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    sexta-feira, 14 de outubro de 2022

    Nós, o povo. Eu, o indivíduo

     “Nós, o povo dos Estados Unidos, a fim de formar uma União mais perfeita…”. “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático…”. As passagens acima lhe soam familiar? Assim começam, respectivamente, os preâmbulos das Constituições dos Estados Unidos da América, de 1787, e da República Federativa do Brasil, de 1988.

    Elemento presente em ambos os textos e imprescindível para a correta compreensão das estruturas de poder é a ideia de povo, hoje relegada ao imaginário e ao ostracismo popular. Quem ou o que é essa figura tão amplamente utilizada como alicerce de legitimidade da fundação desses países?Qual é o alcance semântico do vocábulo povo?

    O jurista alemão Friedrich Müller tenta responder a essas perguntas trazendo quatro concepções (ou significados) para o signo povo. A primeira trata-o como povo ativo, ou seja, indivíduos dotados do poder de escolha ou nomeação de alguém por meio de votos, legitimador de toda assembleia constituinte e presente no preâmbulo de nossa Constituição. A segunda seria aquela outra, considerada como instância global de atribuição de legitimidade, presente no texto do artigo 1º, parágrafo único, da Constituição Federal brasileira, quando prescreve que “todo o poder emana do povo”, trazendo a concepção de que as decisões judiciais apenas se legitimarão se compatíveis com o texto constitucional. A terceira grandeza semântica indica que povo seriam os indivíduos destinatários de prestações civilizatórias do Estado e que possuem uma pretensão de respeito aos seus direitos fundamentais em face dos atos estatais.

    Não há como se negar que, no Brasil, é plenamente possível perceber a aplicação formal e conjunta desses três conceitos em nossas instituições, ainda que por razões e com intensidades diferentesdurante o passar dos anos. De outro lado, também não é difícil notar que, em grande parte desses nossos primeiros 200 anos de secessão (ou independência), seria mais sensato, quiçá realista, referir-se ao povo, na prática diária do significado atribuído por relevante parcela dos brasileiros, pela quarta dimensão semântica trazida por Müller, a que o considera como ícone.

    Um ícone nada mais é do que uma abstração metafórica de uma representação. Nessa dimensão de povo icônico, a referência singular do significado torna-se abstrata, remanescendo apenas sua dimensão teórica, afastada de qualquer práxis efetiva. Uma ficção carente de significado, que não diz respeito à pessoa ou coisa alguma. Conceito aparentemente próximo, mas que se mostra distante quando se tenta tangibilizá-lo.

    E quanto mais abstrato e longe da concretude de significado o conceito de povo se torna, mais facilmente é utilizado para funções retóricas e demagogas de alguns poucos, mas determinantes, indivíduos que buscam entrar e se perpetuar no controle de nossas instituições. Afinal, se somos nós o povo, e todo poder é exercido pelo povo, não lhe parece incoerente que alguns poucos se utilizem deste poder para fins e benefícios pessoais?

    Como tratar a causa dos problemas sociais e econômicos se sequer sabemos quem ou o que é o seu causador? A abstração dos conceitos nos afasta da verdadeira causa dos problemas, da possibilidade de atribuir responsabilidades aos verdadeiros causadores e da prevenção futura dos males atuais. E assim vivemos há 200 anos, tratando os sintomas e fechando os olhos para a causa.

    É este, por exemplo, o caso da falácia do dinheiro do contribuinte, lastimavelmente tratado como dinheiro público. Pensa-se: se é público, não é de ninguém e de ninguém foi tomado. Se não é de ninguém, então posso dele me apropriar e fazer aquilo que melhor me aprouver para garantir os direitos daqueles que concretamente também não sei exatamente quem são, ou seja, o povo.

    Enfim, povo nada mais é do que a somatória de indivíduos existentes em uma determinada cultura ou nação, detentores de direitos invioláveis e intransponíveis por terceiros. Indivíduos estes que devem ser tratados em sua completude como finalidade última de qualquer estado de direito.

    Aliás, o princípio fundamental de um Estado de Direito é a ideia de que nenhum indivíduo, partido ou regime podem ser árbitros subjetivos da Constituição e das leis, devendo todos serem tratados igualitariamente perante elas. Um Estado de Direito deve, acima de tudo, garantir que as instituições que formam o governo – leis, agências e agentes – atuem para proteger os indivíduos e seus direitos inalienáveis à vida, à liberdade, à propriedade e à busca da felicidade.

    Quando uma Corte Suprema de Justiça decide calar vozes desagradáveis da discordância; quando um Poder Executivo propõe aumentar o salário de seus procuradores em 74%, enquanto o de seus professores em 6% (para um mesmo período inflacionário); ou, ainda, quando um Poder Legislativo aprova e um Executivo sanciona o repasse de 4,9 bilhões de reais para fins puramente eleitoreiros, retirados forçadamente da propriedade do povo, então não pairam dúvidas de que ainda não somos independentes como indivíduos.

    Convivemos permeados pela ideia de uma responsabilidade social que suprime a responsabilidade individual. Do “nós sobre o eu”. Do “um por todos e todos por todos”. Nesse cenário os grandes culpados, escondidos atrás da capa da invisibilidade da coletividade, são exaltados pela política do “rouba, mas faz” e, ainda mais surpreendente, são ajudados por isso.

    Como nos alertou Donald Stewart Júnior, no Brasil, a ideologia intervencionista que quase sempre nos dominou é sustentada, dentre outros, pelos empresários poderosos que não querem correr o risco de mercado; pelos socialistas que idolatram o Estado; pelos políticos populistas que usam o Estado para dar consequência a sua demagogia; pelos burocratas das estatais que não querem perder suas vantagens e mordomias; e por todos aqueles que, enfim, sensíveis às necessidades do povo, defendem a atuação do Estado provedor sobre os direitos do indivíduo.

    Esses se esquecem, contudo, de que a liberdade de todos é formada pela liberdade de cada um. Tal qual nos ensina Ayn Rand, a menor minoria na Terra é o indivíduo e todos aqueles que negam os direitos individuais não podem se dizer defensores de minoria alguma. Acaso não respeitados os direitos individuais, qualquer nação constituída sob as bases de um Estado Democrático de Direito poderá se tornar apenas uma ditadura da maioria, sem que as pessoas sequer se atentem a isso.

    Há 200 anos, nos tornamos um Estado soberano, independente de Portugal. Contudo, mesmo após dois séculos, ainda não nos tornamos independentes do Estado. Se podemos dizer que possuímos, ao menos formalmente, um país livre, soberano e dono do seu próprio destino, ainda não podemos dizer o mesmo sobre nós mesmos.

    Há o Brasil daqueles que se foram embora para Pasárgada e lá vivem, onde são amigos do rei, com o parceiro que querem, na cama que escolhem. E há o Brasil daqueles que construíram e constroem uma nação livre e soberana, mas que são forçados a sustentarem Pasárgada através da ilegítima espoliação daquilo que lhe pertence, fruto do afinco de seu trabalho. Os primeiros, destruidores de valor e de valores; os segundos, virtuosos pela essência de seus labores.  

    Quando Dom Pedro I passou pelo campo do Ipiranga, em 1822, e lá quisera dar voz, num brado retumbante, a um processo de secessão que ainda se arrastaria por algum tempo, dificilmente imaginou que 200 anos depois não teríamos apenas um, mas vários pretensos imperadores no Brasil, cada qual desejando reinar sobre suas próprias interpretações das regras e dos direitos. Do Sol que no horizonte de 1822 raiou a liberdade, jaz agora pelo Brasil a outrora ideia de pátria livre, permanecendo o temor servil. Até quando?

    Até entendermos que não devemos servir ao governo e, sim, ser por ele servido. Que Estado algum deve estar acima do indivíduo e que aquele existe apenas para assegurar o direito deste de contratar, de adquirir, usar, gozar e fruir da sua propriedade, daquilo que construiu ou criou, de ir e vir, de se expressar livremente, de defender a própria vida e de, enfim, buscar a própria felicidade da forma que melhor lhe aprouver.

    Então, a você que produz, cria, transforma e trabalha de forma honesta, sem prejudicar direitos alheios, sempre que lhe oferecerem uma passagem para aquela Pasárgada do amigo do rei, incapaz de se sustentar com as próprias pernas, diga ao povo que você fica, não apenas pela felicidade geral da nação (e infelicidade de alguns) mas, principalmente, pela sua própria felicidade e daqueles que você ama. Brade que fica nesta nação que lhe pertence e aja de forma a não mais permitir que os próximos 200 anos sejam governados pelos moradores do Brasil de Pasárgada que ainda ousam se manter acima de você.

    Vander Giuberti

    terça-feira, 4 de outubro de 2022

    A guerra que teve muitos pais

     Partindo-se do silenciar das armas em 1918 e do Tratado de Versailles, o autor mostra que somente o Reich alemão respeitou as condições estipuladas naquela época para o desarmamento recíproco, enquanto os vencedores não estavam inclinados de forma alguma a seguir estes parágrafos. Ao contrário, motivados por desconfianças mútuas e também convencidos que a nova estrutura da Europa não poderia prevalecer a médio prazo, eles levaram a cabo seu rearmamento, mesmo quando o Reich alemão tinha trazido totalmente seu desarmamento na segunda metade dos anos 20 ao nível combinado, e com isso não representava qualquer perigo imediato. Esta situação instável, porém não ameaçadora, durou quase ainda uma década, avançando pela Era Hitler. Todavia, a produção armamentista andava a todo o vapor nos EUA daquela época e se fabricava até bombardeiros quadrimotores, que com certeza não eram para proteger o país do ataque de bandoleiros mexicanos.

    Nota da Redação:

    – A 12 de novembro de 1930, o companheiro Leon Blum (líder socialista francês – NR) explicava na Câmara Francesa:

    “Nós desejamos a nação armada!”

    Na Alemanha, os companheiros demonstravam contra o rearmamento sob a palavra de ordem:

    “Quebrem as armas!”

    – A 13 de novembro de 1930, o Ministro-Presidente francês Tardieu pronunciava na Câmara:

    “No que concerne à questão do desarmamento, existe na Liga das Nações uma diferença de opiniões entre França e Alemanha. A França se mantém no Tratado de Paz que obriga a Alemanha a se desarmar, enquanto o desarmamento dos aliados é somente uma possibilidade…”

    O quarto dos 14 pontos de Wilson dizia:

    “Troca de garantias razoáveis para que o armamento dos povos seja reduzido ao nível mais baixo compatível com a segurança interna.”

    Fonte: Alfred Ingemar Berndt, Gebt mir Vier Jahre Zeit, Editora Central do NSDAP, 1938

    Diante do rearmamento de praticamente todos os países vizinhos da Alemanha – política totalmente contrária ao suposto desejo de paz mundial após a Primeira Guerra – o governo Nacional-Socialista proclamou somente a 16 de março de 1935 o rearmamento das Forças de Defesa, a Wehrmacht, quando todas as soluções políticas tinham se esgotado. É claro que o leitor não encontra tal versão dos fatos, pois os derrotados têm sua voz abafada pela propaganda de guerra que continua até os dias de hoje. Em livros atuais sobre a Segunda Guerra Mundial como, por exemplo, “Europa em Guerra” do autor britânico Norman Davies, as estatísticas sobre capacidade e produção militar sempre englobam o período imediatamente anterior ao início do conflito em setembro de 1939, o que distorce a realidade até 1935 – NR.

    Percebe-se a intenção de países como França, Polônia ou Tchecoslováquia, os quais, como mostra o autor, estavam decididos nos anos 20 e 30 a se armarem. Estes países – se estavam certos ou não, não deve ser discutido aqui – cresceram ou até mesmo surgiram às custas do Reich alemão e deviam temer uma nova e forte Alemanha. O leitor deve se perguntar agora o motivo pelo qual o governo inglês também prescreveu tal política.

    Naturalmente existe a explicação tradicional, onde a Grã-Bretanha, por princípio, ajudava a potência mais fraca do continente contra a mais forte, porém, os motivos são mais profundos; encontra-se uma indicação sobre isso em outro lugar. O autor britânico Martin Allen publicou em seu livro “A Missão Secreta de Rudolf Hess” [1] um documento que pode ajudar esclarecer a questão. Trata-se de uma nota do habitual conselheiro do Ministério do Exterior, Sir Robert Vansittart, do início de setembro de 1940 a seu Ministro do Exterior, Lord Halifax. Nesta nota lê-se a surpreendente frase:

    “The enemy is the German Reich and not merely Nazism and [certain people]… would let us in for a sixth war even if we survive the fifth”.

    “O inimigo é o Reich alemão e não somente o nazismo. Aqueles (…) nos levariam a uma sexta guerra mesmo se sobrevivêssemos a uma quinta”.

    Num primeiro olhar esta frase não é totalmente clara, pois excetuado a Primeira Guerra nunca houve uma guerra entre o Reich alemão e a Grã-Bretanha. Quando se coloca esta frase junto a outras linhas da nota de Vansittart, pode-se reconhecer “…o Reich alemão e a idéia do Reich tem sido a praga do mundo por 75 anos…”. Lê-se ainda o panfleto de Vansittart “Black Record – Germans Past and Present”, então a coisa torna-se clara: Em Londres, tratava-se da eliminação da Alemanha como superpotência na Europa e isso ainda não tinha sido atingido na Primeira Guerra Mundial. A mera existência da Alemanha como país, com sua própria orientação política, já significava um perigo verdadeiro para o governo de Londres e deveria ser combatida.

    Diante deste pano de fundo, o comportamento de Londres entre os anos 1918 e 1939 apresenta-se totalmente racional. Com Schultze-Rhonhof, reconhece-se que os governos tratavam de impelir o Reich alemão para uma situação política onde ele deveria fazer uso das armas, e mais uma vez, e agora de uma vez por todas, ser derrotado e desarmado. Vansittart também disse isto nas poucas linhas de sua nota: “…the German Reich … has got to go under, and not only under, but right under”. Quando veio então a crise de Danzig no verão de 1939, a qual Schultze-Rhonhof detalha muito bem e Hitler teria cometido um erro na política externa com a ocupação do resto da Tchecoslováquia, o objetivo britânico poderia também ser assimilado pelo mundo, ganhando os necessários aliados e tornando-se ativo. A figura de Hitler não era importante e o Nacional-Socialismo uma coisa secundária. A única surpresa foi o inesperado e total colapso da Polônia em setembro de 1939.

    Esta política britânica foi dirigida fundamentalmente com o objetivo de assegurar a posse do Império diante da suposta ambição alemã de domínio mundial. Como de costume numa guerra, após 1945, o mundo era outro completamente diferente do que aquele que os participantes imaginavam no seu início. A Alemanha estava sim destruída, arrasada e dividida, o arqui-inimigo Prússia foi simplesmente eliminado, mas o Império estava do mesmo modo perdido e a leste, a União soviética se erguia ameaçadoramente, sendo que toda Europa tinha que se refugiar sob a guarda dos EUA. A França tentou salvar o que se podia salvar de suas conquistas, mas dentro de uma dúzia de anos aqui também se esvaeceu o sonho de um império mundial do Vietnã até a Argélia. Londres possui hoje peso político somente devido à sua inclinação para Washington e desta forma a Grã-Bretanha poderia terminar como o 51º Estado dos EUA – mesmo de outra forma – como Shaw imaginou certa vez em seu “Kaiser da América”.

    Roosevelt tinha objetivos de guerra bem específicos e praticamente desconhecidos do grande público – NR

    Polônia e Tchecoslováquia, por causa dos quais entrou-se numa guerra em 1939, não tinham mais qualquer poder após o conflito e foram deixados à União Soviética, juntamente com os países do Báltico. Esta última foi a única potência na Europa que contabilizou uma vitória política, eles ganharam com a Prússia Oriental uma importante base para submarinos no Ostsee, empurraram suas fronteiras ao custo da Alemanha e Polônia em várias centenas de quilômetros para o leste, e ameaçaram até os EUA a partir de Cuba.

    Do atual ponto de vista, pode-se caracterizar a política dos aliados nos anos anteriores a 1939 apenas como infantil e o resultado como um desastre. Construiu-se um espantalho em relação ao Reich alemão que distorceu a situação real daquele mundo. Como eles acreditavam somente em sua própria propaganda, os aliados se sentiam no direito de destruir a substância da Europa central e deixar por lá um deserto cultural e espiritual, que ainda representará por muito tempo um ponto fraco do Ocidente, e a qual talvez nunca mais possa ser restaurada. Gerd Schultze-Rhonhof, este antigo oficial, preencheu aqui uma importante lacuna em nossa historiografia.

    Fonte: polkaweb.eu

    [1] Martin Allen, A missão secreta de Rudolf Hess, Ed. Record 2007, pág. 109

    quinta-feira, 29 de setembro de 2022

    O Mecanismo e a Ideologia

     Em fevereiro de 2017, o cineasta José Padilha escreveu um artigo para O Globo explicando como funciona aquilo que ele rotulou de "Mecanismo".

    Alguns pontos valem ser destacados:

    * Na base do sistema político brasileiro opera um mecanismo de exploração da sociedade por quadrilhas formadas por fornecedores do estado e grandes partidos políticos.

    * O mecanismo opera em todas as esferas do setor público: no legislativo, no executivo, no governo federal, nos estados e nos municípios.

    * No executivo, ele opera via o superfaturamento de obras e de serviços prestados ao estado e a empresas estatais. 

    * No legislativo, ele opera via formulação de legislações que dão vantagens indevidas a grupos empresariais dispostos a pagar por elas.

    * A administração pública brasileira se constitui a partir de acordos relativos à repartição dos recursos desviados pelo mecanismo. Um político que chega ao poder pode fazer mudanças administrativas no país, mas somente quando estas mudanças não colocam em cheque o funcionamento do mecanismo. 

    * A eficiência e a transparência estão em contradição com o mecanismo.

    * Resulta daí que, na vigência do mecanismo, o estado brasileiro jamais poderá ser eficiente no controle dos gastos públicos. 

    * As políticas econômicas e as práticas administrativas que levam ao crescimento econômico sustentável são incompatíveis com o mecanismo, o qual tende a gerar um estado cronicamente deficitário. 

    * Embora o mecanismo não possa conviver com um estado eficiente, ele também não pode deixar o estado falir. Se o estado falir o mecanismo morre. 

    * A combinação destes dois fatores faz com que a economia brasileira tenha períodos de crescimento baixo, seguidos de crise fiscal, seguidos de ajustes que visam a conter os gastos públicos, seguidos de novos períodos de crescimento baixo, seguidos de nova crise fiscal.

    Tudo isso está correto e o autor merece aplausos por saber identificar o problema.

    No entanto, Padilha, talvez por querer posar de isento, comete um erro básico e crucial. Segundo ele:

    * O mecanismo existe à revelia da ideologia. 

    * O mecanismo viabilizou a eleição de todos os governos brasileiros desde a retomada das eleições diretas, sejam eles de esquerda ou de direita (PMDB, DEM, PSDB e PT).

    * No sistema político brasileiro, a ideologia está limitada pelo mecanismo: ela pode balizar políticas públicas, mas somente quando estas políticas não interferem com o funcionamento do mecanismo. 

    Eis o erro de Padilha: o Mecanismo não existe à revelia da ideologia. Muito pelo contrário: o que possibilita a existência e a robustez do Mecanismo é exatamente a ideologia.

    E que ideologia é esta?

    Agendas ligadas aos partidos de Esquerda e Social Democrata que se fazem presente e atuante no Brasil nos 36 partidos ativos.

    Perfeita a constatação.

    O Mecanismo só existe porque há uma ideologia explícita que o sustenta: a defesa de um estado grande, onipresente, intervencionista, ultra-regulador, que em tudo intervém e de todos cuida.

    Estado corporativista, protecionista, que tudo abrange e a tudo controla é exatamente a ideologia por trás do Mecanismo.

    A lógica é direta: enquanto houver, de um lado, um governo grande, com um farto orçamento público repleto de emendas e brechas, sempre haverá, do outro lado, grupos de interesse poderosos e bem organizados, que irão se beneficiar deste orçamento público.

    Mais: esses grupos terão todo o interesse em fazer com que este orçamento cresça cada vez mais, pois são os beneficiários diretos deste aumento dos gastos.

    E quem realmente bancará todos esses gastos do governo que irão privilegiar os grupos de interesse são os pagadores de impostos.

    Os incentivos do Mecanismo

    O óbvio sempre deve ser repetido: o principal motivo para se fazer lobby junto a um estado inchado é a elevada recompensa que isto traz. Quanto maior for o governo, quanto maiores forem seus gastos, maior será o bolo a ser repartido. (No Brasil, como mostra este gráfico, o gasto público nas três esferas de governo chegou a estar em 10% do PIB na década de 1920, e fechou em 43% do PIB em 2016.)

    Esta é a prática conhecida como rent seeking (ou "busca pela renda"): é a atividade de conquistar privilégios e benefícios não pelo mercado, mas pela influência política. Na prática, é a captura das instituições regulatórias, de políticos e de burocratas com o objetivo de obter privilégios em prol de grupos interesses.

    Os privilégios variam. As mais prosaicas e corriqueiras são crédito subsidiado, patrocínios estatais, tarifas de importação que as protegem contra concorrentes estrangeiros, agências reguladoras que cartelizam o mercado e dificultam a entrada de novos concorrentes, e regulamentações profissionais que aumentam a barreira de entrada de novos concorrentes.

    No entanto, a modalidade de rent-seeking que atingiu o estado da arte no Brasil é a dos contratos superfaturados.

    Neste arranjo, empreiteiras pagam propina a políticos e burocratas que estão no comando de estatais e ministérios para que elas sejam as escolhidas em licitações de obras. Ato contínuo, esses políticos e burocratas subornados escolhem essa empreiteira. No final, em troca da propina, a empreiteira faz uma obra superfaturada, a qual será pago pelos impostos da população trabalhadora. Empresa, burocratas e políticos ganharam, e a população trabalhadora perdeu.

    Em todos os casos de rent-seeking, ocorre o mesmo padrão: um estado grande sempre acaba se convertendo em um instrumento de redistribuição de riqueza. A riqueza é confiscada dos grupos sociais desorganizados (os pagadores de impostos) e direcionada para os grupos sociais organizados (lobbies, grupos de interesse e grandes empresários com conexões políticas).

    A crescente concentração de poder nas mãos do estado faz com que este se converta em um instrumento muito apetitoso para todos aqueles que saibam como manuseá-lo para seu benefício privado.

    Lobistas e grupos de interesse são a consequência natural de um estado agigantado e com gastos crescentes. E são também a essência do Mecanismo.

    Mas não só.

    Os cinco elementos do Mecanismo

    No Brasil, o Mecanismo é composto majoritariamente por cinco classes principais: os grandes empresários que querem reserva de mercado, subsídios e nenhuma concorrência; as empreiteiras que querem se fartar em dinheiro de impostos por meio de obras públicas; os sindicatos que se opõem à produtividade; os reguladores e burocratas que impingem as legislações; e os políticos que visam apenas ao curto prazo.

    Estes são os cinco grupos de poder que formam o Mecanismo.

    Sempre que se cria um ambiente de relações estreitas entre, de um lado, os membros do governo (políticos, burocratas e reguladores) e, de outro, grupos de interesse política e economicamente favorecidos pelo governo (empresários anti-concorrência, empreiteiras de olho em obras públicas, e sindicatos), ocorre um fenômeno inevitável: todas as relações políticas passam a ser pautadas pelo famoso lema do "quem quer rir tem de fazer rir".

    Para que políticos, burocratas e reguladores favoreçam grupos de interesse, estes têm de dar agrados em troca. Ao exigir agrados, os agentes do governo estão apenas exigindo sua fatia do bolo: já que o governo está utilizando dinheiro de impostos para beneficiar grupos de interesse, então os agentes do governo que supervisionam esse processo também querem se dar bem nesse arranjo. E aí cobram seus "agrados".

    Estes agrados normalmente se dão na forma de malas de dinheiro, dinheiro em offshores, doação de imóveis, reformas de apartamentos e sítios, doações de campanha etc.

    E assim o Mecanismo se mantém.

    A Lava-Jato nada mais foi do que a revelação dessa associação entre, de um lado, as grandes empreiteiras e os grandes grupos empresariais e, de outro, os integrantes de toda a esfera regulatória do estado: o que envolve desde burocratas de secretarias até membros do governo executivo (inclusive a presidência da república), passando pelos integrantes do parlamento, legisladores, integrantes da magistratura, partidos políticos, e órgãos de fiscalização e polícia.

    Para acabar com o Mecanismo

    O Mecanismo, no final, é simplesmente uma atitude lógica adotado por grupos de interesse bem organizados e com grande poder de lobby: tentar cooptar os governantes para que implantem políticas públicas em seu benefício.

    Enquanto a mentalidade dominante no Brasil for a da defesa de um estado agigantado e onipresente, que em tudo intervém e de todos cuida, o Mecanismo permanecerá robusto.

    Só há uma única maneira de abolir, em definitivo, o Mecanismo e toda a corrupção, os grupos de interesse e os lobbies empresariais que ele fomenta: reduzir ao máximo o tamanho do estado, limitando enormemente (ou até mesmo eliminando) a autoridade política que socialmente concedemos e reconhecemos ao estado. Se o estado perde seu poder de conceder privilégios àqueles grupos que o capturam, estes não irão adquirir autoridade política para obter privilégios à custa da sociedade. Nenhum empresário ou sindicato pode comprar favores de um burocrata que não tenha favores para vender.

    A defesa de um estado grande, intervencionista e ultra-regulador é a ideologia que sustenta o Mecanismo.