliberal. Não odiavam os conservadores, eram até muito tolerantes com eles; entretanto, mostravam-se implacáveis para com o liberalismo gladstoniano. Era no tempo da guerra dos bôeres e tanto os liberais quanto aqueles que começavam a constituir o Partido Trabalhista haviam-se alinhado aos bôeres contra o imperialismo britânico, em nome da liberdade e da humanidade. Mas os dois Webb e seu amigo Bernard Shaw não os apoiaram. Eram ostentosamente imperialistas. A independência das pequenas nações poderia ter alguma importância para um individualista liberal mas, para coletivistas como eles, nada significava. Ainda ouço Sidney Webb a explicar-me que o futuro pertence às grandes nações administrativas, onde os funcionários governam e a polícia mantém a ordem.

    Em outra parte, Halévy cita a afirmação de Bernard Shaw, mais ou menos da mesma época, de que “o mundo pertence necessariamente aos estados grandes e poderosos, e os pequenos devem ser incorporados, a eles ou esmagados e aniquilados”.[4]

    Citei por extenso essas passagens, que não deveriam surpreender num relato sobre os precursores alemães do nacional-socialismo, porque apresentam um exemplo muito característico da glorificação do poder que facilmente conduz do socialismo ao nacionalismo e que tanto influencia as concepções éticas de todos os coletivistas. No que se refere aos direitos das pequenas nações, Marx e Engels pouco diferiam da maioria dos outros coletivistas coerentes, e as opiniões que ambos expressaram ocasionalmente a respeito dos tchecos ou dos poloneses assemelham-se às dos nacional-socialistas contemporâneos.[5]

    Enquanto para os grandes filósofos sociais individualistas do século XIX, como Lord Acton ou Jacob Burckhardt, e mesmo para socialistas contemporâneos como Bertrand Russell,que herdaram a tradição liberal, o poder sempre se afigurou o supremo mal, para o coletivista puro ele é um fim em si mesmo. O próprio desejo de organizar a vida social segundo um plano unitário nasce basicamente da ambição de poder, mas não apenas disso, conforme destacou Russell com propriedade. Esse desejo resulta sobretudo do fato de que, para realizar seu objetivo, os coletivistas precisam criar um poder de uma magnitude jamais vista até hoje — poder exercido por alguns homens sobre os demais — e de que seu êxito dependerá do grau de poder alcançado.

    Isto permanece válido ainda que muitos socialistas liberais orientem suas ações pela desastrosa ilusão de que, privando os indivíduos do poder que possuem num sistema individualista e transferindo-o à sociedade, lograrão acabar com o próprio poder. O que todos aqueles que usam esse argumento esquecem é que, concentrando-se o poder de modo a empregá-lo a serviço de um plano único, ele não será apenas transferido mas aumentado a um grau infinito; e que, enfeixando-se nas mãos de um só grupo uma autoridade antes exercida por muitos de forma independente, cria-se um poder infinitamente maior — tão amplo que quase chega a tornar-se um outro gênero de poder.

    É de todo errôneo afirmar, como por vezes se faz, que o grande poder exercido por uma comissão de planejamento central “não seria maior do que o poder exercido conjuntamente pelas diretorias das empresas privadas”.[6] Numa sociedade baseada na concorrência, ninguém exerce uma fração sequer do poder que uma comissão planejadora socialista concentraria nas mãos; e se ninguém o pode empregar de modo intencional, não passa de abuso de linguagem afirmar que este se encontra nas mãos de todos os capitalistas reunidos. Falar do “poder conjuntamente exercido pelas diretorias das empresas privadas” é apenas manipular palavras, se essas diretorias não se unem para uma ação comum — o que significaria, é evidente, o fim da concorrência e a criação de uma economia planificada. Fracionar ou descentralizar o poder corresponde, forçosamente, a reduzir a soma absoluta de poder, e o sistema de concorrência é o único capaz de reduzir ao mínimo, pela descentralização, o poder exercido pelo homem sobre o homem.

    Já vimos como a separação dos objetivos políticos e dos objetivos econômicos representa uma garantia essencial da liberdade individual e como, em consequência, tal separação é atacada por todos os coletivistas. Devemos acrescentar agora que a “substituição do poder econômico pelo político”, tão demandada hoje em dia, significa necessariamente a substituição de um poder sempre limitado por um outro ao qual ninguém pode escapar. Embora possa constituir um instrumento de coerção, o chamado poder econômico nunca se torna, nas mãos de particulares, um poder exclusivo ou completo, jamais se converte em poder sobre todos os aspectos da vida de outrem. No entanto, centralizado como instrumento do poder político, cria um grau de dependência que mal se distingue da escravidão.

    Das duas características principais de todo sistema coletivista — a necessidade de um sistema de objetivos aceito por todos os membros do grupo e o desejo imperioso de conferir ao grupo o máximo de poder para realizar tais objetivos — brota um sistema moral definido, que em certos pontos coincide e em outros se contrapõe violentamente ao nosso. Dele difere, entretanto, num detalhe que torna questionável podermos aplicar-lhe o termo “morar”: tal sistema não deixa à consciência individual a liberdade de aplicar suas regras próprias, nem mesmo conhece quaisquer regras gerais cuja prática seja exigida ou permitida ao indivíduo em todas as circunstâncias. Isso torna a moral coletivista tão diferente daquilo que conhecemos como moral que é difícil encontrar nela qualquer princípio — o que, no entanto, ela possui.

    A diferença de princípio é praticamente a mesma que já consideramos em relação ao estado de Direito. Como o Direito formal, as regras da ética individualista são gerais e absolutas, por mais imprecisas que possam parecer sob certos aspectos. Prescrevem ou proíbem um tipo geral de ação, sem levar em conta se num caso específico o objetivo último é bom ou mau. Trapacear ou roubar, torturar ou trair segredos é considerado mau, apresentem ou não consequências prejudiciais em determinado caso. E sua maldade intrínseca não se altera, mesmo que em dadas circunstâncias ninguém venha a sofrer por isso, e mesmo que tais ações tenham sido praticadas em nome de um propósito elevado. Embora por vezes sejamos forçados a escolher entre dois males, estes não deixam por isso de ser males.

    Na ética individualista, o princípio de que o fim justifica os meios é considerado a negação de toda a moral. Na ética coletivista, torna-se a regra suprema; não há literalmente nada que o coletivista coerente não deva estar pronto a fazer, desde que contribua para o “bem da comunidade”, porque o “bem da comunidade” é para ele o único critério que justifica a ação. A “razão de estado”, em que a ética coletivista encontrou a sua formulação mais explícita, não conhece outros limites que não os da conveniência — a adequação do ato particular ao objetivo que se tem em vista. E o que a “razão de estado” afirma no tocante às relações entre diferentes países aplica-se também às relações entre diferentes indivíduos no estado coletivista. Não pode haver limites para aquilo que o cidadão desse estado deve estar pronto a fazer, nenhum ato que a consciência o impeça de praticar, desde que seja necessário à consecução de um objetivo que a comunidade impôs a si mesma ou que os superiores lhe ordenem.

    Dessa ausência de normas absolutas e formais na ética coletivista não se infere, naturalmente, que a comunidade não estimule certos hábitos úteis do indivíduo, e que não condene outros. Ao contrário, ela se interessará muito mais pelos hábitos individuais de vida do que uma comunidade individualista. Ser membro útil de uma sociedade coletivista requer qualidades muito precisas, as quais devem ser fortalecidas por uma prática constante. A razão por que designamos essas qualidades como “hábitos úteis”, uma vez que não é possível denominá-las virtudes morais, é que nunca se permitiria ao indivíduo colocar essas regras acima de quaisquer ordens positivas ou deixar que se tornassem um obstáculo à realização dos objetivos concretos da comunidade. Elas apenas servem para preencher as lacunas deixadas pelas ordens diretas ou pela indicação de finalidades concretas. Jamais, entretanto, poderão justificar um conflito com a decisão da autoridade.

    As diferenças entre as virtudes que continuarão a ser valorizadas num sistema coletivista e aquelas que virão a desaparecer são bem elucidadas por uma comparação entre as virtudes atribuídas aos alemães, ou melhor, ao “prussiano típico”, mesmo por seus piores inimigos, e aquelas que lhes são negadas pela opinião geral, mas que o povo inglês, com alguma razão, se orgulhava de possuir em alto grau. Poucos deixarão de admitir que os alemães, em geral, são laboriosos e disciplinados, detalhistas e enérgicos a ponto de se mostrarem insensíveis, conscienciosos e coerentes em qualquer tarefa à qual se dedicam; que possuem um acentuado senso de ordem, dever e estrita obediência à autoridade, e que muitas vezes dão provas de grande capacidade para o sacrifício pessoal e de admirável coragem diante do perigo físico. Essas virtudes fazem do alemão um instrumento eficiente na execução de uma tarefa prescrita, e todas elas foram cuidadosamente ensinadas no velho estado prussiano e no novo reich, também sob o domínio prussiano.

    O que se supõe faltar ao “alemão típico” são as virtudes individualistas da tolerância e do respeito pelos demais indivíduos e suas opiniões; o pensamento independente e aquela integridade de caráter que fazem o indivíduo defender suas convicções perante um superior — qualidades que os próprios alemães, em geral cônscios de não possuírem, chamam Zivilcourage; a consideração pelos fracos e doentes; e o saudável desprezo e antipatia pelo poder, que somente uma longa tradição de liberdade pessoal pode criar. Parece faltar-lhes ainda quase todas essas pequenas porém importantes qualidades que facilitam as relações entre os homens numa sociedade livre: a bondade e o senso de humor, a modéstia pessoal, o respeito pela privacidade e a fé nas boas intenções de seus semelhantes.

    Após tais considerações, não causará surpresa a ninguém que essas virtudes individualistas sejam ao mesmo tempo virtudes eminentemente sociais, qualidades que suavizam os contatos sociais e que tornam menos necessário, e ao mesmo tempo mais difícil, o controle que vem de cima. São virtudes que florescem onde quer que tenha prevalecido a sociedade de tipo individualista ou comercial e que, inversamente, inexistem quando predomina a de tipo coletivista ou militar — diferença que se pode (ou se podia) observar nas várias regiões da Alemanha, como agora se observa entre as ideias que reinam naquele país e as ideias características do Ocidente. Até bem pouco, pelo menos, nas regiões da Alemanha que mais longamente estiveram expostas às forças civilizadoras do comércio – as antigas cidades comerciais do sul e do oeste e as cidades hanseáticas – os conceitos éticos em geral tinham muito mais afinidade com os dos povos ocidentais do que com aqueles que hoje prevalecem em toda a Alemanha.

    Seria, no entanto, injusto considerar as massas que sustentam um regime totalitário destituídas de qualquer fervor moral só porque prestam apoio irrestrito a um sistema que a nós se afigura a negação dos melhores valores morais. Para a sua grande maioria, é justamente o contrário que se verifica: a intensidade das emoções morais em que repousa um movimento como o nacional-socialista ou o comunista talvez só possa ser comparada à dos grandes movimentos religiosos da história. Uma vez admitido que o indivíduo é simples instrumento para servir aos fins da entidade superior que se chama sociedade ou nação, manifesta-se necessariamente a maior parte dessas características dos regimes totalitários que nos enchem de horror. Da perspectiva coletivista, a intolerância e a brutal supressão da dissidência, o completo desrespeito pela vida e pela felicidade do indivíduo são consequências essenciais e inevitáveis dessa premissa básica. O coletivista pode aceitar esse fato, e ao mesmo tempo afirmar que seu sistema é superior àqueles em que se permite que interesses individuais “egoístas” criem embaraços à plena realização das metas visadas pela comunidade. Quando os filósofos alemães repetidas vezes caracterizam como imoral em si mesma a busca da felicidade pessoal e apenas digno de louvor o cumprimento do dever imposto, estão usando de completa sinceridade, por mais incompreensível que isso pareça às pessoas educadas numa tradição diferente.

    Onde existe uma finalidade comum e soberana, não há lugar para uma moral ou para normas gerais. Até certo ponto, nós próprios experimentamos isso durante a guerra. A guerra e o perigo mais grave, no entanto, levaram os países democráticos a uma situação que só de longe se assemelhava ao totalitarismo, poucas vezes prejudicando os demais valores em função de um objetivo único. Mas quando toda a sociedade é dominada por alguns fins específicos, é inevitável que, vez por outra, a crueldade se torne um dever; que ações que nos revoltam, tais como o fuzilamento de reféns ou o extermínio de velhos e doentes, sejam tratadas como meras questões de conveniência; que arrancar centenas de milhares de indivíduos de suas casas e transportá-los compulsoriamente para outro lugar se converta numa linha de ação política aprovada por quase todos, menos pelas vítimas; ou que ideias como a “conscrição das mulheres para fins de procriação” possam ser consideradas a sério. O coletivista tem sempre diante dos olhos uma meta superior para a qual concorrem essas ações e que, no seu modo de ver, as justifica, porque a busca do objetivo social comum não pode ser limitada pelos direitos ou valores de qualquer indivíduo.

    Mas enquanto para a massa dos cidadãos do estado totalitário é muitas vezes a dedicação desinteressada a um ideal — embora esse ideal nos pareça detestável — que os leva a aprovar e até a praticar tais atos, o mesmo não se pode alegar em favor dos dirigentes da política estatal. Para ser um auxiliar útil na administração de um estado totalitário não basta que um indivíduo esteja pronto a aceitar justificações capciosas de atos abomináveis. Deve estar preparado para violar efetivamente qualquer regra moral de que tenha conhecimento, se isso parecer necessário à realização do fim que lhe foi imposto. Como o chefe supremo é o único que determina os fins, seus instrumentos não devem ter convicções morais próprias. Cumpre-lhes, acima de tudo, votar uma fidelidade irrestrita à pessoa do líder; em seguida, o mais importante é que sejam desprovidos de princípios e literalmente capazes de tudo. Não devem possuir ideais próprios que desejem realizar, nenhuma ideia sobre o que é justo ou injusto que possa criar obstáculos às intenções do líder. Desse modo, as posições de mando oferecem àqueles que possuem convicções morais semelhantes às que têm guiado os povos europeus poucos atrativos que compensem a repugnância causada por muitas das tarefas a executar, e escassas oportunidades de satisfazer os desejos mais idealistas, de recompensar os inegáveis riscos, o sacrifício da maioria dos prazeres da vida privada e da independência pessoal que esses postos de grande responsabilidade sempre impõem. A única satisfação é a da ambição do poder em si mesmo, o prazer de ser obedecido e de fazer parte de uma máquina perfeita, imensamente poderosa, diante da qual tudo deve ceder.

    Por outro lado, embora pouco haja para induzir homens bons, segundo nossos padrões, a aspirar a cargos de importância na máquina totalitária, e muito para afastá-los dessas posições, haverá oportunidades especiais para os insensíveis e os inescrupulosos. Será preciso desempenhar tarefas de inegável crueldade, mas que não podem deixar de ser executadas, a serviço de alguma finalidade superior, com a mesma perícia e a mesma eficiência que quaisquer outras. Havendo, assim, necessidade de ações intrinsecamente nocivas e que todas as pessoas ainda influenciadas pela moral tradicional relutarão em fazer, a disposição para praticar tais ações converte-se no caminho da ascensão social e do poder. Numa sociedade totalitária, são numerosas as posições em que é necessário praticar a crueldade e a intimidação, a duplicidade e a espionagem. Nem a Gestapo, nem a administração de um campo de concentração, nem o ministério da Propaganda, nem a S.A. ou a S.S. (ou seus equivalentes italianos ou russos) são lugares favoráveis à prática de sentimentos humanitários. E, no entanto, é exercendo esses cargos que se chega às posições supremas no estado totalitário. É corretíssima a conclusão do ilustre economista americano que, após enumerar os deveres das autoridades num estado coletivista, afirmou:

    Eles seriam obrigados a fazer essas coisas, quisessem ou não; e é tão reduzida a probabilidade de o poder ser exercido por homens que detestem a sua posse e exercício quanto a de alguém extremamente bom e sensível vir a ser feitor de escravos.[7]

    Não nos é possível, todavia, esgotar aqui o assunto. O problema da seleção dos líderes está intimamente ligado ao amplo problema de selecioná-los segundo as opiniões que essas pessoas exibem, ou melhor, de acordo com a presteza com que se adaptam a um corpo de doutrinas em constante transformação. E isto nos conduz a um dos mais característicos aspectos morais do totalitarismo: sua relação com as virtudes que se incluem na denominação geral de veracidade e seus efeitos sobre estas. Trata-se de assunto tão amplo que requer um capítulo especial.

     


    [1] É inteiramente dentro do espírito do coletivismo que Nietzsche faz Zaratustra dizer: “Até agora mil metas existiram, porque mil pessoas existiram. Mas falta ainda o grilhão para os mil pescoços, pois ainda falta a meta única. A humanidade não tem uma meta. Mas dizei-me, ó irmãos, eu vos peço: se falta uma meta à humanidade, não é a própria humanidade que está faltando?”.

    [2] Citado de um artigo do dr. Niebuhr por E. H. Carr, em The Twenty Years’ Crisis, 1941. p. 203.

    [3] Mackenzie, F., org. Planned Society, Yesterday, Today, Tomorrow: A Symposium. 1937. p. XX.

    [4] Halévy, E. L’ère des Tyrannies, Paris, 1938, p. 217. e History of the English People, Epílogo, v. I, pp. 105-6.

    [5] Cf. Marx, Karl, Revolution and Counter-revolution, e a carta de Engels a Marx datada de 23 de maio de 1851.

    [6] Russell, Bertrand, The Scientific Outlook, 1931, p. 211.

    [7] Knight, F. H. em The Journal of Political Economy, dez. 1938, p. 869.

    terça-feira, 20 de outubro de 2026

    Os planos de Stálin entre 1939-41

     

    Stálin quis invadir a Alemanha e a Europa Ocidental em 1941? Os documentos que atestam esta tese são impressionantes. Enquanto um crescente e contínuo número de revisionistas não escondem mais a verdade, a ciência histórica vigente se prende ainda na imagem da “União Soviética amante da paz” e invadida por Hitler. Seus defensores alegam que as intenções de invasão de Stálin não podem ser comprovadas, como também seriam improváveis diante daquele cenário. Ao contrário de Hitler, o ditador não estava pressionado contra a parede em 1941, mas, sim, tinha suficientes alternativas. [1] Como as testemunhas da época não vivem mais e documentos comprobatórios inquestionáveis nunca foram encontrados, resta ao historiador tentar descrever a sequência dos fatos apenas com a ajuda de indícios relevantes. Todavia, para a justiça, indícios são reconhecidos quando então sustentam um relato dos fatos, o qual pode ser aceito como verdadeiro com grande probabilidade.

    Que as testemunhas da época não vivem mais, dispensa explicações. O membro mais jovem do Politbüro daquela época era Lawrenti Pawlowitsch Berija, com 40 anos em 1939. Entrementes já se passaram 68 anos. Que Stálin providenciou a destruição após a guerra de todos os documentos comprometedores, sabemos disso através de Viktor Suvorov e seus colegas russos. [2]


    Qual era realmente o objetivo de Stálin?
    Aqui ele aparece a 1º de maio de 1941, ou seja, exatamente quatro dias antes de seu discurso secreto
    diante de formandos da academia militar, na tribuna do mausoléu de Lênin.
    Ao seu lado, a partir da esquerda, Georgi Dimitrov, Kliment Vorochirov, Andrej Andrejev e Molotov.

    Os indícios

    1. Os discursos de Stálin

    Na procura por indícios, devemos analisar os discursos de Stálin e procurar passagens relevantes. Obviamente os ditadores não declaram publicamente suas reais intenções, por isso todo cuidado é pouco. Todavia existem passagens reveladoras:

    – Discurso secreto de Stálin diante dos membros do Politbüro, a 19 de agosto de 1939

    – Discurso de Stálin diante dos formandos da Academia, no Salão Georg do Kremlin, a 5 de maio de 1941.

    – Conversa nesta mesma data, diante de um círculo de oficiais em um banquete no Kremlin.

    O primeiro discurso mencionado foi publicado logo após a eclosão da guerra em 1939, pela agência francesa Havas e logo depois desmentida por Stálin em sua famosa entrevista a 30 de novembro de 1939. Enquanto a ciência estabelecida acredita ainda hoje nesta negação, ela é colocada em dúvida por inúmeros historiadores, dentre eles Viktor Suworoc, David Irving, Joachim Hoffmann, Stefan Scheil e Walter Post. [3]

    Sobre as últimas duas passagens, David Irving, entre outros, apresenta uma compilação das citações de Stálin: “Ele explica bem detalhadamente as preparações para a próxima guerra contra a Alemanha.” Como armamento apresentam-se os tanques KW I e KW II. “São tanques excepcionais, cuja blindagem aguenta projéteis de 76 mm. […] Temos hoje cerca de 100 divisões blindadas e motorizadas. […] Nosso plano de guerra está concluído, os aeroportos construídos. […] Aviões de 1ª linha já se encontram lá. […] Ao longo dos próximos dois meses podemos iniciar a guerra contra a Alemanha.” [4] Estas informações coincidem com inúmeras declarações de oficiais soviéticos capturados pelos alemães, que teriam eles próprios ouvido o discurso. [5]

    2. Os planos de ataque do Exército Vermelho

    Reflexões sobre as preparações de Stálin para uma guerra preventiva ganharam novo destaque, na ocasião quando o coronel Wladimir Karpow fez uma declaração sensacional ao jornal para oficiais do exército. Tratou-se de um dos mais secretos documentos da União Soviética. Werner Maser descreveu o episódio detalhadamente em seu livro Das Wortbruch. A conversa girou em torno dos planos de invasão da Alemanha e seus aliados pelo Exército Vermelho, de 15 de maio de 1941. Trata-se aqui de um plano para deslocamento de tropas, revisado anualmente pelo Estado-maior soviético, mas que faz referência em diversas passagens especialmente para o ano de 1941 e por isso mesmo deve ser visto como forte indicador das intenções de ataque dos soviéticos no verão ou outono de 1941. [6]

    3. A mudança de posição de Stálin para o lado dos aliados

    No início do verão de 1941, apareceram os primeiros indícios de uma iminente troca de posição de Stálin, por ocasião do envio do representante britânico, Sir Stafford Cripps, para Moscou, o que logo se concretizou. O golpe dos oficiais em Belgrado, no início da crise entre Grécia e Iugoslávia, a 27 de março de 1941 e que levou à invasão dos Bálcãs pelas tropas alemãs, aconteceu já sob os sinais da diplomacia secreta entre britânicos e soviéticos. [7]

    4. A anexação dos países bálticos

    As exigências de Molotov aos governos dos países bálticos levaram a 28 de setembro com a Estônia, a 5 de outubro com a Letônia e a 10 de outubro de 1939 com a Lituânia, a uma excessiva interferência na soberania destes países e que culminou em junho 1940 com a invasão das tropas soviéticas e respectiva ocupação destes países citados. Esta manobra permitiu o amplo acesso dos soviéticos ao Mar Báltico. Os portos do Báltico estavam agora sob a ocupação da frota vermelha. Esta manobra feriu importantes interesses de segurança dos alemães, entre outros também através da ocupação soviética da área petrolífera em Mariampol, Lituânia, que fora assegurada ao Reich. [8]

    5. Romênia é chantageada pelos soviéticos

    Para limitar as possibilidades de Hitler, existia um excelente meio para Stálin, pois um ponto nevrálgico do Reich era o abastecimento com matérias-primas: Berlim necessitava urgentemente do petróleo romeno. Pressionando Bucareste, Stálin tentava cortar do Reich as fontes de matéria-prima. A 23 de junho de 1940, ele ordena que ser ministro do exterior Molotov declare a Bessarábia como parte do acordo secreto de 23 de agosto de 1939 e seu atraso não tolera qualquer solução. [9] Agora fica claro para Berlim que os objetivos de Moscou estavam mais ocultos do que se imaginava. E a 26 de junho de 1940, Moscou deu um ultimato ao embaixador romeno no qual foi exigido a cessão da Bessarábia dentro de dois dias. Sob conselho de Hitler, o qual não estava em condições de ajudar, o rei Carol da Romênia aceitou o ultimato e o Exército Vermelho ocupou a Bessarábia. Com isso, este ficou apenas a 120 km das reservas petrolíferas da Romênia e teve que ser considerado por Berlim como uma concreta ameaça. [9]


    O mapa (da obra Eisbrecher, de V. Suvorov) mostra a situação, em junho de 1941,
    como os campos petrolíferos da Romênia representavam
    um dos pontos nevrálgicos do Terceiro Reich. Segundo Viktor Suvorov,
    a União Soviética estava pronta neste momento para desferir
    seu golpe mortal contra a Romênia.

    6. O Golpe militar em Belgrado

    O golpe de Estado no início da crise dos Bálcãs a 27 de março 1941, mostra os frutos da diplomacia secreta entre britânicos e soviéticos. Hitler, que já visualizava o jogo duplo dos soviéticos, começou a embaralhar novamente as cartas do Bálcãs. A 28 de novembro de 1940, na ocasião de um encontro com o ministro do exterior da Iugoslávia, Hitler se empenhou para convencer o país a aderir ao pacto tripartite. Isso levou à aprovação pelo Conselho da Coroa, a 18 de março de 1941, do acordo pela adesão ao pacto, o qual foi assinado seis dias depois.


    Logo que a Iugoslávia aderiu ao pacto das três potências, a 25 de março de 1941,
    o governo de Belgrado foi deposto dois dias depois,
    provavelmente por um golpe orquestrado por Moscou.

    Stálin, que até então fazia tudo para conseguir o tropeço de Hitler, incumbiu o marechal Schukov a organizar um golpe juntamente com o general iugoslavo Simović, que aconteceu em Belgrado a 27 de março de 1941 e levou à prisão de membros do governo. Churchill, que fora informado previamente por Moscou, se apressou a reconhecer formalmente o novo governo e confirmar a nomeação de Dušan Simović como novo primeiro-ministro. Ficou então claro a todos o jogo conjunto entre britânicos e soviéticos. Tratou-se aqui de uma manobra do Kremlin contra Berlim, que não podia ser classificada como qualquer outra coisa a não se hostil. Foi uma prévia para uma operação pelos flancos da planejada ofensiva soviética contra a Romênia, a primeira ação conjunta entre Londres e Moscou e por isso não tinha até o momento levado Hitler a ordenar o ataque à Iugoslávia e Grécia. Porém, a guerra nos Bálcãs, que iniciou a 6 de abril de 1941 e que Stálin esperava que ocupasse a Wehrmacht até o final do ano, durou apenas 10 dias. O governo iugoslavo optou pela capitulação. [10]


    Jovens paraquedistas em treinamento, em uma das muitas associações de paraquedismo.
    Stálin promoveu o treinamento de um milhão de paraquedistas.
    Além disso, ele ordenou o projeto de um avião (R-5) de dois lugares para o transporte de 16 paraquedistas,
    o que faz pouco sentido em uma guerra defensiva. (Da obra Der Eisbrecher, de Vitor Suvorov)

    7. Os trilhos duplos de trem dos soviéticos

    Walter Post escreveu sobre um desconhecido capítulo para o Ocidente dos preparativos soviéticos de guerra. O Kremlin ordenou que a infraestrutura das ferrovias devessem ser reorganizadas, que de acordo com a necessidade pudesse ser modificada para os padrões europeus. O motivo desta tática é de exclusivo caráter militar, os seja, para a mobilidade no caso de uma guerra ofensiva na Europa. [11]

    8. Ponto crucial da formação do Exército Vermelho era a ofensiva

    A teoria militar soviética considerava a ofensiva como a principal forma das operações militares. Não as operações de defesa, mas sim aquelas de ataque estavam em destaque nas considerações militares nas academias e escolas de artilharia. E apenas sobre isso conversavam a elite dos generais em suas apresentações. [12]

    9. O Exército Vermelho montou postos de comando móveis

    De acordo com a doutrina militar ofensiva, montou-se postos de comandos móveis sobre vagões e que deveriam acompanhar as tropas durante os avanços da ofensiva. [13]

    10. O papel das tropas de paraquedistas soviéticos

    Bem antes dos outros países pensarem a respeito, a União Soviética dispunha de uma tropa de elite de paraquedistas, que se ampliou continuamente. Em 1941, ela possuía 5 corpos de paraquedistas com um total de 16 brigadas, assim como uma reserva de mais de um milhão de paraquedistas treinados. Outros cinco corpos estavam em formação, perfazendo centenas de vezes mais do que o resto do mundo possuía. Não apenas o especialista sabe para que servem tais tropas: somente para o ataque. [14]


    Através do desenvolvimento do T-34, o qual com suas esteiras de 60 cm de largura
    podia ser empregado tanto em terrenos lamacentos e pântanos, assim como em superfícies com gelo da Rússia,
    a situação na frente russa deveria se alterar.

    11. Já em 1939, a União Soviética possuía o maior contingente de tanques do mundo

    Em 1941, segundo o próprio Stálin, a URSS possuía um total de 62 divisões blindadas e 34 grandes formações mecanizadas com mais de 24.000 tanques, 15 vezes mais do que o resto do mundo. É indiscutível que o taque seja considerado em todos os exércitos do mundo como uma arma clássica de ataque, não sendo esperado que Stálin quisesse empregar seus tanques apenas para a defesa da União Soviética. Eles foram concebidos para o ataque.

    12. Como que o Exército Vermelho não possuía qualquer material cartográfico da União Soviética?

    Historiadores soviéticos reportam que o Exército Vermelho não possuía no início do conflito em junho de 1941 praticamente nenhum material cartográfico, que poderia ser aproveitado pelas tropas. Simultaneamente, as tropas alemãs encontraram inúmeros vagões de carga na fronteira russa que carregavam milhões de mapas. Infelizmente os soldados soviéticos nada podiam começar com isso, pois elas tratavam-se exclusivamente de mapas da Polônia e Alemanha. Aliás, encontravam-se ali também guias de viagem e dicionários poloneses e alemães, com os quais os soldados vermelhos poderiam ler a sinalização nas estradas ou podiam perguntar a direção. [16]

    13. A aviação vermelha era maior do que todas as forças aeronáuticas européias juntas

    Isso valia incluindo também aquelas dos EUA e Japão, pois o número de aeronaves soviéticas situava-se além das 23.245 unidades, dentre elas novos e mais modernos modelos. [1]

    14. A artilharia soviética também se fazia notar

    Ela possuía em 1941, segundo números próprios, mais de 145.000 morteiros e lançadores de granada de todos os calibres e, com isso, estava em muito maior número do que todas as artilharias juntas do resto mundo. [18]

    15. Para que servia ao Kremlin a imensa frota de submarinos?

    Enquanto a Alemanha dispunha no início da guerra de cerca de 30 submarinos aptos ao alto-mar, e que estavam comprometidos com a guerra naval contra a Grã-Bretanha, os soviéticos dispunham – incluindo os tipos ainda em construção – de mais de 345 submarinos. Não fica muito longe a ideia de que Stálin visualizava bloquear não apenas o Mar Báltico. [15]

    16. A defesa do próprio território não entrou em cogitação no Exército Vermelho

    Em todo o Exército Vermelho não havia um plano que se relacionava com a defesa do território. Não havia para isso alguma concepção, pois Stálin havia ordenado a estratégia de ataque. Para este propósito havia os conhecidos “pacotes vermelhos”, os quais deveriam ser abertos pelos respectivos comandantes segundo um código. Dentro deles estavam as próximas missões das respectivas tropas em detalhes. “O pior não era o fato que nos faltava um plano de operações. Naturalmente havia planos operacionais, até mesmo muito detalhados… o pior era a impossibilidade de sua execução diante da situação que nos apareceu à porta. [20] A referência faz-se com a situação defensiva que se instalou após o ataque surpresa da Wehrmacht alemã.


    Um dos inúmeros submarinos russos deixa sua base.
    Stálin precisou mais de 300 submarinos apenas para proteger dos alemães
    o fornecimento de produtos provenientes da Grã-Bretanha e dos EUA?
    Certamente não.

    17. O que aconteceu com a Linha Stálin?

    Esta linha foi um sólido sistema de apoio que se estendia do Báltico até o Mar Negro. Sua execução iniciou-se nos anos 20. Desde 1939, todavia, a fronteira ocidental da União Soviética se alterou cerca de 300 km para oeste, provocando o amplo desarmamento da Linha Stálin. Ela foi transferida para a nova linha fronteiriça? Em parte, mas sem pressa. Schukov reconheceu que os alemães pensavam que enquanto a nova linha estivesse em construção, o Exército Vermelho não estava pronto para a guerra. A construção foi consequentemente observada pelos oficiais alemães. De forma semelhante também se comportou Schukov em 1939, em Chalkin-Gol, diante dos japoneses. Estes últimos também assumiram que enquanto as defesas fronteiriças estivessem sendo fortificadas, o Exército Vermelho não estava preparado para a guerra. Mas de repente Schukov atacou e destruiu todo o exército de Kwan Tung. [21]


    Um dos poucos pontos fortificados que restaram da Linha Stálin,
    que logo no início da Operação Barbarossa foi destruída.

    18. Por que o ataque alemão a 22 de junho de 1941 aconteceu facilmente?

    Importantes cabeças de ponte, entroncamentos e obstáculos naturais foram em 1941 raramente defendidos pelos soviéticos. Como isso foi possível? O general K. A. Merezkov, o novo chefe do Estado Maior, ordenou sob instruções de Stálin:

    – que as linhas de segurança a oeste deveriam ser desativadas, as minas e explosivos desarmados, obstáculos removidos

    – O principal das forças do Exército Vermelho deveria ser deslocado para a fronteira, as reservas deveriam se aproximar

    – Dever-se-ia começar a construção dos aeroportos e ampliar a malha viária a oeste

    Como devemos entender isso? Bem, Stálin havia ordenado o Exército Vermelho a se preparar para um ataque. O avanço deveria se desenvolver rapidamente. Para isso não poderia haver qualquer obstáculo no próprio território. Portanto, eles foram desmontados, dentro do planejado: minas removidas, trincheiras preenchidas, obstáculos removidos. O risco de se expor ao ataque inimigo foi considerado. A Wehrmacht ficou agradecida aos soviéticos a 22 de junho de 1941. Foi assim que o grupo norte do exército alemão alcançou dentro de poucos dias Dünaburg e o grupo central o rápido avanço até Minsk. Somente ao sul, onde o general Kirpov demorou para executar a ordem, ofereceu certa dificuldade ao avanço alemão. [2]


    Após a batalha de Moscou, o movimento dos partisanos ganhou muita força e importância.
    Em 1942, os guerrilheiros controlavam regiões inteiras.

    19. Por que Stálin dissolveu as organizações de partisanos?

    A União Soviética dispunha nos anos 20 de uma organização de partisanos bem estruturada. Em todos os pontos militares a oeste havia repartições de partisanos, cujo efetivo poderia ser aumentado a níveis bélicos. Na época contava-se com a possibilidade de defender o país. Ao final dos anos 30, aconteceu a mudança de estratégia, Stálin ordenou que o Exército Vermelho trocasse da defesa para o ataque. Por isso a organização de partisanos foi dissolvida com um golpe de caneta. Ela não era mais necessária. Seus grupos organizados pela NKWD (polícia política) foram deslocadas agora para as fronteiras. Sua missão foi antecipar às investidas do Exército Vermelho, eliminando postos fronteiriços do inimigo e linhas de comunicação, tomar de assalto pontes, cruzamentos viários e ferroviários e limpar os territórios ocupados dos – inimigos do Estado. Foi assim que nos países bálticos, na Polônia Oriental, na Bukowina e na Bessarábia, assim como no verão de 1944 na Prússia Oriental e Ocidental, Pomerânia e Silésia, onde junto com centenas de milhares de assassinatos, mais de 500.000 alemães foram removidos. Somente a 3 de julho, quando Stálin anunciou a guerra do povo, o exército de partisanos foi formado novamente e alcançou em 1945, segundo informações soviéticas, uma força de mais de dois milhões de homens. [23]

    20. Stálin formou o exército soviético do nada

    A história contemporânea não se cansa de nos contar que a União Soviética estaria despreparada e somente por causa do ataque alemão foi impelida à guerra. Na verdade, Stálin formou um enorme exército do nada, algo como o mundo jamais havia assistido. De Viktor Suvorov, o conhecido historiador militar russo, sabemos o que aconteceu na Rússia soviética no período anterior a 22 de junho de 1941. A estrutura de comando do Exército Vermelho, nos tempos de paz, concentrava-se nos Comissariados Populares da Defesa, que juntamente com o Estado-maior e os departamentos ministeriais, tinham como subordinados os distritos militares, dentro dos quais se encontravam as guarnições do Exército Vermelho. Eles dispunham de corpo de exército, cujas divisões das respectivas tropas estavam subordinadas.

    Na parte européia do país, havia cinco esferas militares, as quais em caso de guerra seriam transformadas em exércitos, e cujas tropas formavam a oeste a primeira formação estratégica. Em tempo de paz, além disso, não havia exército, pois, assim descreve Sovorov, “Exércitos são organizações enormes, para que possam ser mantidas em tempos de paz”, [24] por isso a formação de exércitos revelava um claro sinal de que o Kremlin objetivava algo: “Em 1939 a União Soviética iniciou a formação de exércitos na parte europeia do país.” [23] De fato, a diplomacia soviética firmou acordos com Berlim, Varsóvia e Helsinque “para manutenção da paz, mas exércitos apareceram secretamente na fronteira ocidental, de repente e em série: o 3º e 4º Exércitos na Bielorrússia, o 5º e 6º na Ucrânia, o 7º, 8º e 9º Exércitos na fronteira da Finlândia… e entrementes adiciona-se ainda: o 1º e o 11º na Bielorrússia, o 12º Exército na Ucrânia… Cada um desses exércitos está pronto para ação logo após sua formação: todos os sete na fronteira polonesa ‘libertaram’ a Polônia, e os três exércitos na fronteira finlandesa ‘ajudaram o povo finlandês a se libertarem do jugo dos opressores’. Aliás, três exércitos não são aqui suficientes, por isso formaram os novos exércitos: o 13º, 14º e 15º.”

    Após o término dos conflitos na Finlândia, nenhum exército foi dissolvido, embora reinava paz com Berlim e existia um tratado de paz. Ao invés disso, juntaram-se os 16º e o 17º Exércitos que haviam sido formados na região de Krai de Zabaykalsky (Transbaikalien em alemão). Com a formação do 17º, o fio arrebentou: “Agora havia exércitos em um número que nunca havia sido criado anteriormente, mesmo na guerra civil, quer dizer, sob as condições de uma mobilização total de toda a população, sob completa exaustão do potencial soviético, sob ação de todas as forças físicas e espirituais da sociedade. A União Soviética ultrapassou com isso a zona crítica do poderio militar.” [26] Ainda assim o governo soviético tomou a decisão no verão de 1940 de formar ainda mais 11 exércitos. A 13 de junho de 1941 apareceram os 18º, 19º, 20º, 21º, 22º, 23º, 24º, 25º, 26º, 27º e o 28º, cuja formação estava concluída na primeira metade de 1941. Simultaneamente, o 9º é retirado da Finlândia e aparece diante da fronteira romena, em direção a Ploesti. Este exército, que ameaça o fornecimento de petróleo da Alemanha, representava, segundo Suvorov, um super exército, com 14 divisões de tropas especiais e 6 divisões blindadas com 3.341 veículos motorizados, dentre eles os modernos T-34 e KW 1, superando com isso o número de todos os tanques das forças orientais alemãs. [27]

    21. Por último e não menos confiáveis indícios, os interrogatórios dos principais generais alemães em Nuremberg

    Extrato do interrogatório do general Franz Halder diante da 1ª Comissão do Tribunal Militar IV, a 9 de setembro de 1948 (F representa a pessoa do defensor segundo modelo de interrogatório norte-americano):

    F: Qual era a dimensão desta ofensiva soviética… do ponto de vista militar?

    Halder (H): Analisando do ponto de vista estritamente numérico e militar, não pode haver dúvida da ameaça desta disposição de tropas russas junto a nossas fronteiras.

    F: Os russos poderiam atacar a qualquer momento?

    H: Sim.

    F: Posso então assumir que você pessoalmente também considerava esta movimentação como ofensiva?

    H: Eu expus a relação de forças. Representava continuamente uma latente ameaça.

    F: Como era esta ameaça russa em maio?

    H: O número de formações conhecidas… encontravam-se já formadas ou quase formadas junto a nossa fronteira oriental, e de forma muito próxima…

    F: E sobre o caráter desta disposição, era uma movimentação defensiva ou ofensiva? (ambos se encontravam debruçados diante de um mapa da movimentação russa antes de 22 de maio de 1945).

    H: Eu acredito que nenhum soldado possa caracterizar esta movimentação como defensiva, diante de sua disposição. Talvez eu possa justificar brevemente: a linha demarcatória teuto-russa apresentava certos apêndices de território russo para dentro do território do Reich, a exemplo de Bialystok, Lemberg – algo bastante característico; havia também outros pontos. O rascunho mostra uma forte concentração de forças russas nestes apêndices em direção ao ocidente. Nenhuma tropa voltada à defesa iria se concentrar nestas áreas que adentravam território inimigo, pois o perigo era enorme delas serem facilmente cortadas e isoladas. Eu gostaria de lembrar aqui, que a concepção de liderança russa , que conhecemos das diretrizes russas, coincidem com as alemãs. Além disso é característico, que justamente nesses apêndices voltados ao ocidente se concentrava o grosso da cavalaria russa. Isso só pode ser explicado quando há intenção de usar estes locais como ponta de lança para uma invasão do ocidente, colocando de imediato a cavalaria em movimento. Em caso de defesa, ninguém colocaria os grupos de cavalaria nestas disposições avançadas. Na defesa, as companhias móveis são colocadas um pouco mais para a retaguarda, podendo assim prestar pronto socorro em locais de crise ao longo da linha.. (neste questionável período, o grosso da cavalaria alemã não era ainda reconhecida como companhias de blindados).

    F: Me permita perguntar mais uma vez: não teria sido talvez possível, que a movimentação dos russos não se tratava de um ataque, mas sim de um movimento defensivo?

    H: Eu acredito ter discorrido que a movimentação russa, caso tivesse sido concebida para a defesa, deveria ter sido dividida de forma bastante distinta…

    As declarações do general Halder coincidem com aquelas do general de campo Von Rundstedt, dos generais Jodl e Hoth assim como do general Warlimont. Extrato dos arquivos do Tribunal Militar de Nuremberg IV [28]

    Andreas Naumann

    Der grosse Wendig – Vol. 3

    [1] Sally W. STOKCKER, »Tönerner Koloß ohne Kopf; Stalinismus und Rote Armee«, em: Bianka PIETROW-ENNKER (Ed.), Präventivkrieg? Der deutsche Angriff auf die Sowjetunion, Fischer, Frankfurt/M. 2000; ainda Juri GORKOW, »22. Juni 1941: Verteidigung oder Angriff? Recherchen aus russischen Zentralarchiven«; assim como outros artigos de Jürgen FÖRSTER, Lew A. BESYMENSKI, Bernd BONWEISCH e Benno ENNKER.

    [2] Viktor SUWOROW, Der Eisbrecher. Hitler in Stalins Kalkül, Klett-Cotta, Stuttgart 31989, pág. 422; ders., Stalins verhinderter Erstschlag. Hitler erstickt die Weltrevolution, Pour le Mérite, Selent 2000, pág. 211.

    [3] SUWOROW, Der Eisbrecher, ebenda, pág. 63 ff.; Nikita CHRUSCHTSCHOW, Erinnerungen, Bd. 2, New York 1981, pág. 69.

    [4] Diversas vezes publicado, entre outras, na obra de David IRVING, Hitlers Krieg, pág. 293; Joachim
    HOFFMANN, Stalins Vernichtungskrieg, Verlag für Wehrwissenschaften, München 1995, pág. 28 ff.; Viktor SUWOROW, Stalins verhinderter Erstschlag, aaO. (Anm. 2), pág. 325 ; assim como em arquivos militares da Wehrmacht no Departamento de História Militar, Potsdam.

    [5] HOFFMANN, ebenda, pág. 27.

    [6] Werner MASER, Der Wortbruch. Hitler, Stalin und der Zweite Weltkrieg, Olzog, München 1994. Näheres dazu bei Andreas NAUMANN, Das Reich im Kreuzfeuer der Weltmächte, Stationen der Einkreisung, Grabert, Tübingen 2006, pág. 309 ff.; ebenso in: ders., Ereispruch für die Deutsche Wehrmacht. >Unternehmen Barbarossa< erneutauf dem Prüfstand, Grabert, Tübingen 2005, pág. 170 ff.; Viktor SUWOROW, Marschall Schukow, Pour le Mérite, Selent 2002, pág. 73 ff.; Viktor SUWOROW, Erstschlag, aaO. (Anm. 2), Anhang 1, pág. 315 ff.

    [7] Walter POST, >Unternehmen Barbarossa<— deutsche undsonjetische Angriffspläne 1940/
    41, Mittler u. Sohn, Hamburg 1996, pág 151 ; siehe auch: LANGER und S. E. GLEASON, The Challange to Isolation, New York 1952, pág. 639 f.; Ernst TOPITSCH, Stalins Krieg, Busse-Seewald, Herford 1990, pág. 146 ff.; NAUMANN, aaO. (Anm.6), pág. 227 ff.

    [8] Walter POST, ebenda, pág. 146 ff.

    [9] Akten zur deutschen Außenpolitik (ADA?) DX, Nr. 20; Viktor SUWOROW, Marschall Schukow, aaO. (Anm. 6), pág. 53 ff.; NAUMANN, Freisprach, aaO. (Anm. 6), pág. 224.

    [10] POST, aaO. (Anm. 7), pág. 187 e 363 (Vernehmung von Reichsmarsch all Hermann
    GÖRINc, in Nürnberg); Winston CHURCHILL, Der Zweite Weltkrieg, Bd. I I I , 1, pág. 46 f.

    [11] 11 NAUMANN, Freispruch, aaO. (Anm. 6), pág. 241; POST, ebenda, pág. 3 6 6 ff.

    [12] M. TUCHATSCHEWSKI, Die Rote Armee und die Miliz, Frankes, Leipzig 1921, pág.5; S. I. GUSJEW, Der Bürgerkrieg und die Rote Armee, Moskau 1925 , pág. 129; M. W FRUNSE, Die einheitliche Militärdoktrin und die Rote Armee, Berlin 1956, pág. 154; HOFFMANN, aaO. (Anm.4), pág. 18 ff.; NAUMANN, Freispruch, ebenda, pág. 202.

    [13] NAUMANN, Freispruch, ebenda, pág. 244 ; SUWOROW, Marschall Schukow, aaO. (Anm. 6), pág. 142.

    [14] SUWOROW, Eisbrecher, aaO. (Anm. 2), pág. 129 ; NAUMANN, Freispruch, ebenda, pág. 231.

    [15] HOLTMANN, a a O . (Anm. 4), pág. 22 ff.

    [16] Freispruch, aaO. (Anm. 6), pág. 234; SUWOROW, Stalins verhinderter Erstschlag, aaO. (Anm. 4), pág. 204 f. u. 215 f.; POST, aaO. (Anm. 7), pág. 365, Vernehmung von Generalfcldmarschali VON RUNDSTEDT in Nürnberg.

    [17] HOFFMANN, a a O . (Anm. 4), pág. 23.

    [18] Ebenda, pág. 21.

    [19] NAUMANN, Freispruch, aaO. (Anm. 6), pág. 251 ff.

    [20] Ebenda, pág. 20; SUWOROW, Stalins verhinderter Erstschlag, aaO. (Anm. 4), pág. 144 e 148 ff.; SUWOROW, Eisbrecher, aaO. (Anm. 2), pág. 409, 419 ff., 422 e 425 ff.

    [21] NAUMANN, ebenda, pág. 208.

    [22] NAUMANN, ebenda, pág. 205.

    [23] NAUMANN, ebenda, pág. 229; SUWOROW, Eisbrecher, aaO. (Anm. 2), pág. 121 ff.

    [24] SUWOROW, ebenda, pág. 161.

    [25] Ebenda, pág. 162.

    [26] SUWOROW, ebenda, pág. 165.

    [27] Ebenda, pág. 180.

    [28] Nürnberg-Akten, Fall 11,8. 20526 ff„ zitiert bei POST, aaO. (Anm. 7), pág. 354 ff.