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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Repensando Churchill: Churchill e o “novo liberalismo”

 Por Ralph Raico



Churchill e o “novo liberalismo”

Em 1900, Churchill iniciou a carreira para a qual evidentemente estava destinado. Sua origem — neto de um duque e filho de um famoso político conservador (Tory) — garantiu-lhe uma cadeira na Câmara dos Comuns como membro do Partido Conservador. No início, parecia distinguir-se apenas por sua ambição inquieta, notável até mesmo nos círculos parlamentares. Mas, em 1904, atravessou o plenário e passou para os Liberais, supostamente por causa de suas convicções favoráveis ao livre comércio. No entanto, Robert Rhodes James, um dos admiradores de Churchill, escreveu: “Acreditava-se [na época], provavelmente com razão, que, se Arthur Balfour lhe tivesse concedido um cargo em 1902, Churchill não teria desenvolvido um interesse tão ardente pelo livre comércio nem se juntado aos Liberais”. Clive Ponting observa que: “como ele já havia admitido a Rosebery, estava procurando um pretexto para abandonar um partido que parecia relutante em reconhecer seus talentos”, e os Liberais não aceitariam um protecionista1.

Levado pelas marés da opinião da moda2, sem princípios próprios e ávido por poder, Churchill logo se tornou adepto do “novo liberalismo”, uma versão atualizada da “Democracia Tory” de seu pai. O liberalismo “novo” diferia do “antigo” apenas no pequeno detalhe de substituir o laissez-faire por um ativismo estatal incessante.

Embora seus idólatras conservadores pareçam alegremente alheios a esse fato — para eles é sempre 1940 — Churchill foi um dos principais arquitetos do estado de bem-estar social na Grã-Bretanha. O moderno estado de bem-estar social, sucessor do estado assistencial do absolutismo do século XVIII, teve início na década de 1880, na Alemanha, sob Bismarck3. Na Inglaterra, o ponto de inflexão legislativo ocorreu quando Asquith sucedeu Campbell-Bannerman como Primeiro-Ministro em 1908; seu gabinete reorganizado incluía David Lloyd George no Ministério das Finanças e Churchill no Ministério do Comércio.

É claro que “a dimensão eleitoral da política social estava muito presente no pensamento de Churchill”, escreve um historiador simpático a ele — o que significa que Churchill a compreendia como um meio de conquistar votos4. Ele escreveu a um amigo:

“Nenhuma legislação atualmente em vista interessa à democracia. Todas as suas mentes estão se voltando cada vez mais para a questão social e econômica. Essa revolução é irresistível. Eles não tolerarão o sistema existente pelo qual a riqueza é adquirida, distribuída e utilizada(…). Voltarão suas faces como pedra contra o poder do dinheiro — herdeiro de todos os outros poderes e tiranias já derrubados — e contra suas injustiças evidentes. E essa repulsa teórica acabará por se estender a qualquer partido associado à manutenção do status quo(…). Padrões mínimos de salários e de conforto, seguros eficazes fornecidos pelo governo contra doença, desemprego e velhice, estas são as questões, e as únicas questões, pelas quais os partidos irão viver no futuro. Ai do liberalismo, se elas lhe escaparem das mãos”5.

Churchill “já havia anunciado sua conversão a uma política social coletivista” antes de sua transferência para o Ministério do Comércio6. Seu tema constante passou a ser “a justa precedência” dos interesses públicos sobre os interesses privados. Ele adotou os clichês de engenharia social em voga na época, afirmando que: “A ciência, tanto física quanto política, se revolta contra a desorganização que se apresenta diante de nós em tantos aspectos da vida moderna”, e que “a nação exige a aplicação de processos corretivos e terapêuticos drásticos”. O estado deveria adquirir canais e ferrovias, desenvolver certas indústrias nacionais, proporcionar uma educação amplamente expandida, introduzir a jornada de trabalho de oito horas, impor impostos progressivos e garantir um padrão mínimo nacional de subsistência. Não é de surpreender que Beatrice Webb tenha observado que Churchill estava “decididamente apostando suas fichas na ação construtiva do estado”7.

Após uma visita à Alemanha, Lloyd George e Churchill converteram-se ao modelo bismarckiano de programas de seguro social8. Como Churchill disse a seus eleitores: “Meu coração encheu-se de admiração pelo gênio paciente que acrescentou essas fortalezas sociais às muitas glórias da raça alemã”9. Ele se propôs, em suas próprias palavras, “impor uma grande dose de bismarckismo sobre toda a base do nosso sistema industrial”10. Em 1908, Churchill declarou em um discurso em Dundee: “Estou do lado daqueles que pensam que um sentimento coletivo maior deve ser introduzido no estado e nos municípios. Gostaria de ver o estado assumindo novas funções”. Ainda assim, o individualismo deveria ser respeitado: “Nenhum homem pode ser apenas coletivista ou apenas individualista. Ele deve ser tanto individualista quanto coletivista. A natureza do homem é uma natureza dual. O caráter da organização da sociedade humana é dual”11. Este, aliás, é um bom exemplo de Churchill como filósofo político: raramente é mais profundo do que isso.

Mas, embora tanto a “organização coletiva” quanto o “incentivo individual” devessem receber seu devido reconhecimento, Churchill tinha certeza de qual deles deveria estar acima do outro:

“A tendência geral da civilização é, contudo, em direção à multiplicação das funções coletivas da sociedade. As complicações cada vez maiores da civilização criam para nós novos serviços que precisam ser assumidos pelo estado e criam para nós uma expansão dos serviços já existentes(…). Existe uma determinação bastante constante… de interceptar todo futuro incremento não ganho que possa surgir do aumento no valor especulativo da terra. Haverá uma área cada vez mais ampla de iniciativas municipais”.

A tendência estatista encontrava a aprovação completa de Churchill. Como ele acrescentou:

“Vou ainda mais longe; gostaria de ver o estado embarcar em diversos experimentos novos e ousados(…). Lamento muito que não tenhamos as ferrovias deste país em nossas mãos. Talvez possamos fazer algo melhor com os canais”12.

Esse neto de um duque e admirador de seu antepassado, o arqui corrupto Marlborough, não deixava de explorar os ressentimentos das classes mais baixas. Churchill afirmava que “a causa do Partido Liberal é a causa dos milhões deixados de fora”, ao mesmo tempo em que atacava os Conservadores como “o partido dos ricos contra os pobres, das classes altas e seus dependentes contra as massas, dos afortunados, dos ricos, dos felizes e dos fortes, contra os milhões excluídos e marginalizados dos fracos e pobres”13. Churchill tornou-se o empreendedor político incansável ideal, ansioso por politizar uma área da vida social após a outra. Ele criticava os Conservadores por não possuírem sequer um “único plano de reforma ou reconstrução social”, ao mesmo tempo em que se vangloriava de que ele e seus aliados pretendiam propor “um amplo, abrangente e interdependente esquema de organização social”, incorporado em “uma série maciça de propostas legislativas e atos administrativos”14.

Nesse período, Churchill passou a estar sob a influência de Beatrice e Sidney Webb, os líderes da Sociedade Fabiana. Em um de seus famosos jantares estratégicos, Beatrice Webb apresentou Churchill a um jovem protegido, William — posteriormente Lord Beveridge. Churchill levou Beveridge para o Ministério do Comércio como seu assessor para questões sociais, dando assim início à sua carreira ilustre15. Além de promover uma variedade de programas de seguro social, Churchill criou o sistema nacional de bolsas de trabalho; ele escreveu ao Primeiro-Ministro Asquith sobre a necessidade de “espalhar (…) uma espécie de rede germanizada de intervenção e regulamentação estatal” sobre o mercado de trabalho britânico16.

Mas Churchill tinha objetivos muito mais ambiciosos para o Ministério do Comércio. Ele propôs um plano segundo o qual:

“O Ministério do Comércio deveria atuar como o ‘departamento de inteligência’ do governo, prevendo o comércio e o emprego nas diferentes regiões para que o governo pudesse direcionar contratos às áreas consideradas mais merecedoras. No topo (…) estaria um Comitê de Organização Nacional, presidido pelo Chanceler do Tesouro, para supervisionar a economia”17.

Por fim, bem consciente do potencial eleitoral do trabalho organizado, Churchill tornou-se um defensor dos sindicatos. Ele foi um importante apoiador, por exemplo, do Trades Disputes Act of 1906 [Lei sobre Conflitos Trabalhistas, em tradução livre]18. Essa lei reverteu a decisão no caso Taff Vale e outras decisões judiciais que haviam considerado os sindicatos responsáveis por ilícitos civis e outros atos praticados em seu nome por seus representantes. A lei indignou o grande historiador jurídico liberal e teórico do rule of law, A.V. Dicey, que afirmou que ela: 

“confere a um sindicato liberdade em relação à responsabilidade civil pela prática até mesmo dos atos ilícitos mais graves cometidos pelo sindicato ou por seus agentes e, em suma, concede a cada sindicato um privilégio e uma proteção que não são possuídos por nenhuma outra pessoa ou entidade, seja corporativa ou não incorporada, em todo o Reino Unido (…) transforma o sindicato em um corpo privilegiado, isento da lei comum do país. Nenhum corpo privilegiado desse tipo havia jamais sido deliberadamente criado antes por um Parlamento inglês”19.

É irônico que o imenso poder dos sindicatos britânicos, a bête noire de Margaret Thatcher, tenha sido criado com a ajuda entusiasmada de seu grande herói, Winston Churchill.

  1. ↩︎
  2. Nessa época, Churchill chegou a se manifestar a favor da temperança imposta pelo estado, o que constitui uma hipocrisia divertida vinda de um homem cujo amor pela bebida ao longo da vida se tornou lendário.
  3. Sobre a história do estado de bem-estar social alemão, tanto na fase absolutista quanto na moderna, consulte Gerd Habermann, *Der Wohlfahrtsstaat: Geschichte eines Irrwegs* (Berlim: Propyläen, 1994).
  4. Addison, “Churchill and Social Reform,” p. 60.
  5. Addison, Churchill on the Home Front, 1900–1955, p. 59.
  6. Ibid, p. 51.
  7. W.H. Greenleaf, The British Political Tradition, vol. 2, The Ideological Heritage (London: Methuen, 1983), pp. 151–54.
  8. E.P. Hennock, British Social Reform and German Precedents: The Case of Social Insurance 1880–1914 (Oxford: Clarendon, 1987), pp. 168–69.
  9. Gordon A. Craig, “Churchill and Germany,” em Churchill, Blake and Louis, eds., p. 24. ↩︎
  10. E.P. Hennock, “The Origins of British National Insurance and the German Precedent 1880–1914,” in The Emergence of the Welfare State in Britain and Germany, W.J. Mommsen and Wolfgang Mock, eds. (London: Croom Helm, 1981), p. 88.
  11. Winston Churchill, Complete Speeches 1897–1963, vol. 1, 1897–1908, Robert Rhodes James, ed. (New York: Chelsea House, 1974), pp. 1029–30, 1032.
  12. Winston Churchill, Liberalism and the Social Problem (London: Hodder and Stoughton, 1909), pp. 80–81.
  13. lbid., pp. 78, 226.
  14. Ibid., p. 227.
  15. Hennock, British Social Reform, pp. 157–60.
  16. Ibid., p. 161.
  17. Ponting, Churchill, p. 83.
  18. Veja, por exemplo, Churchill, Liberalism and the Social Problem, pp. 74–75.
  19. A.V. Dicey, Lectures on the Relation Between Law and Public Opinion in England during the Nineteenth Century, 2nd. ed. (London: Macmillan, [1914] 1963), pp. xlv—xlvi. ↩︎

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