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    segunda-feira, 1 de julho de 2019

    As três maneiras como os capitalistas melhoram a vida dos trabalhadores

    Um dos principais lugares-comuns utilizados pelos críticos do capitalismo é o de que este arranjo não apenas não trouxe nenhuma liberdade para os trabalhadores, como, ao contrário, representou sua escravização.
    Alguns críticos, inclusive, vão ainda mais longe e dizem que, sob o capitalismo, a única liberdade que há para o trabalhador é a "liberdade para morrer de fome".
    Com efeito, os socialistas de hoje descrevem a crítica de Marx ao capitalismo como um sistema no qual "os trabalhadores são duplamente livres — livres para trabalhar e livres para morrer de fome".
    Em outras palavras, sob o capitalismo, os trabalhadores não têm alternativa senão venderem sua mão-de-obra para os proprietários do capital com o intuito de garantirem sua própria sobrevivência.
    Os socialistas, portanto, afirmam que a característica singular de uma economia capitalista é a de que as pessoas têm de trabalhar para não morrerem de inanição.
    Dica: isso vale para qualquer arranjo
    Não, não é o capitalismo quem requer que os humanos "trabalhem para evitar sua morte", mas sim a própria natureza.
    Em um estado natural, seja no meio de uma floresta ou mesmo em uma ilha deserta, o homem terá de efetuar trabalho produtivo para obter alimentos para sua sobrevivência. A comida não irá simplesmente surgir, sem nenhum esforço, dentro de sua boca.
    Para cultivar vegetais, ele terá de efetuar esforço físico na atividade agrícola. Para comer carne, ele terá de fazer esforço físico caçando. Para outros alimentos, ele provavelmente terá de subir em árvores para pegar os frutos de seus galhos.
    O que nos traz à questão de como um indivíduo opta por trabalhar para obter os recursos necessários para se alimentar.
    De acordo com o portal O Trabalhador Socialista, não há escolha nenhuma:
    O capitalismo depende de um grupo de pessoas que é proprietária dos meios de produção — fábricas, escritórios, maquinários, matérias-primas etc. — e de outro, muito mais numeroso, que não é proprietário de nada disso, mas que tem de trabalhar para o grupo minoritário para poder sobreviver.
    Adicionalmente, os socialistas insistem que os proprietários dos meios de produção não criam nenhum valor, e utilizam seu poder sobre os trabalhadores para explorá-los em troca de lucros.
    Para começar, este é um falso dilema, pois o "grupo" que é hoje proprietário dos meios de produção não é algo fixo e definitivo. Ademais, indivíduos são livres para adquirir bens de capital para produzir bens que gerem renda para eles. Qualquer empreendedor autônomo — mesmo um pipoqueiro dono de sua carrocinha de pipocas — sabe disso.
    A real questão, portanto, é outra: por que tantas pessoas optam por trabalhar em troca de salários para capitalistas proprietários dos meios de produção? A quais propósitos os capitalistas realmente servem?
    O real valor dos capitalistas
    Comecemos com o exemplo de João.
    João não tem nenhum emprego e não é proprietário de nenhum meio de produção. Sem emprego, sem renda e sem ativos que possam lhe gerar renda, a única opção que ele tem para alimentar a si próprio e a sua família é literalmente utilizar suas mãos para produzir bens que satisfaçam a vontade de consumidores voluntários.
    Obviamente, a produtividade de João será próxima de zero. Na melhor das hipóteses, ele conseguirá cultivar alguns vegetais e abater alguns pequenos animais para alimentar sua família.
    Ou então ele pode fazer pequenas atividades artesanais com suas mãos utilizando recursos brutos que ele encontrou na natureza, e então vender este artesanato para quem quiser voluntariamente comprar.
    Se a família de João sobreviver, o máximo a que ela pode almejar é um nível mínimo de subsistência.
    Para se tornar mais produtivo, e assim garantir a sobrevivência sua e de sua família, João obviamente necessita ter acesso a bens de capital que lhe permitam aumentar sua produtividade. Afinal, quanto mais ele conseguir produzir utilizando sua mesma mão-de-obra, maior será sua receita.
    Sendo assim, João agora tem de fazer uma escolha: adquirir ele próprio bens de capital para que ele possa produzir bens para vender, ou ir trabalhar para um capitalista que lhe forneça os meios de produção aos quais João pode aplicar sua mão-de-obra em troca de um salário.
    Há vários, mas eis os três principais benefícios fornecidos pelo capitalista a João, os quais fazem com que João, e a esmagadora maioria das pessoas, considere ser mais benéfico trabalhar para um capitalista.
    1. Os bens de capital fornecidos pelo capitalista fazem com que o trabalhador seja muito mais produtivo do que ele seria caso trabalhasse por conta própria
    A maioria dos indivíduos possui recursos limitados, e consequentemente seria capaz de conseguir muito menos bens de capital, e bem menos produtivos, do que aqueles que o capitalista pode fornecer.
    Uma maior produtividade (permitida pelos bens de capital) irá se traduzir em salários mais altos para os trabalhadores em relação à receita que ele conseguiria auferir produzindo e vendendo bens fabricados artesanalmente por conta própria.
    Trata-se de uma regra inviolável: quanto maior a quantidade de bens de capital utilizados por um trabalhador, maior será sua produtividade. Um operário americano chega a ganhar até cem vezes mais que um indiano não porque ele é mais trabalhador ou mesmo mais capacitado, mas sim porque o americano utiliza cem vezes mais capital físico (máquinas, ferramentas, instalações industriais, meios de transporte etc.) que seu colega indiano.
    Esse capital físico é o que aumenta a produtividade, os salários e, consequentemente, o padrão de vida de uma sociedade. A acumulação de capital, ao tornar o trabalho humano mais eficiente e produtivo, é o que permite aumentos salariais para todos.
    2. Trabalhar para um capitalista em uma empresa permite ao trabalhador obter uma renda imediatamente
    O capitalista investe hoje (compra maquinários, contrata mão-de-obra e até mesmo pega empréstimos) na esperança de que suas receitas futuras compensarão estes gastos incorridos no presente.
    Ao passo que o capitalista tem de esperar não apenas pelo término de todo o processo de produção, como também pela venda dos produtos finais, para só então eventualmente auferir seu lucro (o que pode levar anos), o trabalhador assalariado já consegue obter o seu lucro (salário) de imediato — normalmente, tendo de esperar no máximo um mês após sua contratação.
    Os salários auferidos pelos trabalhadores representam uma antecipação das receitas futuras esperadas pelo capitalista com a eventual venda dos produtos finais. Tal antecipação não é possível quando o indivíduo produz autonomamente utilizando seus próprios bens de capital.
    Isso é de crucial importância e merece ser ressaltado: para que um operário de uma fábrica possa fabricar mercadorias, houve uma montanha de dinheiro investido na fábrica. A empresa investiu, digamos, $ 10 bilhões (construiu a fábrica, comprou maquinários e paga os salários) para recuperar, na forma de fluxo de caixa anual, aproximadamente $ 1 bilhão. Serão necessários 10 anos apenas para recuperar todo o capital adiantado. (Fora a inflação do período)
    Ou seja, o capitalista abriu mão de $ 10 bilhões em consumo presente para receber, anualmente, uma receita de $ 1 bilhão. Tudo dando certo, daqui a uma década o principal é recuperado (e desvalorizado pela inflação).
    Os trabalhadores que este capitalista emprega hoje não precisam esperar até que os bens sejam produzidos e realmente vendidos para receberem seus salários. O capitalista adianta um bem presente (salário) aos trabalhadores em troca de receber — somente quando o processo de produção estiver finalizado — um bem futuro (o retorno do investimento). Existe necessariamente uma diferença de valor entre o bem presente do qual o capitalista abre mão (seu capital investido na forma de salários e maquinário) e o bem futuro que ele receberá (se é que receberá).
    Já o trabalhador recebe hoje o valor integral daquilo que ele produz e que só será vendido no futuro. Consequentemente, há um inevitável desconto no valor dos salários pagos, pois o valor futuro de algo é trazido ao seu valor presente. Sempre que o valor futuro de algo é trazido ao seu valor presente, o valor presente é menor. São os juros intertemporais.
    (Confira toda a explicação em detalhes neste artigo).
    3. O capitalista arca com o risco dos potenciais prejuízos
    Apetite por risco e disponibilidade para assumi-los são atitudes cuja oferta é bastante escassa.
    A maioria das pessoas não está disposta a se arriscar a perder seu capital (ou a pedir emprestados fundos que terão de ser pagos, com juros, no futuro) caso seus bens produzidos não sejam valorizados pelos consumidores a um preço maior do que os custos de produção.
    Apenas os capitalistas aceitam incorrer neste risco.
    Para concluir
    Em suma, o sistema de salários permite que: 1) os trabalhadores ganhem mais do que ganhariam individualmente; 2) recebam antecipadamente (sem ter de esperar que todos os produtos finais sejam vendidos), e 3) terceirizem o risco de prejuízos nos investimentos (o que pode dizimar um capital próprio) para o capitalista.
    O capital não explora o trabalhador. Ao contrário: ele aumenta o valor da mão-de-obra ao fornecer ao trabalhador as máquinas e ferramentas de que ele necessita para produzir bens e serviços que os indivíduos valorizam. E, assim, permite não apenas a sobrevivência do trabalhador, como também um crescente padrão de vida.
    Não fosse o capital disponibilizado pelos capitalistas (maquinário, ferramentas, matéria prima, insumos, instalações etc.), a mão-de-obra não teria como produzir estes bens de qualidade altamente demandados pelos consumidores. Consequentemente, os trabalhadores nem sequer teriam renda.
    Logo, não apenas a crítica do "livre para morrer de fome" está totalmente errada (mesmo porque a exigência que todos trabalhem para sobreviver não é do capitalismo, mas sim da própria natureza), como, ao contrário, a realidade é que o capitalismo presta o valioso serviço de fazer com que a situação dos trabalhadores seja melhor do que seria sem ele.
    Bradley Thomas


    Há 30 anos, a Polônia se libertava do socialismo




    Já faz um bom tempo que a Polônia não frequenta os noticiários internacionais, e isso é sinal de que as coisas estão calmas nesta nação da Europa Central (eles não gostam de ser chamados de Leste Europeu). 
    No entanto, durante toda a década de 1980, a Polônia foi uma fábrica contínua de notícias. Foi o país mais expressivo e agitado por trás da Cortina de Ferro.
    Hoje, a Polônia é uma vibrante economia de mercado, cujas condições de vida não estão distantes daquelas da Europa Ocidental. Os supermercados e as lojas de departamentos, que estão em todos os cantos, são repletos de bens variados e oriundos de todos os cantos do mundo. As cidades ostentam grandiosas e modernas edificações. Há até mesmo novas igrejas sendo construídas — algo proibido sob o regime comunista. 
    Todas as fachadas antigas e decrépitas da era comunista foram renovadas, e aquele antigo e lúgubre cinza foi substituído por cores mais vibrantes. Os problemas de transporte estão praticamente resolvidos. As rodovias são novas e modernas, e suplementam um excelente sistema ferroviário.
    Restaurantes sofisticados, cafés badalados, e restaurantes para almoços prosaicos estão por todas as partes. 
    Se há 30 anos turistas estrangeiros eram algo raro até mesmo na bela Cracóvia e seus locais tombados pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, hoje você os vê rotineiramente nas principais cidades do país.
    Os poloneses já se acostumaram a viver com todos os luxos que o capitalismo pode oferecer, como apartamentos e imóveis prontamente disponíveis. Bens como automóveis, televisores de plasma, smartphones, notebooks etc. estão disponíveis para todas as classes sociais.
    Porém, as coisas eram totalmente distintas na década de 1980. Pronta disponibilidade de bens era algo inimaginável. Fartura era algo fictício. Penúria era a regra. 
    No aniversário de 30 anos do fim do, vale a pena fazermos uma breve viagem no tempo e voltarmos à Polônia da década de 80. A história não deve ser esquecida.
    O cenário de fundo
    Ao final da década de 1970, a economia polonesa estava em convulsão. O governo estava completamente endividado em decorrência de vários empréstimos externos, e, tendo de arrecadar os fundos necessários para pagar os encargos de sua dívida, ele optou por aumentar os preços de vários produtos. Isso foi o estopim para uma série de greves de trabalhadores. 
    Um pouco antes, em 1978, um papa polonês foi eleito em Roma. Seria o primeiro papa não-italiano desde Adriano VI, que morreu em 1523. Em junho de 1979, João Paulo II (Karol Józef Wojtyla) fez sua primeira visita à Polônia já como sumo pontífice. Celebrou uma missa na Praça da Vitória perante uma multidão de 3 milhões de poloneses. 
    Ali estava um homem que havia sido criado sob um regime nazista e que havia sobrevivido ao comunismo. Já não era segredo para ninguém que aquele papa desprezava o comunismo e iria fazer de tudo para solapar este regime na Polônia. 
    Esta viagem à sua Polônia natal — um franco desafio ao regime comunista — elevou o espírito da nação, algo que culminaria, no ano seguinte, na formação de um movimento abertamente anticomunista formado por trabalhadores e operários.  
    Tudo começou com uma greve geral em Lublin, em julho de 1980. Mas foi em meados de agosto que manifestações no estaleiro de Gdansk deram origem a uma série de greves que praticamente paralisaram toda a costa báltica. Pela primeira vez na história, quase todas as minas de carvão da região da Silésia foram fechadas. 
    Os representantes dos grevistas no estaleiro de Gdansk, liderados por um eletricista chamado Lech Walesa, assinaram o Acordo de Gdansk, prometendo ao governo que acabariam com as greves se o governo socialista garantisse o direito dos trabalhadores de formar sindicatos independentes e também chancelasse o direito à greve. 
    Após um bem-sucedido acordo — nesta que havia sido a maior confrontação trabalhista da história da Polônia —, movimentos sindicais organizados começaram a ser formar ao longo de todo o país.
    No dia 17 de setembro de 1980, todos os sindicatos se reuniram em Gdansk e decidiram formar uma única organização sindical nacional chamada de Solidariedade.
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    Tal liberdade, obviamente, desagradou Moscou, que, em fevereiro de 1981, elevou o general Wojciech Jaruzelski, então Ministro da Defesa, ao cargo de primeiro-ministro. Veterano da Segunda Guerra, sua prioridade era recorrer à força bruta para arrefecer as manifestações que irrompiam por todos os cantos do país.
    Já em março de 1981, na cidade de Bydgoszcz, três ativistas foram espancados pela polícia secreta. Como consequência, uma "greve de advertência" comandada pelo Solidariedade — que a esta altura já era formado por 9,5 milhões de poloneses — voltou a paralisar todo o país, e com o apoio maciço da população. Os soviéticos já estavam perdendo a paciência.
    Em setembro de 1981, em Gdansk, o Solidariedade fez o seu primeiro congresso nacional, e Walesa foi eleito líder nacional do movimento e imediatamente fez um apelo a todos os outros países do Leste Europeu para que seguissem os mesmos passos do Solidariedade. 
    Para Moscou, o congresso havia sido uma "uma orgia anti-socialista e anti-soviética". Os líderes comunistas da Polônia, comandados por Jaruzelski, estavam prontos para utilizar de violência para conter o movimento.
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    Em outubro, Jaruzelski foi nomeado Primeiro-Secretário do Partido Comunista, uma ascensão atípica para um militar no mundo comunista. Jaruzelski exigiu que o parlamento proibisse as greves e o concedesse poderes extraordinários. 
    Em dezembro, o regime declarou lei marcial, e as tropas paramilitares ZOMO foram utilizadas para esmagar o Solidariedade. Praticamente todos os líderes locais e vários intelectuais afiliados ao movimento foram detidos e encarcerados. Nove foram assassinados na mina de Wujek. Após este ataque do governo, os agitos no país diminuíram. Embora reduzido a apenas alguns poucos milhares, o Solidariedade continuou na ativa, só que agora clandestinamente.
    A rotina dos poloneses
    O controle do Partido Comunista parecia inquebrantável. Tudo indicava que a Polônia ainda teria de viver sob este regime por vários anos vindouros. 
    Mas como era a vida sob este regime? Quais eram as características desta rotina que fizeram com que a população polonesa ansiasse tanto por uma mudança?
    O padrão de vida geral da população era desolador, assim como nos outros países sob a esfera soviética. A combinação entre escassez geral de produtos e métodos de distribuição totalmente ineficientes fazia com que o simples ato de ir às compras em busca de produtos básicos fosse uma experiência agonizante — mesmo quando havia produtos nas prateleiras.
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    Açougue em Varsóvia, 1982
    Os bens de consumo se limitavam quase que exclusivamente a produtos de baixa qualidade fabricados no Leste Europeu. Simplesmente não havia produtos ocidentais, exceto nas lojas especiais da Pewex, que aceitavam apenas dólar ou marco alemão, e a preços muito acima das posses de um polonês médio.
    Com a imposição da Lei Marcial, as coisas pioraram bastante. Longas filas se formavam quando produtos essenciais — como papel higiênico, xampu, lâmpadas, chá, café, utensílios domésticos, queijo, guardanapos, sapatos e roupas íntimas — apareciam nas lojas. O simples ato de fazer compras era um exercício diário que envolvia perambular pela cidade à procura de alguma loja que tivesse estoques e, caso a procura fosse bem-sucedida, entrar em uma longa fila de espera. 
    E, dado que a maioria das mulheres polonesas tinha um emprego, o fardo extra de ter de fazer compras em tais condições era enorme, gerando uma grande taxa de absenteísmo e significativas dificuldades em cuidar dos filhos e em dar conta das tarefas domiciliares.
    Um polonês jamais saía de casa sem estar carregando uma sacola de compras. Vai que inesperadamente ele encontrasse uma lojinha com produtos à venda e ele tivesse a rara oportunidade de poder comprar alguma coisa...
    Em Varsóvia, a situação era menos desesperadora. Como o Partido Comunista tinha suas bases na capital, ele conseguia manipular as coisas de modo a garantir um suprimento mais generoso para a cidade. No entanto, em uma cidade mais afastada — como Breslávia (ou Wroclaw), que é grande e está localizada no sudoeste da Polônia —, a situação era igual à do resto do país. Uma ida ao Centrum, que então era a maior loja de departamentos da cidade, era algo que hoje parece um pesadelo. 
    Havia pouquíssimos produtos disponíveis e, mesmo assim, uma multidão de pessoas se aglomerava nos corredores. Filas de centenas de pessoas se formavam em frente aos poucos balcões que ainda tinham produtos disponíveis. Aquilo que em outras épocas foi a seção de tecidos da loja havia se transformado em um mar de vazias e inúteis mesas de medidas. Seis ou sete ternos amarfanhados estavam disponíveis na seção masculina em meio a filas de cabides vazios. A seção de esportes tinha apenas dois itens: pneus de bicicleta e botas de ski.
    Cartazes escritos à mão ao longo dos corredores da loja ilustravam a triste situação. Na seção de sapatos masculinos, onde em outras épocas havia centenas de diferentes pares e agora estava sempre vazia, um cartaz dizia que "149 pares serão vendidos hoje". Outro cartaz anunciava que "Nenhum tapete será vendido hoje". 
    Em frente aos poucos aspiradores de pó ainda disponíveis na seção de eletrodomésticos, um cartaz dizia "Somente para Agricultores". O governo vinha tentando motivar os agricultores a produzir mais comida, e imaginou que poderia criar tal estímulo reservando somente para eles os bens de consumo mais desejáveis.
    Em determinadas ocasiões, as pessoas eram obrigadas a efetuar grandes façanhas para obter itens totalmente simples. Quando alguma loja anunciava que estava vendendo máquinas de costura, pessoas de todos os cantos da Breslávia corriam para lá. De início, era necessário ficar um dia e meio em pé na fila apenas para colocar seu nome em uma lista de compradores interessados. Depois, durante três ou quatro dias consecutivos, você tinha de ir à loja três vezes por dia apenas para estar presente à chamada que os burocratas faziam para verificar os nomes da lista. Cumprida esta tarefa, todos eram instruídos a voltar dali a duas semanas, que seria quando as máquinas estariam disponíveis — e ainda assim não havia nenhuma garantia de que as pessoas na lista realmente conseguiriam uma máquina de costurar. 
    Era comum alguns produtos irem parar nas mãos de amigos do burocrata encarregado de administrar a loja. Ou nas mãos de alguns membros do Partido.
    Porém, dentre todos os martírios e provações que o consumidor polonês tinha de enfrentar, a busca por comida certamente era o mais humilhante e deprimente de todos. Um popular supermercado da Breslávia, que gozava a reputação de estar sempre bem suprido, tinha em suas prateleiras pão, biscoito-de-água-e-sal, dois tipos de pimenta, sal, farinha, macarrão, picles, açúcar, latas de ervilha, e água mineral. A seção de hortifruti tinha batatas, cebolas, beterrabas, cenouras, alho e alface estragada. A seção de laticínios tinha queijo branco e ovos. Carne era disponibilizada apenas para quem apresentasse todos os devidos cartões de racionamento. Este era todo o estoque do supermercado. 
    Quando chegava algum carregamento de coisas mais saborosas, como geléia, iogurte ou pudim, tudo se esgotava em menos de uma hora. Em determinadas ocasiões, se você madrugasse em frente à porta do supermercado e estivesse com sorte, conseguiria comprar um pouco de leite.
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    Mercado em Grójek, 1982
    Quem tinha mais tempo disponível podia perambular pela cidade à procura de lojas menores que porventura vendessem alguns itens adicionais. Havia pequenas feiras ao ar livre que vendiam alguns vegetais. O difícil era conseguir criar uma dieta mais apetitosa e variada tendo pouquíssimas opções. Frutas, em especial, eram um problema. As únicas que estavam sempre à venda eram as maçãs. De vez em quando, surgiam alguns limões. Laranjas e bananas eram importadas somente em feriados.
    Comprar gasolina era outra dor de cabeça. Os consumidores iam ao posto, passavam o dia todo dentro do carro esperando na fila, deixavam o carro lá durante a noite, voltavam no dia seguinte e continuavam na fila, até o momento em que conseguissem um pouco de gasolina. E isso se o posto de gasolina ainda estivesse operante no dia seguinte — era comum eles simplesmente fecharem da noite para o dia e não mais abrirem.
    b62d5d7f000d47388ea7b554e67f0cb0.jpgA opressão diária não terminava aí. A escassez de apartamentos levava os jovens à beira do desespero, pois tinham de esperar 10 anos ou mais até o governo disponibilizar um mísero espaço em um apartamento apertado. Casais de meia idade e com filhos ainda moravam com os pais enquanto aguardavam seus nomes serem chamados na lista de espera dos apartamentos. Por outro lado, quem se filiava ao Partido rapidamente conseguia um alojamento.
    As construções eram uniformemente funcionais, cinzas, sombrias, monótonas e repulsivas. Vários prédios começavam a se esfacelar tão logo ficavam prontos. O uso do carvão como fonte de energia jogava uma película escura sobre as cidades, tornando-as ainda mais melancólicas. 
    O transporte público era apenas utilizável, e isso já bastava para que ônibus, bondes e trens estivessem sempre entupidos de gente. A lista de espera para comprar um carro demorava anos e o automóvel quase sempre era um exíguo e fraco Fiat polonês. Os limpadores de pára-brisa tinham de ser trancados dentro do carro, pois eram o alvo preferencial dos ladrões. Acessórios automotivos, por serem muito raros, eram muito valiosos na Polônia.
    Uma coisa, no entanto, era verdade: os países do bloco soviético usufruíam pleno emprego. Bom, "usufruíam" é um termo incorreto. Quando você trabalha muito e não pode comprar nada, ou não tem a liberdade de usar os proventos do seu trabalho, você vive sob um regime de semi-escravidão. Na Polônia, o pleno emprego produzia apenas um crônico excesso de mão-de-obra mal paga e pessimamente utilizada. Praticamente todos os empregos eram enfadonhos e frustrantes. 
    Os gerentes das lojas e as pessoas que trabalhavam em restaurantes e no sistema de transporte simplesmente não tinham nenhum incentivo para serem solícitos ou mesmo gentis com os clientes. O cliente era apenas um estorvo, e eles não ganhavam nada nesta interação. O serviço prestado era ou ríspido ou apático. 
    Profissionais de todas as áreas tinham de lidar com a escassez de equipamentos. Professores da prestigiosa universidade técnica da Breslávia zombavam da ideia de que conseguiriam fazer alguma pesquisa séria na Polônia. Eles passavam todo o seu tempo livre escrevendo propostas para serem aceitos em universidades ocidentais, onde havia ampla disponibilidade de materiais e equipamentos sofisticados.  
    A burocracia paralisava todas as transações, e impossibilitava até os mais simples pedidos. Viajar para o exterior era algo extremamente restringido. Televisão, rádio e mídia impressa eram, obviamente, atividades efetuadas exclusivamente por pessoas sob o controle do Partido, dentro da Polônia ou em algum outro lugar dentro da esfera soviética.
    A lei marcial impôs restrições ainda maiores. Os passaportes foram universalmente cancelados, de modo que nenhum polonês podia viajar ao exterior. Durante os primeiros meses da lei marcial, os poloneses não podiam nem sequer viajar entre cidades da Polônia sem a devida autorização do governo. Cartas sempre eram entregues abertas, amassadas dentro de sacos plásticos e com um carimbo escrito "Censurado". Quando você discava um número no telefone, a primeira coisa que você ouvia era uma gravação repetindo "conversa monitorada, conversa monitorada".
    O exército assumiu o controle de toda a radiodifusão, e a programação da TV se resumia majoritariamente a filmes russos sobre a Segunda Guerra Mundial. Âncoras de jornais foram substituídos por soldados uniformizados que mecanicamente liam as notícias diárias. E as notícias eram sempre as mesmas: o Solidariedade havia destruído a economia; o exército estava se esforçando para recolocar o país no lugar; as coisas estavam visivelmente melhorando. 
    Obviamente, e ao contrário dos ocidentais de hoje, ninguém acreditava em nada do que dizia a mídia.
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    A sucessão de eventos
    Após a imposição da lei marcial em dezembro de 1981 e a maciça utilização do exército e das tropas paramilitares ZOMO para esmagar o Solidariedade, o número de afiliados ao movimento caiu de 9,5 milhões para apenas alguns poucos milhares. Os agitos no país diminuíram sobremaneira, mas continuaram. O Solidariedade continuou na ativa, só que agora clandestinamente.
    Após ter conseguido impor ao menos uma aparência de estabilidade, o regime polonês começou a relaxar a lei marcial. Ao longo do tempo, a lei foi sendo revogada em várias etapas. 
    Em dezembro de 1982, a lei marcial foi suspensa e um pequeno número de prisioneiros políticos, dentre eles Walesa, foi libertado. Embora a lei marcial só tenha sido formalmente abolida em julho de 1983, e uma anistia parcial tenha sido promulgada, várias centenas de prisioneiros políticos continuaram encarcerados. 
    Tornou-se mundialmente famoso o caso de Jerzy Popieluszko, um popular padre defensor do Solidariedade, que foi sequestrado e assassinado pelo serviço de segurança do governo — o Sluzba Bezpieczenstwa — em outubro de 1984.
    A partir daí, os fenômenos de resistência na Polônia começaram a ser influenciados pela postura reformista de Mikhail Gorbachev na União Soviética. Em setembro de 1986, uma anistia geral foi declarada e o governo libertou quase todos os prisioneiros políticos. 
    No entanto, as autoridades continuaram perseguindo os dissidentes e todos os ativistas do Solidariedade.
    Já estava mais do que óbvio que os esforços do regime para organizar a sociedade de cima para baixo haviam fracassado completamente. Com a crise econômica agravada e todas as instituições sem funcionar, a clandestina resistência anti-comunista foi ganhando um número crescente de adeptos.
    A Resistência
    Testemunhei ao vivo estes acontecimentos. Em novembro de 1986, passei 10 dias vivendo entre os clandestinos do Solidariedade e do Liberdade e Paz, um grupo formado por jovens.
    Durante esta minha visita, aprendi que, cinco anos após o início dos violentos ataques desfechados pelo governo contra os movimentos de resistência, os poloneses haviam aprendido fabulosos truques para ludibriar e se esquivar do regime de Jaruzelski, tudo de uma maneira que chega a desafiar a imaginação. A escassez total dos mais básicos produtos alimentares, a inflação de preços em dois dígitos, e uma poderosa polícia secreta não os impediram de criar formidáveis mercados negros e vigorosas instituições privadas, desde rádios e editoras de livros a até mesmo teatros e escolas. Tudo clandestinamente.
    Wiktor Kulerski, um dos lideres do Solidariedade, já havia esboçado, alguns anos antes, um esquema sobre como seria a resistência polonesa. Escreveu ele:
    Este movimento irá criar uma situação em que as autoridades irão controlar as lojas estatais, mas não o mercado; o emprego de trabalhadores, mas não seu meio de vida; a imprensa oficial, mas não a circulação de informações; as editoras, mas não as publicações; os correios e os telefones, mas não as comunicações; e o sistema escolar, mas não a educação.
    Trinta e oito milhões de poloneses estavam menosprezando e ridicularizando o estado.  Eles já haviam aprendido por experiência própria e dolorosa que, como bem havia dito o escritor e compositor dissidente Stefan Kisielewski (que havia sido preso e espancado por causa disso), "Socialismo é estupidez". 
    Eles já estavam fartos daquilo tudo.
    Em um jantar organizado secretamente, em minha homenagem, por uma organização clandestina de editores em Cracóvia, fiquei mesmerizado com a amplitude daquilo que meus anfitriões chamavam de "empreendimentos editoriais independentes". Eles haviam traduzido, imprimido e editado várias obras "subversivas" de Alexander Solzhenitsyn, George Orwell, e até mesmo de Murray Rothbard e Ayn Rand.
    "Onde vocês conseguem os papeis para imprimir tudo isso?", perguntei. Um jovem polonês chamado Pawel respondeu: "De dois lugares: contrabandeamos do Ocidente e roubamos dos comunistas".
    Pawel explicou que havia vários empregados das casas editoriais do governo que eram simpáticos ao movimento de resistência. Eles frequentemente forneciam papeis para os movimentos clandestinos. E quando a barra estava realmente limpa — ou seja, sem nenhum agente estatal nas redondezas —, eles chegavam até mesmo a imprimir o material ilegal nas próprias impressoras do governo. 
    Todo este material era distribuído e circulava amplamente nos subterrâneos de Varsóvia.
    Quando o governo soube, decidiu contra-atacar criando uma operação para confiscar os carros dos distribuidores deste material proibido. Para se proteger, os editores clandestinos criaram sua própria companhia de seguros (a qual eles chamaram de "Lloyd's de Varsóvia") para cobrir os custos do confisco de seus carros, papeis e materiais.
    Perguntei àqueles editores como eu poderia ajudar. Curiosamente, eles já haviam planejado um pedido específico para mim. Eles me perguntaram se eu conseguiria arrecadar US$5.000 e enviar esse dinheiro para seus aliados exilados em Paris, os quais iriam utilizar esse dinheiro para financiar a tradução para o polonês e a impressão de várias cópias do clássico Liberdade para Escolher, de Milton Friedman. Dentre as minhas mais estimadas possessões está uma edição deste livro com uma dedicatória do ativista Wojciech Modelski com estas palavras: "Obrigado, Larry!  Sem sua ajuda, não seria possível publicarmos este livro."
    Mas a minha história favorita desta minha visita à Polônia envolve um casal muito corajoso e intrépido, Zbigniew e Sofia Romaszewski. Eles haviam sido soltos da prisão fazia muito pouco tempo. O crime? Comandar uma popular estação de rádio clandestina. 
    Não aguentei e tive de perguntar: "Quando vocês estavam transmitindo, como sabiam se as pessoas estavam ouvindo?" 
    Sofia respondeu: "Tínhamos de estar constantemente mudando de lugar para que a polícia não nos capturasse. Por isso, só conseguíamos transmitir de oito a dez minutos de cada vez. Uma certa noite, fiz o seguinte pedido: se há alguém nos ouvindo, pisquem suas luzes para mostrar que acreditam na liberdade. E então fomos para a janela. Durante horas, toda Varsóvia ficou piscando". 
    Poucos dias depois, fui preso, revistado nu e deportado.
    O fim da tirania
    Em fevereiro de 1988, já desesperado com a situação de suas finanças, o governo implementou um aumento generalizado de 110% nos preços de todos os bens da economia. Os protestos estudantis retornaram. O colapso econômico gerou uma série de greves ao redor do país em abril, maio e agosto. O governo se sentiu obrigado a negociar. 
    Com a indispensável mediação da Igreja Católica, contatos preliminares foram feitos entre o governo e membros do Solidariedade. Em setembro, o governo recorre a Lech Walesa para tentar negociar o fim das greves. No dia 18 de dezembro de 1988, o Solidariedade sai da ilegalidade.
    No início de 1989, o general Wojciech Jaruzelski chegou a um acordo com Lech Walesa: os grupos políticos suprimidos seriam legalizados e eleições gerais seriam marcadas para o dia 4 de junho. O general não tinha alternativas. A Polônia, declarou ele, havia se tornado "ingovernável".
    E foi exatamente no dia 4 de junho de 1989 que a Polônia eletrizou o mundo ao fazer as primeiras eleições livres na Europa comunista. Ativistas anticomunistas (e, em vários casos, também anti-socialistas) surpreenderam seus conterrâneos: eles conquistaram 99 das 100 cadeiras no Senado e absolutamente todas as 161 cadeiras do Parlamento que o regime permitiu serem disputadas na eleição. 
    Tais resultados asseguraram que a guinada para a liberdade em todo o império soviético era definitiva e iria se intensificar até derrubar todos os ditadores e partidos comunistas, desde Berlim Oriental até Ulan Bator.   
    Em 1989, alguns dias após a queda do Muro de Berlim, a Revolução de Veludo estava em andamento na vizinha Tchecoslováquia. A Hungria havia aberto suas fronteiras para o Ocidente algumas semanas antes. O megalomaníaco Nicolai Ceausescu, da Romênia, seria fuzilado no Natal. 
    Mas foi a Polônia quem havia aberto o caminho.
    Conclusão
    A história da Polônia desde a imposição da lei marcial e do esmagamento do Solidariedade em dezembro de 1981 até as gloriosas eleições de 1989 não é a saga de um povo pessimista, derrotista ou submisso. Ao contrário: trata-se de uma notável evidência do desejo humano de ser livre. 
    Embora os três poderosos líderes do Reino Unido, dos EUA e do Vaticano (Thatcher, Reagan e João Paulo II) tenham ajudado imensamente no processo da desintegração comunista, estes mesmos líderes correta e repetidamente aplaudiram e elogiaram o espírito desafiador dos poloneses. "O povo da Polônia", declarou Reagan, "está nos dando um imperecível exemplo de coragem e devoção aos valores da liberdade contra uma violenta e implacável oposição. . . . A tocha da liberdade é quente. Ela aquece aqueles que a mantêm lá no alto e queima aqueles que tentam apagá-la."
    Um dos gigantes intelectuais da liberdade polonesa, o filósofo e historiador Leszek Kolakowski, que morreu em julho de 2009 aos 81 anos de idade, rotulou o marxismo de "a maior fantasia do nosso século". Segundo ele, a brutalidade totalitária é uma inevitável consequência de uma concentração de poder. 
    Em uma entrevista concedida ao The New York Times em 2004, ele disse que "Supostamente, essa ideologia deveria moldar o pensamento das pessoas; no entanto, a partir de certo momento, ela se tornou tão fraca e tão ridícula, que ninguém mais acreditava nela. Nem os governados, nem os governantes."
    A todos aqueles milhões de poloneses que bravamente lutaram pela liberdade e que atiraram o socialismo na lata de lixo da história há 30 anos, muito obrigado por sua coragem, sua perseverança, sua visão e seu exemplo.
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    Cracóvia hoje






    Lawrence W. Reed

    colaboraram com este artigo

    O resultado de nossa prematura social-democracia

    As notícias estão por todos os lados: o governo está sendo obrigado a fazer um "contingenciamento" em seus gastos. Na prática, ele deixará de gastar um montante que havia sido inicialmente projetado.
    No momento, o bloqueio chega a R$ 30 bilhões, mas ainda irá aumentar.
    O Ministério da Educação está literalmente sem dinheiro e, como consequência, os repasses para a educação estão sob "contingenciamento". R$ 5,8 bilhões foram bloqueados. Mais de 13 mil cargos em universidades e institutos federais foram cortados. Programas de iniciação científica, bolsas de mestrado e doutorado da CAPES — tudo entrou na tesoura.
    As Forças Armadas, por sua vez, vivenciarão um inédito corte de 44% em seu orçamento. A Marinha será a mais atingida.
    O Ministro da Economia também anunciou que irá "travar" a realização de concursos públicos no ano de 2020. Com efeito, um decreto presidencial dificultando a criação de concursos públicos já foi assinado.
    Até mesmo o IBGE entrou na navalha. Inicialmente de 87%, o bloqueio caiu para 22%, pois, exatamente no ano que vem, haverá o censo que ocorre a cada 10 anos.
    Tudo isso não só era totalmente previsível, como de fato foi previsto.
    Social-democracia, em um país ainda pobre em termos per capita, não dura
    A lógica é direta: se você tem um governo que quer prover de tudo, a tendência é que, com o passar do tempo, não irá sobrar recursos para nada.
    Se você tem um estado cuidando de escolas, universidades, saúde, aposentadorias, pensões, esportes, cultura, lazer, filmes nacionais, teatro, subsídios tanto para pequenos agricultores quanto para megaempresários, benefícios assistencialistas de todos os tipos (Bolsa-Família, BPC (ou LOAS) etc.), estradas, portos, aeroportos, Correios, eletricidade e petróleo, e criando uma crescente oferta de empregos públicos pagando altos salários, esse arranjo só irá durar enquanto o número de pessoas produtivas — isto é, aptas a serem tributadas — for crescente.
    Se a quantidade de pessoas produtivas — aptas a serem tributadas — começar a diminuir (ou simplesmente parar de crescer), o arranjo acima irá começar a se esfacelar.
    De novo: um governo que quer prover vários bens e serviços tem de recorrer a altos e crescentes gastos. Estes gastos serão crescentes porque a quantidade de pessoas recorrendo a eles é cada vez maior (uma inevitabilidade quando se tem uma população envelhecendo). Para manter esses gastos crescentes, o governo tem de arrecadar cada vez mais impostos. E ele só irá conseguir aumentar sua arrecadação se a quantidade de pessoas sendo tributadas também for cada vez maior — ou então se a produtividade delas for alta e também crescente.
    Trata-se do irrevogável fato de que vivemos em um mundo de escassez: o dinheiro para bancar todos os gastos estatais advém da tributação de bens e serviços produzidos pela economia privada. E estes, por definição, são escassos. Consequentemente, dado que a tributação incide sobre bens e serviços escassos, sua capacidade de arrecadação é, por definição, limitada. Se os gastos crescerem mais do que essa capacidade de arrecadação, o dinheiro irá literalmente acabar.
    Sim, isso parece ser um "truísmo óbvio" (pleonasmo intencional), mas é necessário sempre repeti-lo, pois ainda há quem negue a incontestável realidade da escassez.
    No Brasil atual, o dinheiro para bancar os crescentes gastos do governo literalmente acabou. E por dois motivos:
    1) a quantidade de pessoas aptas a serem continuamente tributadas parou de crescer;
    2) as que ainda estão aptas a ser tributadas são pouco produtivas. A produtividade de um brasileiro equivale a 25% da produtividade de um americano, o que significa que um brasileiro leva uma hora para produzir o mesmo bem ou serviço que um americano produz em 15 minutos. Quem produz menos por hora tem renda menor. Quem tem renda menor tem menos capacidade de ser crescentemente tributado.
    Sem aumento da renda, não há como haver aumento da tributação para bancar a social-democracia.
    Assim, está estabelecido o ciclo vicioso:
    a) a social-democracia, que se caracteriza por um estado que quer prover de tudo, gera aumentos constantes de gastos, os quais exigem arrecadações crescentes de impostos;
    b) a arrecadação crescente de impostos, por sua vez, necessita de um número crescente de trabalhadores produtivos sendo tributados;
    c) como o número de trabalhadores não cresce no ritmo adequado, e como eles são estatisticamente pouco produtivos (não adianta espernear; são dados), apenas impostos não bastam. Logo, o governo tem de recorrer ao endividamento crescente;
    d) endividamento crescente leva a despesas crescentes com juros, o que requer mais endividamento para pagar essas despesas;
    e) tudo isso faz com que os juros para o setor produtivo se tornem demasiadamente altos, o que afeta renda e emprego;
    f) com renda e emprego estagnados, os gastos do governo com a seguridade social aumentam muito mais do que arrecadação tributária, o que faz crescer os déficits orçamentários, que exigem impostos e endividamento;
    g) isso reinicia todo o ciclo vicioso.
    Conclusão
    A nossa social-democracia não mais consegue arrecadar o volume necessário para bancar seus gastos crescentes. Este é o dado empírico, o qual não permite tergiversações ideológicas.
    O problema é econômico, demográfico e matemático. E, se insistirmos no atual arranjo, toda a economia irá entrar em colapso. Na melhor das hipóteses, tudo fica como está: ou seja, uma piora gradual e contínua dos indicadores.
    Não se trata, portanto, de insensibilidade ou de "maldade neoliberal" clamar pela redução profunda do estado. É apenas uma questão de se reconhecer a realidade: sem reformas previdenciárias e tributárias e, acima de tudo, sem um profundo corte de despesas do estado — que no mínimo corrija seu tamanho para níveis condizentes com a renda per capita do brasileiro (que o sustenta) —, a implosão econômica é inevitável. E aí as consequências sociais são totalmente imprevisíveis.
    Nosso experimento social-democrata chegou ao fim. Quanto mais rapidamente aceitarmos isso, quanto mais rapidamente agirmos como adultos — e não como adolescentes fazendo vitimismo —, menos dolorosa será a transição.
    Leandro Roque