A liberdade de expressão só existe de fato quando são livres para se expressar pensadores cujas idéias entram em confronto com àquelas estabelecidas e consensuais. “Liberdade” para repetir o que muitos já pensam não é liberdade verdadeira, mas sim a “liberdade” de um papagaio. Isso me veio à mente ao assistir o excelente filme Quills, que recebeu a tradução de Contos Proibidos do Marquês de Sade no Brasil, e o nome infinitamente melhor de As Penas do Desejo em Portugal.
Trata-se de um filme de 2000, produzido com conjunto pelos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, e dirigido por Philip Kaufman. Conta, em seu elenco, com ótimos atores, como Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix e Michael Caine. O filme retrata o término da vida do Marquês de Sade no asilo de Charenton, durante os anos de Napoleão Bonaparte no poder.
O libertino indomável se negava a parar de escrever seus contos eróticos, que horrorizavam a Igreja Católica e seus seguidores mais fiéis. O abade Coulmier incentiva a escrita do marquês por acreditar que somente assim ele pode tratar seu problema e espantar seus demônios. Mas, com a ajuda de uma camareira do asilo, seus contos são publicados e ganham o mundo. Revoltado com a repercussão negativa dessas palavras, Napoleão Bonaparte envia ao asilo um famoso médico, cuja missão é calar o marquês, custe o que custar.
De fato, o silêncio do Marquês de Sade custa muito, pois o aumento da repressão apenas o instiga a escrever mais. Quando lhe tiram as tintas e a pena, ele consegue escrever nos lençóis usando vinho como tinta e um osso de galinha como pena. Quando lhe tiram tudo, ele crava no corpo suas palavras com seu próprio sangue. Ele precisa escrever. Ele só se sente vivo escrevendo. Sua língua acaba sendo cortada, e, num último ato de desespero, ele usa seu próprio excremento para escrever suas palavras finais. Seu desejo de escrever era maior que sua própria vontade de viver.
Apesar dos floreios de ficção, a arte imita a vida. Quantos não foram mortos ou silenciados somente por escrever palavras que batiam de frente com a ideologia dos poderosos? Quantos não foram queimados pela Igreja por rejeitar suas crenças ou fazer graça delas? Que liberdade há quando todos são obrigados a escrever somente aquilo que é aprovado pela censura? Por mais chocante que possa ser ao consenso do momento, todos devem ser livres para se expressar. Voltaire teria dito a Rousseau, quem ele considerava um “poço de vileza”: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las”.
O filme retrata muito bem a hipocrisia dos poderosos, que praticavam entre quatro paredes aquilo que o marquês colocava em seus contos, condenados publicamente. Colocar um espelho diante da sociedade, expondo toda sua hipocrisia, eis uma arma poderosa – e perigosa. O filme ataca também os “puritanos” que odeiam tudo aquilo que remete à alegria, potência, vida, talvez por não serem capazes de realizar seus desejos. Falta-lhes coragem para viver, e a inveja daqueles que rejeitam seus rígidos códigos moralistas os leva ao desejo de destruir a liberdade. “Perecer, quer o vosso ser próprio, e por isso vos tornastes desprezadores do corpo!”, acusou o filósofo Nietzsche.
O poder das armas não pode conter a força das idéias, e por isso os poderosos sempre temeram tanto as palavras. Que elas circulem livremente, para que cada um possa escolher suas crenças e ideais, ao invés de tê-los impostos goela abaixo pelas autoridades no comando. Eis a mensagem deste belo filme que deveria ser lembrada sempre. Podemos não ter mais a censura oficial, mas sem dúvida vivemos em tempos de ameaça para a liberdade de expressão. A “ditadura do politicamente correto” é uma das causas. Se desejamos ser livres, então temos que lutar pela mais básica liberdade: a de expressar nossos pensamentos e sentimentos sem medo de coerção ou represálias.
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