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    terça-feira, 3 de novembro de 2026

    A família Rothschild e a City of London

     

    O Reino Unido é uma velha potência particularmente interessante, tanto pelas suas instituições estranhas quanto pelos fatos históricos que as constituíram. Quando os Romanos fundaram Londinium, no ano de 50 d.C., não teriam condições de imaginar que vinte séculos depois o pequeno e longínquo território às margens do Rio Tâmisa constituiria um dos principais centros financeiros do Século XXI, reunindo em seu território uma particular concentração de instituições financeiras e gigantescos conglomerados internacionais, responsáveis por significativa participação na economia de todo o planeta.

    Apesar do crescimento da metrópole, a antiga Londinium, hoje conhecida como The Square Mile, City of London ou simplesmente “The City”, permaneceu com seu território inalterado. Sua constituição é mais antiga que o Parlamento britânico e suas leis possuem artigos que datam do Século XI. Este singular corpo político com apenas sete mil residentes é estranho à metrópole homônima de quinze milhões de habitantes (ver mapa abaixo), e gerido de forma completamente independente: além de legislação única, possui sua própria força policial, sua própria prefeitura e não presta contas à monarquia britânica [1].

    The City of London Corporation é na verdade uma Cidade-Estado [2], completamente independente do Reino Unido, domicílio de bancos e gananciosas empresas globais que criaram seu próprio território, elegem seus representantes (claro, são as empresas quem votam em uma plutocracia), formulam suas próprias leis e estão isentas das leis fiscais do Reino Unido – as quais estão submetidos todos os escravos britânicos.

    Mapa do Department for Environment Food and Rural Affairs (DEFRA), onde o território da City (vermelho) pode ser comparado com o da grande Londres (em cinza). [3]

    Durante o período que abrangeu os Séculos XVIII e XIX, quando emergiram novos e poderosos impérios, os banqueiros instalados na City começavam a ficar famosos por financiar ambos os lados das guerras por supremacia na Europa. É neste período que começa a entrar em cena a figura de Nathan Rothschild, líder do ramo britânico da família Rothschild (estabeleceu-se na City em 1809 [4]) e uma das cabeças mais importantes do cartel dos bancos britânicos, cuja sofisticada rede de inteligência lhe conferia uma assombrosa vantagem sobre as nações que eles estavam dominando lentamente por meio de intrigas que eles mesmos criavam com o propósito de, depois, conceder volumosos empréstimos.

    ***

    De acordo com Duque de Wellington, em 18 de junho de 1815 era travada a batalha mais demorada e violenta que já vira na vida. Trata-se, evidentemente, da famosa Batalha de Waterloo. No decorrer da batalha, agentes da família Rothschild acompanhavam com atenção a desesperada tentativa de Napoleão Bonaparte em derrotar os exércitos da Sétima Coligação. Infiltrados nos exércitos aliados, tais agentes conseguiram obter as notícias da capitulação de Bonaparte e entregá-las a Nathan Rothschild horas antes que as notícias chegassem a Londres e o próprio governo britânico tivesse acesso ao resultado da batalha [5].

    Valendo-se do privilégio de informações, os Rothschild arquitetaram o chamado “Golpe da Bolsa de Londres”, em que espalharam o boato de que Napoleão havia vencido a guerra e o Reino Unido saíra derrotado. A Bolsa, que estava em terrível expectativa, aguardando o resultado da batalha, viu o valor de seus papéis despencarem abruptamente.

    Naquela ocasião, Nathan Rothschild inicia a venda de suas importantes ações – o que reforçou os boatos de que Napoleão de fato teria vencido a batalha. O desespero tomou conta da Bolsa de Londres e em curto espaço de tempo, todos vendiam seus títulos. Agentes disfarçados da família Rothschild simulavam compradores, e pagavam pelas ações uma fração mínima do seu valor real.

    Em menos de um dia, Nathan Rothschild passou a dominar a Bolsa de Londres, o Banco da Inglaterra e, por conseqüência, a própria City of London. Os Rothschild apoderaram-se da economia britânica por um valor estupidamente ridículo. Tal proeza garantiu posição de poder inigualável no Reino Unido, tanto que, pouco depois, em meados do Século XIX, os Rothschild dominaram todo o sistema bancário europeu.

    Em “Brasil, Colônia de Banqueiros”, provavelmente o livro mais importante de nossa história econômica, tal episódio é magistralmente narrado por Gustavo Barroso:

    “Nathan Mayer Rothschild! Este nome está preso a toda engrenagem financeira mundial do começo do século. Seu portador assiste, de longe, a batalha de Waterloo, vê a derrota de Napoleão, corre à costa belga, paga a peso de ouro o barco dum pescador, atravessa a Mancha em pleno temporal, arrebenta até alcançar Londres e surge na Bolsa com a mais tranqüila fisionomia deste mundo. Sorri e começa a vender seus títulos. Todos pensam que deve estar a par de novas terríveis de guerra, pois nada ainda transpirava o fatal encontro de Napoleão com Wellington e Blûcher. Só ele conhecia e de visu. O pânico ganha os portadores de ações, de bônus e de apólices. Baixa pavorosa! Os agentes de Nathan compram tudo por dez reais de mel coado.


    Mais tarde, chega a notícia da estrondosa vitória e todos aqueles papeis, como é natural, sobem vertiginosamente. Estão na quase totalidade em mãos da casa Rothschild, que realiza um ganho colossal e, à sombra dessa formidável riqueza começa a dominar a Europa. Caíra o império militar de Napoleão, a maior potência militar da época, e nascia o argentário de Rothschild, a maior potência financeira dos novos tempos” [6].

    Nos anos seguintes, a família Rothschild passou a praticamente administrar a Inglaterra, influenciando as políticas públicas, as finanças e até mesmo a política externa. Em 1875, por exemplo, Lionel Rothschild, considerado o primeiro judeu praticante a entrar no parlamento britânico, foi, com algumas horas de antecedência, capaz de emprestar a considerável cifra de quatro milhões de libras ao governo, permitindo assim que a Grã-Bretanha assumisse o controle do Canal de Suez, chave para o comércio da Europa com o Oriente [7].

    Agora sob domínio da família Rothschild, a Grã-Bretanha, mais agressiva do que nunca, tornou-se líder indiscutível da Europa. E assim, com os Rothschild controlando a City of London, a Inglaterra foi a primeira das grandes nações a sucumbir completamente às mãos da família fundadora da grande oligarquia financeira que viria a ditar os acontecimentos históricos e a colonizar todo o mundo nos dois séculos seguintes.

    ***

    Falando em colonizar…

    A City of London, sob domínio da poderosa família Rothschild, viria a constituir uma pequena elite que determinaria todo o modo de vida do Século XX. Seu peculiar interesse pelo comportamento humano nos últimos cem anos fez de nossa sociedade atual um grande laboratório, onde nossas emoções e instintos primitivos são utilizados dia após dia e acionados como alavancas que nos induzem ao comportamento que lhes for conveniente. A sociedade atual já é um produto dos bilionários institutos de pesquisa a serviço dos banqueiros. Seus institutos de ciência política fornecem “conselhos” aos governantes de todo o planeta. Sua fortuna multiplicar-se-ia, atingindo um valor absurdamente incalculável, e sua presença se estenderia a quase todos os segmentos da sociedade de consumo: dos meios de comunicação aos automóveis e até mesmo ao controle da nossa empresa de maior valor: a Petrobras [8].

    Não seria audacioso imaginar o porquê em 2010 nosso governo-fantoche, então presidido por Luiz Inácio Lula da Silva, provavelmente aconselhado por algum agente Rothschild, orgulhosamente anunciou ter efetuado a maior capitalização em capital aberto da história da humanidade, onde o valor estratosférico de US$ 72,8 bilhões (o equivalente a R$ 127,4 bilhões [9]) em ações foi negociado na Bovespa (transformando esta na segunda maior bolsa do mundo em ações capitalizadas [10]). Ocorre que, novamente, os Rothschild entraram em cena e adquiriram US$ 70 bilhões, dos US$ 72,8 bilhões que foram negociados, tornando-se, depois do próprio governo brasileiro, o maior acionista da Petrobras.

    “O presidente se emocionou no discurso e passou a falar até em ajuda divina à Petrobras: ‘Acho que Deus foi muito generoso com o povo brasileiro’, afirmou Lula.”

    Tal cenário repete-se ainda ao retroceder a nossa história recente, quando no governo-fantoche de Fernando Henrique Cardoso, provavelmente seguindo também a alguma orientação de Rothschild, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) foi entregue “em cerca de metade a testas-de-ferro ‘nacionais’ e a outra metade diretamente a investidores estrangeiros. A coordenadora global desta transação foi a Merril Lynch & Co. ABN AMRO Rothschild: a empresa que fez a avaliação do valor de ‘venda’ e, depois, ela mesma, acabaria por se tornar uma das acionistas (algo não só ilegal, como imoral)” [11].

    Só para recordar, a CVRD foi doada aos Rothschild no ano de 1997 pela insignificante cifra de US$ 3,3 bilhões: dez anos depois a companhia valia US$ 298 bilhões, tendo superado a Petrobras e a IBM em valor de mercado [12]. A venda da Vale foi ilegal, pois o valor da transação considerou propositalmente apenas a infraestrutura da empresa e não as reservas de minério de ferro em seu poder; caso contrário, o valor de venda (falando hipoteticamente, já que nós nacionalistas sabemos que a privatização dos recursos estratégicos nacionais é inadmissível, pois constitui grave atentado contra a soberania de nossa Pátria) superaria facilmente a casa dos trilhões de dólares.

    Outros episódios ainda mais antigos dão prova de que a economia do Brasil tem sido comandada pela City of London, sob o controle de Rothschild, desde os primeiros suspiros da Independência. O Império do Brasil, durante o Reinado de D. Pedro II, firmou o seguinte contrato no ano de 1855:

    “O Cavalheiro Sergio Teixeira de Macedo, Membro do Conselho de Sua Majestade o Imperador do Brasil e Seu Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto à Sua Majestade a Rainha da Grã Bretanha, como representante do Governo Imperial do Brasil, devidamente autorizado pelo mesmo de uma parte, e da outra os Srs. N. M. Rotschild e Filhos, da cidade de Londres, ajustaram as seguintes cláusulas:

    ARTIGO I
    Os Srs. N. M. Rotschild e Filhos operarão como Agentes Financeiros do Governo Brasileiro em Londres e serão exclusivamente empregados dos modos seguintes:
    Primeiro: – Para receber todo e qualquer fundo que o Governo Brasileiro possa enviar para este país, afim de pagar dividendos, salários ou quaisquer outras despesas por conta do mesmo Governo em letras de câmbio ouro em barra ou em pó, diamantes, dinheiro ou quaisquer mercadorias.
    Segundo: – Para fazer todas as compras na Inglaterra e executar todas as ordens do Governo Imperial, exceptuandose, contudo, aquelas que possam ser confiadas ao seu Ministro em Londres, a quaisquer de seus Cônsules ou ViceCônsules, ou a qualquer funcionário especialmente encarregado desse propósito.
    Terceiro: – Para pagar os dividendos das partes da divida brasileira contraída ou a contrair-se em Londres, pagamento esse que já não esteja ou possa ser realizado por contrato de outro modo.

    ARTIGO II
    Por esses serviços os Agentes receberão as seguintes comissões:
    Um por cento sobre o preço das mercadorias, navios e outros artigos comprados ou vendidos, não incluindo a corretagem, ficando entendido que os descontos usuais dos fabricantes e negociantes pelo pagamento em caixa serão em beneficio do Governo.
    Um quarto por cento sobre a venda de ouro em barras ou em pó, não incluindo a corretagem.
    Um quarto por cento sobre a venda de diamantes, não incluindo a corretagem.
    Um quarto por cento por aceitar e pagar letras.
    Nada pela cobrança e recebimentos do importe de letras.
    Nada por qualquer soma recebida de qualquer parte. Não obstante, uma comissão de um quarto por cento, meio por cento ou um por cento sobre as diferentes espécies de pagamento realizados em virtude do presente contrato ou de qualquer outro deve ser escriturada em cada parcela no passivo da conta corrente, não devendo figurar comissão alguma no ativo.
    Nada para efetuar seguros, porém ,unicamente o quarto por cento do costume ao pagá-los.
    Um e meio por cento sobre o pagamento de dividendos dos empréstimos de que os Agentes não forem contratantes.
    Um por cento, como está estipulado no respectivo contrato, sobre o pagamento de dividendos dos empréstimos de que forem contratantes, ficando entendido que o presente contrato não poderá ir de encontro a nenhum outro contrato em vigor. As comissões sobre as quantias entregues a outros contratantes para o pagamento dos dividendos a seu cargo entram na regra geral do quarto por cento de comissão.
    Um quarto por cento, não incluindo a corretagem, sobre as quantias empregadas na compra de Bonus de qualquer empréstimo para amortização ou depósito.

    ARTIGO III
    Na conta corrente com o Governo, os Agentes escriturarão os juros no passivo e ativo da mesma, com a diferença, contudo, de um e meio por cento anualmente em favor dos Agentes, pelo seguinte: o Governo pagará juros de um por cento, no mínimo, pela taxa de desconto no banco da Inglaterra e receberá meio por cento menos do que a mesma taxa de desconto no Banco.

    ARTIGO IV
    Os Agentes combinam em adiantar ao Governo Imperial qualquer quantia, desde que não exceda de cem mil libras esterlinas, ficando o Governo obrigado a pagar na expiração do prazo deste contrato as somas que os Agentes assim lhes tenham adiantado.

    ARTIGO V
    O modo de ter a seu cargo as contas com o Governo Imperial, o prazo de sua transmissão ao Ministério da Fazenda e os meios dos Agentes se corresponderem com o Governo Imperial continuarão os mesmos dos Agentes anteriores e serão modificados de acordo com as instruções dadas pelo Ministro do Brasil em Londres, cujas inspeção e determinações sobre todos esses assuntos continuarão a ser como anteriormente, e a quem os Agentes fornecerão qualquer informação que lhes peçam sobre a situação dos negócios.

    ARTIGO VI
    As cláusulas do presente acordo entrarão em vigor no dia 1.° de Julho do corrente ano de 1855 e valerão por três anos a contar dessa data, isto é até 1.° de Julho de 1858.

    ARTIGO VII
    Se, seis meses antes do dia da expiação do prazo do presente acordo, nenhuma das partes tiver declarado à outra a intenção de rescindi-lo, ele continuará em vigor por mais um ano a contar de 1.° de Julho de 1858. Se, seis meses antes de terminar esse ano, a referida declaração não for feita, o mesmo contrato continuará por um ano mais e assim continuamente até ser feita a declaração com a antecedência de seis meses.
    Todas as declarações e notificações do Governo aos Agentes podem ser feitas pelo Ministro em Londres.

    ARTIGO VIII
    Ao terminar o contrato de qualquer maneira, os Agentes não deixarão de ser empregados como Agentes até que tenham sido pagos de todas as quantias que lhes forem devidas pelo Governo.
    O presente acordo foi assinado em três vias na Cidade de Londres no dia vinte do mês de Junho de 1855. (A.) S. de Macedo, – N. M. Rotschild e Filhos. (Tradução de G. Barroso) [13]

    O brasão da família Rothschild – e também logotipo do The Rothschild Group.

    Tais evidências demonstram que Rothschild e as dinastias financeiras a ela coligadas dos dois lados do Atlântico controlam a horda de corruptos que nos governam quase que exclusivamente para os interesses da City há quase duzentos anos!

    Atualmente, na falsa democracia do liberalismo, controlam o candidato do partido A, do partido B e do partido C, de modo que a escolha do povo seja sempre a mesma: um governante corrupto, apátrida e a serviço dos interesses do capitalismo internacional. Sabendo que o povo tem obrigações maiores, como a novela das nove e as emoções do futebol, ou outra distração que possam empregar para ocultar suas transações ilícitas, fazem apenas substituir um governo-fantoche por outro governo-fantoche.

    ***

    A complexa engenharia de controle global dos banqueiros internacionais tem por objetivo exercer controle sobre as leis, agências reguladoras, educação, agricultura, as indústrias, os transportes, o setor de construção e também sobre o setor militar, com o objetivo de criar uma moderna sociedade feudal, onde as nações “periféricas” teriam como função apenas o fornecimento de recursos para o primeiro mundo.

    Economicamente somos escravos – admitamos! Mas, ainda somos livres de espírito, portanto, não aceitemos sem reação a escravidão que nos é imposta por um punhado de banqueiros psicopatas da City e de Wall Street. É dever de todos os brasileiros conscientes reagir contra o capitalismo internacional, buscar construir uma atitude nacionalista saudável, capaz de “insuflar energia aos moços, arrancá-los da descrença, da apatia, do ceticismo, da tristeza em que vivem; ensinar-lhes a lição da coragem, incutindo-lhes a certeza do valor que cada um tem dentro de si, como filho do Brasil e da América” [14]

    É preciso a autoridade, a força moral e a independência de um movimento legitimamente nacionalista para “Sacudir as fibras da Pátria. Erguê-la da sua depressão, do seu desalento, da sua amargura, para que ela caminhe, dando começo à Nova Civilização, que, pela nossa força, pela nossa audácia, pela nossa fé faremos partir do Brasil, incendiar o nosso continente, e influir mesmo no Mundo. Para isso, combateremos os irônicos, os “blasés”, os desiludidos, os descrentes, porque nesta hora juramos não descansar um instante, enquanto não morrermos ou vencermos, porque conosco morrerá ou vencerá uma Pátria” [15].

    Só assim nos livraremos da agiotagem internacional…
    Só assim seremos livres…
    Resistir é preciso!

    Eduardo Ferraz
    Membro do Conselho Diretivo Nacional e Secretário de Expansão da Frente Integralista Brasileira.

    Frente Integralista Brasileira, 27/05/2013.

    Notas:

    [1] ALLEN, William Ferneley. The Corporation of London: Its Rights and Privileges. Londres, 1858. Disponível em http://www.wattpad.com/9747-the-corporation-of-london-its-rights-and?p=1#.UaBkCNI-YQo. Acesso em 23 de maio de 2013.
    [2] A página oficial da City of London Corporation, cujo domínio na internet que, embora travestido de governamental, fornece detalhes das particularidades da City. Disponível em http://www.cityoflondon.gov.uk/. Acesso em 10 de março de 2013.
    [3] Mapa do Department for Environment Food and Rural Affairs (DEFRA), onde o território da City (vermelho) pode ser comparado com a grande Londres (em cinza). Disponível em: http://aqma.defra.gov.uk/aqma-details.php?aqma_id=117. Acesso em 24 de maio de 2013.
    [4] Victor Gray and Melanie Aspey, “Rothschild, Nathan Mayer (1777–1836)”, Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, September 2004; online edition, May 2006. Acesso em 21 de maio de 2013.
    [5] UK – The Family that bankrolled Europe. BBC, 9 de julho de 1999. Disponível em: http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/389053.stm. Acesso em 23 de maio de 2013.
    [6] BARROSO, Gustavo. Brasil, Colônia de Banqueiros (História dos empréstimos de. 1824 a 1934). 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1936, p. 16.
    [7] Lionel Rothschild (1808—1879) banker. Oxford Index. Disponível em: http://oxfordindex.oup.com/view/10.1093/oi/authority.20110803100430183. Acesso em 24 de maio de 2013.
    [8] Página do The Rothschild Group voltada à América Latina, onde é um pequeno texto introduz aos negócios mais recentes de Rothschild na região. Disponível em: http://www.rothschild.com/latin-america/. Acesso em 24 de maio de 2013.
    [9] Lula, euforia no momento mais auspicioso do capitalismo. VEJA, 24 de setembro de 2010. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/economia/lula-euforia-no-momento-mais-auspicioso-do-capitalismo. Acesso em 25 de maio de 2013.
    [10] “Capitalização da Petrobras foi a maior da história da humanidade”, diz Lula. R7, 24 de setembro de 2010. Disponível em: http://noticias.r7.com/economia/noticias/capitalizacao-da-petrobras-foi-a-maior-da-historia-da-humanidade-diz-lula-20100924.html. Acesso em 25 de maio de 2013.
    [11] SILVEIRA, Marcelo. Brasil – Eterna Colônia de Banqueiros?. Frente Integralista Brasileira, 2007. Disponível em http://www.integralismo.org.br/arquivos/2007/Colonia_de_banqueiros.pdf. Acesso em: 25 de maio de 2013.
    [12] Vale do Rio Doce supera Petrobras em valor de mercado. VALOR, 1 de outubro de 2007. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/economia/ultnot/valor/2007/10/01/ult1913u76845.jhtm. Acesso em 24 de maio de 2013.
    [13] BARROSO, Gustavo. Brasil, Colônia de Banqueiros (História dos empréstimos de. 1824 a 1934). 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1936, p. 183.
    [14] SALGADO, Plínio. Manifesto de Outubro. Disponível em: http://www.integralismo.org.br/?cont=825&ox=2. Acesso em 23 de abril de 2013.
    [15] Idem.

    quinta-feira, 29 de outubro de 2026

    O dna do socialismo é pautado na mentira e corrupção


    Fidel Castro em 1958, meses antes da Revolução Comunista Cubana, mentindo sobre o que estava por vir:

    "Não há comunismo ou marxismo em nossas ideias: nossa filosofia política é a democracia representativa e a justiça social em uma economia bem planejada. Não pensamos em tomar terras, nenhuma terra, de ninguém. O que faremos será comprar essas terras que não estão produzindo para dá-las aos camponeses pobres. Não estamos lutando por poder, estamos lutando para acabar com uma tirania e, depois, nosso movimento buscará o poder através de eleições livres, pois não queremos o poder pela força. Estabeleceremos um governo realmente representativo e democrático, mas eu não penso em ser presidente; não estou lutando por isso, nem por qualquer outro cargo, e não posso responder sobre mim porque não penso nisso.
    A primeira situação da Cuba comum agora é a falta de liberdade e justiça, além de um baixo padrão de vida com centenas de milhares de jovens sem trabalho, mas Cuba é um país rico, com um futuro maravilhoso, se apenas tivéssemos um bom governo."

    quarta-feira, 28 de outubro de 2026

    O que o estado teme?

     


    O artigo a seguir é um trecho do livro Anatomia do Estado de Murray Rothbard. 


    O que o estado teme acima de tudo, claro, é qualquer ameaça fundamental ao seu próprio poder e à sua existência. A morte do estado pode ocorrer de duas formas: (a) por meio da sua conquista por outro estado, ou (b) por meio de um golpe revolucionário feito pelos seus próprios súditos — ou seja, por meio da guerra ou da revolução. Não há outra maneira de de trocar derrubar um Estado socialista ditatorial através da democracia, pelo voto, já que foi a democracia que levou o socialismo a se instalar e enraizar seu poder no terreno do Estado. Guerra e revolução, sendo as duas ameaças essenciais, invariavelmente suscitam nos governantes estatais esforços máximos e a máxima propaganda possível direcionada à população. Como dito anteriormente, qualquer meio deve sempre ser utilizado para mobilizar as pessoas a defender o estado na crença de que estão defendendo a si mesmas. A fraude subjacente a esta ideia torna-se evidente quando o recrutamento compulsório é utilizado contra aqueles que se recusam a “defender-se” e que são, como tal, forçados a juntar-se ao aparato militar do estado: desnecessário dizer que não lhes é permitida qualquer “defesa” contra este ato cometido pelo “seu próprio” estado.

    Em uma guerra, o poder do estado é levado ao extremo, e sob os slogans da “defesa” e da “emergência”, ele pode impor uma tirania ao público que, em tempos de paz, enfrentaria franca e aberta resistência. Desta forma, a guerra provê muitos benefícios a um estado e, de fato, todas as guerras modernas trouxeram aos povos envolvidos um permanente legado de maiores encargos estatais sobre a sociedade. A guerra, além disso, provê ao estado oportunidades tentadoras de conquistar territórios sobre os quais pode exercer o seu monopólio da força. Definitivamente, Randolph Bourne estava correto quando disse que “a guerra é a saúde do estado”; porém, para qualquer estado em particular, uma guerra pode significar tanto sua saúde quanto estragos irreparáveis[1].

    Podemos colocar à prova a hipótese de que o estado está majoritariamente interessado em proteger a si mesmo, e não os seus súditos, levantando a seguinte questão: qual a categoria de crimes que o estado persegue e pune mais intensamente — aqueles cometidos contra os cidadãos ou aqueles cometidos contra ele próprio? No vocabulário do estado, os crimes mais graves são quase invariavelmente não-agressões contra indivíduos ou contra a propriedade privada, mas sim ataques contra o próprio bem-estar do estado: por exemplo, traição, deserção de um soldado para o lado inimigo, fugir do alistamento militar compulsório, subversão e conspiração subversiva, assassinato de governantes, e crimes econômicos contra o estado, como falsificação da sua moeda ou evasão fiscal.

    Ou compare a intensidade dedicada à perseguição de um homem que tenha atacado um policial com a atenção que o estado concede ao ataque a um cidadão comum. Curiosamente, no entanto, esta explícita prioridade do estado à sua própria contra o público não parece suscitar nas pessoas nenhum sentimento de incoerência e inconsistência em relação à sua pretensa raison d’etre.[2]


    [1] Vimos que o apoio por parte dos intelectuais é fundamental ao estado, e isto inclui o apoio contra as suas duas ameaças essenciais. Assim, acerca do papel dos intelectuais americanos no envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, ver Randolph Bourne, “The War and the Intellectuals,” em The History of a Literary Radical and Other Papers (New York: S.A. Russell, 1956), p. 205-22. Tal como Bourne evidencia, um dos métodos comuns dos intelectuais para ganhar o apoio do público para as ações do estado é o de desviar qualquer discussão para os limites da política do estado e de desencorajar qualquer crítica total ou fundamental deste enquadramento básico.

    [2] Tal como Mencken o descreve, à sua maneira inconfundível: Esta gangue (“os exploradores que formam o governo”) é praticamente imune ao castigo. As suas extorsões mais graves, mesmo quando são claramente para proveito privado, não acarretam qualquer pena certa sob as nossas leis. Desde os primeiros dias da República que não mais que algumas dúzias dos seus membros foram impugnados dos seus mandatos, e apenas alguns subordinados obscuros foram encarcerados. A quantidade de homens postos na prisão por se revoltarem contra as extorsões do governo é sempre dez vezes maior do que a quantidade de representantes do governo que são condenados por oprimir os pagadores de impostos para seu ganho próprio. (Mencken, A Mencken Chrestomathy, p. 147-48) Para uma vívida e divertida descrição da falta de proteção ao indivíduo contra as incursões à sua liberdade feitas pelos seus “protetores”, ver H.L. Mencken, “The Nature of Liberty,” in Prejudices: A Selection (New York: Vintage Books, 1958), p. 138-43.

    A escolha é sua.

     

    O que os plutocratas apátridas fariam se a massa do povo desligasse suas TVs, deixassem suas novelas e BBBs reservados para a lixeira e começassem a gritar que a democracia é um lixo fabricado. Se o povo se negasse a aceitar a anti-cultura de funk, carnaval, pornografia, alcoolismo e malandragem imposta por esses ditadores da imbecilidade e desejassem ter como um líder um Hitler, um Mussolini, um Franco ou um Salazar?

    Neste momento eu me pus a pensar…

    Dia após dia vive-se em um mundo cada vez mais orwelliano. Vivemos na democracia do politicamente correto e cada atitude, gesto e até mesmo pensamento é vigiado pelos xerifes do patrulhamento ideológico de plantão. E eles são muitos… Estão em toda parte e todo lugar. Vivemos diariamente na correria cotidiana de trabalho e pressões diversas e inclui-se aí nesse “diversas” também a posição por uma postura politicamente correta. Basta desviar-se um milímetro do caminho da verdade previamente estabelecido pelos senhores gurus do comportamento perfeito da mídia (e incluem-se aí todas as suas vertentes, seja internet, TV, rádio ou papel impresso) e como por mágica surgirão dedos lhe apontando suas faltas.

    O politicamente correto diz que não se pode julgar ninguém, pois em nosso mundo evoluído e completamente relativizado cada um possui um modo de ver este mundo e sendo assim cada qual possui a sua verdade. Porém, mesmo neste mundo liberal, relativizado e sem tabus há algo que deve ser segregado e estigmatizado com força máxima ao menor sinal de aparição. Neste maravilhoso mundo novo de tecnologia e liberdade onde qualquer um deve ter o direito de demonstrar e falar abertamente, por exemplo, sobre sua “opção” sexual (que belo dia será quando começarem as passeatas pelo orgulho dos zoófilos e necrófilos!!) palavras como Hitler, Nazismo e Fascismo causam arrepios e repulsa repugnante. E ai daqueles que esboçarem, ainda que timidamente um grão de simpatia por tais substantivos. O poderoso martelo do politicamente correto descerá sobre suas cabeças com força divina; e isto é apenas o começo, pois dependendo de onde o pobre diabo que exteriorizou um pouco de seus pensamentos estiver localizado haverá uma avalanche de processos jurídicos, protestos de cidadãos indignados e toda sorte de palhaçada que a mídia se deleitará em mostrar em seus jornais. Este será o inicio de um longo martírio.

    É intrigante como neste mundo pós-moderno, onde teoricamente não há certos e errados, o simples uso da liberdade de expressão, algo tão prezado e louvado nas democracias ocidentais, pode instigar sentimentos tão nefastos e atitudes ainda mais violentas. Agora, analisando-se friamente os fatos, de onde pode vir tal aversão? Com certeza décadas de ação depreciadora por parte da propaganda dos vitoriosos aliados tem um papel fundamental nisto, pois se observarmos com atenção é praticamente impossível passar um dia sequer onde não há um programa de TV sobre os diabólicos nazistas, uma semana que não haja uma nova revista na banca de jornal sobre a terrível SS ou o satânico mecanismo do holocausto… As editoras e TVs são quase sempre as mesmas, os autores, geralmente figurinhas carimbadas, as alegações, mesmo sendo as mais absurdas possíveis e que já há anos foram desmentidas até por historiadores do mainstream, continuam sendo as mesmas; e nesta lista entram os já desgastados abajures de pele humana, câmaras de gás, sabão de gordura de prisioneiros judeus e etc. A lista é grande, quase infindável… E mais interessante ainda é presenciar a reação das pessoas com este tipo de material. Lembro de uma vez, há alguns anos, quando no intervalo de almoço, estava reunido com um grupo de colegas de trabalho próximo a uma banca de jornal. Dentre as diversas revistas disposta para exibição havia uma dessas publicações infames sobre Hitler. Um dos colegas olhou, leu brevemente o título de chamada da revista e como que sendo uma grande autoridade no assunto lá tratado exclamou “Este aí está lá embaixo (apontando para o chão), queimando no inferno…”. Neste momento eu me pus a pensar… Até onde eu sabia este rapaz não era nenhum grande entendido do assunto Segunda Guerra Mundial, nacional-socialismo e muito menos devia ter sequer lido uma biografia sobre Hitler, nem mesmo uma como o tão aclamado Hitler – de Joachim Fest, e mesmo assim esse rapaz se sentia quase que investido de autoridade papal para efetuar um julgamento dogmático de que o tão mal falado líder alemão se encontrava nas profundezas do inferno queimando… De onde será que veio esse julgamento? A influência não é tão difícil de imaginar e a imbecilidade de aceitar tudo passivamente, sem mover um neurônio sequer em julgamento completa o serviço.

    E para aqueles que conseguirem escapar dos grilhões politicamente corretos da mídia, um mundo sombrio lhes aguarda. O que fazer, quando se chega a conclusão de que 70 anos de propaganda e toneladas de revistas, livros, filmes e programas de TV não passam de lixo tóxico não reciclável? O que fazer quando se pode realmente se libertar da cortina enfumaçada de mentiras e em um complexo processo de raciocínio lógico chegar à conclusão de que a tal atrocidade nazista e (sua maior representante) as câmaras de gás simplesmente nunca existiram e você chegar a ter simpatia com a figura de Hitler? Neste caso só existem dois caminhos a se escolher: esqueça tudo e volte à sua vida anterior, no mundo das tenebrosas fábulas holocáusticas ou conhecendo a verdade, e a verdade lhe libertando, prepare-se para trilhar um caminho sombrio, sim sombrio, pois as mentiras são muitas e seus asseclas infernais mais ainda.

    A confrontação com a verdade e a possibilidade da escolha remete às imagens bíblicas e até mesmo a certas produções hollywoodianas (Matrix que o diga), mas é a mais pura verdade. Como Cristo disse, o caminho da verdade é estreito e espinhoso; os inimigos são muitos e igualmente é a honra em se manter com a cabeça erguida e confiante na vitória final. Havendo esta iluminação mental e elevando os olhos acima do mar de mentiras é que se notarão muitas coisas que antes passavam despercebidas. Verá que aquela notícia que antes parecia tão inocente no jornal, na verdade oculta algo de tendencioso e manipulado; que aquela superprodução do cinema não passa da repetição mecânica da mesma mentira de sempre… Enfim, sua mente estará apta a ser crítica e daí é que surge o grande temor dos poderes plutocratas estabelecidos. A verdade. Sim, eles a temem como o demônio à cruz. Imagine o que aconteceria se uma grande parte da população viesse a despertar de seu sono enganatório e chegasse à conclusão de que os grandes regimes fascistas não eram nenhum monstro, e que muito pelo contrário, o povo vivia melhor e mais feliz nestes países nessas épocas… O que os plutocratas apátridas fariam se a massa do povo desligasse suas TVs, deixassem suas novelas e BBBs reservados para a lixeira e começassem a gritar que a democracia é um lixo fabricado. Se o povo se negasse a aceitar a anti-cultura de funk, carnaval, pornografia, alcoolismo e malandragem imposta por esses ditadores da imbecilidade e desejassem ter como um líder um Hitler, um Mussolini, um Franco ou um Salazar? E se o povo estivesse a ponto de pedir que a tal “liberdade” anárquica e decadente fosse suprimida em troca de segurança, trabalho honesto e uma elevação cultural/social?

    O brilho da autoridade séria, disciplina e disposição para o sacrifício em prol de algo maior e a negação ao poder do ouro que o fascismo carrega intrinsecamente é o que faz os plutocratas exploradores do povo o temer tanto. E você, o que escolherá? A honra ao trabalho e à honestidade ou toda a glória ao dinheiro… Eis aí a bifurcação na estrada, a escolha cabe a você…

    Viktor Weiß

    Publicado originalmente em 25/03/2010

    segunda-feira, 26 de outubro de 2026

    Por que os piores chegam ao poder

     

    Texto extraído do capítulo 10 de O Caminho da Servidão

     

    Todo poder corrompe, e o poder absoluto corrompe de maneira absoluta. – Lord Acton

    Analisaremos agora uma ideia que, se de um lado serve de consolo para muitos que consideram inevitável o advento do totalitarismo, de outro enfraquece sobremodo a resistência dos que a ele se oporiam com todas as forças se lhe compreendessem a natureza. Trata-se da ideia de que os aspectos mais repelentes dos regimes totalitários se devem à casualidade histórica de esses regimes terem sido estabelecidos por canalhas e bandidos. Se, na Alemanha, a criação de um regime totalitário levou ao poder os Streichers e Killingers, os Leys e Heines, os Himmlers e Heydrichs — argumenta-se –, isso sem dúvida poderá provar a perversidade do caráter alemão, mas não que a ascensão de tais homens seja consequência inevitável de um regime totalitário. Por que não seria possível que o mesmo sistema, se necessário à consecução de objetivos importantes, fosse dirigido por indivíduos honestos para o bem da comunidade?

    Não devemos iludir-nos supondo que todas as pessoas de bem são forçosamente democratas ou desejam fazer parte do governo. Muitos prefeririam confiá-lo a alguém que reputam mais competente. Embora isso possa ser importante, não há erro ou desonra em aprovar uma ditadura dos bons. O totalitarismo, ouve-se dizer, é um sistema poderoso tanto para o bem como para o mal, e o fim para o qual é usado depende inteiramente dos ditadores. Aqueles que julgam não ser o sistema que cumpre recear, e sim o perigo de que ele venha a ser dirigido por maus indivíduos, poderiam até ser tentados a prevenir esse perigo fazendo com que ele fosse estabelecido antes por homens de bem.

    Não há dúvida de que um sistema “fascista” inglês ou americano diferiria muito dos modelos italiano ou alemão; por certo, se a transição fosse efetuada sem violência, poderíamos ter esperanças de que surgisse entre nós um líder melhor. E, se eu tivesse de viver sob um regime fascista, preferiria indubitavelmente um que fosse dirigido por ingleses ou americanos a qualquer outro. Entretanto, isso não quer dizer que, julgado pelos padrões atuais, um sistema fascista inglês viesse no fim a revelar-se muito diferente ou muito menos intolerável do que seus protótipos. Há razões de sobra para se crer que os aspectos que consideramos mais detestáveis nos sistemas totalitários existentes não são subprodutos acidentais mas fenômenos que, cedo ou tarde, o totalitarismo produzirá inevitavelmente. Assim como o estadista democrata que se propõe a planejar a vida econômica não tardará a defrontar-se com o dilema de assumir poderes ditatoriais ou abandonar seu plano, também o ditador totalitário logo teria de escolher entre o fracasso e o desprezo à moral comum. É por essa razão que os homens inescrupulosos têm mais probabilidades de êxito numa sociedade que tende ao totalitarismo. Quem não percebe essa verdade ainda não mediu toda a vastidão do abismo que separa o totalitarismo dos regimes liberais, a profunda diferença entre a atmosfera moral do coletivismo e a civilização ocidental, essencialmente individualista.

    O “embasamento moral do coletivismo” foi, é claro, muito debatido no passado; mas o que nos interessa em nosso estudo não é sua base moral e sim seus resultados morais. Nos debates habituais sobre os aspectos éticos do coletivismo pergunta-se se este é exigido pelas convicções morais existentes, ou se devem existir certas convicções morais para que o coletivismo produza os resultados esperados. A questão que estudaremos, entretanto, é: que atitudes morais serão geradas por uma organização coletivista da sociedade, e por que ideias morais tal sociedade tenderá a ser dirigida? A interação da moral e das instituições poderá fazer com que a ética resultante do coletivismo seja totalmente diversa dos ideais morais que levam a exigir a implantação desse mesmo coletivismo. Embora nos inclinemos a pensar que, como o desejo de um sistema coletivista nasce de elevados motivos morais, em tal sistema se desenvolverão as mais altas virtudes, não existe, na realidade, nenhuma razão para que qualquer sistema estimule necessariamente aquelas atitudes que concorrem para o fim a que ele se destina. As ideias morais dominantes dependerão em parte das qualidades que conduzem os indivíduos ao sucesso num sistema coletivista ou totalitário e, em parte, das exigências do mecanismo totalitário.

    Devemos agora voltar por um momento ao estágio que precede a supressão das instituições democráticas e a criação de um regime totalitário. Nesse estágio, a exigência geral de uma ação governamental rápida e decidida torna-se o elemento dominante da situação, enquanto a insatisfação com o curso lento e trabalhoso dos processos democráticos faz com que o objetivo seja a ação em si. É então que o homem ou o partido que parecem bastante fortes ou resolutos para “fazerem as coisas funcionar” exercem maior sedução. “Forte”, neste sentido, não indica apenas uma maioria numérica, pois o povo está insatisfeito justamente com a ineficácia das maiorias parlamentares. O que as pessoas procuram é um homem que goze de sólido apoio, de modo a inspirar confiança quanto à sua capacidade de realizar o que pretende. E aqui entra em cena o novo tipo de partido, organizado em moldes militares.

    Nos países da Europa Central, os partidos socialistas já haviam familiarizado as massas com organizações políticas de caráter semimilitar, que tinham por objetivo absorver tanto quanto possível a vida privada dos seus membros. Para conferir um poder esmagador a um grupo, bastava estender um pouco mais o mesmo princípio, buscando a força não no imenso número de votos garantido em eleições ocasionais, mas no apoio absoluto e irrestrito de um grupo menor, porém perfeitamente organizado. Para conseguir impor um regime totalitário a toda uma nação, o líder deve em primeiro lugar reunir à sua volta um grupo disposto a submeter-se voluntariamente à disciplina totalitária que ele pretende aplicar aos outros pela força.

    Embora os partidos socialistas tivessem poder político suficiente para obter o que desejassem, desde que resolvessem empregar a força, relutaram em fazê-lo. Sem o saber, tinham assumido uma tarefa que só poderia ser executada por homens implacáveis, prontos a desprezar as barreiras da moral reinante. Muitos reformadores sociais aprenderam, no passado, que o socialismo só pode ser posto em prática por métodos que seriam condenados pela maioria dos socialistas.

    Os velhos partidos socialistas sentiam-se inibidos por seus ideais democráticos; não possuíam a insensibilidade necessária à execução da tarefa por eles escolhida. É importante notar que, tanto na Alemanha como na Itália, o êxito do fascismo foi precedido pela recusa dos partidos socialistas a assumir as responsabilidades do governo. Repugnou-lhes empregar os métodos que eles próprios haviam apontado. Ainda esperavam pelo milagre de um acordo da maioria em torno de um plano especial para a organização de toda a sociedade. Outros já haviam aprendido que, numa sociedade planificada, não se trata mais de saber sobre o que concorda a maioria do povo, mas qual é o maior grupo cujos membros encontraram um grau de acordo suficiente para tornar possível a direção unificada de todos os assuntos públicos; ou, caso não exista nenhum grupo bastante numeroso para impor suas ideias, de que forma e por quem ele pode ser criado.

    Há três razões principais para que um grupo numeroso, forte e de ideias bastante homogêneas não tenda a ser constituído pelos melhores e sim pelos piores elementos de qualquer sociedade. De acordo com os padrões hoje aceitos, os princípios que presidiriam à seleção de tal grupo seriam quase inteiramente negativos.

    Em primeiro lugar, é provavelmente certo que, de modo geral, quanto mais elevada a educação e a inteligência dos indivíduos, tanto mais se diferenciam os seus gostos e opiniões e menor é a possibilidade de concordarem sobre determinada hierarquia de valores. Disso resulta que, se quisermos encontrar um alto grau de uniformidade e semelhança de pontos de vista, teremos de descer às camadas em que os padrões morais e intelectuais são inferiores e prevalecem os instintos mais primitivos e “comuns”. Isso não significa que a maioria do povo tenha padrões morais baixos; significa apenas que o grupo mais amplo cujos valores são semelhantes é constituído por indivíduos que possuem padrões inferiores. É, por assim dizer, o mínimo denominador comum que une o maior número de homens. Quando se deseja um grupo numeroso e bastante forte para impor aos demais suas ideias sobre os valores da vida, jamais serão aqueles que possuem gostos altamente diferenciados e desenvolvidos que sustentarão pela força do número os seus próprios ideais, mas os que formam a “massa” no sentido pejorativo do termo, os menos originais e menos independentes.

    Se, contudo, um ditador em potencial tivesse de contar apenas com aqueles cujos instintos simples e primitivos são muito semelhantes, o número destes não daria peso suficiente às suas pretensões. Seria preciso aumentar-lhes o número, convertendo outros ao mesmo credo simples.

    A esta altura entra em jogo o segundo princípio negativo da seleção: tal indivíduo conseguirá o apoio dos dóceis e dos simplórios, que não têm fortes convicções próprias, mas estão prontos a aceitar um sistema de valores previamente elaborado, contando que este lhes seja apregoado com bastante estrépito e insistência.

    Serão, assim, aqueles cujas ideias vagas e imperfeitas se deixam influenciar com facilidade, cujas paixões e emoções não é difícil despertar, que engrossarão as fileiras do partido totalitário.

    O terceiro e talvez mais importante elemento negativo da seleção está relacionado com o esforço do demagogo hábil por criar um grupo coeso e homogêneo de prosélitos. Quase por uma lei da natureza humana, parece ser mais fácil aos homens concordarem sobre um programa negativo — o ódio a um inimigo ou a inveja aos que estão em melhor situação — do que sobre qualquer plano positivo. A antítese “nós” e “eles”, a luta comum contra os que se acham fora do grupo, parece um ingrediente essencial a qualquer ideologia capaz de unir solidamente um grupo visando à ação comum. Por essa razão, é sempre utilizada por aqueles que procuram não só o apoio a um programa político, mas também a fidelidade irrestrita de grandes massas. Do seu ponto de vista, isso tem a vantagem de lhes conferir mais liberdade de ação do que qualquer programa positivo. O inimigo, seja ele interno, como o “judeu” ou o “kulak”, seja externo, parece constituir uma peça indispensável no arsenal do líder totalitário.

    Se na Alemanha o judeu se tornou o inimigo, cedendo em seguida o lugar às “plutocracias”, isso foi decorrência do sentimento anticapitalista em que se baseava todo o movimento, o mesmo acontecendo em relação à escolha do kulak na Rússia. Na Alemanha e na Áustria, o judeu chegara a ser encarado como o representante do capitalismo porque a antipatia tradicional votada por vastas classes da população às atividades comerciais tornara tais atividades mais acessíveis a um grupo praticamente excluído das ocupações mais respeitadas. É a velha história: a raça alienígena, admitida apenas nas profissões menos nobilitantes, torna-se objeto de ódio ainda mais acirrado precisamente por exercê-las. O fato de, na Alemanha, o antissemitismo e o anticapitalismo terem a mesma origem é de grande importância para a compreensão do que tem acontecido naquele país, embora os observadores estrangeiros poucas vezes se deem conta disso.

    Considerar a tendência universal da política coletivista ao nacionalismo como decorrência exclusiva da necessidade de um apoio sólido seria negligenciar outro fator não menos significativo. Com efeito, é questionável que se possa conceber com realismo um programa coletivista que não atenda aos interesses de um grupo limitado, ou que o coletivismo possa existir sob outra forma que não a de um particularismo qualquer, nacionalista, racista ou classista. A ideia de uma comunhão de propósitos e interesses com os próprios semelhantes parece pressupor maior similaridade de ideias e pontos de vista do que aquela que existe entre os homens na qualidade de simples seres humanos. Se não podemos conhecer pessoalmente todos os outros componentes do nosso grupo, eles terão de ser pelo menos do mesmo tipo dos que nos cercam, terão de pensar e falar do mesmo modo e sobre os mesmos assuntos, para que nos possamos identificar com eles.

    O coletivismo em proporções mundiais parece inconcebível, a não ser para atender aos interesses de uma pequena elite dirigente. Ele por certo suscitaria problemas, não só de natureza técnica, mas sobretudo moral, que nenhum dos nossos socialistas estaria disposto a enfrentar. Se o proletário inglês tem direito a uma parcela igual da renda atualmente proporcionada pelos recursos financeiros do país, assim como ao controle do emprego desses recursos, porque eles resultam da exploração, então pelo mesmo princípio todos os hindus teriam direito não só à renda mas também ao uso de uma parcela proporcional do capital britânico.

    Que socialistas, porém, pensam de fato em repartir de maneira equitativa, entre toda a população da terra, os atuais recursos de capital? Para todos eles, o capital pertence não à humanidade, mas à nação — embora, mesmo no âmbito da nação, poucos ousem sustentar que as regiões mais ricas devem ser privadas de “seus” bens de capital para auxiliar as regiões mais pobres. Os socialistas não estão dispostos a conceder ao estrangeiro aquilo que proclamam como um dever para com os seus concidadãos. De um ponto de vista coletivista coerente, os direitos dos países pobres a uma nova divisão do mundo são de todo justificados — embora, se fossem aplicados com lógica, aqueles que os reivindicam com maior insistência acabassem quase tão prejudicados quanto as nações mais ricas. Têm, por conseguinte, o cuidado de não fundamentar suas exigências em princípios igualitários, mas numa pretensa capacidade superior de organizar outros povos.

    Uma das contradições inerentes à filosofia coletivista é que, embora baseada na moral humanista aperfeiçoada pelo individualismo, só se mostra praticável no interior de um grupo relativamente pequeno. Enquanto permanece teórico, o socialismo é internacionalista; mas ao ser posto em prática, na Alemanha ou na Rússia, torna-se violentamente nacionalista. Esta é uma das razões por que o “socialismo liberal”, tal como o imagina a maioria das pessoas no mundo ocidental, é apenas teórico, ao passo que a prática do socialismo é em toda parte totalitária. No coletivismo não há lugar para o amplo humanitarismo do liberal, mas apenas para o estreito particularismo do totalitário.

    Se a “comunidade” ou o estado têm prioridade sobre os indivíduos, se possuem objetivos próprios superiores aos destes e deles independentes, só os indivíduos que trabalham para tais objetivos podem ser considerados membros da comunidade. Como consequência necessária dessa perspectiva, uma pessoa só é respeitada na qualidade de membro do grupo, isto é, apenas se coopera para os objetivos comuns reconhecidos, e toda a sua dignidade deriva dessa cooperação, e não da sua condição de ser humano. Os próprios conceitos de humanidade e, por conseguinte, de qualquer forma de internacionalismo são produtos exclusivos da atitude individualista e não podem existir num sistema filosófico coletivista.[1]

    Além do fato fundamental de que a comunidade coletivista só pode chegar até onde exista ou possa ser estabelecida uma unidade de propósitos individuais, vários elementos contribuem para fortalecer a tendência do coletivismo a tornar-se particularista e exclusivista. Destes, um dos mais importantes é que o desejo de identificação do indivíduo com um grupo resulta com frequência de um sentimento de inferioridade, e por isso tal desejo só será satisfeito se a qualidade de membro do grupo lhe conferir alguma superioridade sobre os que a este não pertencem. Às vezes, ao que tudo indica, o próprio fato de esses instintos violentos que o indivíduo é obrigado a refrear no seio do grupo poderem ser liberados numa ação coletiva contra os estranhos constitui mais um incentivo para fusão de sua personalidade com a do grupo.

    Uma profunda verdade está expressa no título do livro de Reinhold Niebuhr, Moral Man and Immoral Society (O Homem Moral e a Sociedade Imoral) — embora seja difícil aceitar conclusões a que chega a sua tese. Na verdade, como diz ele em outra obra, “o homem moderno tende a se considerar uma pessoa de moral elevada por ter delegado seus vícios a grupos cada vez mais numerosos”.[2] Agir no interesse de um grupo parece libertar os homens de muitas restrições morais que regem seu comportamento como indivíduos dentro do grupo.

    A atitude de muitos planejadores de nítida oposição ao internacionalismo explica-se também pelo fato de que, no mundo atual, todos os contatos exteriores de um grupo constituem obstáculos ao planejamento efetivo da esfera em que este pode ser empreendido. Não é, pois, mera coincidência se conforme descobriu com pesar o organizador de um dos mais abrangentes estudos coletivos sobre o planejamento, “os ‘planejadores’ são, em sua maioria, nacionalistas militantes”.[3]

    As propensões nacionalistas e imperialistas dos planejadores socialistas — muito mais comuns do que em geral se admite — nem sempre são tão flagrantes como no caso dos Webb e de alguns outros fabianos primitivos, nos quais o entusiasmo pela planificação se somava, de modo característico, à veneração para com as grandes e poderosas unidades políticas e ao desprezo pelos pequenos estados. Referindo-se aos Webb na ocasião em que os conheceu, há quarenta anos, afirmava o historiador Elie Halévy que

    seu socialismo era profundamente antiliberal. Não odiavam os conservadores, eram até muito tolerantes com eles; entretanto, mostravam-se implacáveis para com o liberalismo gladstoniano. Era no tempo da guerra dos bôeres e tanto os liberais quanto aqueles que começavam a constituir o Partido Trabalhista haviam-se alinhado aos bôeres contra o imperialismo britânico, em nome da liberdade e da humanidade. Mas os dois Webb e seu amigo Bernard Shaw não os apoiaram. Eram ostentosamente imperialistas. A independência das pequenas nações poderia ter alguma importância para um individualista liberal mas, para coletivistas como eles, nada significava. Ainda ouço Sidney Webb a explicar-me que o futuro pertence às grandes nações administrativas, onde os funcionários governam e a polícia mantém a ordem.

    Em outra parte, Halévy cita a afirmação de Bernard Shaw, mais ou menos da mesma época, de que “o mundo pertence necessariamente aos estados grandes e poderosos, e os pequenos devem ser incorporados, a eles ou esmagados e aniquilados”.[4]

    Citei por extenso essas passagens, que não deveriam surpreender num relato sobre os precursores alemães do nacional-socialismo, porque apresentam um exemplo muito característico da glorificação do poder que facilmente conduz do socialismo ao nacionalismo e que tanto influencia as concepções éticas de todos os coletivistas. No que se refere aos direitos das pequenas nações, Marx e Engels pouco diferiam da maioria dos outros coletivistas coerentes, e as opiniões que ambos expressaram ocasionalmente a respeito dos tchecos ou dos poloneses assemelham-se às dos nacional-socialistas contemporâneos.[5]

    Enquanto para os grandes filósofos sociais individualistas do século XIX, como Lord Acton ou Jacob Burckhardt, e mesmo para socialistas contemporâneos como Bertrand Russell,que herdaram a tradição liberal, o poder sempre se afigurou o supremo mal, para o coletivista puro ele é um fim em si mesmo. O próprio desejo de organizar a vida social segundo um plano unitário nasce basicamente da ambição de poder, mas não apenas disso, conforme destacou Russell com propriedade. Esse desejo resulta sobretudo do fato de que, para realizar seu objetivo, os coletivistas precisam criar um poder de uma magnitude jamais vista até hoje — poder exercido por alguns homens sobre os demais — e de que seu êxito dependerá do grau de poder alcançado.

    Isto permanece válido ainda que muitos socialistas liberais orientem suas ações pela desastrosa ilusão de que, privando os indivíduos do poder que possuem num sistema individualista e transferindo-o à sociedade, lograrão acabar com o próprio poder. O que todos aqueles que usam esse argumento esquecem é que, concentrando-se o poder de modo a empregá-lo a serviço de um plano único, ele não será apenas transferido mas aumentado a um grau infinito; e que, enfeixando-se nas mãos de um só grupo uma autoridade antes exercida por muitos de forma independente, cria-se um poder infinitamente maior — tão amplo que quase chega a tornar-se um outro gênero de poder.

    É de todo errôneo afirmar, como por vezes se faz, que o grande poder exercido por uma comissão de planejamento central “não seria maior do que o poder exercido conjuntamente pelas diretorias das empresas privadas”.[6] Numa sociedade baseada na concorrência, ninguém exerce uma fração sequer do poder que uma comissão planejadora socialista concentraria nas mãos; e se ninguém o pode empregar de modo intencional, não passa de abuso de linguagem afirmar que este se encontra nas mãos de todos os capitalistas reunidos. Falar do “poder conjuntamente exercido pelas diretorias das empresas privadas” é apenas manipular palavras, se essas diretorias não se unem para uma ação comum — o que significaria, é evidente, o fim da concorrência e a criação de uma economia planificada. Fracionar ou descentralizar o poder corresponde, forçosamente, a reduzir a soma absoluta de poder, e o sistema de concorrência é o único capaz de reduzir ao mínimo, pela descentralização, o poder exercido pelo homem sobre o homem.

    Já vimos como a separação dos objetivos políticos e dos objetivos econômicos representa uma garantia essencial da liberdade individual e como, em consequência, tal separação é atacada por todos os coletivistas. Devemos acrescentar agora que a “substituição do poder econômico pelo político”, tão demandada hoje em dia, significa necessariamente a substituição de um poder sempre limitado por um outro ao qual ninguém pode escapar. Embora possa constituir um instrumento de coerção, o chamado poder econômico nunca se torna, nas mãos de particulares, um poder exclusivo ou completo, jamais se converte em poder sobre todos os aspectos da vida de outrem. No entanto, centralizado como instrumento do poder político, cria um grau de dependência que mal se distingue da escravidão.

    Das duas características principais de todo sistema coletivista — a necessidade de um sistema de objetivos aceito por todos os membros do grupo e o desejo imperioso de conferir ao grupo o máximo de poder para realizar tais objetivos — brota um sistema moral definido, que em certos pontos coincide e em outros se contrapõe violentamente ao nosso. Dele difere, entretanto, num detalhe que torna questionável podermos aplicar-lhe o termo “morar”: tal sistema não deixa à consciência individual a liberdade de aplicar suas regras próprias, nem mesmo conhece quaisquer regras gerais cuja prática seja exigida ou permitida ao indivíduo em todas as circunstâncias. Isso torna a moral coletivista tão diferente daquilo que conhecemos como moral que é difícil encontrar nela qualquer princípio — o que, no entanto, ela possui.

    A diferença de princípio é praticamente a mesma que já consideramos em relação ao estado de Direito. Como o Direito formal, as regras da ética individualista são gerais e absolutas, por mais imprecisas que possam parecer sob certos aspectos. Prescrevem ou proíbem um tipo geral de ação, sem levar em conta se num caso específico o objetivo último é bom ou mau. Trapacear ou roubar, torturar ou trair segredos é considerado mau, apresentem ou não consequências prejudiciais em determinado caso. E sua maldade intrínseca não se altera, mesmo que em dadas circunstâncias ninguém venha a sofrer por isso, e mesmo que tais ações tenham sido praticadas em nome de um propósito elevado. Embora por vezes sejamos forçados a escolher entre dois males, estes não deixam por isso de ser males.

    Na ética individualista, o princípio de que o fim justifica os meios é considerado a negação de toda a moral. Na ética coletivista, torna-se a regra suprema; não há literalmente nada que o coletivista coerente não deva estar pronto a fazer, desde que contribua para o “bem da comunidade”, porque o “bem da comunidade” é para ele o único critério que justifica a ação. A “razão de estado”, em que a ética coletivista encontrou a sua formulação mais explícita, não conhece outros limites que não os da conveniência — a adequação do ato particular ao objetivo que se tem em vista. E o que a “razão de estado” afirma no tocante às relações entre diferentes países aplica-se também às relações entre diferentes indivíduos no estado coletivista. Não pode haver limites para aquilo que o cidadão desse estado deve estar pronto a fazer, nenhum ato que a consciência o impeça de praticar, desde que seja necessário à consecução de um objetivo que a comunidade impôs a si mesma ou que os superiores lhe ordenem.

    Dessa ausência de normas absolutas e formais na ética coletivista não se infere, naturalmente, que a comunidade não estimule certos hábitos úteis do indivíduo, e que não condene outros. Ao contrário, ela se interessará muito mais pelos hábitos individuais de vida do que uma comunidade individualista. Ser membro útil de uma sociedade coletivista requer qualidades muito precisas, as quais devem ser fortalecidas por uma prática constante. A razão por que designamos essas qualidades como “hábitos úteis”, uma vez que não é possível denominá-las virtudes morais, é que nunca se permitiria ao indivíduo colocar essas regras acima de quaisquer ordens positivas ou deixar que se tornassem um obstáculo à realização dos objetivos concretos da comunidade. Elas apenas servem para preencher as lacunas deixadas pelas ordens diretas ou pela indicação de finalidades concretas. Jamais, entretanto, poderão justificar um conflito com a decisão da autoridade.

    As diferenças entre as virtudes que continuarão a ser valorizadas num sistema coletivista e aquelas que virão a desaparecer são bem elucidadas por uma comparação entre as virtudes atribuídas aos alemães, ou melhor, ao “prussiano típico”, mesmo por seus piores inimigos, e aquelas que lhes são negadas pela opinião geral, mas que o povo inglês, com alguma razão, se orgulhava de possuir em alto grau. Poucos deixarão de admitir que os alemães, em geral, são laboriosos e disciplinados, detalhistas e enérgicos a ponto de se mostrarem insensíveis, conscienciosos e coerentes em qualquer tarefa à qual se dedicam; que possuem um acentuado senso de ordem, dever e estrita obediência à autoridade, e que muitas vezes dão provas de grande capacidade para o sacrifício pessoal e de admirável coragem diante do perigo físico. Essas virtudes fazem do alemão um instrumento eficiente na execução de uma tarefa prescrita, e todas elas foram cuidadosamente ensinadas no velho estado prussiano e no novo reich, também sob o domínio prussiano.

    O que se supõe faltar ao “alemão típico” são as virtudes individualistas da tolerância e do respeito pelos demais indivíduos e suas opiniões; o pensamento independente e aquela integridade de caráter que fazem o indivíduo defender suas convicções perante um superior — qualidades que os próprios alemães, em geral cônscios de não possuírem, chamam Zivilcourage; a consideração pelos fracos e doentes; e o saudável desprezo e antipatia pelo poder, que somente uma longa tradição de liberdade pessoal pode criar. Parece faltar-lhes ainda quase todas essas pequenas porém importantes qualidades que facilitam as relações entre os homens numa sociedade livre: a bondade e o senso de humor, a modéstia pessoal, o respeito pela privacidade e a fé nas boas intenções de seus semelhantes.

    Após tais considerações, não causará surpresa a ninguém que essas virtudes individualistas sejam ao mesmo tempo virtudes eminentemente sociais, qualidades que suavizam os contatos sociais e que tornam menos necessário, e ao mesmo tempo mais difícil, o controle que vem de cima. São virtudes que florescem onde quer que tenha prevalecido a sociedade de tipo individualista ou comercial e que, inversamente, inexistem quando predomina a de tipo coletivista ou militar — diferença que se pode (ou se podia) observar nas várias regiões da Alemanha, como agora se observa entre as ideias que reinam naquele país e as ideias características do Ocidente. Até bem pouco, pelo menos, nas regiões da Alemanha que mais longamente estiveram expostas às forças civilizadoras do comércio – as antigas cidades comerciais do sul e do oeste e as cidades hanseáticas – os conceitos éticos em geral tinham muito mais afinidade com os dos povos ocidentais do que com aqueles que hoje prevalecem em toda a Alemanha.

    Seria, no entanto, injusto considerar as massas que sustentam um regime totalitário destituídas de qualquer fervor moral só porque prestam apoio irrestrito a um sistema que a nós se afigura a negação dos melhores valores morais. Para a sua grande maioria, é justamente o contrário que se verifica: a intensidade das emoções morais em que repousa um movimento como o nacional-socialista ou o comunista talvez só possa ser comparada à dos grandes movimentos religiosos da história. Uma vez admitido que o indivíduo é simples instrumento para servir aos fins da entidade superior que se chama sociedade ou nação, manifesta-se necessariamente a maior parte dessas características dos regimes totalitários que nos enchem de horror. Da perspectiva coletivista, a intolerância e a brutal supressão da dissidência, o completo desrespeito pela vida e pela felicidade do indivíduo são consequências essenciais e inevitáveis dessa premissa básica. O coletivista pode aceitar esse fato, e ao mesmo tempo afirmar que seu sistema é superior àqueles em que se permite que interesses individuais “egoístas” criem embaraços à plena realização das metas visadas pela comunidade. Quando os filósofos alemães repetidas vezes caracterizam como imoral em si mesma a busca da felicidade pessoal e apenas digno de louvor o cumprimento do dever imposto, estão usando de completa sinceridade, por mais incompreensível que isso pareça às pessoas educadas numa tradição diferente.

    Onde existe uma finalidade comum e soberana, não há lugar para uma moral ou para normas gerais. Até certo ponto, nós próprios experimentamos isso durante a guerra. A guerra e o perigo mais grave, no entanto, levaram os países democráticos a uma situação que só de longe se assemelhava ao totalitarismo, poucas vezes prejudicando os demais valores em função de um objetivo único. Mas quando toda a sociedade é dominada por alguns fins específicos, é inevitável que, vez por outra, a crueldade se torne um dever; que ações que nos revoltam, tais como o fuzilamento de reféns ou o extermínio de velhos e doentes, sejam tratadas como meras questões de conveniência; que arrancar centenas de milhares de indivíduos de suas casas e transportá-los compulsoriamente para outro lugar se converta numa linha de ação política aprovada por quase todos, menos pelas vítimas; ou que ideias como a “conscrição das mulheres para fins de procriação” possam ser consideradas a sério. O coletivista tem sempre diante dos olhos uma meta superior para a qual concorrem essas ações e que, no seu modo de ver, as justifica, porque a busca do objetivo social comum não pode ser limitada pelos direitos ou valores de qualquer indivíduo.

    Mas enquanto para a massa dos cidadãos do estado totalitário é muitas vezes a dedicação desinteressada a um ideal — embora esse ideal nos pareça detestável — que os leva a aprovar e até a praticar tais atos, o mesmo não se pode alegar em favor dos dirigentes da política estatal. Para ser um auxiliar útil na administração de um estado totalitário não basta que um indivíduo esteja pronto a aceitar justificações capciosas de atos abomináveis. Deve estar preparado para violar efetivamente qualquer regra moral de que tenha conhecimento, se isso parecer necessário à realização do fim que lhe foi imposto. Como o chefe supremo é o único que determina os fins, seus instrumentos não devem ter convicções morais próprias. Cumpre-lhes, acima de tudo, votar uma fidelidade irrestrita à pessoa do líder; em seguida, o mais importante é que sejam desprovidos de princípios e literalmente capazes de tudo. Não devem possuir ideais próprios que desejem realizar, nenhuma ideia sobre o que é justo ou injusto que possa criar obstáculos às intenções do líder. Desse modo, as posições de mando oferecem àqueles que possuem convicções morais semelhantes às que têm guiado os povos europeus poucos atrativos que compensem a repugnância causada por muitas das tarefas a executar, e escassas oportunidades de satisfazer os desejos mais idealistas, de recompensar os inegáveis riscos, o sacrifício da maioria dos prazeres da vida privada e da independência pessoal que esses postos de grande responsabilidade sempre impõem. A única satisfação é a da ambição do poder em si mesmo, o prazer de ser obedecido e de fazer parte de uma máquina perfeita, imensamente poderosa, diante da qual tudo deve ceder.

    Por outro lado, embora pouco haja para induzir homens bons, segundo nossos padrões, a aspirar a cargos de importância na máquina totalitária, e muito para afastá-los dessas posições, haverá oportunidades especiais para os insensíveis e os inescrupulosos. Será preciso desempenhar tarefas de inegável crueldade, mas que não podem deixar de ser executadas, a serviço de alguma finalidade superior, com a mesma perícia e a mesma eficiência que quaisquer outras. Havendo, assim, necessidade de ações intrinsecamente nocivas e que todas as pessoas ainda influenciadas pela moral tradicional relutarão em fazer, a disposição para praticar tais ações converte-se no caminho da ascensão social e do poder. Numa sociedade totalitária, são numerosas as posições em que é necessário praticar a crueldade e a intimidação, a duplicidade e a espionagem. Nem a Gestapo, nem a administração de um campo de concentração, nem o ministério da Propaganda, nem a S.A. ou a S.S. (ou seus equivalentes italianos ou russos) são lugares favoráveis à prática de sentimentos humanitários. E, no entanto, é exercendo esses cargos que se chega às posições supremas no estado totalitário. É corretíssima a conclusão do ilustre economista americano que, após enumerar os deveres das autoridades num estado coletivista, afirmou:

    Eles seriam obrigados a fazer essas coisas, quisessem ou não; e é tão reduzida a probabilidade de o poder ser exercido por homens que detestem a sua posse e exercício quanto a de alguém extremamente bom e sensível vir a ser feitor de escravos.[7]

    Não nos é possível, todavia, esgotar aqui o assunto. O problema da seleção dos líderes está intimamente ligado ao amplo problema de selecioná-los segundo as opiniões que essas pessoas exibem, ou melhor, de acordo com a presteza com que se adaptam a um corpo de doutrinas em constante transformação. E isto nos conduz a um dos mais característicos aspectos morais do totalitarismo: sua relação com as virtudes que se incluem na denominação geral de veracidade e seus efeitos sobre estas. Trata-se de assunto tão amplo que requer um capítulo especial.

     


    [1] É inteiramente dentro do espírito do coletivismo que Nietzsche faz Zaratustra dizer: “Até agora mil metas existiram, porque mil pessoas existiram. Mas falta ainda o grilhão para os mil pescoços, pois ainda falta a meta única. A humanidade não tem uma meta. Mas dizei-me, ó irmãos, eu vos peço: se falta uma meta à humanidade, não é a própria humanidade que está faltando?”.

    [2] Citado de um artigo do dr. Niebuhr por E. H. Carr, em The Twenty Years’ Crisis, 1941. p. 203.

    [3] Mackenzie, F., org. Planned Society, Yesterday, Today, Tomorrow: A Symposium. 1937. p. XX.

    [4] Halévy, E. L’ère des Tyrannies, Paris, 1938, p. 217. e History of the English People, Epílogo, v. I, pp. 105-6.

    [5] Cf. Marx, Karl, Revolution and Counter-revolution, e a carta de Engels a Marx datada de 23 de maio de 1851.

    [6] Russell, Bertrand, The Scientific Outlook, 1931, p. 211.

    [7] Knight, F. H. em The Journal of Political Economy, dez. 1938, p. 869.