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quinta-feira, 10 de março de 2011

Para que serve a imagem da “Dilma de oposição”?

Um estrangeiro que ignorasse a realidade política brasileira e conseguisse, ainda assim, ler a nossa imprensa poderia ficar com a impressão, obviamente falsa, de que a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, foi eleita por um partido de oposição a Lula. Atenção! Não que ela faça por merecer tal consideração. Estou aqui a apontar o modo como ela é tratada. Faço uma análise de discurso jornalístico. Ela é de… situação!!!
Mas o tal “desavisado” teria dificuldades para chegar a essa conclusão. Ao controle da mídia que Lula defendia, por exemplo, Dilma diz preferir só o controle remoto, e seu ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, flerta com a hipótese de haver “muitas besteiras” no texto preparado na gestão anterior. Se vitorioso, é provável que José Serra caminhasse por aí — e a esquerda botaria a boca no trombone. Na política externa, fala-se numa verdadeira guinada. O Itamaraty deixou claro que não quer papo com Kadafi, por exemplo — chamado por Lula de “irmão” e “líder”. Ufa!!! Eis aí duas “mudanças” que, já escrevi aqui, saem a custo zero para o governo e ainda rendem dividendos morais… As escolhas anteriores eram de tal sorte estúpidas que o simples bom senso parece a redenção da razão.
Restos a pagarMas há operações bem menos corriqueiras. O governo anunciou a disposição de economizar nada menos de R$ 6,5 bilhões em supostas fraudes no pagamento de salário e benefícios — 13% do total pretendido de cortes no Orçamento — R$ 50 bilhões —  e  36% do que conseguiram detalhar, que chegou a apenas  R$ 36 bilhões. Só no seguro-desemprego, pretende-se chegar a R$ 3 bilhões — 10% do montante inicialmente previsto. Chamem a Polícia Federal! É um despropósito! Fosse o governo de um adversário de Lula, a isso se poderia classificar de “devassa”!
A “herança maldita” a ser vencida pela “oposicionista” Dilma não se esgota aí. Como informou o Estadão desta quarta, “o bolo de despesas iniciadas em 2010 cujo pagamento ficou para este ano, os chamados restos a pagar, foi muito grande: R$ 128,8 bilhões. Esse valor não aparece no Orçamento. Ou seja, o corte não o afetou, e ele continua exercendo pressão sobre o caixa”. E aí? Arno Augustin, secretário do Tesouro, informa que só pretende quitar R$ 41,1 bilhões em atrasados. As demais despesas serão canceladas. Trata-se de um calote do governo Dilma aplicado nas contas do governo anterior.
Os petistas só sabem governar de uma maneira: transferindo responsabilidades. Ao longo de oito anos, satanizaram o governo de Fernando Henrique Cardoso de maneira pensada,  meticulosa, precisa: conseguiram transformar em defeitos as suas principais virtudes. Esse discurso, hoje em dia, não cola mais.
O dado quase ausente desse debate — e, por isto, aquele leitor desavisado teria uma visão distorcida da realidade política — é que a herança recebida pelo governo Dilma vem do… governo… Dilma! A elogiada determinação da presidente de cortar o Orçamento e de manter em R$ 545 o salário mínimo decorreu de uma necessidade, não de uma escolha. Melhor assim? Sem dúvida! Mas vamos dar a Dilma e ao PT o devido crédito: eles fabricaram essa realidade, não é mesmo?
Dilma não joga o peso dos desacertos nos ombros de Lula para se livrar da responsabilidade que lhe cabe — ela não tem força para isso. Essa conversa jamais iria parar no horário político do PT. Esse discurso só funciona no ambiente relativamente restrito do noticiário um tantinho mais especializado. Ajuda a fazer a fama, entre os formadores de opinião, da “presidente austera”:
- “Viram? Ela é mais severa com os gastos do que Lula!”
- “Viram? Ela gosta de liberdade de imprensa mais do que Lula?”
- “Viram? Ela é mais dura na defesa dos direitos humanos do que Lula!”
Dilma ser lulista faz a sua fama entre milhões; Dilma ser, a seu modo, antilulista faz a sua fama entre algumas centenas…
Há risco nessa operação? Um só, mas remoto: vaidoso como é, o Apedeuta pode se zangar um tantinho e soltar a sua gramática. Mas a escolha é, do ponto de vista do Planalto, inteligente. Ninguém ignora que há franjas do eleitorado lulista que Dilma, por conta própria, jamais terá. Tudo bem! O objetivo, neste momento, é conquistar as franjas  do eleitorado que Lula nunca teve.
Por Reinaldo Azevedo

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