1. José Dirceu nasceu em Passa Quatro (MG) em 1946, chegou a São Paulo na adolescência e logo mergulhou no movimento estudantil. Em 1968, como presidente da UNE, foi preso no Congresso da Ibiúna e trocado no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Foi exilado em Cuba, fez treinamento militar, mudou de rosto, retornou ao Brasil com a Lei da Anistia em 1979 e ajudou a fundar o PT. Não era um militante qualquer: era o cérebro tático da nova esquerda brasileira, organizando, aglutinando e calibrando a máquina partidária. Dirceu não subiu pela retórica, mas pela articulação, e se tornou o operador mais temido da política nacional. Ainda nos anos 80 já era apontado como futuro ministro, articulador de palanques e homem por trás do projeto de poder do partido. Estava só começando.

2. Nos anos 90 e 2000, Dirceu virou o verdadeiro arquiteto do PT. Presidiu o partido, organizou palanques, estruturou alianças estaduais, e foi o cérebro da campanha que elegeu Lula em 2002. Quando Lula assume, o coloca na Casa Civil. Ali, Dirceu manda mais que ministro: coordena toda articulação política, domina a relação com o Congresso e consolida o modelo de poder petista. Era o “capitão do time”. Mas o poder absoluto trouxe o maior escândalo da história do partido até então: o Mensalão. A bomba explode em 2005, com Roberto Jefferson delatando a compra de votos no Congresso. Dirceu cai do cargo, vira réu, e em 2012 é condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha. Recebe 10 anos e 10 meses de prisão. É o fim da era da onipotência e o começo da batalha judicial que duraria mais de uma década.

3. Mesmo após o Mensalão, Dirceu não desaparece. Vira alvo da Lava Jato, e aí o cerco se fecha. Em 2016, Sergio Moro o condena a 23 anos e 3 meses por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em 2018, o TRF-4 amplia outra pena para 30 anos, 9 meses e 10 dias. Segundo as decisões, ele continuou recebendo propina de empreiteiras como Engevix, OAS, Galvão Engenharia, UTC e outras, mesmo fora do governo. A JD Assessoria, sua consultoria, teria sido usada para escoar recursos ilícitos. Tudo documentado em relatórios da PF, delações e extratos. Nessa época, Dirceu estava com mais de R$ 6 milhões rastreados em pagamentos suspeitos. Era acusado de operar por fora do governo, influenciando contratos da Petrobras e abrindo portas para aliados. Uma segunda condenação pesada. A era da caneta vira a era do tornozelo eletrônico.
Entre 2015 e 2018, Dirceu virou alvo fixo da Polícia Federal. Foi preso na 17ª fase da Lava Jato, chamada “Pixuleco”, que investigava a rede de propinas pagas via contratos públicos. As delações citavam de forma direta: Milton Pascowitch, operador ligado à Jamp, afirmou ter pago R$ 1 milhão à JD Consultoria. O imóvel da empresa em Brasília teria sido comprado com dinheiro de origem duvidosa. A Camargo Corrêa teria transferido R$ 845 mil. OAS, R$ 2 milhões. UTC, R$ 2,8 milhões. Egesa, Galvão, Engevix... a lista seguia. A acusação era clara: as empresas pagavam "consultoria" como fachada para manter influência com a antiga cúpula petista. O esquema tinha planilha, recibo e até e-mail interno de executivos comentando os valores. A mídia chamava Dirceu de "o general da propina". Mas isso ainda não era o fim.
Em paralelo, José Dirceu foi citado na CPI dos Bingos, após o escândalo envolvendo Waldomiro Diniz, seu braço-direito na Casa Civil, flagrado pedindo propina a Carlinhos Cachoeira. Isso abriu uma crise dentro do governo Lula ainda em 2004. Depois, veio a CPI do Cachoeira, em 2012, que investigou influência de arapongas e lobby de empreiteiras em contratos públicos, especialmente no Centro-Oeste. A comissão terminou sem indiciamentos formais contra Dirceu, mas o manteve sob fogo cruzado, com gravações, grampos e citações de executivos do grupo Delta. Ainda que sem condenação, reforçou a imagem de operador que atuava nos bastidores mesmo fora do poder formal. Nesse meio tempo, a JD Consultoria já era investigada pelo Ministério Público e Receita Federal, que viam sinais claros de ocultação patrimonial e intermediação de interesses privados.
Mas o cenário virou a partir de 2022. Com o desgaste da Lava Jato, o STF passou a revisar decisões. Em 2023, o STJ reduziu a pena de Dirceu. Em 2024, a 2ª Turma do Supremo extinguiu parte das condenações, com Gilmar Mendes anulando atos processuais por vícios como a parcialidade de Moro e a incompetência da 13ª Vara. Foi o pêndulo da justiça. O mesmo sistema que o prendeu, agora desmontava os processos. Em outubro de 2024, duas ações centrais da Lava Jato contra Dirceu são anuladas. O discurso do PT muda: ele passa de condenado a vítima de lawfare. Para adversários, é manobra jurídica. Para aliados, reparação histórica. O resultado prático? José Dirceu se vê livre das amarras legais que o impediam de voltar à cúpula do jogo político. A engrenagem jurídica travada há anos, destrava.

Com a ficha limpa de volta, Dirceu se move. Em agosto de 2025, é eleito para o Diretório Nacional do PT. Não assume cargos executivos, mas ocupa uma cadeira com voto e visibilidade. Começa a circular como “consultor estratégico” nas reuniões internas, defendendo uma reorganização nacional do partido com foco em 2026. Reaproxima-se de governadores, conversa com líderes de esquerda e busca consolidar uma frente ampla. Com Lula já mais distante do centro do palco, Dirceu volta a ser o cérebro da engrenagem. Seu estilo é o mesmo: fala pouco em público, mas comanda articulações subterrâneas. Vira uma espécie de “eminência parda” do petismo. Dentro do partido, poucos têm sua capacidade de leitura do tabuleiro político e domínio de bastidores. Dirceu estava de volta — e com um plano.
Nos discursos e entrevistas, José Dirceu adota um tom institucional, mas incisivo. Fala em soberania nacional, crítica ao que chama de tutela do judiciário e necessidade de reorganizar o Estado. Defende uma nova agenda de reformas, mais “estruturantes”, que incluam tributação de grandes fortunas, repactuação federativa e controle social sobre meios de comunicação. Para críticos, é o mesmo projeto de poder disfarçado. Para aliados, é coerência ideológica. Em todas as falas, volta a apontar o dedo contra a “criminalização da política” e a “judicialização do debate público”. Seus alvos são claros: parte do Ministério Público, setores da mídia e a herança da Lava Jato. Não é retórica de paz — é retórica de guerra eleitoral com verniz de institucionalidade. Dirceu volta a ser o ideólogo das trincheiras.
Em números, Dirceu ficou 854 dias preso. Teve condenações somadas em mais de 40 anos, embora nenhuma tenha sido cumprida integralmente. O valor total mapeado em sua consultoria ultrapassava R$ 6,5 milhões, segundo planilhas do MPF. Ele foi condenado em pelo menos 3 ações diferentes e teve penas anuladas em 2024. O nome de sua empresa, JD Assessoria, aparece em mais de 12 contratos investigados. O número de menções em delações premiadas ultrapassa 15, de executivos como Pascowitch, Léo Pinheiro e Ricardo Pessoa. Nada disso impediu seu retorno. Ele volta à cena com o mesmo estilo: articulador, discreto, disciplinado. Ao contrário de figuras barulhentas, Dirceu opera no silêncio — e é justamente isso que o torna perigoso para adversários e essencial para o PT.
Dirceu é mais do que um político. É um caso de estudo sobre poder. Foi militante, guerrilheiro, operador, condenado, preso, consultor, articulador — e agora, de novo, conselheiro da cúpula petista. Ele conhece o sistema por dentro, sabe onde apertar e onde recuar. É um animal político que sobreviveu à ditadura, à transição, ao mensalão, à Lava Jato e agora ao STF. E voltou. Hoje, em 2025, já se movimenta para influenciar 2026. Seu objetivo não é holofote, é controle. Dirceu nunca foi candidato viável à presidência — sempre foi o cara que escolhia quem ia disputar. E esse é seu papel de novo. Para uns, é símbolo do que precisa acabar. Para outros, a mente que nunca parou de pensar o Brasil. Seja qual for o lado, ninguém ignora: José Dirceu está de volta. E quando ele aparece, o jogo muda.
Nos discursos e entrevistas, José Dirceu adota um tom institucional, mas incisivo. Fala em soberania nacional, crítica ao que chama de tutela do judiciário e necessidade de reorganizar o Estado. Defende uma nova agenda de reformas, mais “estruturantes”, que incluam tributação de grandes fortunas, repactuação federativa e controle social sobre meios de comunicação. Para críticos, é o mesmo projeto de poder disfarçado. Para aliados, é coerência ideológica. Em todas as falas, volta a apontar o dedo contra a “criminalização da política” e a “judicialização do debate público”. Seus alvos são claros: parte do Ministério Público, setores da mídia e a herança da Lava Jato. Não é retórica de paz — é retórica de guerra eleitoral com verniz de institucionalidade. Dirceu volta a ser o ideólogo das trincheiras.

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