A ideia do socialismo — o compartilhamento comum
das propriedades produtivas e de sua produção — é tão antiga quanto os gregos.
Sua primeira concepção surgiu ainda sob Platão e
sua ideia da República ideal: nela, os guardiões vivem e trabalham comunalmente
sob a presunção de que uma mudança radical no arranjo das instituições sociais irá
transformar os indivíduos, fazendo com que eles deixassem de ser indivíduos
motivados pelo interesse próprio e se transformassem em abnegados servidores
altruístas, concentrados em satisfazer algumas necessidades prementes da sociedade
como um todo.
Isso ressalta a fundamental diferença de concepção
do indivíduo que há no liberalismo clássico e no socialismo. Teria o indivíduo
uma natureza humana básica e invariável, a qual pode ser multifacetada e
complexa, mas ainda assim invariável em certas qualidades e características? Ou
seria a natureza humana uma substância amplamente maleável e que pode ser
remodelada como uma argila nas mãos do escultor, perfeitamente adaptável a
arranjos sociais radicalmente diferentes?
Os liberais clássicos sempre argumentaram em prol
da primeira, afirmando que os seres humanos basicamente são aquilo que são:
seres razoavelmente sensatos, dotados de interesse próprio, e movidos pelo
objetivo de melhorar sua situação pessoal e material, sendo que essa melhoria é
definida diferentemente por cada um.
Para os liberais clássicos, o dilema social para
uma sociedade humana, justa e amplamente próspera é: como estimular uma ordem
institucional política e econômica que faça com que aquela invariável qualidade
da natureza humana seja usada para estimular o aperfeiçoamento humano geral em
vez de ser transformada em uma ferramenta de esbulho.
A resposta liberal-clássica para esse dilema é
basicamente o sistema proposto por Adam Smith: a liberdade natural com sua ordem
baseada em um mercado livre, aberto e concorrencial.
Sob este arranjo, mesmo o mais egoísta e insensível dos indivíduos terá
— para alcançar seus objetivos — inevitavelmente de beneficiar
terceiros no mercado, fornecendo-lhes bens e serviços, e esperando que estes,
voluntariamente, consumam estes bens e serviços. E para que consumam estes
bens e serviços fornecidos pelo egoísta, estes têm de ser de qualidade.
Desta forma, o egoísmo do indivíduo é domado e
direcionado para a cooperação com terceiros, fornecendo-lhes mais opções de
consumo e bem-estar, e beneficiando-lhes como resultado desta interação. Assim, uma economia de mercado é capaz de
domar as pessoas mais egoístas, ambiciosas e talentosas da sociedade, fazendo
com que seja do interesse financeiro delas se preocuparem dia e noite com novas
maneiras de agradar terceiros.
Já os membros daquele
movimento que surgiu no fim do século XVIII e início do século XIX, e que viria
a ser o movimento socialista, argumentavam exatamente o oposto. Eles insistiam
que se os indivíduos fossem egoístas, gananciosos, indiferentes e insensíveis
às circunstâncias de seus semelhantes, tudo era causado pela instituição da
propriedade privada e pelo sistema de associação humana baseada no mercado, o
qual era gerado pela propriedade privada.
Para eles, mudar a ordem
institucional na qual os seres humanos vivem e trabalham criaria um "novo
homem".
Com efeito, eles
defendiam, como sendo o supremo ideal da sociedade humana, um mundo no qual o
indivíduo viveria e trabalharia apenas em prol do coletivo, da sociedade como
um todo, e não visando a melhorar a sua situação e as suas próprias
circunstâncias. Para os socialistas, o indivíduo que age visando a melhorar a
sua situação está fazendo à custa de todos os outros da sociedade. O socialismo, portanto,
dizia proclamar a ética do altruísmo.
A literatura socialista
é variada e os defensores do coletivismo não concordam entre si quanto à
sociedade ideal. Alguns ansiavam por um paraíso mais agrário e rural; outros
contemplavam um futuro industrial para a humanidade no qual a produtividade
teria alcançado um ponto em que as máquinas fariam virtualmente todo o
trabalho. Em todas essas versões, porém, a humanidade estaria livre — e aqui
recorro a uma versão das imagens de Karl Marx — para caçar pela manhã, pescar
à tarde, e sentar-se perante a lareira à noite para discutir filosofia
socialista com outros camaradas, os quais também teriam sido libertados do
fardo do trabalho e da preocupação.
E tudo isso seria
possível pela abolição da escassez, uma façanha criada pela adoção do paraíso
na terra: o socialismo.
Mudar a natureza humana requer uma "ditadura
do proletariado"
Mas o cerne da concepção
desta chegada do paraíso socialista na terra é o de que a natureza do homem
pode e deve ser mudada.
Em alguns escritos de
Karl Marx ele de fato chega a discutir sobre as instituições e o funcionamento
da sociedade socialista que surgiria após a derrubada do capitalismo. Um destes
escritos é a sua obra de 1875, Crítica do
Programa de Gotha, referente à agenda política de um grupo socialista rival
do qual Marx discordava profundamente.
O dilema, explicava
Marx, é que, mesmo após a abolição do sistema capitalista, ainda haveria alguns
resíduos deste sistema, os quais poderiam contaminar a nova sociedade
socialista e, assim, atrapalhar todos os esforços. Primeiro, haveria as sobras humanas
do agora descartado sistema capitalista. E dentre estas sobras humanas estarão
aqueles que irão querer restaurar o sistema de exploração do proletariado
visando aos seus próprios lucros imerecidos. Igualmente problemático seria o
fato de que a "classe trabalhadora", embora agora libertada da "falsa
consciência" de que o sistema capitalista — sob o qual ela foi explorada —
era justo, ainda carregaria consigo resquícios daquela psicologia capitalista que
visa ao interesse próprio e aos ganhos pessoais.
Consequentemente, seria
necessário criar — e dotar de plenos poderes — uma "vanguarda revolucionária"
composta exclusivamente por socialistas dedicados, visionários e
ideologicamente inflexíveis, os quais liderariam "as massas" rumo ao belo e
brilhante futuro do socialismo. E os meios institucionais de se fazer isso,
disse Marx, seria pela "ditadura do proletariado".
Em outras palavras, para
que as massas sejam libertadas daquela mentalidade individualista e capitalista
— que dominava o mundo no qual nasceram e que os forçou a agir segundo seus
próprios interesses —, elas terão de ser "reeducadas" por uma elite política iluminada,
onisciente e, principalmente, auto-nomeada para a função. Essa elite seria
composta por indivíduos que já conseguiram libertar suas próprias mentes da
falsa consciência de classe criada pelo capitalismo no passado.
Em nome da nova era da
"liberdade socialista", portanto, será necessário haver o reinado de uma
ditadura comandada por homens que sabem como a humanidade deve pensar, agir e
se associar — tudo isso enquanto se preparam para a chegada do comunismo pleno,
o qual inevitavelmente aguarda toda a humanidade.
Ao mesmo tempo, a
ditadura é necessária para suprimir não só toda e qualquer tentativa dos
antigos exploradores capitalistas de restaurar seu já findado poder sobre as —
agora socializadas — propriedades que a eles pertenciam, como também para
suprimir as vozes do passado capitalista, as quais devem ser impedidas de se
manifestar, pois elas falariam apenas mentiras interesseiras sobre por que a
liberdade individual é moralmente correta, ou por que a propriedade privada
traz melhorias para todas em uma sociedade (inclusive para os trabalhadores),
ou por que a liberdade significa aquelas virtudes "burguesas" como liberdade de
imprensa, de expressão ou de religião.
As massas, em suma,
devem ser doutrinadas e inculcadas com a "verdadeira" consciência, a saber: que
a liberdade significa propriedade coletiva dos meios de produção e a abnegada
dedicação de cada indivíduo aos interesses do coletivo. E quais são os
"interesses do coletivo"? Qualquer coisa que a vanguarda socialista
revolucionária que está no comando determinar.
Isso também explica por
que a fase socialista da "ditadura do proletariado" — a qual antecede o
comunismo pleno — jamais chegou ao fim em qualquer regime revolucionário de
inspiração marxista que foi tentado ao redor do mundo nos últimos cem anos. A
natureza humana não é algo que pode ser remodelada como argila, de modo a
adquirir uma nova forma e conteúdo. Humanos não são seres autômatos programados
para ser eunucos desinteressados, desprendidos e puramente altruístas.
Consequentemente, o
interesse próprio sempre comandará as condutas de cada indivíduo. Logo, se o
objetivo é abolir tal comportamento, então é necessário haver uma força
política altamente violenta e dotada de um grande poderio militar para
continuamente reprimir esta inevitável manifestação do comportamento humano,
tentando constantemente extingui-lo.
Adicionalmente, enquanto
houver inimigos capitalistas em qualquer lugar ao redor do mundo, a ditadura do
proletariado terá de ser isolada e preservada do contato externo para garantir
que as mentes reeducadas das massas que tiveram a sorte de viver sob o
socialismo não voltem a ser infectadas pelas idéias capitalistas que estão
vindo de fora do paraíso coletivista popular. Logo, uma "cortina de ferro" de
censura e controle de pensamento torna-se necessária nas regiões marxistas do
mundo, para o bem das pessoas sob o controle da vanguarda revolucionária.
O planejamento econômico socialista equivale
a controlar pessoas
Tão logo a propriedade
privada é abolida por meio da socialização dos meios de produção e colocada sob
o controle e a direção do governo socialista, criar um plano econômico
centralizado passa a ser essencial. Dado que agora não há empreendedores
individualistas no comando de empresas privadas, produzindo para satisfazer os
consumidores, sendo movidos pelo lucro e sendo guiados pelo sistema de preços,
então alguém terá de determinar o que será produzido, onde, como, em que
quantidade, e para quais propósitos.
A direção dos meios de
produção coletivizados "pelo povo" requer um planejamento centralizado, o qual
terá de decidir todos os detalhes de absolutamente cada processo de produção. Em
seguida, terá de impor essas suas decisões sobre cada indivíduo, e tudo para o
bem da sociedade como um todo. Isso significa que não só objetos como madeira e
aço terão seu uso estipulado para cada setor específico da sociedade
socialista, como também cada pessoa será direcionada pela vanguarda
revolucionária para trabalhar em um setor específico. As agências estatais de
planejamento centralizado irão determinar quais pessoas serão direcionadas para
quais habilidades e especialidades, onde elas serão empregadas e quais
trabalhos farão.
Em suma, é a vanguarda
revolucionará quem decidirá o que cada indivíduo deve fazer, e não o próprio. Consequentemente,
trabalhadores serão alocados para trabalhar em áreas nas quais não possuem
nenhuma vantagem comparativa. Agricultores serão enviados para trabalhar
em fábricas, alfaiates serão enviados para trabalhar em minas e advogados trabalharão
na produção de tratores. Vários trabalhadores estarão em linhas de produção
erradas tendo de lidar com máquinas e ferramentas que desconhecem.
E dado que o estado lhe
educou, lhe atribuiu um trabalho e passou a ser seu único empregador, ele
também irá determinar onde você irá morar: não somente a cidade ou vilarejo,
mas também em qual apartamento de um conjunto residencial construído pelo
estado. Instalações recreativas, locais de descanso e férias, quais bens de
consumo serão produzidos e distribuídos onde e para quem: tudo isso será
determinado centralizadamente pelas agências de planejamento socialista, e
sempre de acordo com as ordens da ditadura do proletariado.
Absolutamente nenhum
aspecto da vida cotidiana — sua forma, conteúdo, qualidade ou características —
estará livre do controle e das determinações do abrangente e todo-poderoso
estado socialista. Sua forma e implantação serão, inevitavelmente e por definição,
totalitárias.
Atribui-se a Benito
Mussolini, o pai do fascismo, a frase que diz que "totalitarismo" significa "tudo
dentro do estado, nada contra o estado, nada fora do estado". No entanto, em
nenhum regime isso foi mais explícita, coerciva e insistentemente imposto do
que nos países socialistas.
Além de altamente
homicida, o socialismo é uma ideia falida, tanto na teoria quanto na prática.
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