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    quinta-feira, 6 de maio de 2021

    Capitalismo de verdade: colaboração e competição

     É triste e frustrante ter que suportar a escassez de conhecimento e a farsa de uma elite esquerdista neste país que mente descaradamente para obter aquilo que é seu grande objetivo: o poder. Tenho visto mensagens nas redes sociais da corja petista sobre o retorno do presidenciável (só nesse faz de conta), demiurgo de Garanhuns, que seriam comédias espetaculares se não fossem verdade. São exatamente esse grupo e seus fanáticos seguidores que alardeiam agora que é preciso tornar o sistema econômico mais “justo e igualitário”.

    O sistema desejado mesmo é o da sociedade planejada, centralizado e verdadeiramente totalitário. Quanta ignorância, quanta vileza! O sistema econômico que funciona comprovadamente é aquele que promove as trocas voluntárias nos mercados, através de relacionamentos colaborativos entre as pessoas.

    Muitas vezes, o chamado “capitalismo”, que implica colaboração e competição simultaneamente, não reverbera em benefícios para todos em razão das intervenções e da coerção estatal e pelas pressões políticas vermelhas que fortalecem agrupamentos tribais – que minam a confiança social e, por consequência, a cooperação entre as pessoas.

    Não se deixe enganar pela turma bondosa do beautiful people, que arrota que os capitalistas “selvagens” são seres sem escrúpulos, reduzidos a um homo economicus, egoísta, sem coração, que só visa ganhar e acumular riquezas para si.

    Num sistema de trocas livres e lícitas, é imperativo colaborar para melhor competir, satisfazendo às necessidades sociais de forma eficiente para poder lucrar. Não há mágica… Porém, num sistema de trocas livres, em que os consumidores elegem os produtores que melhor resolvem seus problemas e satisfazem a suas necessidades, nunca poderá deixar de existir a competição entre empresas. Caso contrário, tem-se o monopólio, em que inexiste competição.

    Os mercados são os lugares em que as pessoas colaboram livremente para melhor competir. Envolvem indivíduos colaborando para competir com outros indivíduos, buscando uma posição mais favorável. De fato, são os consumidores que elegem a oferta competitiva mais satisfatória em relação às suas necessidades funcionais, emocionais e sociais.

    Fica claro que as pessoas diferem, enquanto trabalhadores e consumidores, e que assim escolhem coisas e formas distintas de satisfazerem a suas necessidades. São os consumidores que executam a avaliação do desempenho das organizações fornecedoras.

    Portanto, aquelas organizações em seus setores e segmentos que melhor satisfazem a seus clientes obviamente alcançam maior rentabilidade. O lucro é justamente a sinalização dos consumidores de que a oferta competitiva de uma respectiva empresa é superior. Aquelas organizações que não conseguem utilizar os recursos de maneira mais produtiva e competitiva são sinalizadas pelos consumidores de que é necessário rever processos e aperfeiçoar suas ofertas, ou seja, de que necessitam utilizar mais produtivamente seus recursos e suas capacidades.

    Evidente que, para se manter lucrativa, a empresa precisa sistematicamente inovar em seus processos, produtos e serviços, por meio da colaboração social, de modo a continuar agregando mais valor para seus clientes. O grande economista Joseph Schumpeter sustentava que o capitalismo progride por revolucionar sistematicamente sua estrutura econômica.

    Não há progresso e desenvolvimento econômico e social sem a shumpteriana “destruição criativa”, em que novas e inovadoras indústrias substituem indústrias obsoletas e não competitivas. A inovação naturalmente faz com que a economia de mercado esteja sujeita a ciclos de crescimento e de desaceleração.

    Na atualidade, fica ainda mais transparente a colaboração entre empresas e consumidores, que, alavancados pelas tecnologias da informação, trocam informações, compartilham etapas do processo produtivo e, inclusive, ordenam e recebem produtos feitos sob medida.

    Em suma, nos mercados livres, impera a colaboração social, o que infelizmente não ocorre quando há aquilo que presenciamos em países como o Brasil o requerido pela mesma turma coletivista: o intervencionismo e a coerção. Coerção significa a não colaboração!

    Alex Pipkin

    O navegador que descobriu o Brasil antes de Cabral

     

    Duarte Pacheco Pereira foi um dos primeiros heróis dos descobrimentos, capitão de guerra na Índia, recebido em Lisboa com um desfile triunfal. Camões chamou-lhe “Aquiles lusitano”, sendo o navegador um hábil marinheiro e guerreiro com fama de colérico e agastado.

    Nascido em Santarém, foi cavaleiro da Casa de El-Rei D. João II, tendo já sido notado antes da sua viagem à Índia na expedição de Afonso de Albuquerque, onde comandava a nau Espírito Santo.

    Duarte Pacheco Pereira
    Duarte Pacheco Pereira

    Pacheco Pereira era filho de um navegador e neto de um armador, tendo crescido em contacto próximo com o mar e com as arrojadas viagens dos portugueses que desbravaram o oceano, descobrindo novos povos e terras. Assim, o seu espírito parecia cheio de ardor de aventuras e de grandes feitos, tendo-o demonstrado toda a vida, no seu serviço à pátria, com feitos que o tornaram um dos portugueses mais notáveis do seu tempo.

    A epopeia de Pacheco Pereira inicia-se em viagens de exploração e reconhecimento ao longo da costa ocidental da África. Em 1494, fez parte da delegação portuguesa na conferência de onde resultou o célebre Tratado de Tordesilhas, considerado o mais importante tratado do séc. XV. Nessa conferência, revela todo o seu saber científico, revelando-se um elemento fundamental na defesa das pretensões portuguesas.

    A confiança que D. João II tinha nele prolongou-se pelo reinado de D. Manuel, que o envia em 1498 para além do Mar Oceano em busca de terras ocidentais do Atlântico, onde o navegador encontrou terra firme, com grandes ilhas adjacentes.

    Tratado de Tordesilhas
    Tratado de Tordesilhas

    Esta expedição teria como objetivo reconhecer as zonas situadas para além da linha definida no Tratado de Tordesilhas. Pensa-se, assim, que Pacheco Pereira terá descoberto o Brasil, algo que a política de então não lhe permitiria revelar, para não provocar confrontos com Espanha.

    Em 1500, o descobrimento é tornado oficial por Pedro Álvares Cabral, evitando-se desta forma atritos e reclamações que poderiam ter surgido, se o acontecimento não se tivesse revestido de todos os cuidados e de sigilo sobre as navegações anteriormente realizadas.

    Realizou algumas viagens à costa da Guiné, sob as ordens de D. João II. Depois, a sua competência em matéria de geografia e de cosmografia, assim como a sua experiência de navegador, levaram-no a figurar entre os membros da delegação portuguesa encarregada de estabelecer, com os castelhanos, os termos do Tratado de Tordesilhas, em 1494.

    D. Manuel I, em 1498, encarregou-o de uma expedição relacionada com a demarcação da linha estabelecida pelo mesmo tratado, o que terá constituído um passo preparatório do descobrimento do Brasil. Aliás, Pacheco Pereira acompanharia Pedro Álvares Cabral na viagem de 1500.

    É autor do Esmeraldo de situ orbis, obra que ficou incompleta e que constitui um roteiro comentado das costas ocidental e oriental da África. Nela, Duarte Pacheco Pereira refere, embora não muito claramente, que o rei D. Manuel o tinha mandado descobrir «uma tão grande terra firme» a ocidente do Oceano Atlântico, facto até hoje desprovido de provas convincentes e que deu origem a várias especulações sobre a sua veracidade.

    Depois de várias outras viagens, nomeadamente à Índia, exerceu o cargo de capitão de S. Jorge da Mina entre 1519 e 1522, altura em que regressou a Lisboa.

    quarta-feira, 5 de maio de 2021

    A DERROCADA NA CABEÇA DE PAULO GUEDES

     Os dados não deixam margem a dúvidas. Com a queda de 4,1% no Produto Interno Bruto (PIB) registrada em 2020, o Brasil encerrou a década 2011-2020 com o pior desempenho econômico desde o início do século XX. A média anual foi de pífios 0,3%, bem inferior à da célebre “década perdida” de 1980, com 1,6% ao ano, basicamente decorrente da crise da dívida externa, num período em que o País ainda era um grande importador de petróleo e alimentos, ao contrário da atualidade.

    Apesar de a pandemia de Covid-19 ter sido largamente responsável pela queda recordista do PIB em 2020, salta aos olhos que mesmo sem ela a economia não estaria fora do pântano de estagnação em que se encontra desde 2015, ao contrário das bravatas do ministro da Economia Paulo Guedes e suas quimeras sobre os investimentos privados que choveriam sobre o país, bastando para isto desregulamentar ainda mais a economia e privatizar o restante do patrimônio do Estado.

    Desafortunadamente, para o “superministro” e para os brasileiros em geral, não há a menor possibilidade de que tal receita simplista e enganosa produza os resultados prometidos por ele e seus corifeus no mercado financeiro e na mídia especializada, pela razão elementar de que não há registro histórico do seu funcionamento em nenhuma das cerca de 40 economias avançadas do planeta. Por isso, resulta ridículo pretender apresentar o fracasso assegurado como único caminho de saída para a crise. Parafraseando Albert Einstein, o estado mental que criou e alimenta a depressão não tem condições de superá-la. Insistir na receita neoliberal é uma prova literal de que o fracasso subiu às cabeças de Guedes e do parasitário sistema pró-rentista representado por ele.

    Apesar do desastre, o “Posto Ipiranga” costuma agredir a inteligência alheia, insistindo na falácia de que a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro constituiria um respaldo ao seu programa econômico ultraliberal, recordando-se que o então candidato presidencial se esquivou de qualquer debate sobre o tema, antes mesmo do ataque físico que o afastou de boa parte da campanha. Neste particular, pode-se dizer que Guedes esconde a sua inclinação pró-rentista por trás da confessada ignorância econômica do presidente.

    A História ensina: nenhum país do mundo atingiu níveis elevados de desenvolvimento socioeconômico dando rédeas soltas aos “mercados”, particularmente, os financeiros, hegemônicos no Brasil desde a década de 1990. Ao contrário, com nuances locais, todos seguiram um roteiro inaugurado pelos EUA recém-independentes, no final do século XVIII, sob a batuta do secretário do Tesouro Alexander Hamilton, com a geração de uma eficiente sinergia entre o governo nacional e as forças produtivas do país. Em linhas gerais: a criação de uma estrutura financeira para o fomento às atividades produtivas, combinando recursos públicos e privados; grandes investimentos públicos em infraestrutura e pesquisa científica (hoje, acrescentando a inovação); e incentivos às indústrias nacionais, com um protecionismo moderado, dosado e seletivo e favorecimento nas compras do governo. Roteiro posteriormente conhecido como Sistema Americano ou Sistema Nacional de Economia Política, incorporado ao cânone econômico por Friedrich List, Henry C. Carey, Erasmus Peshine-Smith e outros economistas práticos, concentrados no desenvolvimento econômico real e críticos das ilusões vendidas pelos arautos do “livre comércio” colonial, os “globalizadores” da época. Foi com o Sistema Americano, e não com o “livre comércio” ou a “globalização” financeira, que os EUA se tornaram a maior economia do mundo, e é com uma variante própria que a China caminha a passos largos para assumir o posto, inspirada em exemplos próximos como o Japão e a Coreia do Sul, que se converteram em economias modernas em menos de meio século, seguindo os fundamentos do Sistema Americano.

    Com a hegemonia da “financeirização” da economia mundial, a partir da década de 1970, o Sistema Americano e quaisquer orientações contrárias ao cânone liberal foram  virtualmente banidos dos currículos universitários. Mas não é casual que, diante da emergência global gerada pela pandemia, o nome de Hamilton venha sendo citado como exemplo de estadismo e visão estratégica na gestão da economia, como ocorre na Europa. Além disto, nos EUA, há um renascimento do interesse popular pela sua figura histórica, com o musical Hamilton de Lin-Manuel Miranda e uma nova edição da sua biografia escrita por Ron Chernow, na qual se baseou a peça (Alexander Hamilton, recém-publicada no Brasil pela editora Intrínseca).

    Um “case” emblemático do Sistema Americano foi a superação da Grande Depressão da década de 1930, com o New Deal do presidente Franklin Roosevelt e a mobilização industrial-militar da II Guerra Mundial. Da mesma forma, a sua antítese é a “Reaganomics” da década de 1980, versão local da razia neoliberal-privatizante da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, cujo principal resultado foi uma grave crise social e uma devastação da indústria e dos serviços públicos, da qual o Reino Unido ainda não se recuperou.

    A propósito, é relevante, para ressaltar a necessidade de um planejamento adequado para a reconstrução econômica, encabeçado pela reindustrialização e pelo aumento dos investimentos produtivos, em especial, em infraestrutura e educação. Talvez, só mesmo o atavismo ideológico dos editorialistas do decano midiático do liberalismo nacional os tenha impedido de admitir a necessidade de primazia do Estado em tais investimentos. E este é outro ensinamento histórico: não há precedente de alguma economia moderna que tenha superado uma estagnação prolongada sem fortes investimentos públicos em atividades multiplicadoras de valores.No caso brasileiro, o período de maior desenvolvimento do País ocorreu no meio século posterior a 1930, quando, mesmo com nuances distintas, havia uma ideia de um projeto nacional impulsionado por uma considerável sinergia entre Estado e iniciativa privada, tanto nacional como estrangeira, sem o parasitismo da hegemonia pró-rentista prevalecente em toda a chamada “Nova República”.Em síntese, não será com as charlatanices ideológicas e falácias de Paulo Guedes que o Brasil poderá superar o presente impasse que coloca em risco o seu futuro imediato como uma Nação capaz de definir soberanamente o seu rumo e inserção na cambiante ordem de poder mundial em curso.

    Brasil entre a utopia e o caos

     Entre a utopia e o caos, o Brasil parece que escolheu os dois.

    Ao optar pela socialização da educação, da saúde e da previdência para construir o que se convencionou chamar, eufemisticamente, de estado do bem-estar social, através do qual distribuir-se-ia à força o bem, o Brasil esqueceu de liberar a economia de maneira que o bem pudesse ser produzido.

    Sim, é óbvio. Para se poder distribuir algo, esse algo precisa ser produzido antes. Quando se idealiza que o bem será distribuído centralmente através de políticas públicas alicerçadas na coerção, não se pode esquecer que somente homens livres, engajados na cooperação espontânea e em trocas voluntárias para mútuo benefício, é que conseguem produzir o suficiente para haver excedentes a serem distribuídos.

    Querer distribuir o bem universalmente é uma utopia. Fazê-lo sem que o bem seja produzido é o caos. O estado de bem-estar social em sociedades onde não haja livre iniciativa, propriedade privada protegida e estado de direito que dê segurança jurídica e garantias aos indivíduos que criam e produzem contra a violência, principalmente do próprio governo, transforma-se num estado de penúria.

    O estado de bem-estar social pode se tornar um mal porque é intrinsecamente imoral, ineficiente e perverso. Algumas sociedades conseguem obter algum benefício dele, porque suas economias são pujantes dado o grau de liberdade e respeito aos contratos e à propriedade privada ali existentes, como é o caso dos países escandinavos.

    Países como o Brasil, que não têm o mesmo grau de liberdade econômica nem de respeito aos contratos particulares ou à propriedade privada, e que se aventuram para estabelecer o estado de bem-estar social acabam por escolher dois males.

    Sociedades onde o livre mercado tem primazia, distribui-se o bem graças à abundância. Sociedades onde a economia é centralmente planejada e as pessoas não têm liberdade, distribui-se a escassez, a miséria.

    Ou o Brasil abre sua economia, respeita os direitos individuais, os contratos particulares, a propriedade privada para sustentar o estado de bem-estar social que equivocadamente ambiciona, ou não escaparemos do caos de querer viver uma utopia como se ela fosse um ideal possível de ser vivido.

    Roberto Rachewsky

    PARA ONDE ESTÁ INDO O DINHEIRO PÚBLICO EM 2021?

     Enquanto a grande imprensa e vários analistas continuam noticiando a Lei Orçamentária de 2021 dando destaque para o conflito entre os poderes executivo e legislativo na execução de emendas parlamentares, como abordado no artigo Manobras no orçamento tiraram do trabalhador e deram aos Bancos, o orçamento já vem sendo executado há muito tempo e fazendo a festa dos rentistas da dívida pública.

    Em 2021, somente até 26 de abril, já foram gastos R$ 868 bilhões de juros e amortizações da dívida pública, o que representa 66% de todos os gastos federais! Apesar de muitos analistas dizerem que tudo isso apenas representaria “rolagem” (ou seja, mera substituição de títulos públicos que estariam vencendo por novos títulos emitidos, o que na visão deles não representaria um custo para o país), tais analistas omitem que grande parte de chamada “rolagem” é, na verdade, referente ao pagamento de juros.

    Esses analistas costumam defender a “rolagem” sob a alegação de que, diante de uma suposta existência de “déficit primário”, o endividamento só estaria sendo pago com novos empréstimos. Dizem ainda que a dívida tem sido boa para o país, pois estaria financiando as áreas sociais. Caem na pegadinha do governo: embora R$ 12,7 bilhões – provenientes da emissão de títulos da dívida – tenham sido gastos com áreas sociais em 2021 (o que é grandemente propagandeado na grande imprensa), omite-se completamente que R$ 262 bilhões de fontes que nada tem a ver com a emissão de títulos foram gastos com juros e amortizações da dívida pública no mesmo período. Isto ocorre pois o governo utiliza a metodologia do FMI [Fundo Monetário Internacional] que omite diversas receitas importantes no cálculo do superávit primário, como lucros do Banco Central, que forneceram R$ 121 bilhões para o pagamento da dívida pública em 2021.


    Várias fontes de recursos vinculadas a áreas sociais já foram usadas para o pagamento da dívida em 2021, devido à aprovação da nefasta Emenda Constitucional 109, apesar dos alertas da Auditoria Cidadã da Dívida. Desta forma, passou-se o “rapa” em recursos como os royalties do petróleo (que deveriam ir para ciência e tecnologia, por exemplo), as “Taxas e Multas pelo Exercício do Poder de Polícia”, a “Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional”, o “Fundo de Fiscalização das Telecomunicações” e até mesmo o “Fundo Social – Parcela Destinada à Educação Pública e à Saúde”.

    Além disso, quando o governo emite novos títulos públicos para pagar a dívida anterior, isso também deve ser considerado como custo, pois os recursos obtidos com a venda desses novos títulos poderiam estar sendo destinados para investimentos sociais, como os países desenvolvidos fazem. Já no Brasil, a dívida tem crescido para alimentar os mecanismos do Sistema da Dívida e para pagar juros e amortizações da própria dívida, em um círculo vicioso que impede o desenvolvimento nacional.


    Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida

    Governos, pandemias e a grande depressão do século XIV

     Quase todas as pessoas — e os historiadores não são exceção — são tentadas a crer que o progresso econômico e cultural é um fenômeno contínuo e ininterrupto.  A crença é a de que, a cada século, as pessoas estão em melhor situação do que estavam no século anterior.  Essa confortável presunção teve de ser abandonada bem precocemente quando, após o colapso do Império Romano, iniciou-se a Idade das Trevas.

    Sempre se afirmava que, após o "renascimento" do século XI, o progresso na Europa Ocidental havia sido bastante linear e contínuo desde aquele ponto até os dias atuais.  Entretanto, foram necessários os heróicos esforços — empreendidos ao longo de várias décadas — de historiadores econômicos como os professores Armando Sapori e Robert Sabatino Lopez para finalmente convencer os historiadores de que houve um grave declínio secular na maior parte da Europa Ocidental no período que vai desde aproximadamente 1300 até meados do século XV; um período que pode ser chamado de Baixa Idade Média ou a era inicial do Renascimento.

    Esse declínio secular, incorretamente intitulado como uma mera "depressão", permeou quase toda a Europa Ocidental, com a exceção de algumas poucas cidades-estados italianas.

    O declínio econômico foi marcado por uma severa queda na população.  Desde o século XI, o crescimento econômico e a prosperidade haviam impulsionado as cifras populacionais. A população total da Europa Ocidental, estimada em 24 milhões no ano 1.000 d.C., havia saltado para 54 milhões já no ano 1340.  

    No entanto, em pouco mais de um século, de 1340 a 1450, a população europeia ocidental foi reduzida de 54 milhões para 37 milhões, uma queda de 31% em apenas um século.

    A batalha para se estabelecer como verdadeira a ocorrência do grande declínio foi bem sucedida; no entanto, foi muito pouco efetiva para estabelecer a causa ou as causas desse desastre.  

    O enfoque dado à devastação causada pelos surtos da Peste Negra em meados do século XIV é parcialmente correto, porém superficial, pois esses surtos foram eles próprios causados por um colapso econômico e por uma consequente queda no padrão de vida que haviam começado ainda no início daquele século.

    Tributações, confiscos e destruição da Igreja: as causas de tudo

    As causas da grande depressão da Europa Ocidental podem ser resumidas em uma rígida, simples e completa frase: a recém-imposta soberania do estado.  

    Durante a síntese medieval da Alta Idade Média (séculos XI, XII e XIII), havia um equilíbrio de poder entre Igreja e estado, com a Igreja sendo ligeiramente mais poderosa. No século XIV, esse equilíbrio foi quebrado, e o conceito de estado-nação tornou-se predominante. O poder da Igreja foi quebrado e os estados começaram a impor tributos e regulamentações, a controlar as pessoas e a provocar devastações por meio de uma guerra virtualmente contínua, que durou mais de um século (a Guerra dos Cem Anos, de 1337 a 1453).[1]

    O primeiro e decisivamente mais importante passo rumo à ascensão do poder do estado em detrimento da economia, a qual foi sendo continuamente enfraquecida, foi a destruição das feiras de Champagne.  

    Durante a Alta Idade Média, as feiras de Champagne eram o principal centro do comércio internacional, além de ser o centro de distribuição de todo o comércio local e regional. Essas feiras haviam sido cuidadosamente criadas, cultivadas e fomentadas para serem zonas livres, não tributadas e não reguladas por reis ou aristocratas franceses, ao mesmo tempo em que a justiça era rápida e eficientemente distribuída por tribunais privados ou tribunais mercantis, que operavam em regime de livre concorrência. 

    As feiras de Champagne atingiram seu apogeu durante o século XIII, e se tornaram o centro do comércio terrestre das mercadorias que eram transportadas ao longo dos Alpes no norte da Itália, vindas de lugares longínquos.

    E então, no início do século XIV, Filipe IV, o Belo, rei da França (1285—1314), deu início ao processo de tributação, espoliação e, efetivamente, de destruição das vitalmente importantes feiras de Champagne. Para financiar suas perpétuas guerras dinásticas, Filipe impôs às feiras de Champagne um rígido imposto sobre vendas. Ele também destruiu o capital e as finanças domésticas ao impor repetidos tributos confiscatórios sobre grupos ou organizações que lidavam com dinheiro.  

    Em 1308, ele destruiu a rica Ordem dos Templários, confiscando seus fundos e desviando-os para o tesouro real. 

    Em seguida, Filipe impôs em sequência uma série de tributos e confiscos severos e debilitantes sobre os judeus e os italianos do norte da Itália (da Lombardia), que eram os grupos mais importantes das feiras: em 1306, 1311, 1315, 1320 e 1321. Ademais, em guerra com os flamengos (belgas da região de Flandres), Filipe aboliu o tradicional e antigo costume de todos os mercadores serem bem-vindos às feiras, decretando a exclusão dos flamengos.  

    O resultado dessas medidas foi um rápido e permanente declínio das feiras de Champagne e da tradicional rota do comércio ao longo dos Alpes. Desesperadoramente, as cidades-estados da Itália começaram a reconstituir as rotas comerciais e a enviar embarcações para Bruges, passando pelo Estreito de Gibraltar. Essa rota começou a prosperar mesmo com a região de Flandres em declínio.

    Foi algo particularmente fatídico que Filipe, o Belo, tenha inaugurado o sistema de tributação regular na França. Antes disso, não havia impostos regulares. Na era medieval, embora o rei supostamente fosse o todo-poderoso dentro de sua esfera de domínio, essa esfera era restringida pela santidade da propriedade privada. O rei supostamente deveria ser um braço armado da lei e um mantenedor da ordem, e suas receitas supostamente deveriam advir dos aluguéis cobrados sobre as terras reais, e das taxas e pedágios feudais. Não havia nada que pudesse ser classificado de tributação regular. Em uma emergência, tal como uma invasão ou o início de uma cruzada, o príncipe, além de invocar o dever feudal de seus vassalos de lutar em nome dele, poderia também pedir-lhes um subsídio.  Mas tal ajuda seria requisitada em vez de ordenada, e teria sua duração limitada ao período da emergência.

    As guerras perpétuas do século XIV e da primeira metade do século XV começaram na década de 1290, quando Filipe, o Belo, tirando proveito da guerra conduzida pelo rei Eduardo I de Inglaterra contra a Escócia e o País de Gales, apossou-se da província da Gasconha, tomando-a da Inglaterra. Isso deu origem a um contínuo embate militar envolvendo, de um lado, Inglaterra e Flandres, e do outro, a França, fazendo com que tanto a coroa inglesa quanto a francesa ficassem desesperadas por novos fundos para financiar essa aventura militar.

    Os mercadores e capitalistas das feiras de Champagne podiam ter dinheiro, mas o maior e mais tentador alvo para a espoliação real era a Igreja Católica. Ambos os monarcas da Inglaterra e da França começaram a tributar a Igreja, o que os colocou em rota de colisão com o papa.  

    O papa Bonifácio VIII (1294—1303) resistiu de maneira resoluta a essa nova forma de pilhagem, e proibiu os monarcas de tributarem a Igreja. O rei Eduardo reagiu a esta resistência papal negando à Igreja acesso à justiça dos tribunais reais, ao passo que Filipe foi mais combativo: proibiu a Igreja de transferir suas receitas da França para Roma.

    Bonifácio foi forçado a recuar e a permitir a tributação, mas sua bula Unam Sanctam (1302) insistiu em afirmar que toda autoridade temporal deve ser subordinada à espiritual. Isso enfureceu Filipe, que audaciosamente sequestrou o papa na Itália e fez todos os preparativos para julgá-lo por heresia, um julgamento que só não se consumou porque Bonifácio, já velho, morreu antes. 

    Após essa ocorrência, Filipe, o Belo, tomou para si próprio o papado, e mudou a sede da Igreja Católica Romana de Roma para Avignon, onde ele próprio passou a se designar papa. Durante praticamente todo o século XIV, o papa, em seu "cativeiro babilônico", foi apenas um instrumento abjeto do rei francês; o papa iria retornar a Roma somente no início do século XV.

    Desta forma, a até então poderosa Igreja Católica, poder dominante e autoridade espiritual durante toda a Alta Idade Média, havia sido apequenada, reduzida e transformada praticamente em uma vassala do saqueador real da França.

    O declínio da autoridade da Igreja, portanto, deu-se paralela e simultaneamente à ascensão do poder do estado absoluto. Não contente em confiscar, espoliar, tributar e destruir as feiras de Champagne, além de colocar a Igreja Católica sob seu tacão, Filipe, o Belo, também decidiu obter receitas adicionais para suas guerras eternas por meio da adulteração da cunhagem de moedas[2], o que gerou uma inflação secular.

    As consequências

    As guerras do século XIV não geraram um grande volume de devastação direta: os exércitos eram pequenos e as hostilidades, intermitentes. A principal devastação veio com os pesados impostos, com a inflação monetária e com o grande endividamento do estado para financiar as perpétuas aventuras reais. 

    O enorme aumento da tributação foi o aspecto mais debilitante das guerras. As despesas da guerra: recrutamento de um exército de tamanho moderado, pagamento dos salários dos soldados, suprimentos e fortificações — tudo isso custou de duas a quatro vezes os gastos habituais da Coroa. Acrescente a isso os altos custos da determinação, fiscalização e imposição/aplicação dos tributos, bem como os custos dos empréstimos tomados — e o fardo economicamente debilitante gerado pela tributação para financiar a guerra se torna demasiado claro.

    Os novos impostos estavam por todos os lados. Vimos os graves efeitos dos impostos sobre a Igreja; em uma grande fazenda monástica, os impostos frequentemente absorviam mais de 40% dos lucros líquidos dessa fazenda. Um imposto per capita uniforme, de um xelim, criado pela Coroa Inglesa em 1380, infligiu grandes dificuldades e privações sobre camponeses e artesãos. O tributo equivalia a um mês de salário dos trabalhadores agrícolas e a uma semana de salário dos trabalhadores urbanos. 

    Ademais, dado que muitos trabalhadores e camponeses pobres eram pagos em bens em vez de em dinheiro, acumular e ajuntar o dinheiro necessário para pagar o tributo era particularmente difícil.

    Foram criados outros novos tributos, como impostos ad valorem (de acordo com o valor) sobre todas as transações; impostos sobre a venda de bebidas no atacado e no varejo; e impostos sobre o sal e a lã. Para combater a sonegação, os governos estabeleceram mercados monopolistas para a venda de sal na França e "pontos específicos" para o comércio de lã na Inglaterra.  

    Os impostos restringiram a oferta e elevaram os preços, paralisando o crucial comércio de lãs na Inglaterra. A produção e o comércio foram adicionalmente afetados por volumosos confiscos para fins belicistas impetrados pelos reis, o que provocou uma drástica queda da renda e da riqueza, bem como inúmeras falências entre os produtores. 

    Em suma, os consumidores sofriam com os preços artificialmente altos e os produtores sofriam com os retornos cada vez menores, sendo que esse diferencial era confiscado da economia pelo rei. Os empréstimos contraídos pelos governos serviram para piorar ainda mais a situação, dado que os reis deram seguidos calotes nas dívidas, o que gerou grandes prejuízos e falências entre os banqueiros privados que foram tolos o bastante para emprestar para o governo. 

    O resultado foi uma grande depressão econômica.

    Criados como uma resposta para a "emergência" gerada por épocas de guerra, os novos impostos acabaram se tornando permanentes: não somente porque as operações militares duraram mais de um século, mas porque o estado, sempre à procura de uma desculpa para aumentar suas receitas e seu poder, aproveitou a oportunidade de ouro para converter esses impostos criados especificamente para épocas de guerra em uma parte permanente da cultura nacional.

    Surge a pandemia - e as regulações trabalhistas

    De meados do século XIV até o seu fim, a Europa foi assolada pela devastadora pandemia da Peste Negra — a peste bubônica —, a qual, no curto período de 1348—1350, dizimou completamente um terço da população.  

    A Peste Negra foi em grande medida uma consequência da redução do padrão de vida das pessoas, causada pela grande depressão e pela resultante perda de resistência física e imunológica à doença. A praga continuou ocorrendo em surtos periódicos — embora não em forma tão virulenta quanto a primeira — durante todas as décadas do século.  

    Tão grande é o poder recuperativo da raça humana, que essa enorme tragédia não gerou duradouros e catastróficos efeitos sociais ou psicológicos entre a população europeia. De certo modo, o mais longevo efeito danoso gerado pela Peste Negra foi a reação da Coroa Inglesa, que impôs sobre a sociedade um permanente controle de salários e um racionamento compulsório da mão-de-obra.  

    O súbito declínio da população e a consequente duplicação do valor dos salários (pois a mão-de-obra disponível ficou escassa) foram combatidos pelo governo por meio de uma severa imposição de um teto salarial determinado pelo Decreto de 1349 e pelo Estatuto dos Trabalhadores de 1351. O teto salarial foi criado a pedido da classe patronal: grandes, médios e pequenos proprietários de terra, bem como artesãos mestres, os primeiros particularmente alarmados com o aumento dos salários agrícolas.

    O decreto e o estatuto desafiaram as leis econômicas ao tentar fixar um teto salarial no mesmo nível dos salários vigentes antes da pandemia. O inevitável resultado, entretanto, foi uma grave escassez de mão-de-obra, uma vez que, ao nível salarial determinado pelo estatuto, a demanda por mão-de-obra era amplamente maior do que a agora escassa oferta.

    Toda intervenção governamental cria novos problemas enquanto tenta infrutiferamente resolver os antigos. Consequentemente, o governo se vê confrontado por duas escolhas: criar novas intervenções para solucionar os novos e inexplicáveis problemas, ou revogar a intervenção original. O instinto do governo, obviamente, é o de maximizar sua riqueza e poder criando novas intervenções.  

    E foi isso o que fez o Estatuto dos Trabalhadores inglês: impôs trabalho forçado, ao nível salarial vigente antes da Peste, a todos os homens da Inglaterra que tivessem menos de 60 anos de idade; restringiu a mobilidade da mão-de-obra, declarando que o senhor de um dado território tinha o direito prioritário sobre a força de trabalho de um homem; e tornou crime um empregador dar emprego para um trabalhador que havia deixado seu ex-patrão. 

    Desta maneira, o governo inglês impôs o racionamento da mão-de-obra para tentar manter os trabalhadores nas mesmas profissões que ocupavam antes da pandemia, e recebendo os mesmos salários daquela época.

    Esse racionamento compulsório da mão-de-obra foi um ataque à inclinação natural do homem de procurar empregos que pagam salários mais altos. Assim, o inevitável surgimento de um mercado negro para a mão-de-obra dificultou a aplicação e a imposição dos estatutos. 

    A desesperada Coroa Inglesa tentou mais uma vez, com o Estatuto de Cambridge de 1388, tornar o racionamento ainda mais rigoroso. Todo e qualquer tipo de mobilidade da mão-de-obra foi proibida. Trabalhadores só poderiam transitar de um emprego para outro com uma permissão escrita das autoridades judiciárias locais. O trabalho infantil compulsório foi imposto na agricultura. 

    Mas esse cartel compulsório dos compradores de mão-de-obra não se sustentava. Havia evasões contínuas, principalmente dos grandes empregadores, os quais estavam particularmente ávidos por mão-de-obra de qualidade e podiam pagar salários maiores para elas. A desajeitada e lerda máquina judiciária inglesa era totalmente ineficaz em impor e fazer cumprir a legislação, embora as guildas urbanas monopolísticas (monopólios protegidos e estimulados pelo governo) conseguissem manter parcialmente os controles salariais nas cidades.

    Com o tempo, o capitalismo venceu e libertou as massas trabalhadoras.

     

    Este artigo foi extraído do livro An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, vol. 1, Economic Thought Before Adam Smith.



    [1] O declínio populacional foi praticamente uniforme por toda a Europa Ocidental, com a população da Itália caindo de 10 para 7,5 milhões; a da França e dos Países Baixos, de 19 para 12 milhões; da Alemanha e Escandinávia, de 11,5 para 7,5 milhões; e da Espanha de 9 para 7 milhões.  A maior queda percentual ocorreu na Grã-Bretanha, onde o número de habitantes caiu de 5 para 3 milhões nesse período.

    [2] Naquela época, os reis cortavam as bordas das moedas metálicas (medida essa chamada de "clipagem" da moeda) e utilizavam esses refugos para fundir novas moedas, provocando assim um aumento da oferta monetária. [N. do T.]


    Murray N. Rothbard

     

    terça-feira, 4 de maio de 2021

    A HISTÓRIA DA CAPELA DE SANTA FILOMENA


    Uma das mais antigas construções da cidade, a Capela de Santa Filomena é um dos pontos mais conhecidos do Centro da cidade e principalmente da Rua Marechal Deodoro.
    Originariamente construída em pau-a-pique, foi erguida por particulares em 1881, na antiga Estrada Geral de Santos, hoje Rua Marechal Deodoro, e em 1903 foi doada ao Apostolado da Oração da Igreja Matriz. A construção da capela coincide com a chegada dos primeiros imigrantes italianos a São Bernardo, trazendo o culto a Santa Filomena.




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    Uma Breve História de Santa Filomena.
    Santa Filomena é representada com uma palma, uma flecha e uma âncora, símbolos do seu martírio. É uma das santas mais acarinhadas pelos Papas, à qual são atribuídos milagres mesmo após a sua morte. Seu dia é comemorado em 10 de Agosto.
    A história de Santa Filomena começa com os seus pais, da realeza da Grécia, mais precisamente de Corfu, que não conseguiam ter filhos e por sugestão de um médico cristão, deixaram de fazer sacrifícios aos deuses pagãos e receberam o batismo, acabando por receber a graça de uma filha, a quem chamaram de Lumena por ter nascido à luz da fé. Na pia batismal, chamaram-lhe Filomena, que significa “filho/a da luz”.
    Criada nos costumes cristãos, Filomena fez votos de virgindade no início da adolescência. Aos 13 anos, o poderoso imperador romano Diocleciano declarou guerra ao pai de Filomena, que como não tinha hipóteses de o enfrentar, foi a Roma pedir clemência. Ao receber a família de Filomena, o imperador ficou prostrado pela beleza da jovem, prometendo não só a paz, como também vantagens políticas e económicas ao pai de Filomena se concedesse a sua filha em casamento.
    O pai de Filomena aceitou alegremente a proposta, mas a filha, já prometida a Jesus, protestou com todas as suas forças. Nem os seus pais a conseguiram convencer a mudar de ideias. Perante a recusa da jovem, o imperador tentou convencê-la acenando com os privilégios de ser imperatriz de Roma, mas sem sucesso.
    Furioso, Diocleciano mandou prender a jovem até que ela mudasse de ideias. Filomena terá recebido uma visita de Nossa Senhora na prisão, que prometeu levá-la ao céu em três dias. A jovem permaneceu sempre inflexível, o que levou o imperador, cheio de ódio, a ordenar os piores martírios contra Filomena. Tentaram pegar fogo à jovem, lançar flechas sobre o seu corpo, e jogar o seu corpo ao rio, atado a uma âncora. Com a proteção divina, a jovem saiu incólume de todos os martírios.
    Perante os milagres, as multidões se converteram ao Cristianismo. Por fim, o imperador ordenou que decapitassem Filomena, acabando o seu corpo por ceder e subir aos céus no dia 10 de agosto.

    O panfletarismo no Brasil


    A história do comunismo no Brasil é indissociável de Luiz Carlos Prestes. Sobre isso escrevi em meu livro A filosofia do fracasso: ensaios revolucionários (2020). Mas vamos aqui atentar para o gênero opinativo no jornalismo, que teve no Brasil Luiz Beltrão e José Marques de Melo seus grandes pioneiros nos estudos e no delineamento dos gêneros. O gênero opinativo é dividido por outros subgêneros, entre eles o artigo, a coluna e o editorial. Porém, com as redes sociais, surgem os canais no YouTube, Telegram e páginas no Facebook em que se pode emitir opinião. Ou seja, todos podem emitir opinião. Ela é livre. Entretanto, minha crítica é destinada àqueles que não atentam para a diferença entre elogiar governos, algo natural e que eu mesmo faço, e ser um panfletário na mídia, como foi Maiacovski. Pode-se fazer panfletarismo, contudo; mas fazer isso com disfarce de articulista formador de opinião é maiacovskismo. De Bolsonaro a Lula, há maiacovistas por todos os lados carregando bandeiras em vez de oferecer conteúdo crítico para reflexão à sociedade.

    Numa democracia, qualquer panfletário tem o direito de opinar. Faz parte do jogo político; mas – alerto! – tenha cuidado com formadores de opinião. Filtre bem quem você segue, lê, ouve ou assiste. Não caia no conto de que o bom opinador é aquele que diz ou escreve o que você quer ouvir ou ler. Não entre na bolha maiacovskiana de propaganda de políticos. Assim como a propaganda de Maiacovski cegou milhões de soviéticos, muitos formadores de opinião no Brasil fazem piadas com uma pandemia que já ceifou 400 mil vidas e caminha, a passos largos, para meio milhão de mortes – e sem perspectiva para um fim.

    O Brasil é diferente da Rússia pré-moderna de Pedro, o Grande, e, outrossim, da URSS stalinista do século XX – ou seja, vivemos em uma democracia. Temos um “Parlamento” representativo que pode criticar o Executivo, exceção feita à Suprema Corte, que não é afeiçoada ao contraditório. Como bem alertou Rui Barbosa, o Judiciário é o pior dos Poderes quando estabelece uma tirania, sendo que deveria ser o contrário, segundo Edmund Burke (1729 – 1797), que em Reflexões sobre a Revolução na França discorreu: “A justiça, por si só, é o maior fundamento político da sociedade civil […]”. O filósofo inglês John Locke (1632 – 1704), conhecido como o pai do liberalismo e peça-chave no desenvolvimento teórico do contrato social nos tempos da Revolução Gloriosa, também disse: “Onde não há lei, não há liberdade”.

    Churchill (1874 – 1965), por sua vez, teria dito que a “democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”. Escrevi sobre isso dia desses; mas os três Poderes, apesar dos problemas, são instituições de nossa democracia que devem ser respeitadas sob garantia de nosso Estado de Direito. Ressalto que, neste ponto do texto, não questiono a democracia. Apenas levanto como reflexão o fato de que a expressão “democracia” tem sido usurpada, às vezes estuprada (sem eufemismos, por favor), por muitos falsos democratas, filhotes de tiranos, que escondem-se sob o teto dessa palavra. A Venezuela, por exemplo, considera-se uma nação democrática. Nicolás Maduro é herói democrático para os revolucionários brasileiros do PT, do PSOL e do PCdoB. Aliás, sobre democracia, Burke também discorre: “A afirmação de que a democracia pura representa a única forma de governo tolerável constitui uma verdade tão universalmente reconhecida a ponto de não se permitir a um homem duvidar de seus méritos, sem que lhe advenha a suspeita de ser um amigo da tirania, ou seja, um inimigo do gênero humano?”. Frase escrita em outro período. Não cairemos aqui em anacronismo; mas a frase, apesar de oriunda do século XVIII, tem aplicações à atualidade.

    Edmund Burke, e o cito novamente, aperta a pena e solta a tinta em sua carta contra a Revolução da França: “O que é a liberdade sem a sabedoria e a virtude? É o maior de todos os males possíveis. Pois é apenas estupidez. Vício e loucura sem proteção ou freio. Os que sabem o que é a liberdade virtuosa não podem suportar vê-la desonrada por mentes incapazes em virtude das palavras altissonantes que lhes saem da boca”. Mas, Ianker, pode pensar o leitor, isso é um “contrassenso”, pois nesse caso Burke defende a monarquia. Não! O âmago de sua carta é uma CRÍTICA à Revolução, não uma defesa à monarquia. Burke justamente faz uma critica ao novo poder autocrático que se desenhava a instaurar-se na França. O filósofo britânico defendia que a sociedade passasse por mudanças, sim, porém de forma progressiva, jamais revolucionária. O irlandês, com seu elogiável instinto político, soube bem discernir entre o que estava ocorrendo e o que estava por ocorrer na França, de um lado, e o que foi a Revolução Gloriosa de 1688 – e esse foi um grande alerta que Burke fez aos franceses. Ou seja, em outras palavras, Burke avisou que uma tirania, disfarçada sob um discurso de uma falsa liberdade e contra Luís XVI, assumiria o poder de forma autocrática e a guilhotina cortaria o pescoço de muita gente. Em outro trecho da carta, Burke profere: “[…] sempre considerarei como muito equívoca em seu aspecto a liberdade que não tem como auxiliares a sabedoria e a justiça e não leva em seu séquito a abundância e a prosperidade.” Aqui percebemos outro ensinamento: devemos usar nossa liberdade com sabedoria, com ceticismo, como uma sociedade crítica e não identificada, como reféns da Síndrome de Estocolmo, com nada que se afaste da justiça e da prosperidade.

    O Brasil atual da pandemia, assim como a Rússia, também tem imensas terras e, como a pré-São Petersburgo do tsar Pedro, o Grande, está atolado num charco de lodo – porém moral. Maiacovski, um panfletário disfarçado de poeta que não passou de um picareta de rodoviária, é adorado pela classe artística e pela academia brasileira. Assim como ele, todavia, os ex-jornalistas panfletários da nova direita que atua na internet também têm seus adoradores. Likes e mais mais likes! Às vezes, outros interesses…

    Tempos modernos em um Brasil com odor fétido de um país ainda amarrado culturalmente em raízes marxistas mofadas, que, por outro lado, se afunda num lodo podre que surge de uma nova direita que deveria seguir o exemplo do que ensina a escola da filosofia conservadora-liberal: o ceticismo! Desconfiar sempre! É assim que uma sociedade pode mudar nossa classe política.

    Findo com um recado do grande George Orwell aos jornalistas panfletários do Mito da Caverna: “jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.” Ou seja, todo o resto é “lambeção de botas” de cretinos, como fez o adorador de fascínoras Maiacovski.

    REFERÊNCIAS:
    Estudo biográfico e tradução de Emílio C. Guerra 2° edição, 1983. Editora Max Limonad Ltda – São Paulo, Brasil.

    BURKE, Edmund.

    Reflexões sobre a Revolução na França/Edmund Burke; tradução, apresentação e notas de José Miguel Nani Soares – São Paulo: Edipro, 2014.