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quarta-feira, 20 de setembro de 2023

As instituições contra as instituições

Escrevi recentemente sobre o “salvamento eterno da democracia”, isto é, sob o arbítrio sendo usado a torto e direito para supostamente proteger as instituições e preservar a democracia. São tempos em que as pessoas se sentem compelidas a adotar um pudor desmedido e impróprio ao tecer críticas às instituições, em especial ao STF, pois o menor “deslize” verbal basta para que sejam rotulados e responsabilizadas como golpistas ou mesmo terroristas. Mas se com o cidadão comum (aquele que paga os salários e benesses pornográficas dos nossos “salvadores”) o tom é esse, quando os próprios atores institucionais são os algozes das instituições a coisa é muito diferente. Não surpreende, afinal, somos quase todos cidadãos de segunda classe nesse país e a mão que segura o porrete contra a arraia-miúda é a mesma que acaricia o ego dos elementos que diuturnamente vilipendiam a democracia.

Comecemos com o vitimismo petista. Como sabemos, em 2016 Dilma foi institucionalmente defenestrada do Planalto em um processo que os petistas se seus sequazes se habituaram a chamar de golpe. O fato novo é, de volta ao poder, o PT tentar oficialmente reescrever a história e dar a um processo legítimo, legal e democrático, a pecha histórica de golpe. Com base em uma decisão do TRF-1 que arquivou uma ação de improbidade a bancada do partido apresentou um projeto que visa a anulação do impeachment de Dilma e a devolução simbólica de seu mandato. Antes de tudo, improbidade é uma coisa, irresponsabilidade fiscal é outra e se a existência da primeira não era competência do Congresso decidir, tão pouco a segunda seria de competência do TRF-1 ou qualquer outro tribunal.

A todos é lícito discordar das razões e do resultado do impeachment — a despeito das evidências inelutáveis de que o crime de responsabilidade ocorreu —, mas tratou-se de um processo de natureza jurídico política que seguiu um rito estabelecido pelo STF (incluindo o óbice inconstitucional de dar também ao Senado, além da Câmara, o poder de admissibilidade da abertura do processo) e que foi admitido e aprovado pelo Congresso, democraticamente eleito, isso sem falar dos milhões de brasileiros que em diferentes ocasiões foram às ruas pedir por aquele desfecho. Chamar o impeachment de golpe é, necessariamente, chamar a todos os atores envolvidos, tanto Congresso quanto STF, de golpistas. Não deveria, diante de tão grave ofensa às instituições nossos eternos vigilantes responder de prontidão e com aquela mesma “virilidade” com a qual lidam com cidadãos indefesos? Se a mera divulgação de supostas fake news que desabonariam a honra do STF e do TSE é o suficiente para banir personalidades da vida pública, não só suspendendo suas redes sociais mais proibindo mesmo a criação de outras, o que falta para que se movam contra estes baderneiros, incluindo o próprio presidente Lula, que vive a chamar o impeachment de golpe e, por consequência, o Congresso e o STF de golpistas? É que, como logo nos recorda Dias Toffoli, é forçoso concluir que não há como derivar qualquer caráter universalista do arbítrio e das narrativas espúrias. Também importam mais quem são os ofensores muito mais do que a natureza do ataque proferido contra as instituições. Aí da dona Maria ou do seu João, se sugerirem que não creem da isenção do TSE e STF. Mas se você é um ministro da própria suprema corte, tudo bem acusar vários atores institucionais, em três instâncias diferentes do poder Judiciário, além do próprio Ministério Público, de agir parcialmente e promover perseguição política. Novamente, ele não diz isso literalmente, mas é a consequência inelutável do que diz.

Numa canetada Toffoli anulou todas as provas do acordo de leniência da Odebrecht, um dos mais célebres no âmbito da Operação Lava Jato. O acordo havia sido firmado em 2016 e envolveu o MPF, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e a Procuradoria-Geral da Suíça. O valor de 3,5 bilhões de dólares pagos pela empreiteira foi considerado na época a negociação do gênero mais elevada da história. Nele, a empresa admitiu o pagamento de propina a autoridades, não só do Brasil, mas em um total de 12 países. Vale lembrar que a empresa mantinha o famoso “Setor de Operações Estruturadas”, um setor da empresa dedicado exclusivamente ao pagamento de propinas.

Mas Toffoli foi além e, como já está se tornando praxe em decisões da suprema corte, escreveu em tom panfletário que para além de “um dos maiores erros jurídicos da história do país” a prisão de Lula “tratou-se de uma armação fruto de um projeto de poder de determinados agentes públicos em seu objetivo de conquista do Estado por meios aparentemente legais, mas com métodos e ações contra legem.” E na mesma toada: “Digo sem medo de errar, foi o verdadeiro ovo da serpente dos ataques à democracia e às instituições que já se prenunciavam em ações e vozes desses agentes contra as instituições e ao próprio STF. Ovo esse chocado por autoridades que fizeram desvio de função, agindo em conluio para atingir instituições, autoridades, empresas e alvos específicos.

Acusa-se as autoridades envolvidas na condenação e prisão de Lula basicamente de golpistas ou de aspirantes a isso, e para que não reste dúvidas: “se usou de um cover-up de combate à corrupção, com o intuito de levar um líder político às grades, com parcialidade e, em conluio, forjando-se “provas”. Lula, é claro, desponta na narrativa do ministro como uma vítima, mesma posição ocupada por Dilma na narrativa petista. Quem seriam então as autoridades envolvidas em tal maquiavélico estratagema? Um exercício de lógica demonstra que Moro e Dallagnol são uma resposta muito insuficiente. A condenação de Lula foi mantida por “unanimidade” pela 8ª turma do Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF-4) e novamente confirmada em terceira instância, também por unanimidade, pela 5ª turma do STJ. É forçoso concluir que, aceitando-se a lógica do ministro, todos os atores envolvidos no processo, incluindo não só Moro, mas também o MPF e as respectivas turmas do TRF-4 e STJ foram artífices e partícipes da tal armação e foram eles mesmos aqueles que plantaram o “ovo da serpente dos ataques à democracia e às instituições”.

Qual dos “salvadores” acusará Toffoli de atacar ou descredibilizar as instituições? Ora, desde que poupe o STF e o TSE, que se imploda o resto das instituições, mesmo do próprio Judiciário, não é mesmo? Mas a lógica não nos permite isentar a nobre suprema corte de seu papel no “complô”, afinal, foi ou não foi ela que negou em 2018 habeas corpus preventivo a Lula, permitindo, portanto, sua prisão, o que também só foi possível por ter a mesma corte alterado seu entendimento em 2016 (que seria novamente alterado em 2019) e permitido o cumprimento da pena a partir da condenação em segunda instância? Pensaria Toffoli, que votou pela concessão do habeas corpus, que seus pares divergentes eram agentes do caos? Não pensando, onde está, na digressão do ministro a mea culpa em nome da egrégia casa que integra?

Ora, não sou dos que se esquivam de tecer críticas, quando bem apropriadas, à Operação Lava Jato. Ela cometeu abusos sim, abusos que, como já se poderia imaginar, acabaram sendo usados como motivo (ou desculpa) para não só descredibilizar a operação, mas para anular suas provas. Agora, duas coisas precisam ser esclarecidas: a) os equívocos cometidos não significam, como querem alguns, que a corrupção não ocorreu e que a investigação e condenação dos envolvidos não era necessária; b) a 13ª Vara Federal de Curitiba, como já demonstrado, não é a única personagem da operação e no elenco figura o próprio STF. Uma leitura atenta ao artigo 218 do Código de Processo Penal demonstra que a famosa condução coercitiva de Lula, por exemplo, realmente estava em desacordo com a lei. Contudo, apenas no final de 2017, quase quatro anos após o início da Lava Jato, mais de um ano e meio após a condução coercitiva de Lula e de o PT ter ingressado com uma ação no STF para barrar tais procedimentos, na forma como eram feitos, e já tendo sido realizadas cerca de 222 conduções coercitivas no âmbito da operação, Gilmar Mendes baniu esse tipo de procedimento para investigados (seguido depois pela maioria do plenário). Um detalhe é que a validade dos interrogatórios anteriores, obtidos por meio desse mecanismo, foi mantida.

É muito fácil esquecer os fatos quando se tenta reescrever a história e ser, literalmente, o salvador da pátria. Mas a memória do povo não é tão curta quanto supõe aqueles que acham que só “extremistas” que criticam suas ações. As contradições elencadas e muitos tantas outras do repertório atual, só podem fazer dirimir a confiança das pessoas nas instituições. E como seria de outro modo, quando assistimos ao ministro da Justiça, Flávio Dino, com toda naturalidade dizer que a Polícia Federal está a serviço da “causa” de Lula? Pior, diz isso em cerimônia de encerramento dos cursos de formação profissional da Polícia Federal, voltado diretamente para Lula com reverência e olhos de menina apaixonada? Não é de surpreender, já que Dino faz questão de rotineiramente dizer em suas redes sociais que “determinou” que a PF investigasse isso ou aquilo.

Pensávamos nós, a arraia miúda, que a PF era uma instituição de Estado e que pretender coloca-la a serviço de um governo, isto é, atribuir a ela uma atuação política seria algo escandaloso. Mas, que sabemos nós? Que direito nós temos de escrutinar nossos agentes públicos? Nosso estimado presidente acredita que, no que tange ao Olimpo togado, pelo menos, nenhum, e defende que os votos dos ministros do STF sejam secretos, com intenção que não outra que não possam ser criticados ou mesmo responsabilizados por suas decisões. A sugestão de Lula supostamente visaria fomentar o respeito as instituições e o bem-estar dos ministros (coitadinhos): “Do jeito que vai, daqui a pouco um ministro da Suprema Corte não pode mais sair na rua, não pode mais passear com a sua família, porque tem um cara que não gostou de uma decisão dele“. Por enquanto trata-se de uma ideia bizarra e heterodoxa, mas em linha com o que estamos vendo e vivendo, sequer nos parece surpreendente que alguém avente isso. Se por um lado a corte maior tem confesso ativismo e suplanta diuturnamente a função dos legisladores, na outra, pensam nossos salvadores, que devem estar imunes a todo ônus imposto a quem atua politicamente, incluindo o escrutínio.

Será que realmente pensam eles, em seus delírios megalomaníacos, que estão fomentando o respeito às instituições? Será que pensam que o povo é realmente tão estúpido a ponto de não enxergar suas contradições? Hoje, no Brasil, os maiores algozes das instituições são alguns de seus atores institucionais, quando não uma instituição inteira, a exemplo do STF, quando se põe a agir de forma corporativista. Em que pesem as narrativas apelativas, hoje não são baderneiros e depredadores os maiores inimigos da ordem institucional. Os baderneiros destruíram espaços físicos das instituições (o que, claro, é inadmissível), mas os “salvadores” destroem algo muito maior: o próprio espírito institucional e com ele a confiança do cidadão, confiança essa que, para ser legítima, não pode ser imposta no grito e na coerção, mas deve ser ganhada, merecida e mantida dia após dia.

Os espaços físicos podem ser reconstruídos, mas como reconstruir o espírito institucional e merecer a confiança popular? Não subestimo seus intelectos a ponto de acreditar que eles de fato não saibam nada disso. Sabem, apenas não se importam. Quando o membro mais ilustre dessa nova ordem pseudo democrática diz que aqueles que não gostam do STF são “extremistas”, fica explícita não só a indiferença, mas o fato de que não há pudor em tratar cidadãos, tão somente por suas opiniões e críticas, como inimigos. Bom, com essa rotulação elástica, devo dizer que podem me incluir dentro da dita “minoria extremista”. Não trabalhamos o que trabalhamos para sustentar o Estado brasileiro para ainda ter que aturar sermos chamadas de extremistas por termos sentimentos negativos diante de decisões que reputamos absurdas, daqueles cujos salários e benesses pagamos e que, se ainda há um resquício de Constituição nesse país, respondem a nós, e não o inverso.

Fonte:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2023/08/29/pt-pede-anulacao-de-impeachment-e-devolucao-do-mandato-de-dilma-de-forma-simbolica.htm

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/alexandre-de-moraes-determina-bloqueio-de-perfis-de-influenciador-monark/

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/acordo-da-odebrecht-e-o-maior-do-mundo-e-tem-provas-de-corrupcao-em-12-paises/

https://www.poder360.com.br/justica/prisao-de-lula-foi-armacao-diz-toffoli-ao-anular-acordo-da-odebrecht/

https://www.trf4.jus.br/trf4/controlador.php?acao=noticia_visualizar&id_noticia=13418

https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/04/23/maioria-da-5a-turma-do-stj-mantem-condenacao-mas-vota-pela-reducao-da-pena-de-lula.ghtml

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43639714[

https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10661355/artigo-218-do-decreto-lei-n-3689-de-03-de-outubro-de-1941

https://g1.globo.com/politica/noticia/gilmar-mendes-profere-decisao-em-que-considera-a-conducao-coercitiva-inconstitucional.ghtml

https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/gilmar-deve-se-posicionar-contra-conducao-coercitiva-para-investigados.html

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2016/04/12/interna_politica,752145/pt-questiona-no-supremo-legalidade-da-conducao-coercitiva.shtml

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/flavio-dino-diz-que-policia-federal-esta-a-servico-da-causa-de-lula-e-do-brasil/

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/lula-defende-voto-secreto-de-ministros-do-stf-apos-criticas-da-esquerda-a-zanin,0be22a043a0006434175a206d65a5b4brnmji66j.html

https://www.metropoles.com/colunas/paulo-cappelli/minoria-stf-rebate-moraes

A REVOLUÇÃO FARROUPILHA 1835 – 1845

 A Revolução Farroupilha 1835 – 1845

Generalidades

De 1835 a 1845, teve lugar no Rio Grande do Sul, a Revolução Farroupilha. Foi o resultado, segundo interpretações dominantes, de insensibilidade política do governo central e intolerância do provincial, em defesa de interesses do que, na época eram, classificados de "galegalidade", ou a lei dos galegos ou portugueses, que ainda exerciam grande influência no Brasil, em que pese a Independência, em 7 de setembro de 1822.

A Revolução iniciou em 20 de setembro de 1835, com a conquista farrapa de Porto Alegre e, com ela, o longo processo revolucionário gaúcho que teve seu epílogo, segundo Osório Santana Figueiredo, em 20 de setembro de 1932, no combate de Cerro Alegre, em Piratini, com a prisão, seguida de exílio em Pernambuco, do Dr Augusto Borges de Medeiros.

Foi liderada pelo então Coronel de Estado-Maior do Exército Bento Gonçalves da Silva, na ocasião, Comandante Superior da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul.

A Farroupilha foi também a revolta da maior guarnição do Exército Imperial, depois da do Rio, em aliança com a Guarda Nacional e forças econômicas (fazendeiros e charqueadores), como protesto pelas discriminações feitas ao Exército e seus membros.

Os fazendeiros e charqueadores foram à luta em protesto contra os escorchantes impostos sobre o charque exportado e légua de campo. Desse modo, o charque gaúcho não podia competir com o charque produzido no Rio da Prata. O ônus caíra mais pesado sobre o Rio Grande do Sul .

Os líderes militares dessa Revolução saíram de comandos de Unidades do Exército: Bento Gonçalves, Bento Manuel, José Mariano de Matos, João Manoel de Lima e Silva (tio de Caxias).

Esta Revolução consagraria Caxias, aos 37 anos, como pacificador da família brasileira, bem como como estrategista e tático consumado.

As operações em nível estratégico se desenvolveram em 5 fases distintas, com o apoio na análise crítica das seguintes obras do Coronel Cláudio Moreira Bento. História da 3ª RM 1809-1953 e Antecedentes. Porto Alegre: 3a RM – SENAI, 1995. v.1 : O Exército Farrapo e os seus chefes. Rio de Janeiro: BIBLIEx, 1992. 2 v. e Porto Alegre, Memória dos sítios farrapos e da administração de Caxias. Brasília: EGGCF, 1989.

1ª fase (20 de setembro de 1835 - 15 de janeiro de 1836) Vitória da Revolução:

Constituiu-se na tomada e posse de Porto Alegre pelos revolucionários, em 20 de setembro de 1835, seguida de diversas ações para superar reações apresentadas pelo governo em Rio Pardo, São Gabriel, Pelotas, São José do Norte, Rio Grande e Colônia São Leopoldo, no mês de outubro.

Ao final do mês, as primeiras lideranças militares contra a Revolução haviam sido neutralizadas ou obrigadas a imigrar. O presidente da Província, deposto, havia se dirigido ao Rio de Janeiro. Ficou assim todo o Rio Grande do Sul em poder dos revolucionários, que colocaram na Presidência da Província o Dr. Marciano Ribeiro (médico mineiro), Deputado e, no local do comandante das Armas, o Cel. Bento Manuel Ribeiro, então Coronel  de Estado-Maior do Exército, há pouco destituído do comando da Fronteira do Rio Pardo.

2ª fase (15 de janeiro de 1835 - 28 de março de 1837) a República Rio-Grandense proclamada é obrigada a emigrar:

Com a nomeação do novo Presidente da Província, Dr. Araújo Ribeiro, pelo governo Central, esta autoridade assumiu o governo na cidade do Rio Grande, em 15 de janeiro de 1836, ponto estratégico militar que retornou ao controle do governo Central por meio de hábil manobra política.

Nessa fase ocorreu a perda definitiva de Porto Alegre por parte dos revolucionários, em 15 de julho de 1836, reconquistada num ousado golpe de mão pelo então Maj Manuel Marques de Souza, futuro Conde de Porto Alegre, seguido da prisão dos líderes revolucionários em Porto Alegre, que foram enviados para o Rio de Janeiro e confinados na Fortaleza de Santa Cruz .

Isso provocou a desistência de João Manoel de investir Rio Grande e, pouco depois, a prisão de Bento Gonçalves, em 4 de outubro de 1836, na ilha de Fanfa. Esse fato ocorreu quando Bento Gonçalves se retirava de Porto Alegre, numa frustrada tentativa de reconquistar aquela capital ou mantê-la sob sítio terrestre.

Nesse quadro extremamente adverso, o Coronel Antônio de Souza Netto, com sua Brigada Liberal, bateu em Seival, em 10 de setembro de 1836, a força legal do Coronel João da Silva Tavares, proclamando no dia seguinte, em Campo do Menezes, a República Rio Grandense, logo reconhecida pela Câmara de Jaguarão e, a seguir, pela de Piratini.

Pressionado por Bento Manuel, os chefes João Manuel e Antônio Netto reuniram suas forças em Piratini, na Serra dos Tapes, escolhida capital da República Rio-Grandense, para aí instalarem e estruturarem seu Exército.

Em 10 de dezembro de 1836, sob pressão de Bento Manuel, a República Rio-Grandense e o seu Exército foram obrigados a se internarem no Uruguai, deixando o Rio Grande sob o controle militar dos imperiais. Bento Gonçalves foi escolhido o Presidente da República e Comandante em Chefe de seu Exército, quando se encontrava preso no Rio de Janeiro.

Assumiu a liderança militar farrapa o Coronel Antônio Netto, em substituição ao primeiro general da República - João Manoel Lima e Silva, que se internou no Uruguai para tratar de ferimento no rosto, recebido no combate de São Gonçalo, de 2 de junho de 1836, em Pelotas. Já se assinalava, pois, nessa altura, reação a sua liderança militar, por condições de saúde precárias.

3ª fase (28 de março de 1837 - 18 de julho de 1839) Retorno da República do Uruguai:

Desinteligências entre o Presidente da Província, Brigadeiro Antero Ferreira Brito, e o Comandante das Armas o Coronel Bento Manoel Ribeiro, terminaram por modificar o curso da revolução.

O Presidente saiu de Porto Alegre para prender e destituir o Comandante das Armas. Mas este antecipou-se e prendeu o Presidente, em 28 de março de 1837, no Passo de Itapevi, em Alegrete.

Assim, Bento Manoel, pela segunda e última vez, passou-se para o lado republicano, para onde levou a vitória, como fiel da balança e novo ponto de inflexão da guerra em favor da Revolução.

Os republicanos, então, retornaram ao Rio Grande. Restabeleceram a capital em Piratini, conquistaram Caçapava em 8 de abril de 1837 e colocaram sob sítio, em 13 de maio de 1837, a capital de Porto Alegre. Este sítio se prolongaria por três anos. Conquistaram Triunfo, em 15 de agosto. Três dias depois, em São Borja, teve lugar a morte brutal, depois de emboscado e torturado, do General João Manoel Lima e Silva, aos 32 anos. Era tio, reptimos, do futuro Duque de Caxias.

4ª fase (18 de julho de 1839 - dezembro de 1842) Declínio da República Rio-Grandense:

O ano de 1839 terminou para os republicanos com derrota naval em Laguna, em 15 de novembro de 1839, e com a vitória terrestre de Santa Vitória (Bom Jesus), 14 de dezembro de 1839, em que forças retirantes de Santa Catarina, ao comando do Coronel Joaquim Teixeira Nunes, e "a maior lança farrapa" (Tasso Fragoso), bateram e dispersaram a Divisão Paulista, ou Divisão da Serra, que invadira o Rio Grande, a partir de Lages, em Santa Catarina, em apoio ao Rio Grande, para levantar-se o sítio de Porto Alegre. Mesmo assim, o sitio republicano consolidou-se.

O grande endividamento interno e externo da República abalou seu crédito por esta época, com reflexos negativos no apoio logístico à guerra e na unidade do movimento. Tiveram então lugar as primeiras gestões visando à pacificação. Circunstância coincidente com a maioridade de D. Pedro II.

Em 14 de maio de 1841, Bento Gonçalves reassumiu a presidência em São Gabriel.

Assumiu a Presidência do Rio Grande e o Comando das Armas o General Soares Andréa, o futuro barão de Caçapava. Concentrou seu esforço em obrigar os republicanos a levantar o sítio de Porto Alegre.

As revoluções liberais de Minas Gerais e São Paulo haviam trazido um alento moral aos republicanos. Mas esse espírito pouco perdurou, pois a discórdia entre os republicanos já começara a lavrar. Discórdia que se evidenciou, mais tarde, na instalação da Assembléia Constituinte, em Alegrete, em 1º de dezembro de 1842, ocorrida cerca de 20 dias depois de Caxias haver assumido, em Porto Alegre, a Presidência da Província, cumulativamente com o Comando da Armas.

5ª fase - A pacificação do Rio Grande do Sul

 

A Revolução Farroupilha 1835-1845

5ª fase - A pacificação do Rio Grande do Sul - (5 de novembro de 1842 - 1º de março de 1845)

Ao assumir a Presidência e o Comando das Armas, em 9 de novembro de 1842, em Porto Alegre, Caxias, precedido da justa aura de Pacificador do Maranhão, de São Paulo e Minas Gerais, encontrou o seguinte quadro estratégico:

A tropa a seu comando, forte de 11.500 homens, mantinha grandes efetivos no corte de São Gonçalo, face a Pelotas, e em Porto Alegre e Rio Pardo. 

O grosso dela acampava no estratégico Passo de São Lourenço, no rio Jacui, a montante de Cachoeira do Sul.

Era passo chave para o ingresso na Campanha Rio-Grandense e nas Missões. Já fora usado, para concentrar o Exército Demarcador de Gomes Freire, na Guerra Guaranítica (1754-56), pelo marquês de Barbacena; para concentrar o Exército do Sul, depois de Passo do Rosário - 20 de fevereiro de 1827 e mais pelo geral. João Paulo, em 1841, para investir na Campanha.

O grosso estava desmontado, mas refeito logisticamente da desgastante expedição do General João Paulo. A Marinha exercia pleno domínio das águas navegáveis do Rio Grande: Lagoas dos Patos e Mirim e rio Jacui, etc.

Os republicanos dominavam a Campanha e as Missões com cerca de 3.500 homens. Estavam com o controle de quase todas as cavalhadas da província e fechavam as fronteiras do Uruguai e da Argentina ao recebimento de cavalos pelas Forças Imperiais .

Nas Missões, com base em São Borja, atuava o Coronel Joaquim Teixeira Nunes, e, com base em Cruz Alta, o Tenente-Coronel Gomes Portinho. Em Cima da Serra, atuavam contigentes republicanos esparsos.

O plano estratégico de Caxias

Caxias iniciou a campanha transportando, por terra, 7.000 cavalos de Rincão dos Touros, em Rio Grande, após fixar Netto em Piratini e Canabarro, face ao Passo Lourenço. A montante de Cachoeira do Sul.

Atravessou o São Gonçalo no Passo da Barra. Depois de costear a Lagoa dos Patos e o rio Jacui, por cerca de 80 léguas, atingiu o Passo São Lourenço.

Caxias desenvolveu esforços nos seguintes pontos, o que conseguiu plenamente, em que pese desgastante e persistente ação do Exército da República, sob a liderança de Canabarro, de desgastar e evitar o combate: (Guerra à gaúcha).

1. Conquistar superioridade em cavalhadas, relativamente aos republicanos e, com isto, superá-los em mobilidade ou capacidade de manobrar; (O transporte aqui se enquadra);

2. Ocupar as povoações na Campanha e Missões com Infantaria e Policia, e fortificá-los, se necessário, com trincheiras – caso de Canguçu – ou com fortes – caso de São Gabriel (Forte Caxias) e Santa Maria (Forte da Imperatriz);

3. Melhorar as fortificações de Rio Grande e Porto Alegre (Bases navais e terrestres);

4. Abrir as fronteiras nos rios Uruguai e Quarai e, em Santana do Livramento, ao recebimento de cavalos adquiridos no Uruguai e Argentina;

5. Fechar estas fronteiras para o mesmo fim aos republicanos;

6. Fazer transportar sua Infantaria a cavalo e abrir mão da Artilharia de Campanha, para maior mobilidade, conservando-a em sua Divisão;

7. Com o concurso dos caudilhos Oribe e Rosas, fechar as fronteiras, em Santana e nos rios Quaraí e Uruguai, às imigrações dos republicanos;

8. Estimular, no Rio Grande, no Uruguai e na Argentina, a reação e cooperação econômica e militar de imperiais ou dissidentes dos republicanos imigrados naqueles países, ou por eles neutralizados no Rio Grande;

9. Desenvolver, em Passo do Rosário, Rincão Del Rey, Rio Pardo, e no Rincão dos Touros, em Rio Grande, junto ao canal São Gonçalo, invernadas de cavalos para manter a mobilidade de seu Exército superior à dos republicanos;

10. Não levar a guerra contra a população civil, estimulando-a a sobreviver economicamente e não requisitando dela recursos, como havia feito o General João Paulo (mandou inclusive recuperar a igreja de Canguçu, base da Ala Direita de seu Exército, que estava quase em ruínas);

11. Proteger a invernada de Rincão dos Touros (Torotama), inclusive com auxílio da Marinha, no corte do São Gonçalo, e com expedições preventivas contra a Serra dos Tapes (Canguçu e Piratini), donde podiam partir ataques;

12. Oferecer o perdão e a anistia aos que depusessem armas (Decreto de 18 de dezembro de 1844);

13. Tratar da paz em condições honrosas, negociar com firmeza, mas em alto nível de consideração aos negociadores republicanos, não transigindo com propostas de separação do Rio Grande do Império;

15. Conservar para si a direção estratégica da guerra e atuar taticamente com o concurso de oficiais rio-grandenses especializados naquele modo de luta típica das coxilhas que se estava travando - a Guerra à gaúcha .

Assim recorreu ao Brigadeiro Bento Manoel e ao Tenente-Coronel Francisco Pedro de Abreu, ou Chico Pedro, conhecedores da terra e gente rio-grandense e da Guerra à gaúcha .

16. Lançar no centro do "reduto mais farrapo", a Serra dos Tapes (Piratini e Canguçu), com base de operações em Canguçu, atual, nó orográfico desta serra, a ala direita do seu Exército, ao comando do citado Tenente-coronel Francisco Pedro de Abreu, o célebre Moringue, o mais competente guerrilheiro imperial.

17. Lançar, no momento decisivo, suas reservas em cavalos, de Rincão dos Touros, para fechar a fronteira do Jaguarão à Revolução, ao único apoio externo que recebiam através do General Rivera.

18. Conduzir a guerra no inverno, para provocar o desgaste das cavalhadas republicanas e de seus soldados, por negar-lhes apoio nas povoações, quebrando uma tradição na área de interromper a guerra no inverno;

19. Desenvolver esforços para arruinar cavalhadas republicanas. Isto por obrigá-los à intensa movimentação, ao combate no inverno, por fechar-lhes as fronteiras à importação de cavalos, por localizar e tomar suas invernadas e proteger as dos imperiais de Passo do Rosário, Rincão Del Rey e Rincão dos Touros de incursões, como a que aconteceu com êxito em Passo do Rosário e uma malograda, sobre Rincão dos Touros;

20. Procurar apressar a paz, para prevenir interferência de Rosas e da Inglaterra, que esboçaram desejos de proteger os farrapos, segundo Antônio da Fontoura em seu Diário.

Não se travaram encontros expressivos nesta fase. Os mais significativos foram os de Ponche Verde, a surpresa de Porongos, dois combates de Canguçu e o combate de Serro de Palma, em Candiota, última vitória republicana.

Em 1º de março de 1845, em Ponche Verde, foi selada a Paz da Revolução Farroupilha.

Foi o reencontro da família brasileira, envolvida em lutas fratricidas desde a abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831.

Por desejo dos revolucionários, Caxias foi mantido na presidência da Província e no Comando das Armas. De Ponche Verde a Bagé e, depois, até Porto Alegre, onde foi ovacionado.

Ligou-se,  desde então, afetivamente aos rio-grandenses republicanos, que se tornaram seus amigos e colaboradores nos conflitos externos contra Oribe e Rosas, 1851-52, e da Tríplice Aliança, contra o Paraguai de 1865-70.

Foi por eles eleito senador vitalício, cargo que exerceu por mais de 30 anos.

A Revolução Farroupilha, se por lado foi ruim para a unidade nacional, pelas cerca de 3.000 vidas que imolou, resultou em beneficio para a preservação da soberania e integridade nacional, por haver transformado o território do Rio Grande do Sul num laboratório de táticas e de formação de chefes de cavalaria para as guerras externas de 1851-52 e 1864-70, nas quais imperiais e republicanos marcharam irmanados lado a lado em defesa do Brasil.

Mais da metade do Exército Imperial esteve ao final da Revolução Farroupilha a comando de Caxias, no Rio Grande do Sul.

Na ação de Caxias, observa-se a ênfase que emprestou aos princípios de guerra da Manobra, da Ofensiva, da Segurança e da Unidade de Comando.

Com isto foi-lhe possível enfrentar a estratégia do fraco contra o forte, ou a guerra de guerrilhas nas coxilhas do Rio Grande, baseada nos princípios de guerra da Manobra, da Segurança, da Economia de Meios e,  fundamentalmente, da Surpresa.

 

Algumas conclusões

Quando tiveram início as negociações de paz que culminaram com a Paz de Ponche Verde, segundo Henrique Oscar Wiedersphan, os farrapos reconheciam a precariedade de sua situação, confinados a uma área da Província quase sem recursos, sem disporem de nenhuma vila ou povoado com base de suas operações, ou para servir de sede ao que restava do governo e da administração civil, vagando pois sem destino certo e procurando evitar um confronto com a coluna principal de Caxias.

D. Pedro II decidiu ainda terminar a guerra nas condições propostas pelos farroupilhas, basicamente estruturadas por Bento Gonçalves, e disso encarregou Caxias, que desde então declarou:

"Estar disposto a carregar com qualquer responsabilidade que possa sobrevir, uma vez que tenho consciência de que isto seja o bem da Província e do Brasil".

Por estar doente, Bento Gonçalves mandou o Tenente-Coronel Ismael Soares da Silva representá-lo em reunião convocada por David Canabarro, para deliberarem sobre a paz. Independente da representação, mandou sua opinião a respeito, que sintetizamos a seguir na carta a Canabarro, de 22 de fevereiro de 1845, da Estância do Velho Netto:

"Tendo emitido minha opinião. Resta repetir-vos que a paz é absolutamente necessária, que os meios de prosseguir a guerra se escasseiam, o espírito público (opinião pública) está contra qualquer idéia que tenda a prolongar seus sofrimentos, classificando de caprichosa a continuação da atual.

Uma conclusão é sempre preferível aos azares de uma derrota e a história antiga e moderna nos fornecem mil exemplos que não devemos desprezar". (o grifo é do autor).

E, em carta de 6 de março de 1845 a Dionízio Amaro da Silva, cinco dias depois da Paz de Ponche Verde, Bento Gonçalves faz justiça a Caxias ao escrever:

"Sabes melhor que ninguém que aceitei as negociações da Paz ao ponto de ir contigo ao Campo do barão de Caxias, depois de muitas viagens que para aquele efeito ali havia ido.

Sabes que mesmo o barão de Caxias havia acordado o meio de uma paz que só conseguimos algumas vantagens pela generosidade dele (Caxias). Deste homem verdadeiramente amigo dos rio-grandenses, que não podendo fazer-nos publicamente a Paz, por causa da péssima escolha dos negociadores e da estupidez sem igual dos que a dirigiram, nos fez o barão o que já não podíamos esperar, salvando assim, em grande parte, nossa dignidade".

Finalizando a carta escreveu:

"Sigo para a minha pequena fazenda, unicamente com a ingente glória de achar-me o homem, talvez, mais pobre do país".

Bento Gonçalves, em realidade, foi quem fez as primeiras sondagens de Paz com Caxias, das quais resultou o esboço que se concretizou.

Caxias então mandou responder a Bento Gonçalves que estabelecesse as condições de paz solicitadas pelos farrapos, e que,  desde que não fosse a separação da Província, podiam pedir o que quisessem, pois tinha poderes para tratar do assunto e, ainda, que o envio de emissários à Corte era só para preencher formalidades.

Assinada a PazCaxias teve dificuldades, por pressão dos escravocratas do Sudeste, de cumprir a "cláusula IV".

"São livres e como tais reconhecidos todos os cativos que serviram a República Rio-Grandense".

Os escravocratas julgaram-na uma afronta ao direito de propriedade. Chegaram a exigir o cumprimento do Artigo 5º das Instruções Reservadas de 18 de dezembro de 1844, enviadas a Caxias, que estipulava:

"5º - os escravos que fizeram parte das forças rebeldes apresentadas serão remetidos para esta Corte à disposição do Governo Imperial, que lhes dará o conveniente destino".

Canabarro entregou 120 soldados negros, dos célebres Lanceiros Negros Farrapos do 1º Corpo de Lanceiros, e outros de um Batalhão de Caçadores para serem levados para a Real Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, inicialmente como escravos estatizados. Local sede do atual Batalhão Escola de Engenharia. Mas o Barão resistiu à pressão. Concedeu-lhes a alforria antes prometida.

Aplicou então, o Aviso Ministerial de 19 de novembro de 1838, que assegurou liberdade a todos os soldados republicanos ex-escravos que desertassem de suas fileiras e se apresentassem às fileiras imperiais.

"O Barão de Caxias, em 1º de março de 1845, quando da Paz de Ponche Verde, como afirma o historiador Coronel Cláudio Moreira Bento:  "tornou-se pioneiro abolicionista, ao garantir, por sua conta e risco, e contrariando instruções superiores, a seguinte cláusula: 'São livres e como tais reconhecidoos, todos os cativos que serviram à Revolução Farroupilha'. Assim, foram incorporados como soldados, nas Unidades do Exército Imperial todos os negros libertos, com especial destaque para os ex-integrantes da brava 'Legião de Lanceiros Negros', do Exército Farroupilha. Eles prestariam assinalados serviços ao Brasil, em futuras guerras externas de que participamos na região do Prata".

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Não necessitamos de babás estatais e empresariais

 Claro. Vivemos em uma “nova era”, a das falácias, das frivolidades, das mentiras românticas e das verdades romanescas. No contexto dessa lógica ilógica, os indivíduos necessitam de “alguma entidade superior” que, além de pensar por eles, se preocupe com o seu “bem-estar”. Verdadeiramente, com a satisfação, não do indivíduo, mas do abstrato coletivo.



O romantismo impregnou intensamente a mente e os corações humanos, repleto de instintos e emoções, tangenciando o zero em relação à razão. Nunca antes se viram tantas ideias românticas – e falaciosas -, tais como a de que o Estado tem por objetivo se preocupar e ser benevolente, além de ser capaz de, factualmente, atender aos interesses dos cidadãos. Similarmente, de que o mais importante em uma empresa é o seu propósito organizacional, apontando que a razão de sua existência passa mais por seu impacto social/ambiental do que pelo valor que ela cria, dentro de seu negócio, para os clientes-consumidores.

Nunca houve tanto apego às frivolidades e às mentiras e tanta distância do produtivo, do útil e do desenvolvimento do indivíduo. Nunca existiu tanto castigo para a mente individual, para a inteligência humana. Os homens – e mulheres – não necessitam de babás!

É desnecessário, além de ser nocivo, que as pessoas tenham que aceitar e se subjugar a ideia de semideuses estatais e empresariais, ditadores de “verdades” a que os indivíduos tenham que obedecer. O processo de desindividualização e de desumanização, em estágio avançado de andamento, retira das pessoas as virtudes básicas que nos distinguem dos animais, ou seja, a de pensar e agir – por conta própria.

O que se está a ver – e o que não se vê – é a transformação de indivíduos em legítimas marionetes de agentes estatais autoritários e de empresários “salvadores da humanidade”, que, ao cabo, desejam somente salvar seus empregos e seus próprios interesses.

Todas às políticas coletivistas promovem a renúncia do indivíduo em nome de um abstrato coletivo. Nesta direção, a pessoa deve abdicar de seus próprios objetivos e planos de vida, a fim de se sujeitar aos planos e ações de um governo “superior”, intelectual e moralmente, que impõe aquilo que é “melhor” e que deve ser seguido pela população.

Governantes, mesmo aqueles supostamente bem-intencionados, não arcam com as consequências de suas políticas coletivistas bom-mocistas. Suas esdrúxulas decisões, na maioria das vezes, geram consequências indesejadas que não são visíveis no curto prazo. Seus efeitos no longo prazo são deletérios para o país, como aqueles que o Brasil presenciou nos governos petistas. Desafortunadamente, a história se repete.

Nessa “nova era”, empresários passaram a brincar de estadistas. Ao invés de suas empresas criarem e ofertarem benefícios e soluções em seus negócios, a fim de satisfazerem melhor às necessidades e aos desejos de consumidores, eles agora desejam resolver os problemas da humanidade!

Em definitivo, os indivíduos não precisam de babás, tampouco de seres superdotados que pensem por eles.

Governantes que se propõem a ajudar aos mais necessitados e que berram estar se preocupando com as pessoas, normalmente, intervêm nos mercados, favorecendo os amigos do rei, prejudicando todas as outras empresas, reduzindo a concorrência. Preto no branco, são os cidadãos que pagam a conta, por meio de produtos e serviços piores e mais caros. Há, de fato, uma redução do bem-estar da população.

Pelo lado empresarial, o que já tenho percebido é que empresas que querem “salvar o mundo” acabam desviando seu foco e, portanto, reduzindo o pacote de valor/benefícios dentro de seu negócio. É necessário compreender a psicologia humana. São os próprios indivíduos aqueles que devem ter o livre-arbítrio de escolher o que desejam, e de perceber as vantagens de se ajustar em suas relações econômicas e sociais à cooperação social.

Ninguém deseja os caprichos de semideuses estatais e/ou empresariais.

Alex Pipkin 

sábado, 16 de setembro de 2023

As origens e a proteção capitalista do socialismo

 

Comunismo e capitalismo, duas faces de um mesmo projeto

Na China do final dos anos 80, o sistema do “Capitalismo de Estado”, herança dos primeiros anos da Republica Popular, estava ruindo e Deng Xiaoping procurava uma alternativa para substituí-lo. E a ansiada salvação proveio do guru dos neoliberais ocidentais, Milton Friedman, auto-declarado anticomunista, que foi à China para dar uma série de palestras aos dirigentes do Partido Comunista sobre como deveriam reorientar sua economia.

Nunca o sistema comunista chegou a romper com a escravidão dos juros

Quando nossa mídia politicamente correta, do sistema, se refere aos dois grupamentos políticos supostamente digladiantes no cenário nacional e internacional, sempre é mostrado ao público como se ambos fossem diametralmente opostos. Um, de “direita”, seria defensor do livre-mercado, enquanto o outro, de “esquerda”, representaria os ideais socialistas em suas mais variadas formas.

É mostrado ao público que estes dois modelos governamentais representam propostas completamente opostas de direção para o país. Um pretende que o Estado torne-se cada vez menor e menos influente na economia, enquanto o outro é adepto do aumento da influência estatal na sociedade através da criação de diversos programas.

Aparentemente suas propostas são diferentes. Porém, ao observá-las em âmbito mais amplo, econômico, percebemos que não passam de duas variantes do mesmo esquema globalista.

A Farsa da economia marxista

O marxismo tal qual ideologia econômica é inexistente. Marx deixa isto bem claro através de sua obra. Quando se refere às questões econômicas em seus vários livros, simplesmente descreve o sistema de produção capitalista, deixando como dica apenas que, em seu modelo de sociedade, será o Estado quem comandará os investimentos, ao invés da sociedade privada. Em essência, isto é tudo que diz.

Este é o motivo pelo qual coexistem sob a mesma nomenclatura os mais diferentes sistemas de controle econômico. Entre estes estão, por exemplo, o chinês e aquele da antiga URSS de Lênin – muito diferentes entre si. De maneira geral, a economia comunista é descrita como sendo uma espécie de “Capitalismo de Estado” – forma pela qual vários autores se referem a ela –, e daí deriva o fato de que seus métodos e fins sejam tão parecidos com os do capitalismo propriamente dito. Nunca o sistema comunista chegou a romper com a escravidão dos juros. Talvez isto aconteça porque, historicamente, seus principais financiadores foram justamente os grandes banqueiros internacionais.

A inexistência de um método econômico marxista pode parecer novidade para muitos. Mas, desde a década de 20, o economista austríaco de origem judaica, Ludwig von Mises, já provava que tal sistema de produção era impossível conforme as próprias bases da economia. Esta informação é facilmente verificada in praxis. Em todos os locais nos quais se tentou implantar o marxismo econômico, o resultado obtido foi, ironicamente, o desastre social.

Além do dano em número de vidas causado durante seu processo de adaptação, as economias submetidas a este sistema ficaram em destroços. Na África, pode ser dito que o PIB total da precária Etiópia comunista resumia-se a míseros $210 dólares. Os sandinistas da Nicarágua destruíram sua já fraca economia, chegando ao ponto de terem uma inflação de quatro dígitos e nenhuma chance de sanar tal problema – os salários da população perderam 90% de seu valor real. Cuba somente não teve o mesmo destino pelo fato de receber todos os anos $5 bilhões de dólares em ajuda soviética. Hoje, após a torneira ter secado, o país enfrenta sérios problemas.

É por este motivo que os mais inteligentes economistas marxistas nunca chegaram a exterminar o capitalismo dentro de suas nações, mas sempre procuraram submetê-lo à tutela do Estado. Segundo dizia Lênin, era necessário que os burgueses lucrassem com o comunismo para que este se tornasse aplicável.

Isto foi seguido à risca por todos os Estados que tiveram sua sobrevida até a queda do Muro de Berlim. Dentro de todos havia um capitalismo subterrâneo, escondido por trás da cortina do socialismo. Neste período, a Polônia, país rico em minérios e com uma forte indústria, sucessivamente necessitava de empréstimos capitalistas ocidentais para manter-se funcionando. Até o inicio da década de 80, tais somas resultaram em uma dívida de $25 bilhões de dólares a seus credores ocidentais, aos quais os poloneses nunca conseguiram pagar. Os dividendos provenientes de sua produção e exportação nunca foram suficientes para isto, tornando-se sempre necessários novos empréstimos desta mesma fonte.

A Polônia enquanto nação marxista durou até fins da década de 80 somente por conta destas grandes somas provenientes de seus financiadores ocidentais. Tal panorama pode ser aplicado a todos os países que estiveram sob o jugo comunista – sempre foi o capitalismo subterrâneo seu principal motor.

É fácil perceber isto com uma simples constatação. Seria muito ingênuo acreditar que as fortunas adquiridas por Boris Berezovsky e outros oligarcas russos que, no instante após a queda da URSS tornaram-se bilionários, já não era acumulada, ao menos potencialmente, através de ações, desde antes de tal evento.

Tal fato pode ser facilmente atestado em uma simples conversa com qualquer economista. Se este for perguntado sobre a credibilidade dos dados econômicos fornecidos pela União Soviética, com certeza responderá que eram todos manipulados e falsificados – fraude sobre fraude. A realidade é que o próprio Estado não tinha controle algum de tudo aquilo que dizia ter, e esta falsificação de resultados era a forma de ocultar isto.

A Comuna de Paris e lorde Rothschild

O Comunismo desde suas origens sobreviveu da subvenção do dinheiro proveniente dos grandes banqueiros internacionais. Durante a famosa Comuna de Paris, em 1871, quando os marxistas tomaram as ruas, a cidade foi palco de roubos, assassinatos, estupros além da tentativa de incendiá-la completamente. Tudo isto foi cumprido segundo as diretrizes assinaladas em 1869 por um dos líderes comunistas franceses, porém de origem judia, Clauserets, quem disse:

“Nós ou nada! Eu garanto-vos: Paris será nossa ou deixará de existir! Ou assumimos o poder, ou mergulhamos a cidade no império do terror!”

Enquanto a cidade e seus belos palácios eram incendiados; enquanto os ricos e nobres eram arrebanhados para posteriormente serem fuzilados aos milhares, as propriedades da família Rothschild, incluindo suas agencias bancárias, permaneceram intactas, protegidas por piquetes armados pelos “anticapitalistas”. Não é a toa que o lorde tão veementemente clamava ao presidente francês, Thiers, que não tomasse ações diretas contra os comunistas.

Por que o banqueiro investia tanto em um movimento que, aparentemente, era contra sua principal fonte de lucro, a exploração pela escravidão dos juros? Isto é simples, como já foi exposto acima. Sob a “casca” socialista exterior do regime, os Estados precisariam de um núcleo capitalista para sobreviver. E os Rothschild esperavam ser este financiador monopolista do “Capitalismo de Estado”.

A mesma dinastia bancária, em conjunto com outras, foram os principais financiadores do bolchevismo e da revolução russa desde as capitais financeiras globais, como Nova Iorque, Berlim e outras. É claro que neste momento tinham os mesmos interesses daqueles de décadas anteriores, mas, desta vez, foram vitoriosos em seus anseios.

O filósofo alemão de origem judaica e filho de banqueiro, Heinrich Heine, certa vez disse, “O dinheiro é o deus de nossa época e Rothschild é seu profeta”. Talvez o sucesso marxista se explique justamente por isso, por estarem sendo divinamente financiados e ajudados por um profeta e seu seleto grupo de discípulos banqueiros.

O tardar da Reunificação alemã e a Nova economia chinesa

A cumplicidade e subserviência do comunismo com o capitalismo torna-se clara se for analisado o caso da Alemanha dividida após o final da segunda guerra mundial. Em vários momentos, o Estado marxista oriental estava prestes a cair por conta de sua própria debilidade econômica. Sempre que isto ocorria, era a própria Alemanha ocidental, capitalista, quem salvava sua irmã através de inúmeros empréstimos e doações. Tais acontecimentos acarretaram em um atraso de décadas no processo reunificação do país.

O caso que mais explicita isto ocorreu quando foram presos 300.000 supostos dissidentes políticos do comunismo na porção oriental. Não tardou que estes “criminosos” fossem vendidos por bagatelas de até 50.000 marcos ocidentais per capita à Alemanha capitalista. Tal evento literalmente salvou a porção oriental da bancarrota, em uma clara demonstração da bondade capitalista ocidental para com o comunismo.

Ao contrário do que alguns podem pensar, não é rara esta bondosa e misteriosa ajuda capitalista aos países comunistas. Na China do final dos anos 80, o sistema do “Capitalismo de Estado”, herança dos primeiros anos da Republica Popular, estava ruindo e Deng Xiaoping procurava uma alternativa para substituí-lo. E a ansiada salvação proveio do guru dos neoliberais ocidentais, Milton Friedman, auto-declarado anticomunista, que foi à China para dar uma série de palestras aos dirigentes do Partido Comunista sobre como deveriam reorientar sua economia.


O guru do neoliberalismo ocidental, Milton Friedman, e sua esposa na China,
enquanto salvavam o comunismo neste país

O resultado de tal empreitada é visto hoje, quando observamos à aberração que é o Estado chinês atual, no qual o Partido Comunista controla todo o poder, enquanto a economia, sem muitos rodeios, pode ser descrita como sendo de “Mercado”, liberal aos moldes ocidentais. Tal síntese é o modelo ideal e mais avançado do comunismo – estruturado para durar décadas ou, talvez, séculos. E, hoje, quando se pergunta aos simples cidadãos chineses quem são os homens mais ricos e poderosos de seu país, eles respondem: “os principezinhos”.

Mas, quem são estes? São os filhos de dirigentes do Partido Comunista que, durante a reestruturação da economia chinesa, adquiriram as empresas recém desnacionalizadas a preço de banana ou, até mesmo, gratuitamente. Este tipo de “comunismo”, o mais avançado até hoje maquinado, não passa de um modelo que desde há tempos é conhecido como Plutocracia – o governo dos ricos, dos poderosos, ou seja, dos mesmos que promovem e lucram com o neoliberalismo globalista ocidental.

Daniel S.